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Viva! O acesso a fontes e reservas de energia é um dos principais interesses estratégicos que cada Estado gosta de acautelar. Com elas se garantem vantagens econômicas e por elas se desenvolvem alianças, se desenvolve a diplomacia ou até se fazem guerras. É disso mesmo, a geopolítica da energia, que falamos neste episódio. O podcast "ADN da Energia" é uma parceria entre o Observador e a Galp. Eu sou o Paulo Ferreira e hoje tenho comigo o coronel Eduardo Caetano de Sousa, que é especialista em geopolítica e segurança energética. Eduardo, bem-vindo. É um gosto recebê-lo aqui neste podcast. Vamos talvez começar pelo início, e o início é explicar que conceito é este o da geopolítica energética.
Muito obrigado pelo convite. É um gosto podermos falar sobre energia e sobre geopolítica. E realmente é importante, se calhar, divagarmos um bocadinho sobre o que é geopolítica, porque a geopolítica é muito interessante. Passou de proibida a banalizada. A geopolítica esteve proibida durante a Segunda Guerra Mundial, nos países mais estratégicos, como a França, como os Estados Unidos. Por quê? Porque foi muito associada às políticas alemãs, não só do final da Primeira Guerra Mundial, mas depois em toda a estratégia pra Segunda Guerra Mundial. A geopolítica era, portanto, uma palavra proibida e a própria ciência não foi ensinada em nenhum estabelecimento de ensino universitário, nem na França, nem nos Estados Unidos, nem no resto da Europa, onde a geopolítica até tinha um grande papel.
Era sinônimo então de coisas más.
Era associada muito ao regime alemão, ao regime nazista, à altura. Porque os fundadores da geopolítica tinham algumas expressões e contemplavam determinadas estratégias que favoreciam muito o regime alemão e a geopolítica foi associada a isso. E agora, não. Agora é uma banalidade. Agora falamos de geopolítica, aliás, por tudo e mais alguma coisa, qualquer pessoa agora remete este termo para uma expressão quase mundana, falamos sem o associar e verdadeiramente ao sentido geopolítico. Então eu começava por dizer que temos que dar sempre, quem fundou a geopolítica ou quem colocou o neologismo de geopolítica, e temos que lhe dar o valor, que foi o sueco Kellen. Chamamo-lo aqui pra nossa conversa, porque ele escreveu um livro que é "O Estado como Forma de Vida", e foi ele que cunhou este neologismo. E a partir daí, estamos a falar de 1916. A partir daí, apareceu o termo geopolítica.
Em plena Primeira Guerra Mundial.
Daí depois as repercussões que tivemos. A geopolítica andava, em termos de ciência, numa espécie de guerra com a geografia, e a geografia com a geografia política. Passamos da geografia à geografia política e a determinada altura começaram os estudiosos a relacionar aquilo que o Estado, os princípios, as interligações, as capacidades do Estado de influir ou de influenciar a geografia, e começou então a falar-se de geopolítica. E a geopolítica passou a ser, eu até vou dizer a expressão que eu gosto mais de definir a geopolítica: é o uso da geografia pela intencionalidade política. E se dissermos isso, está tudo dito.
Claro.
A intencionalidade política à procura da geografia pra justificar os seus objetivos. E depois apareceram dois termos, que sim, fizeram os fundamentos da geopolítica, que é poder e território. E é por causa disso que a geopolítica teve as suas dificuldades de associar-se a regimes mais democráticos e associou-se a regimes mais autocráticos, porque poder e território dá sempre aquela expectativa de conquista.
Claro, invasões e por aí fora.
E pronto. E então a geopolítica nasceu muito disso, e sem querer estar a maçar muito os nossos ouvintes, dar-lhes a ideia que geopolítica é realmente utilizar a geografia com a intencionalidade política. E isto depois repercute-se no sistema, nas relações internacionais, como vimos. E normalmente, se o Paulo perguntar aos geopolíticos, os geopolíticos estão muito associados a cenários, gostam muito de cenários. E, portanto, vão procurar sempre fazer cenários nas relações internacionais e no sistema internacional, e depois jogam com cenários e com percepções. São sempre duas áreas. Estes cenários, estas percepções, pra nossa conversa de hoje, é energia.
Claro. Que é fundamental também nesse jogo.
A energia tem muitas variáveis, não vamos desenvolvê-las aqui. Falamos da energia mecânica.
Das várias fontes de energia e utilizações de energia.
Da térmica, da radioativa, da elétrica, da química.
Nos outros episódios vamos por aí, claro.
Mas a energia é acima de tudo, pra aquilo que nos interessa na geopolítica, é o destaque que a energia tem na organização da sociedade, do bem-estar do ser humano.
Que é fundamental.
Das nações, dos Estados, do mundo inteiro, a energia. E o que os Estados procuram e olham pra energia, pra além do seu bem-estar e do progresso que têm, eles procuram ver a segurança energética. Portanto, todos os Estados procuram, especialmente as das grandes potências ou Estados mais pequenos, com a segurança energética.
Isto é, garantir abastecimentos regulares.
Garantir a segurança energética é ter a disponibilidade de energia a todo o tempo, sempre que possível, e a preços que sejam comportáveis pelos Estados. E se isso acontecer, a segurança energética estará conseguida, e falaremos mais à frente como é que se obtém a energia. E, portanto, a energia ligada à transição energética, agora mais pra frente ligada também à transição energética, teremos tempo de falar, acaba por ser É como no ser humano, uma fonte de disputa, de rivalidade e de conflito. Agora, passando isto para o Estado, acaba por ser isso, isso traduz-se em disputa geopolítica e no conflito no sistema internacional. Ou seja, em resumo, se falarmos em energia, estamos a falar de humanidade, de progresso, e associado a isto a um fenómeno de globalização que vivemos, a energia é indispensável ao sistema internacional.
E ao bem-estar das pessoas.
Mas ainda assim, Paulo, também gosto de dizer sempre isto: em 2035, podíamos dizer agora em 2024, mas a gente aponta que cá está o tal cenário, e quando no nosso planeta existirem 9000 milhões de pessoas, é mais ou menos o número expectável, ainda hoje e daqui aos tais 10 anos ou 11, milhões de pessoas, fora das grandes cidades em África e na Ásia, não têm acesso a energia. É curioso percebermos que é curioso no sentido-
Há uma grande fatia da população e zonas absolutamente em sombra.
