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"Nossa Cultura", eu sou o João Costa Campos. A Rádio Observador está em Penava do Castelo, na Casa da Ínsua. Continuamos com a companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsua. José, agora estamos aqui num dos vários quartos desta casa, que funciona hoje em dia também como hotel. A suíte do Milagre, que tem aqui um grande destaque nesta varanda virada para uma parte dos jardins da Casa da Ínsua, com um relógio de sol, um relógio ducreté. Que relógio é este?
Exatamente. Estamos na varanda do tempo. Nada como na varanda do tempo ter um relógio excepcional. É realmente um relógio fabuloso. É um relógio fabricado por um senhor francês, o Eugène Ducretet, que era uma pessoa que se fez por ele próprio, sem uma base de instrução, mas que se dedicou a fabricar instrumentos de precisão. E este relógio é um instrumento de precisão fabuloso, que foi construído especificamente para este local. É um heliocronômetro. O que isto quer dizer? Que é um relógio de sol, que pelo raio solar que passa numa lente, nos indica várias coisas. Indica a hora e o minuto. Isso já é normal em qualquer relógio de sol, mas este vai mais longe. Dá-nos o dia da semana, a data, o mês, a estação do ano e ainda os equinócios. Portanto, esta informação toda é conseguida nesta pequena máquina com um simples raio de sol. Desde que lhe deem corda, haja sol, interprete-se assim. E de noite não trabalha, está a descansar. É um relógio fabuloso. E depois, como na Casa da Ínsua, há sempre uma frase em latim.
Em torno do relógio.
Em torno da sua base do relógio. Tem uma que, traduzindo para português, diz qualquer coisa como: "Todas ferem, a última mata". Referindo-se às horas, obviamente, no sentido de cada hora fere a nossa vida, até que a derradeira arroba. Como já percebemos, o Eugène Ducretet foi um fabricante francês de instrumentos científicos e aparelhos de precisão, que é recordado como um curioso invenitente. Ele estava sempre a tentar, ávido de descobrir e de inovar. E uma história que eu não resisto a contar associada ao Ducretet é que ele salvou a Torre Eiffel. A Torre Eiffel foi construída para a Feira Universal de Paris de 1889, e o Eiffel construiu a torre com o fito de durar só o espaço da feira, aquele ano que ia durar a feira, e que depois seria demolida a seguir. Só que ele queria manter a torre e o povo francês dessa altura e os cidadãos mais conceituados eram completamente contra. Havia abaixo-assinados que aquilo desfiava completamente o perfil da cidade e, portanto, tinha que ir abaixo. Era um horror ter um bicho daqueles no meio da cidade. Ora bem, o contrato com o senhor Eiffel foi feito durante a feira e, portanto, ele chega ao fim da feira. O único argumento que se lembra é: "Epá, eu ainda não recebi o meu investimento, deixem-me ficar aqui mais uns anos para eu não perder dinheiro". O que segundo consta, era falso.
Queria manter ali a obra.
Com o que recebeu durante as muitas visitas que teve durante a feira, já tinha pago o seu investimento. Mas o que é certo é que acederam e estávamos no final do século, quando vem nova vaga para deitar a torre abaixo. E é aí que o senhor Ducretet vai com o senhor Eiffel ao cimo da torre e instala lá as suas antenas de biografias sem fios. E nessa altura faz-se uma primeira experiência com o Panteão a quatro quilómetros. Aquilo funciona e no ano seguinte as ondas TSF emitidas da Torre Eiffel já atravessavam o canal da Mancha pela primeira vez. Isto foi determinante para que a torre se mantivesse até os nossos dias, apenas como um suporte de antenas. Felizmente, que o suporte de antenas foi o pretexto, porque realmente hoje é o contrário. Hoje todos acham que Paris não tem o perfil.
Não é Paris.
Exatamente. E já agora por falar da Feira Universal de Paris de 1889, acontece que Portugal também ia estar presente nesta feira. E quem estava a organizar a presença no Pavilhão Português era o Visconde de Milício. E a coisa não andava. Nessa altura, Rafael Bordalo Pinheiro, no seu jornal Pontos no i, todas as semanas dava ferroadas no Milício, que não anda, que não faz. E ao fim de várias semanas, o ministro, que até era amigo do Bordalo, chama-o lá. "Estás sempre a criticar, tu farias melhor". E o Bordalo aceita o desafio e vai ele para Paris. Está lá durante um ano. Entre parêntesis, conhece o amor da sua vida, o que também deve ter ajudado. E durante esse ano, ele para a sua fábrica, o que vai fazer com que quando o Bordalo morre, está com tantas dívidas que essa fábrica desaparece e é o filho que tem que fazer uma nova fábrica, que é a que hoje temos como fábrica Bordalo Pinheiro, que ficou com os moldes do pai, porque conseguiu convencer que o patrimônio do pai era as paredes, não eram os moldes. Os moldes eram um patrimônio que ficou para o filho. Portanto, a história de Bordalo manteve-se por aí. Mas de facto, a presença de Portugal nessa feira ajudou a destruir a fábrica dele. Mas o que é facto é que no final da feira, concorrente com o tal monstro sagrado que era a Torre Eiffel, que realmente foi um atrativo fabuloso. Muitas pessoas passavam na torre, mas por eu visto também algumas passaram no Pavilhão Português, porque hoje se visitarmos o Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa, está lá uma bata branca com manchas de barro que o Bordalo usava no último dia da feira e ele tem escrito na própria bata, por seu punho: "Foi com esta bata que recebi do presidente francês a medalha de ouro para o nosso pavilhão". E além de ter recebido a medalha de ouro para o pavilhão, recebeu também uma medalha para a sua fábrica e foi ordenado cavaleiro pelo presidente francês.
E é com este destaque, estas histórias em torno do relógio Ducretet, que marca aqui um ponto central na varanda do tempo, aqui da Casa da Ínsua, que fechamos este episódio. No próximo episódio vamos conhecer um pouco mais desta casa, nesta viagem do tempo da Casa da Ínsua.