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Chegamos ao terceiro episódio da nossa cultura aqui na Feira de São Mateus. Estamos na edição 634 da feira, ouviu bem, há quem classifique a feira como a guardiã das feiras populares. Uma história com mais de seis séculos, feita também de tradições que vão passando de geração em geração e há uma que passa inevitavelmente pela mesa. Estamos numa das zonas de restauração da feira, aqui numa correnteza de restaurantes, onde encontramos um dos pratos mais tradicionais de São Mateus. Falamos, claro, das enguias. E para conhecermos melhor esta tradição, estamos no restaurante Enguias Zélia e Chambel, à conversa precisamente com Paulo Chambel. Muito obrigado pela disponibilidade para falar à Rádio Observador. Paulo, é praticamente impossível falar da Feira de São Mateus sem falar das enguias. Para quem nunca provou, que prato é este e como é que as enguias são preparadas?
No fundo, as enguias são a verdadeira tradição da Feira de São Mateus. Nós estamos cá com as enguias desde 1942. Começou com a minha avó, depois a minha mãe, já estou eu, também já está o meu filho. Ou seja, isto é realmente a tradição da feira. É um prato que não encontrei mais em lado nenhum. Acaba por ser uma especialidade que é feita mesmo em função da Feira de São Mateus. Ou seja, neste momento é quase a exclusividade da Feira de São Mateus comercializar este prato, que é conserva, são as enguias conserva, aquilo está pronto a comer. Tira-se da lata, que é o formato de um pipo, porque antigamente os pipos onde vinham as enguias eram mesmo pipos de madeira. Ou seja, mantiveram a imagem do pipo, só que agora em chapa. Portanto, é retirar e pôr no prato. E depois acompanha com a batata cozida à racha.
Permita-me interromper só para uma pergunta sobre as batatas cozidas. Também me contavam uma história hoje de pessoas que há uns anos traziam, por exemplo, o acompanhamento, um tacho de batata cozida e que depois compravam aqui as enguias e juntavam o útil ao agradável. Lembra-se dessas histórias?
Aliás, era isso que eu ia mencionar. Mantém-se a tradição da batata à racha e o pão. E o pão também era muito característico. Tínhamos um pão que era feito única e exclusivamente para a feira, para a zona das enguias. A batata à racha. Nós antigamente, ou seja, quando tudo começou, e desde que eu me lembro da Feira de São Mateus, era exatamente isso. Nós só tínhamos mesmo as enguias. Nós tínhamos as enguias, tínhamos o vinho que estava em pipo, nem sequer era em garrafões, era um pipo, e os sumos. Não tínhamos mais nada, e o pão. As pessoas traziam as batatas, era engraçado que as pessoas traziam naquelas seiras antigas, embrulhadas no pano, a batata cozida, depois chegavam aqui, abriam o tacho da batata e comiam a batata. E isso manteve-se durante muitos anos. Claro que depois, com o passar do tempo, as pessoas para não virem com as batatas, inclusive, passaram a trazer as batatas cruas e pediam para nós cozeremos. E aí então é que resultou depois, o sermos nós a cozeremos as batatas. Já que as pessoas nos pediam para cozer, então nós passamos a ter batatas cozidas, que eram cozidas praticamente na hora. A pessoa chegava e dizia: "Olha, dá para cozer batatas?" E nós: "Dá". E cozíamos. Ou seja, claro que isto com o avançar do tempo e com o aumentar dos clientes, agora já não pedem, nós agora já temos. Ou seja, agora já não pedem, agora temos mesmo que estar precavidos, já temos que ter tudo preparado. Apesar de tudo, com o aumento do preço, que foi a parte negativa de tudo isto. Isto era um produto muito barato. Curiosamente, nós dizíamos que este produto era o produto dos pobres. Eu lembro-me de uma espetada a 25 escudos, lembro perfeitamente. E isso era um produto que toda a gente comia. E no prazo de cinco anos, foi um aumento em que passou a ser um produto que não é acessível a toda a gente. Neste momento, as enguias estão relativamente caras. E o que é curioso é que as pessoas dizem: "Não vou comer três ou quatro vezes, mas vou comer uma." Diminuíram as vezes que comem, mas não deixaram de comer, mantêm a tradição. E o mais engraçado disto tudo é ver, e eu tenho aqui muitas situações destas. Ainda ontem foi muito curioso ver uma jovem, com os seus 20 e poucos anos, que veio com a avó, trouxe a avó, a avó escolheu onde ia comer, a avó já com muitas dificuldades de locomoção, mas não deixou de vir. E veio a neta, que veio com a avó para a avó comer as enguias. Ou seja, eu diria que isto é o ex-líbris da tradição da Feira de São Mateus.
Da tradição gastronómica, as pessoas encontram-se, marcam este ponto anual para se reencontrarem. Mas eu só não percebi uma coisa, disse-me que encontra-se exclusivamente aqui na Feira de São Mateus, mas nos restaurantes tradicionais ao longo do ano não existe, por norma, o prato das enguias?
Não é uma coisa que seja habitual ao longo do ano. O que acontecia era, fora da Feira de São Mateus, havia umas senhoras que na altura também faziam a feira, como fazia a minha avó, que faziam outras feiras, nomeadamente Trancoso, Mangualde, Penalva, que era aqui à volta, em que aí sim, vendiam e as pessoas levavam para casa. Mas não há aquela tradição de ter estas enguias nos restaurantes Há um ou outro que ainda vai tendo um café com um petisco, mas não é aquele consumo normal de um restaurante. Tem mesmo aquelas pessoas que dizem: "Vamos comer umas enguias." Tanto que há ali um período que às vezes até para a mesma produção, não conseguimos mesmo encontrar, a fábrica para a mesma produção. É aqui que se encontra, é neste período, é no período da Feira de São Mateus. Eu próprio, que as vendo, não como fora da época, só como mesmo nesta época, porque sabe diferente. A maneira como se come nesta altura parece que é tudo diferente.
Com as enguias claramente a serem protagonistas, a terem o papel principal, mas imagino que aqui à mesa não se sirvam só enguias. Aqui na feira, o que é que se come mais?
É assim, aqui na barraca das enguias, que é mesmo assim que se chama, são as barracas das enguias, claro que tivemos que arranjar alternativas. Sem grande relevância, uma bifana, um bitoque, porque há aquele que está a acompanhar a pessoa que come as enguias e pode não gostar, e aí é para fazer companhia, ou seja, para que as pessoas não se separem. Nós até muitas das vezes proporcionamos, por exemplo, se há um miúdo que quer um cachorro, nós para a família não separar, não nos importamos que vá buscar a outra barraca, a outro operador e traga e se junte à família. Porque o objetivo aqui é unir, não é desunir, não é separar, é juntar. Até nisso nós fazemos muito isso. "Olha, não se importa que o meu filho vá ali buscar um cachorro ou vá buscar um kebab?" Claro que não, o objetivo é estarem aqui todos juntos e passa por aí. Ou seja, as enguias, a imagem, o resto é uma alternativa para estarem todos juntos.
Muito obrigado pelo seu testemunho, Paulo Chambel, do restaurante Enguias Zélia e Chambel. E se há tradições que ajudam a contar a história da Feira de São Mateus, as enguias são seguramente uma delas, uma receita que atravessa gerações. Prova disso é precisamente a família do Paulo, com quem estive à conversa. A nossa cultura continua por aqui. No próximo episódio vamos conhecer mais uma das figuras e histórias desta edição 634 da Feira de São Mateus.