Não têm acesso à energia. E hoje, na nossa vida diária, é impensável a gente dizer a alguém que vai ficar 30 minutos sem energia em casa.
Não estamos disponíveis para isso, é evidente.
Não estamos disponíveis e não conseguimos compreender como é que podemos ficar 30 minutos ou uma hora sem energia em casa, sem nenhum acesso.
Importa talvez olhar então para aquilo que são os recursos energéticos e as potências energéticas.
É verdade, e a energia depois acaba por depender dos recursos. A geopolítica energética associa isto, associa a energia e a geopolítica, e o século XX e este nosso século XXI, estas nossas duas décadas de entrada no século XXI, vieram traduzir estes efeitos todos, os recursos energéticos, a segurança energética, as questões climáticas, e trouxeram isto para cima da mesa da discussão, para aquele novo mapa geográfico e energético que a gente pode atender. E hoje a discussão energética torna-se muito apelativa não só para as sociedades em si, para os Estados, mas agora vai-se expandir para as organizações internacionais, para as multinacionais do setor energético, para outros atores não estatais. E eu agora andava à procura de uma frase que eu gosto muito de dizer e estava-me a esquecer de dizer, Paulo. Vaclav Smil dizia isto, que gosto muito de rematar com esta: "A energia é a única moeda universal". Ele dizia isto, e eu tomei este apontamento que andava aqui agora à procura e diz assim: "A energia é a única moeda universal". E é verdade, isto dito por um dos maiores estudiosos da energia. E realmente é verdade.
É um termo de troca.
É a única moeda universal que nós temos. E como eu estava a dizer, a energia expande-se agora não só para os Estados, mas em termos de recursos energéticos, para muitas organizações não governamentais, governamentais, as multinacionais do setor energético, etc. E quando os Estados ou quando os estudiosos fazem uma análise desta geopolítica, há sempre duas variáveis que se procuraram. Isto é da História. Na geopolítica procura-se o quê? Obtenção de energia e segurança energética. Obtenção de energia, como é que se vai conseguir energia. E depois a segurança energética, como é que vamos colocar essa energia de forma segura e que possa abastecer.
De forma utilizável de alguma maneira.
São essas as duas variáveis que os estudiosos da geopolítica sempre se entroncaram uma com outra, as duas ao mesmo tempo, em simultâneo, e jogaram muito com elas. Mas nos últimos 40, 50 anos, andamos um bocadinho para o século ainda XX e todo o século XXI, surge uma nova variável, que temos que associar a estas duas, portanto, obtenção de energia e segurança energética, que é o clima. O clima vem, na verdade, transformar o nosso modo de pensamento, o nosso modo de vida e o modo de estudar e de analisar.
A nossa relação com a energia fica em causa de alguma maneira.
O clima vem condicionar todas as fontes de energia ou recursos. E por isso é que eu digo, no nosso século XXI, as fontes de energia primárias, e convém para os nossos ouvintes, e com certeza que isto é um termo muito comum e que sabem, as fontes de energia primárias são aquelas que resultam de processos simples de combustão. E nós temos um conjunto grande destas fontes de energia primária. O século XXI ainda não inventou novas energias, novas fontes de energia. Elas são as mesmas de há muitos anos. Estão dimensionadas de outra forma. Há uma evolução. E nós falamos de energias eólicas, solares, a geotermia, as energias das ondas e marés, tudo isto fontes de energia primária. Para além daquelas que são mais conhecidas, o carvão, o petróleo, o gás natural, a hidroeletricidade.
Os fósseis quando se dizem.
O nuclear, a biomassa, isto são tudo. Estas são energias do século XXI, mas não são novas, mas têm características que depois a geopolítica vai explorar. E depois das fontes de energia primárias, nós temos as fontes de energia secundárias ou os vetores energéticos, e então poderemos estar a falar do hidrogénio, e depois podemos estar a falar de outro vetor importante que é a eletricidade. E temos aqui uma panóplia grande do que são as energias.
Já são fontes de energia produzidas a partir de fontes primárias.
Sim, e, portanto, não têm os tais processos simples de origem de combustão. E se começarmos a pensar um bocadinho no futuro, podíamos também fazer os tais cenários, como eu tinha dito inicialmente, podemos imaginar a energia solar por satélites orbitais, enfim, prever outras situações que agora também não é já a chamada. E começamos também a ouvir falar, aliás, não começamos, já ouvimos falar há muito tempo dos metais críticos. Os metais críticos acabam por estar associados a todas as novas componentes energéticas, novas no sentido da adaptação às nossas necessidades, e hoje elas Basta-nos o nosso telemóvel, o computador.
Fala de quê? De lítio, de urânio?
As baterias, de tudo aquilo que eu chamo os metais críticos e depois os especialistas nestas coisas da energia, além de críticos, começam a dizer que são metais estratégicos. São estratégicos porque são absolutamente fundamentais para as viaturas elétricas, para os carros elétricos, para as baterias.
Para a acumulação de energia, para o armazenamento de energia.
Para o armazenamento, para o storage, para a indução magnética da energia eólica, para as células fotovoltaicas, para tanta coisa que são necessários. E é muito comum todos nós começarmos a ouvir falar do índio, do lítio, das terras raras, do silênio, do telúrio.
Alguns desses estão em discussão, como nós sabemos, nomeadamente em Portugal.
É verdade. E o lítio, naturalmente, havemos de falar um bocadinho ainda sobre ele. Como dizia também um dos grandes escritores sobre os sistemas de energia, Leonardo Maugeri, no fundo, o que estamos aqui a falar agora, Paulo, é com toda a energia possível. Os recursos, é toda a energia que o mundo disponibiliza para depois podermos analisar. Mas há sempre uma ideia, e eu tenho às vezes transmitido esta ideia às pessoas, as pessoas por norma, ou porque ouvem muito falar agora das energias renováveis, isto começa a fazer na cabeça das pessoas e no seu sentido, que o mundo está muito apetrechado de energias renováveis, temos uma percentagem, mas eu pergunto: como é que o mundo afinal está? E quando eu digo que a energia ainda com maior consumo no mundo é o petróleo, com uma grande vantagem, o petróleo, em termos de energia final, de consumo de energia primária, representa mais de 31%. É verdade que ele tem vindo num ciclo descendente.
