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Viva! O setor de energia tem uma importância central nas nossas vidas e está a passar por enormes transformações, como todos sabemos. Ao mesmo tempo, é um setor difícil de compreender pelo cidadão comum, dada a sua enorme complexidade. É a pensar nisso que nasce este podcast, chama-se "ADN da Energia". Trata-se de uma parceria entre o Observador e a Galp, no âmbito de um projeto mais vasto de literacia energética. Eu sou o Paulo Ferreira e ao longo de vários episódios vou conversar com alguns dos melhores especialistas e conhecedores do país em temas como a geoestratégia da energia, a transição energética justa, a forma como são definidos os preços ou mesmo a mobilidade. Mas temos mesmo que começar pelo início, e o início leva-nos a fazer a pergunta: afinal, o que é energia? No arranque deste "ADN da Energia", é um gosto receber Nuno Ribeiro da Silva. Ele foi presidente da Endesa Portugal, é gestor, especialista nesta matéria, já exerceu inclusive funções públicas, precisamente como Secretário de Estado da Energia. Nuno Ribeiro da Silva, bem-vindo. É um gosto recebê-lo aqui, neste pontapé de saída deste podcast. Vamos começar talvez trocar por minutos, falar um pouco da história da produção e do uso de energia. Como é que os humanos, basicamente, começaram a utilizar fontes de energia e quais foram as primeiras?
Muito bem. Muito obrigado. Saudar também a Rádio Observador por esta iniciativa e com a participação da Galp, ao que parece. No sentido em que a questão de aprendermos, de compreendermos, da literacia energética ser algo fundamental, porque a energia é incontornável, está em todo lado. É dos conceitos talvez mais difíceis de tangibilizar, de agarrarmos, de percebermos, de materializarmos.
Claro.
O termo vem dos gregos antigos e tem várias definições, mas a definição mais comum é dizer que energia é tudo o que é capaz de produzir trabalho. Ou seja, nós não conseguimos fazer nada sem energia, mas não a vemos, não a agarramos. E nesse sentido, ela está em todo lado, mas parece que não está em lado nenhum. Energia é isto: é força, trabalho, ação. E nós para fazermos qualquer coisa, um bem, um serviço, movermos, etc, precisamos sempre de duas coisas: de energia e de um aparelho. Um aparelho que, acionado pela energia, seja ela qual for, que tipo de energia for, nos gera, nos produz um bem ou um serviço.
Provoca um efeito físico, de alguma maneira.
Exatamente.
Ou nos leva do sítio A para o sítio B, ou entorta um ferro para fazer um aro.
Ou nos faculta luz, juntamos um combustível ou eletricidade a um veículo e ele produz o serviço de nos levar de um lado para o outro. Juntamos eletricidade a uma lâmpada e ela dá-nos luz. Juntamos eletricidade ou gás ou o que for a um aparelho de climatização e ele conforta-nos as condições em que estamos a trabalhar ou a viver.
Ao frio ou ao calor, conforme queremos, claro.
Portanto, energia é necessária para tudo. Não há nada que se faça sem juntar energia a um aparelho qualquer. E aliás, isso é muito importante quando falamos, por exemplo, em transição energética, porque quando queremos mudar o paradigma que energiza o mundo, nós não só temos que mudar as fontes de energia, e já lá vamos, como também ajustar ou mesmo mudar profundamente os aparelhos que usamos para obter o tal bem ou serviço.
Claro. Não é só mudar de fonte de energia.
Não é só mudar de fonte, é também olhar para os aparelhos.
Nós temos visto isso talvez na mobilidade automóvel.
Exatamente.
Os automóveis são diferentes, têm que ter um motor elétrico e uma bateria, precisamente para terem essa funcionalidade.
Temos que substituir cerca de 1,5 mil milhões de veículos a combustíveis fósseis para serem energizados e motorizados com base em eletricidade proveniente de fontes renováveis.
Claro.
Mas depois temos, de facto, como o Paulo dizia, várias fontes de energia. Enfim, tradicionalmente, o homem começou com o uso de fontes renováveis. Usar o vento, usar a energia cinética da água, usar o calor tirado das lenhas, da chamada biomassa. Essas foram as principais fontes que energizaram o mundo até ao aparecimento da revolução industrial, em que passou a ser necessário, para a máquina a vapor, etc, fontes de energia mais densas ou matérias-primas energéticas que tivessem um maior conteúdo energético por unidade de volume.