A diminuir, mas ainda é dominante.
É dominante. Ainda no final do ano passado, 2023, se acrescentou mais 3 milhões de barris de petróleo por dia, em termos globais, em relação aos anos anteriores. Ele decresce em termos de percentagem, mas em termos de valor absoluto, ainda continua a somar. E portanto, o petróleo tem a liderança, sempre teve, nestes 30 últimos anos. E depois vem o carvão, que é muito estranho. O carvão, com 27%, é a segunda energia mais consumida no mundo.
E das mais sujas também, se podemos chamar assim.
É, realmente. Mas continua a ser com 27%. Depois vem o gás natural, à volta de 24%, a hidroelétrica à volta de 6,5%. Eu estou a dizer os números pra gente ter a percepção da importância no mundo.
A hidroelétrica só 6,5%?
A hidroelétrica tem 6,5% a nível global.
Aí falamos das barragens.
Das barragens. A energia nuclear tem um valor muito estável, porque é muito estável. Houve aí uma altura que subiu, mas é muito pouco, porque a energia nuclear tem componentes muito fixas e portanto são com compromissos para 40, 50 anos e tem sempre uma linha muito linear. E estamos a falar de 4,3% na energia nuclear.
E conseguimos olhar pra essas fontes de energia e pô-las no mapa, de alguma maneira.
Conseguimos. E sabemos onde é que elas circulam.
Onde é que elas estão. Que, no fundo, é a exploração ou a posse de reservas dessas fontes de energia que dão mais poder.
Dão mais poder, sim.
A estados ou blocos econômicos.
O mundo está em evolução e falaremos um pouco da transição energética, das novas energias, mas estas energias ainda são muito poderosas. As energias fósseis são muito poderosas. E falta-me só dizer-lhe que as renováveis valem 7,5%, à volta de 7, 7,5% no mundo.
Inclui a hídrica aí nas renováveis?
Não, a hídrica eu separei.
Estamos a falar da solar e da eólica.
Sem a hídrica, porque vale 6,5, portanto, poderíamos somar aqui. O somatório disto dá hoje, mas já dá há algumas décadas atrás. Não tem evoluído muito, curiosamente. Continuamos a falar de 18% de energias de baixo carbono e de 82% de energias fósseis. Esta é a realidade no mundo.
E é isso que se quer alterar de alguma maneira, com a transição energética.
O mundo vale neste momento 82%, há quem fale entre 80, mas que seja 80, entre 80 e 100% de energias fósseis. E o petróleo é o grande instrumento de aferição da saúde econômica dos Estados, da estabilidade orçamental, é fundamental para os transportes, pra economia.
Claro, continuamos muito dependentes disso. Antes de fecharmos aqui o nosso programa da rádio, coronel Eduardo Caetano de Sousa, vamos só então perceber agora muito rapidamente quem são as potências ou os blocos que estão na posse do petróleo.
Vamos então. Começamos, é muito fácil. Os grandes gigantes energéticos ligados às energias fósseis estão no Golfo. Falamos sempre da Arábia Saudita, do Irã, do Iraque, do Qatar, dos Emirados, do Koweit, dizemos o todo, Bahrain e por último, que tem menos, o Omã. São estes os grandes reis do petróleo. São estes os grandes estrategas do século XX, ainda continuam no século XXI, agora com a tendência da transição energética, mas a Arábia Saudita sempre dominou a OPEP, Organização dos Produtores de Petróleo. Entretanto, a OPEP foi perdendo as suas capacidades de intervenção na vida do sistema internacional e transformou-se na OPEP+, com a Rússia, que também é uma grande potência. A Rússia, já que estamos a falar neste passo, confunde a sua estratégia de poder absoluto, e podemos dizer autocrático, de alguma maneira, confunde-se quase com o poder da Gazprom. Quer dizer que a energia é um grande fator na Rússia. A Rússia utiliza a sua energia como uma arma, praticamente E utilizou com o gás natural na Europa agora com esta situação.
Nós vimos isso.
Como vimos agora.
Como é que nós olhamos para os blocos económicos ou para as potências energéticas, se quiser, e para a utilização que elas fazem, de facto, dessa arma?
A Rússia é paradigmática. A sua estratégia política é muito conduzida com a estratégia energética. Nós vimos, através do gás natural da Europa, aliás, foi em 2006, 2009, 2014, com a Crimeia e agora com a Ucrânia, em 2022. A Rússia tinha uma estratégia que definiu há quase uma década atrás, utilizando o seu gás natural e o petróleo. Não podemos ver porque estamos numa conversa. Se tivéssemos aqui uma visualização, a gente apercebia-se que os gasodutos, oleodutos, que a Rússia lançava pra Europa, é uma espécie quase de linhas de invasão pela Europa. E essa estratégia do gás natural fez com que a Europa dependesse completamente.
Isso discutiu-se imenso quando a invasão da Ucrânia foi feita e percebeu-se que havia uma dependência muito grande da Europa Central e do Norte, sobretudo, do gás vindo da Rússia. Na Alemanha, esse foi um tema crítico.
Esse foi um tema muito crítico. A Rússia sempre fez depender os países, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, os países de leste, até que ocupou na Europa, com o seu petróleo, com os oleodutos, grandes países da Europa Central sempre estiveram muito dependentes. E depois foi estendendo a sua política energética, não só para os países que a Rússia dominava na altura, estendeu para o gás natural, para quase todos os países da Europa, inclusivamente para a Alemanha. Não foi só pra Europa, poderíamos continuar a falar, porque estendeu também pra Turquia, para os outros países e para países vizinhos, porque a Rússia é um Estado muito grande, mas sempre viveu muito dessa estratégia de influência, não só do petróleo e do gás natural. Aliás, a Rússia é o segundo produtor mundial e é também o segundo exportador de petróleo. Quanto ao gás natural, é o segundo produtor e é o primeiro exportador mundial. É o terceiro de carvão, o quarto produtor de eletricidade, uma das principais na energia nuclear. É uma grande potência energética, realmente, e consegue, por vezes, sobreviver nesta questão da guerra e apresentar uma economia relativamente estável e até com produto interno bruto bastante consistente, porque utiliza os recursos energéticos. Sendo que foi muito penalizada com o gás natural, falaremos um pouquinho. O gás natural liquefeito vindo dos Estados Unidos acabou por colmatar a Europa.
A dependência desse fornecedor russo, se bem que a Rússia encontrou também clientes, apesar das sanções, se quiser, dos embargos, foi encontrando outros clientes pra sua energia.
A Europa primeiro teve mais dificuldade em sobreviver, mas foi muito bem conseguido pela Comissão Europeia conseguir sobreviver à estratégia de corte quase completo, absoluto. A Europa ficou, num espaço de meses, sem 105 BCMs, bilhões de metros cúbicos de gás, e tinha que os ir buscar algum lado que não tinha se preparado. E não tinha preparado porque a Alemanha colocou em prática, no tempo da chanceler Merkel, uma estratégia própria de benefício alemão, da Alemanha, que tinha uma ligação muito própria com a Rússia em termos do sistema energético. Isso favorecia, na verdade, muito a indústria alemã, que estava fluorescente, toda a indústria, desde a indústria do automóvel, mas a indústria química e de outras atividades industriais, as grandes empresas dos medicamentos, etc.
Precisamente em nome da tal segurança energética.
Não, a segurança energética, sim, porque depois a Alemanha também colocava este gás natural nos países vizinhos, portanto, era uma estratégia com outros países, como com a Áustria, com a própria França, também com o Reino Unido. E é preciso dizer que nesta altura, é o próprio presidente Trump que se zanga muito com a chanceler Merkel e lhe vai dizer que esta estratégia tem que acabar, que está a prejudicar a Europa, a Alemanha está a ficar absolutamente pendente e que os Estados Unidos não aceitam esta realidade. Ele disse isso frontalmente. Os Estados Unidos não aceitam que a Alemanha esteja nas mãos da Rússia. E isto falávamos na altura, toda a gente ficou a saber do Nord Stream.
O gasoduto.
O gasoduto, porque o gasoduto Nord Stream, já havia um desde 2011, e que tinha uma capacidade de 55 bilhões de metros cúbicos de gás por ano. E na fotografia da inauguração estava lá toda a gente, estava a senhora Merkel, estava o representante russo, o da Holanda, agora, que vai ser o Mark Rutte, o novo secretário-geral, toda a gente a inaugurar.
Da NATO.
Da NATO, que estava a inaugurar o gasoduto. Este gasoduto lia 55, só pra ver, Portugal consome no máximo cinco BCMs.
E isso era 55 BCMs.
Entretanto, começou em 2011 a ideia de construir um outro.
11 portugueses.
11 portugueses. De construir um outro. É o tal Nord Stream Dois que se falava.
Que estava em projeto.
Sim, começou a ficar logo em projeto. Quando os Estados Unidos acharam que se não o E55, passam a ser o dobro, exatamente no mesmo percurso paralelo pelo Báltico. Ou seja, a dependência era absolutamente terrível. Mas o consórcio era uma estratégia não só da Alemanha, mas da Áustria, da França. Ninguém se queixava, tirando a Polônia e a Ucrânia, e, portanto, o gasoduto foi realmente um vetor estratégico da maior importância. Ele foi construído e praticamente vem a Guerra da Ucrânia.
De alguma forma, condicionou ou provavelmente ainda continua a condicionar aquilo que pode ser também o posicionamento político, lá está, geoestratégico de cada país ou cada bloco econômico.
Absolutamente.
Já falou do Golfo, obviamente, com o petróleo, da Rússia. Olhando aqui para, se quiser, os influencers, sei que é um termo que costuma utilizar nesta matéria, falta-nos vir os Estados Unidos.
Sim, falamos dos Estados Unidos. Os Estados Unidos são o maior produtor do mundo de petróleo e de gás, mas também como são o maior consumidor, acabam por não exportar. Não são um grande exportador, porque também o consomem.
Mas isso dá um conforto muito grande ao país, aos Estados Unidos, por não estarem dependentes precisamente de fontes externas.
Não estão. Aliás, desde 1973, com Nixon, que a grande política dos Estados Unidos, e é aqui que a gente vê a influência, era a energy independence, era independência energética. Portanto, praticamente até o presidente Trump, os Estados Unidos tinham a política da independência energética, ou seja, terem energia para serem realmente autônomos, independentes e só comprarem o petróleo e o gás que lhe desse de alguma forma benefício, em vez de gastar do seu petróleo ou do seu gás, ir comprá-lo aos países vizinhos, ao México ou à Arábia Saudita.
Para não porem em causa as suas reservas.
Para não porem em causa as suas reservas. Portanto, tinham uma estratégia, mas eram completamente independentes. Com a vinda do ex-presidente Trump, a estratégia mudou.
Eventualmente futuro, vamos ver.
Eventualmente. A estratégia com este presidente mudou e passou, em vez da energy independence, passou para ser a energia dominante. Ele várias vezes disse: "Nós queremos ser o país dominante, e, portanto, a energia é dominante. We will be dominant", dizia ele. E o próprio conceito do National Security Strategy dos Estados Unidos, em 2007, falava nisto. Os Estados Unidos vão ser uma energy dominant nation. Cá está a questão geopolítica. Os Estados Unidos quer passar a dominar o mundo, não pelas armas nucleares, não por isto ou não por aquilo, mas pela energia.
E esse é um trajeto que, de alguma forma, esse posicionamento que é dos Estados Unidos, agora olhando um bocadinho de uma forma mais global, está a ser de alguma forma alterado, esse posicionamento, com a transição energética? Isto é, tudo isso está a mudar um pouco, embora talvez mude demasiado lentamente, como mostram aqueles números que o coronel Eduardo Caetano de Sousa há pouco nos trouxe aqui para esta conversa.
Sim, é verdade.
Uma dominância muito grande ainda dos fósseis, mas de qualquer maneira, há mudanças em curso nesta relação de forças.
Sim, eu tentava explicar aqui aos nossos ouvintes, por que também eles passaram a ser dominantes, porque aconteceu uma coisa fantástica nos Estados Unidos. Podemos falar sempre em revolução. Revolução às vezes é um termo muito forte, mas foi verdadeiramente a revolução, a revolução energética que se dá no início deste século, com o shale gás e com o shale óleo, com o gás de xisto e o petróleo, e o gás não convencional. Ou seja, com esta descoberta, não é bem descoberta, porque já tinha sido descoberta, com esta utilização, isto é que valeu, é que deu ao presidente Trump os recursos pra ele dizer que nós passamos a ser energia dominante, porque isto foi uma fonte de recursos.