Tipo carvão, talvez?
Exatamente.
Já agora, antes, o Nuno falou de aproveitar o vento e a força da água Estamos a lembrar, por exemplo, dos moinhos antigos para moagem.
Exatamente.
Eram movidos dessas duas formas, ou moinho de vento ou moinho d'água, com aquelas mós que nós ainda visitamos muito em Portugal.
Exatamente. Como na questão do vento, quer dizer, o navegar à vela.
Claro.
Na questão do sol, uma das formas de utilizar o sol que nunca nos lembramos é secar a roupa ao sol.
Sem dúvida.
Em vez de estarmos a usar a máquina de secar elétrica.
Sem dúvida.
E o confortarmo-nos ao sol. De facto, no início eram as fontes renováveis. Depois, como dizia, na Revolução Industrial, há cerca de 250 anos, começamos a usar o carvão, aí entramos nos combustíveis fósseis, começa o pecado original, se quiser, e começa a se usar uma matéria-prima, os carvões, que também há vários carvões, a hulha, a lenite, etc., que no fundo são lenhas, se assim podemos dizer, com maior conteúdo energético.
Mais compactas, talvez, mais densas.
Mais densas energeticamente.
São criadas de propósito com essa finalidade?
Não.
Ou extrai-se?
Extrai-se.
Porque depois há o carvão que nós fazemos, que resulta, de facto, de queimar lenha, não é?
Queimar lenha, em que tiramos umidade e adensamos também a energia, mas temos, por todo o mundo, fontes, minas, reservas, recursos de carvão, que esses são particularmente democráticos, estão um pouco divididos por todo o mundo, ao contrário do petróleo, que também está espalhado, mas que não é tão diversificado em termos geográficos pelo planeta. Depois, no início do século XX, começa a utilização mais intensa do petróleo e a emergência da eletricidade. Já antes os antigos usavam petróleo, mas é sobretudo no início do século que o petróleo e os seus derivados começam a ser usados intensamente. E então, depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo mergulha no petróleo e há uma certa substituição do carvão, que era dominante até à altura, para além ainda das renováveis que se utilizavam e das lenhas, e que se continuam a utilizar, e surge, de facto, o planeta petróleo. Depois aparece também o gás natural, que é outro combustível fóssil. Enfim, todos eles têm como grande pai o sol. O sol é que ao longo de milhões de anos nos foi, sob forma das plantas, de animais, da matéria, acumulando energia no planeta sob várias formas, e nós hoje limitamo-nos a ir buscar essa energia acumulada durante milhões de anos para a pôr ao nosso serviço, com consequências, em alguns casos, como sabemos, nocivas sob o ponto de vista dos subprodutos, se assim podemos dizer, que resultam da queima dos combustíveis fósseis ou da fissão de átomos de urânio ou de outra matéria-prima para produção também de calor, que depois podemos transformar em eletricidade.
A energia nuclear.
A energia nuclear, chamada energia nuclear. Portanto, temos aqui uma parafernália, digamos, um menu de fontes a que nós vamos buscar a energia e que têm vindo a evoluir e a ser dominantes, até chegarmos ao momento atual em que, por razões dos problemas decorrentes da queima de milhões de toneladas diárias de combustíveis fósseis, com a libertação de gases que provocam efeito estufa e alterações climáticas, voltamos e tentamos recuperar fontes tradicionais, eu diria, ditas renováveis, o sol, o vento, a água, a biomassa, que têm menos impacto ambiental do que queimar carvão, derivados do petróleo ou gás natural.
Daí a transição energética de que se fala muito agora, que é basicamente todos nós, o mundo de uma forma genérica, que se construiu nas últimas décadas, se calhar os tais século e meio, dois séculos, em função de fontes de energia como o petróleo, ou o gás, ou o carvão, portanto, fazer uma transição completa para outro tipo de aparelhos e modos de vida que nos permitam recorrer mais às renováveis, é isso?
Exatamente. Na perspectiva de diminuir os efeitos, os impactos negativos da queima dos combustíveis fósseis. É um processo extremamente complexo, porque, na realidade, quando falamos em transição energética, estamos a colocar-nos na alteração de toda uma infraestrutura, de toda uma geopolítica, de todo um racional, de toda uma cultura, eu diria, de 150 anos em que nos tornamos aditivos No sentido de addicted aos combustíveis fósseis, que hoje ainda representam mais de 80%, cerca de 84% da energia que se consome diariamente no mundo.