A extração de petróleo e de gás. De quê? De algum minério? É um processo relativamente novo.
Este gás não convencional, o shale gás e o shale óleo, é a extração do gás, neste caso falamos do gás natural, é a questão do processo, como é que se retira o gás natural. Portanto, é um processo de fraturação, tem uma fraturação hidráulica, portanto, na vertical, e depois na horizontal há uma perfuração. Portanto, o esquema é de fraturação. Esta fraturação, depois tem a ver com quantidades enormes de areia e de água e de produtos químicos que leva e, portanto, é uma forma diferente de extrair de rochas que são argilosas e para três, quatro quilômetros de profundidade. E isto foi, para os Estados Unidos, um fôlego imenso nas suas capacidades de recursos. Esta técnica de exploração não é que exija muitos meios, mas ela é danosa, se podemos utilizar aqui este termo, para os solos, para o meio ambiente, para os aquíferos. Pode causar, às vezes, pequenos até abalos sísmicos localizados, e ela é uma técnica proibida praticamente na Europa e quase no resto do mundo não tem grande expressão. Existem alguns países, África do Sul, Austrália, um ou outro país aqui na Europa, não sei se foi, não me recordo, a Sérvia, mas com muita pouca expressão. Mas os Estados Unidos têm esta capacidade, esta possibilidade, e não têm limitações. Poderíamos falar por que eles não têm essas limitações Porque também a utilização do solo nos Estados Unidos não é como na Europa.
Tem a ver com questões culturais também, e políticas. Claro.
E portanto, isto permitiu-lhes um grande salto com o xisto de gás, de tal maneira que passaram a construir terminais de liquefação para o gás natural liquefeito. O gás natural liquefeito passou a ser uma bandeira mundial de exportação do gás e os grandes navios que circulam agora são absolutamente estratégicos. Repara, Paulo, nós tínhamos o gás natural, como a Rússia faz com os seus grandes gasodutos, oleodutos estendidos na Europa. Isso é um compromisso estratégico entre países. Quando a gente lança um oleoduto para um outro país, há um compromisso entre quem fornece e quem recebe.
De longo prazo.
Para muitos anos.
Porque é uma infraestrutura cara, é um investimento caro que fica ali e que tem aquele trajeto.
E é um compromisso estratégico.
É como abrir uma estrada, não se pode depois mudá-la de sítio.
É um compromisso estratégico, político, de alta envergadura, que passa por países terceiros que nem produzem nem querem comprar, mas beneficiam da passagem. E quando estas situações não são possíveis sempre de realizar, o que é que acontece? Dá guerras e conflitos.
Claro.
Temos muitos casos. Na América do Sul, entre a Bolívia, a Argentina. A guerra, no final do século passado, esteve para acontecer entre a Argentina e o Chile por causa disto, porque depois alguém fica na perspectiva de fornecer. Se não é capaz de fornecer, como foi o caso da Argentina, porque já não tinha capacidade económica para fornecer gás e precisava do gás, o Chile considerava que era obrigatório ter que ser fornecido. O Peru e a Bolívia, com os acessos ao mar de um e outro, entraram praticamente em conflito por causa desta história do gás natural. E para não falarmos na questão da utilização pelas organizações terroristas, as destruições em todo lado, no Médio Oriente, em África, são alvos muito remuneradores.
Claro. Podemos olhar agora para a Europa e perceber como é que a Europa, bloco económico, União Europeia, se quisermos, joga aqui no meio destas influências. A Europa é, sobretudo, dependente de fornecimentos externos.
Sim. Podemos olhar para a Europa. Obviamente, nós estamos a saltar, Paulo, uma coisa quase impensável, que é a China. A China, em termos energéticos, é de tal maneira tão grande.
Vamos falar então da China antes da Europa.
Porque a China, de facto, é o mundo das energias.
Na produção, mas também no consumo, não é? Cada vez mais.
A China é o top importer de tudo. Portanto, eles são os importadores número um de tudo: gás, petróleo. Aliás, este top importer, eles são os maiores importadores mundiais de petróleo, de carvão, do gás. Mas também, ao mesmo tempo, são o primeiro produtor hidroelétrico, de nuclear. Não são o primeiro, mas são o terceiro, têm uma grande produção, a seguir aos Estados Unidos, também à França, mas na energia eólica, na solar, tudo o que é as novas energias, as energias de baixo carbono, dominam completamente. E falámos há pouco dos minerais estratégicos.
Perdemos é a noção desses números, não é?
Perdemos a noção.
Pelo número de zeros que isso deve ter.
E basta dizer que cada vez mais, não teremos tempo para falar, os países mundiais, a Europa, os Estados Unidos, vamos estar dependentes da questão dos veículos elétricos, das baterias, o problema da refinação, das terras raras e da refinagem de todos estes metais, 90% é na China, portanto, o controle é absoluto. E se tivermos um bocadinho de tempo para falar daquilo que vai ser a nova ordem energética, podemos ver a dificuldade.
Vamos já.
Mas a China é assim, é tão grande, que ficamos, se calhar, por ela e dizer assim: é realmente, não só na parte que eles utilizam dos combustíveis fósseis, que não contribui muito para a transição energética, mas depois do oposto, até nas questões do offshore, das energias eólicas, são absolutamente dominantes e colocam, em termos de geopolítica, muitos constrangimentos, quer aos Estados Unidos, quer à Europa, porque nesta competição mundial os constrangimentos são muitos. E depois há outras grandes potências que deixamos só o nome delas para não dizer que nos esquecemos delas.
Para registo.
Para registo. O Brasil, a grande potência da América do Sul. Qual era o Estado que não gostaria de ser como o Brasil, que é praticamente independente na sua energia?
Temos petróleo, temos hídrica.
Tem tudo, praticamente. O Brasil, além do gás, do petróleo, da parte da componente hidroelétrica, que é a componente dos 70% do seu mix elétrico, a biomassa, os biocombustíveis, que só são ultrapassados pelos Estados Unidos. Em termos globais, o Brasil é uma potência e em 2030, 50% da sua energia vai ser baseada em energias renováveis.
Portanto, eles vão estar muito à frente.
Muito à frente. Depois temos o Canadá e a Austrália. A Austrália é só o maior exportador mundial de carvão, de gás natural liquefeito, sempre a competir com o Catar e os Estados Unidos, as maiores reservas mundiais de urânio, é o terceiro maior produtor de cobalto, o maior produtor mundial de lítio.
É a questão do armazenamento das baterias.
E o segundo, a nível mundial, de metais raros. É outra falar da Austrália também. Portanto, é melhor deixarmos por aqui e se calhar falarmos um bocadinho.
Ficamos com estes pontos no mapa. Da Europa, então?
A Europa, temos que ter aqui algum cuidado com a Europa Porque a Europa não é uma potência energética no sentido de ter petróleo, de ter carvão, é isso que podemos dizer aos nossos ouvintes. Não tem essas capacidades, alguns países têm, mas nem pertencem à União Europeia, quem o tem, praticamente, estamos a falar da Noruega. É um bloco muito dependente das energias fósseis. A Europa depende muito do petróleo, que é fundamental, mas do gás natural e depende de todas as energias, praticamente.
Que é um grande consumidor.
É. Mas isto coloca-nos aqui em termos políticos, porque esta Comissão Europeia, que agora está a terminar, tinha uma estratégia e conseguiu essa estratégia, é transformar, através do lançamento do European Green Deal, do Pacto Ecológico Europeu em 2019, lança uma estratégia de um poder da Europa querer ser um líder global da energia renovável. E é uma potência climática, eu gosto de dizer que é uma potência climática. Isto também é geopolítica. A geopolítica não é só influenciada por petróleo, por gás natural. O clima é também um instrumento geopolítico de afirmação das potências, neste caso, a potência europeia, que tem a produção das energias renováveis.
Que causam menos danos ambientais.
Causam menos danos, mas não deixa de ser uma estratégia conseguida através da lei europeia do clima. São muitos os regulamentos, o Fit for 55. Há uma estratégia muito clara da União Europeia e dos seus Estados-membros, e que de alguma maneira influencia o mundo e tem influenciado, quer a China, quer os Estados Unidos, quer outras potências, nesta política ambiental muito forte.
Claro, e que é influenciada, já agora, pelas opiniões públicas, de alguma maneira.
Também.
Que são mais exigentes nalgumas geografias do que noutras.
É também muito importante. A União Europeia teve esta política do European Green Deal, que foi extremamente importante, e vai falando sempre em autonomia estratégica e autonomia energética, portanto, junta as duas coisas, vai tentando aos poucos conseguir falar nesta situação. Daqui a pouco poderemos falar no Net Zero Industry Act. São instrumentos importantes, estratégicos da União Europeia. O gasoduto Nord Stream 2 afetou muito a Europa, mas resolveu bem. Este gasoduto Nord Stream 2, falámos há bocadinho, isto é um case study para os nossos ouvintes, para quem anda nas universidades a estudar energia, para toda a gente. É um case study absolutamente exemplar do que foi feito. Aliás, a estratégia na Europa, muita gente não se apercebeu quando surgiu, e quando eu falei há pouco nos Estados Unidos e procuraram influenciar isto, falou-se muito na estratégia dos três mares. Era uma forma de dizer assim: "Nós não queremos depender da Rússia em termos estratégicos, como é que vamos? Vamos articular os três mares, o Adriático, o Mar Negro e o Báltico, os países que estão colocados são estratégicos, a Polónia num lado, a Croácia cá embaixo. E vamos criar depois linhas de comunicação energéticas, não precisamos através do LNG americano", porque entretanto, o gás natural liquefeito tornou os Estados Unidos quase que o maior exportador, anda sempre em competição. O Catar é o grande país do mundo, que é a estratégia de um país pequeno.
Aí transportado por navios.
Por navios.
Deixam de andar nos gasodutos.
Falámos há bocado da revolução do shale gás, do shale oil, do gás de xisto. O gás natural liquefeito é a grande revolução posterior, porque os países deixaram de estar dependentes, a ter que fazer os tais pipelines de um para o lado, e fazem os seus contratos onde se pode ou a médio prazo, diretamente de uns para os outros. Basta ter um terminal para receber um navio e para expedir o trânsito do navio e depois para o receber. A Alemanha ficou sem gás russo.
Com a guerra na Ucrânia.
E rapidamente as suas indústrias ou se deslocalizavam com as ameaças que estavam para se falar da deslocalização das grandes empresas alemãs. A Alemanha tem um poder único na Europa, de capacidade económica e de se relançar nos objetivos que tem, e conseguiu em poucos meses ter três terminais de gás flutuante, portanto não teve tempo para construir os terminais sem serem flutuantes, adquiriu três, tem mais cinco ou seis em projeto e passou a receber o gás natural liquefeito dos Estados Unidos, não só dos Estados Unidos, mas dos Estados Unidos em substituição do gás que vinha da Rússia. Uma estratégia absolutamente-
É um processo químico que pega no gás enquanto gás, elemento gasoso, transforma-o em líquido para transporte e depois quando chega ao destino, o líquido novamente em gás.
Tem outra vantagem, Paulo, que é absolutamente que 600 m³ de gás vão dar origem a 1 m³.
E portanto ocupa um espaço muito menor.
Para navios com 155 mil m³, com capacidades imensas. Já não falo dos navios do Catar maior, que é 260 e poucos mil.
Ou seja, garantem um grande fornecimento.
Um grande fluxo de gás natural. E o gás natural veio salvar a Europa, porque falámos da Alemanha, mas falámos da Croácia, da Polónia, da França, dos países bálticos, que rapidamente passaram a receber o gás natural liquefeito. E este gás natural liquefeito é absolutamente estratégico, domina a estratégia da política e das estratégias políticas. Já não estamos a falar só de energia, estamos a falar da estratégia política. O próprio presidente Biden, agora Articulou e fez sair um decreto em que dizia que era uma pausa no futuro do gás natural liquefeito americano. E o gás natural liquefeito americano está na sua maior expansão, como nunca esteve agora. Construiu os seus terminais todos na costa do México e está a dominar completamente o mundo, em conjunto com o Catar e com a Austrália. Está numa dinâmica muito forte, mas o presidente Biden fez uma pausa, num documento estratégico, que já foi contestado pelo presidente Trump, que disse que se ele for eleito presidente, nós vamos continuar a fraturar o solo. Ele disse isto há pouco tempo, muitas das pessoas não saberam o que ele ia dizer. E qual é a intenção do presidente Biden? E ele foi muito claro: a Europa está numa transição energética. A Europa precisa de gás natural, todos os países estão a utilizar o gás natural liquefeito, mas em 2030 e a apontar para 2050, a Europa vai deixar de consumir gás. O gás é um dos piores elementos para as emissões, porque tem metano. O metano é crítico como gás emissor. Para além das características do gás que se escapa, do vent, do flare, que se costuma dizer, é aquele gás que se escapa quando é nas transições energéticas e nas capturas do gás. E a teoria dos Estados Unidos, neste momento já pensada, é: nessa altura a Europa não precisa de gás. Portanto, não vale a pena estarem a construir.