Apesar de tudo aquilo que foi feito nos últimos anos, ainda são 80 e?
Ainda são cerca de 84%. Portanto, é um desafio tremendo, impossível de realizar de um dia para o outro, mas é um caminho inexorável. Não quer dizer que deixemos de utilizar combustíveis fósseis. O que temos é de utilizar menos combustíveis fósseis, os que utilizamos, tentarmos por recurso a diferentes tecnologias que sejam menos emitentes de gases de efeito estufa. E esse é o desafio que temos pela frente, mas, como digo, é uma mudança, desde logo, cultural, comportamental da parte das pessoas.
Para não falar tecnológica também.
E tecnológica.
E o custo econômico e financeiro que tudo isso dá.
Claro. Eu diria que é o maior desafio de transformação com que alguma vez estivemos confrontados. E o problema é que é urgente fazê-lo, mas, por outro lado, não é possível prescindirmos de um momento para o outro, e quando eu digo de um momento para o outro, estou a falar em mais de uma década, certamente, da injeção a que nos habituamos de carvão, petróleo e gás.
Claro, tornamo-nos dependentes disso. Nuno Ribeiro da Silva, olhando agora um pouco para o mapa-mundo, as fontes de energia que existem são os fósseis, que já vimos, as renováveis, que as renováveis terão, talvez, uma distribuição mais democrática. Digo eu, porque depende do vento, de cursos d'água, no caso das barragens, e do sol. Se nós olharmos para o mapa-mundo, como é que estão distribuídas, genericamente, estas grandes fontes de energia?
As que hoje nos energizam, no que respeita ao carvão, ele está relativamente bem distribuído. Há um pouco de carvão por todas as latitudes e por todos os continentes. No que respeita ao petróleo, ele também existe em muitos sítios. Agora, como sabemos, o Médio Oriente é o Banco Mundial do petróleo e também em grande parte do gás. O gás um bocadinho mais com regiões no planeta em que ele é extraído em condições de custo, portanto competitivas, como é o caso dos Estados Unidos da América, como é o caso do Brasil, como é o caso da Argentina, como é o caso da Argélia, da Austrália, etc. O petróleo está muito concentrado ainda no Médio Oriente, não só, mas está muito concentrado no Médio Oriente, porque retirar do chão um barril de petróleo no Médio Oriente é algo que pode custar $6, $7, $10 dólares, enquanto que ir retirar petróleo do fundo dos oceanos, como por exemplo, em frente ao Brasil, no chamado deep offshore ou águas profundas, pode custar $25 ou $30 ou $40 ou mais dólares.
É um custo econômico, isto é.
Exatamente.
Isso quer dizer que as reservas de petróleo não se limitam, essencialmente, só ao Médio Oriente.
Exatamente. E isso é um conceito, Paulo, que muitas vezes não surge e que dá confusões técnicas, que é a diferença entre reservas e recursos. O recurso será todo o petróleo que há no mundo. Pode haver uma gota de petróleo no cimo da Serra da Estrela ou nos Himalaias, mas não se pensa que se vá lá alguma vez buscar, mesmo que estejamos com falta de petróleo, porque o custo seria colossal. A reserva é aquilo que economicamente, em cada momento, é recuperável. Economicamente, tecnicamente, ambientalmente é recuperável. Portanto, de fato, existe petróleo em Portugal. Nunca quisemos aprofundar isso, mas eu tenho frascos com petróleo português, made in Portugal.
Pode é não ser rentável a sua exploração.
Mas ele existe. Agora, de fato, tornamo-nos extremamente focados na produção de petróleo, na extração de petróleo, na região do Médio Oriente, embora, como se sabe, hoje o maior produtor de petróleo e de gás natural são os Estados Unidos da América, não é o Médio Oriente.
É uma coisa que poucas pessoas sabem também.
Exatamente. O maior produtor de petróleo no planeta, hoje, são os Estados Unidos, seja de petróleo, seja de gás natural. Só que o petróleo dos Estados Unidos, na esmagadora maioria, não quer dizer que não haja algumas trocas com outros países, é consumido no país, enquanto que o petróleo extraído na Arábia Saudita ou no Qatar ou no Kwait, chamemos o Médio Oriente, é muito mais do que aquele que esses países consomem, ou na Rússia. São eles que o exportam para outras geografias que consomem mais do que eventualmente produzem e nós não produzimos nada.
Claro. Diga. E acrescentar não-
Não, sobre as renováveis.