Estar a investir mais.
Estar a investir mais, estar a construir terminais de exportação. Nós temos que pensar é qual é que é o nosso alvo a partir de 2030. Já não é a Europa, certamente. Vamos pensar nisso e vamos fazer esta pausa.
No fundo, uma pausa para fazer uma reflexão estratégica, de alguma maneira.
Uma reflexão estratégica. E ele apontou: o nosso objetivo é a Ásia. Nós queremos chegar à Ásia, porque fornecer gás natural demora anos a ter a confiança dos importadores. Nós temos que ganhar esta confiança pra, a partir de 2030, dominarmos o mercado asiático todo, nomeadamente o Japão.
Para não deixar o continente asiático dependente demasiado da Rússia ou da China.
Para não deixar dependente, neste caso, da Rússia. A Rússia não é dos primeiros fornecedores de gás natural liquefeito, mas é um fornecedor muito grande de gás natural pra China, porque como o Paulo falava há pouco, eles inverteram, deixaram de fornecer à Europa, passaram a fornecer à Índia, passaram a fornecer à China e outros países e, portanto, também aqui são influentes. Mas esta estratégia de acordar os Estados Unidos. Os Estados Unidos são habituados a grandes ruturas. Tão de repente têm grandes projetos aventureiros para exportar, como depois entram em grandes crises econômicas também nestas áreas. E para evitar isto, há já esta estratégia de pensar.
E isso significa, coronel Eduardo Queiroz de Sousa, e indo para o fim deste nosso episódio, que estamos perante uma nova era energética. Com essas mudanças todas, com as grandes potências a alterarem o seu posicionamento estratégico neste mercado.
É bom que me coloque a questão, Paulo, porque realmente falarmos aqui só um bocadinho desta nova, que eu chamo nova era energética, isto é muito suscetível de falarmos. É um pouco uma transição energética, andamos sempre a falar em transição, mas ela é transição daqui pra algum lado. E habituamo-nos sempre a falar em transição e pronto.
Claro.
E então os políticos falam sempre de transição.
Há um ponto parecido e um ponto de chegada, claro.
Eu só não queria acabar de lançar uma reflexão aos nossos ouvintes, porque até nós, Portugal, tivemos a nossa estratégia energética. Não deu grande resultado. Se nos lembrarmos, quando começou esta guerra da Ucrânia, de repente, os nossos políticos começaram a dizer que Portugal queria exportar gás para todo lado, reexportávamos. Sines seria um grande polo.
Que o que recebíamos dos Estados Unidos em Sines, passávamos para navios mais pequenos, que iam depois à Europa fora exportar.
Essa estratégia passou, eu vi os jornais, toda a gente falava e eu, pessoalmente, fiquei muito admirado.
É daquelas coisas que se anunciam, mas depois não são postas em prática.
Era absolutamente uma impossibilidade, porque muito à frente de nós, nós tínhamos a Espanha com seis vezes mais, tínhamos a França, tínhamos a Itália, tínhamos todos os países, como é que alguém colocaria cá o gás pra gente reexportar o gás passando por cima das outras potências europeias todas que estão muito mais perto dos locais. Mas enfim, é pra dizer que a gente teve a nossa estratégia, não deu grande resultado, mas pelo menos ocupou algum tempo na nossa comunicação. A nova era energética é assim: nós temos segurança energética e segurança climática. Estes são dois pontos assentes. Segurança energética, já falámos, é uma coisa que vem do século XX, os países preocupam-se muito com ela, a segurança climática é uma preocupação do século XXI.
Claro.
Ninguém agora abdica, não há político, nenhum estratega que deixe de abdicar destas duas coisas. E a população já interiorizou segurança climática e segurança energética. Agora, as grandes potências, neste caso a União Europeia, os Estados Unidos e a China, e a Rússia agora provavelmente tem outras ocupações, não tem tanto tempo a pensar nisto, mas começaram a se preocupar com a política industrial, a nova política industrial verde, porque é aqui que está o grande problema. Isto tem causas próximas, teve a pandemia, que essa foi uma causa próxima, tem agora a guerra na Europa, depois passou pela inflação e pelos grandes investimentos que se têm feito nas renováveis. É pena não falarmos do hidrogênio, que é outro grande vetor estratégico que está a ser pensado e vai ter uma grande influência estratégica no mundo. As questões da China, etc. E das políticas da OPEP. E esta nova era industrial tem a ver com a situação do seguinte: as energias renováveis têm se espalhado nestes últimos 30 anos, como cogumelos, a partir de 2000 São as fotovoltaicas, são as solares eólicas, são as energias onshore, offshore, são autênticos cogumelos espalhados.
Nós vamos vendo por aí, claro.
Vamos vendo no mundo inteiro, num sítio mais, num sítio menos, vamos vendo. E há também uma nova competição industrial. Isto para os Estados e para o que estamos a falar da geopolítica, vai acrescentar também, que é sempre um termo que a geopolítica utiliza muito, que é oportunidades, riscos e vulnerabilidades, que os Estados vão argumentando uns com os outros. Há o mercado global, há as políticas públicas, é o clima, é a indústria, é o comércio internacional, aqueles são os chavões que utilizamos sempre quando falamos desta energia. E os Estados preocupam-se, nas suas estratégias, com segurança, resiliência, que agora é um termo muito comum. O próprio nosso PRR dedica quase dois terços do seu investimento à resiliência, só depois à transição energética.
E é um dos Rs.
É um dos Rs, resiliência, exatamente. Mas a grande preocupação é com as cadeias, o termo em inglês é mais utilizado, que é o Clean Energy Technology Manufacturing Supply Chain, são as cadeias de abastecimento das energias de baixo carbono. É toda esta teia das cadeias de abastecimento, é isto que a Europa e os Estados Unidos, mas mais a Europa, está preocupada, porque a Europa já percebeu assim: nós sempre fomos dependentes do carvão e do petróleo. Depois passamos a ser dependentes totalmente do gás natural. E agora que queremos ser uma potência climática, vamos ser dependentes destas cadeias de abastecimento, os supply chains das energias de baixo carbono, porque estas cadeias começam, e para os nossos ouvintes, falamos de minerais estratégicos, porque são os principais, é a grande necessidade, e a Europa também não tem, a Europa não tem nada.
Recursos naturais, não rivaliza com os outros blocos.
A Europa tem que ir buscar alguma coisa, e agora estamos focados na Europa. Há um problema de extração, há um problema de produção dos materiais e de refinamento, depois começa a grande problemática da manufaturação e da instalação, e depois então sim, temos a operação, que já tem o transporte, a distribuição, a storage e o fim de vida. Portanto, há aqui um ciclo. E a Europa e os Estados Unidos começaram a olhar pra isto, compararam-se com a China e perceberam-se que a China absorve esta realidade, mas as outras grandes potências, consideramos a Europa uma potência, não absorve esta competição dos supply chains, tem a ver com a segurança energética, a coordenação comercial e industrial, a cooperação internacional e a segurança climática, é uma ausência. E há aqui uma perceção, Paulo, é que nesta cadeia, por isso nós falamos do lítio, falamos de tudo, destas novas energias, nenhum Estado consegue desempenhar esta tarefa sozinho. Por isso é que nem o hidrogênio, nem o lítio, nem outros conseguem estar a evoluir muito, porque os Estados não se estão a empenhar, percebem que não conseguem estar na cadeia. E há que, de alguma maneira, articular a sua estratégia, onde é que a gente se vai encaixar nesta cadeia.
Implica alguma cooperação, certamente.
Muita cooperação. E nós falamos destes minerais estratégicos ou críticos, como eu digo, falámos do cobre, do zinco, do cobalto. Falamos depois a especificidade própria das várias componentes onshore e offshore, as baterias dos carros, que necessitam cada vez mais, cinco vezes mais materiais críticos. Nós estamos a imaginar mais milhões de carros elétricos a andar na Europa e nos Estados Unidos e no mundo inteiro, e muito mais quantidade destes materiais.
Claro, que é preciso para fabricar as baterias, obviamente.
E depois, aqui há uma coisa, Paulo. Só a abertura de uma mina destas demora em média 10 anos. Portanto, isto implica uma estratégia.
Uma estratégia de longuíssimo prazo.
De longuíssimo prazo. Precisa de emprego qualificado nestas áreas. A indústria técnica e de refinamento, eu acho que a Europa e os Estados Unidos começam a dizer que abdicam disso, a China que faça tudo, porque a indústria de refinamento é outra das faltas graves que a nossa indústria, falamos desta nova indústria verde que está aqui a acelerar. E portanto, isto são tudo faltas da indústria, ou seja, ausências, e que necessitam já de estratégias bem pensadas. Portanto, o mapeamento geográfico destes minerais, as novas infraestruturas para manufaturar toda esta indústria, demoram também em média 10 anos.
E, portanto, tem que se pensar muito a prazo.
Estamos a falar, Paulo, de ações estratégicas. E depois a palavra-chave nisto. É uma palavra-chave que os políticos têm que interiorizar, que é a diversificação. Para quê? Para não estarem dependentes em excesso.
Diversificação das fontes de energia e dos fornecedores de energia de alguma maneira.
Neste caso, desta cadeia toda, porque no fundo, é o mesmo que ficar dependente das fontes, porque não tem nem o material, nem tem o refinamento, depois nem tem o transporte, não tem a produção, ou se falhar uma, falham todas. E, portanto, a diversificação é uma palavra-chave, é uma palavra global nisto. E por isso, é que eu queria terminar nesta fase, surgiram estes planos estratégicos industriais, ditos green, verde, do futuro, e porque a Europa pensou, aliás, esta Comissão Europeia, esta Comissão da von der Leyen, pensou e bem, e portanto, lançou o Net Zero Industry Act, a seguir ao Inflation Reduction Act dos Estados Unidos.
Claro, que no fundo, para posicionar a Europa nessa...
Sim, porque os Estados Unidos pensaram primeiro que a Europa. Os Estados Unidos perceberam Que tinham que reagir a isto e lançaram este o IRA, que é o Inflation Reduction Act. Estamos a falar de 37 mil milhões que são apostados para desenvolver toda esta indústria, toda esta cadeia, apostar nas energias renováveis e nas capacidades de haver empresas europeias, chinesas, que possam até atuar nos Estados Unidos dentro das regras dos Estados Unidos. Por isso é que a primeira reação foi o Macron, quando esta lei nos Estados Unidos foi divulgada, a França ficou e o presidente Macron pediu logo uma audiência aos Estados Unidos, porque isto afetava a estratégia europeia e francesa também na sua economia. E logo a seguir sai o Net Zero Industry Act da União Europeia, tem estes mesmos objetivos, tem estas mesmas validades, não é tão intensivo como o dos Estados Unidos, mas a China também tinha o seu Made in China 2025, o Japão tem outro programa que é o Japan Great Transformation Program e a Índia, o Production Linked Incentive. Ou seja, nós estamos a caminhar para uma nova era industrial e para uma nova era energética green, com base nesta preocupação da indústria, que se vai juntar à segurança energética e à segurança climática, que são os grandes desafios do século XXI.
Os grandes pilares. Então a nova era energética. Muito obrigado, coronel Eduardo Caetano de Sousa.
Obrigado eu.
Falamos aqui então da geopolítica da energia, um tema vastíssimo, eu sei que ficaríamos aqui mais muitas horas, certamente-
É verdade
...a detalhar cada um desses pontos. Sei que deixou muitos pontos daqueles que tinha até na cabeça para desenvolvermos aqui, mas de qualquer maneira ficamos com uma ideia muito clara do que é isto da geopolítica da energia, como é que ela se desenvolve, quem são as potências e o que é que cada bloco económico vai fazendo para se posicionar neste recurso absolutamente fundamental em termos globais, que é a energia. Este episódio de "ADN da Energia" termina por aqui. Voltaremos brevemente com mais um tema, se quisermos, neste projeto de literacia energética, mais um tema e mais um convidado. Até lá.