Exatamente.
Aqui há uma coisa que é interessante lembrar. De facto, as renováveis são mais democráticas, estão um pouco por todo o lado. O vento, o sol, a água, as lenhas. Agora, há uma coisa que eu queria chamar a atenção. Não é evidente que em todas as geografias existam condições para aproveitamento das renováveis, como nós temos, por exemplo, em Portugal. Não temos consciência disso, mas esta mudança de paradigma dos combustíveis fósseis para as energias renováveis é um momento de graça para Portugal. Eu diria, é uma oportunidade histórica de nos libertarmos de um calcanhar daquilos que sempre nos andou a doer. Ou seja, nós nunca exploramos no nosso país, por várias razões ou por não termos recursos descobertos, porque também não fizemos grande esforço, nunca exploramos no nosso país, de forma intensiva, carvão, algum que se explorou até aos anos 90. Aliás, eu estive envolvido no fecho das últimas minas que haviam e que não tinham condições, São Pedro da Cova, etc. Nunca exploramos gás natural, nunca exploramos petróleo. Ora, isto levou a que, durante mais de um século, desde que o país começou a industrializar, sempre tenhamos uma dependência relativamente à compra de carvão, de petróleo e de gás natural no exterior. Com a flutuação dos preços brutal, isso levou-nos, conforme as cotações no mercado internacional, a ter de gastar 3, 5, 10, 12% da riqueza criada no país para importar esses combustíveis fósseis. Isso sempre foi um fator de vulnerabilidade, de não competitividade, de exposição, de dependência.
Claro, a um contexto externo que nós não controlamos de alguma maneira.
Minimamente. Ora, nós temos, nesta viragem para o aproveitamento das energias renováveis, uma situação, eu diria, quase ímpar. Nós e esta região do norte do Mediterrâneo. Por quê? Porque temos um bocado de vento, temos um bocado de sol, temos um bocado de água, temos um bocado de lenhas, temos um bocado de energias chamadas mar motrizes, que podemos aproveitar dos oceanos, e isto não é assim tão comum. Por exemplo, se vamos para o norte da África, se calhar, têm mais sol, mas não têm biomassa, não têm água.
Não têm floresta, claro.
E além do mais, pôr painéis solares lá no deserto parece muito atrativo, mas o problema é que o deserto tem muito pó e portanto, ao fim do dia, os painéis estão com muito pó em cima e perdem eficiência. Nós, de facto, temos. A Inglaterra pode ter mais chuva do que nós, mas há poucos desníveis.
E já não tem tanto sol também.
E já não tem sol. Mas mesmo para a água há poucos desníveis ou onde há desníveis é no norte da Grã-Bretanha, e no norte da Grã-Bretanha há mais ovelhas que pessoas.
E estamos a saber aproveitar bem essa vantagem, de alguma maneira.
Estamos a aproveitar, sem dúvida, não estamos parados e tem havido trabalho neste sentido. Enfim, eu diria que vem do final da década de 80, quando foi publicada, eu por acaso estava no governo, não gosto de chamar medalhas, mas foi quando foram publicados os primeiros diplomas que de alguma maneira fizeram o desbloquear do aproveitamento das fontes renováveis, começou pelo hídrico de pequena dimensão. Já vinha de trás dos anos 50 a construção das grandes barragens e o aproveitamento da chamada energia hidroelétrica, aproveitando a força da água a correr.
Dos rios, claro. Que é uma fonte renovável.
Exatamente, e a cair nas represas. Mas depois, com a legislação de 88 e com a tecnologia na altura, que não é a tecnologia de hoje, começou-se a aproveitar até aproveitamentos antigos, mas mais pequenos, ligados à hidroeletricidade. Começou-se a aproveitar com painéis solares térmicos para captar o calor e também, depois, com a evolução da tecnologia, os fotovoltaicos e também com os primeiros aerogeradores a aproveitar o vento. E de facto, desde aí, de uma maneira, às vezes mais voluntarista, outras vezes mais hesitante, começamos a aproveitar essas fontes de energia que tanta falta nos fazem. E temos prosseguido esse caminho. Hoje, nós já temos mais de um terço da energia total, não é só elétrica, total que consumimos proveniente de fontes renováveis.
Aí conta com mobilidade, por exemplo?
Conta com a mobilidade.
Com os combustíveis para os automóveis e tudo mais.
Exatamente. Com toda a energia, porque é mais fácil substituir os combustíveis fósseis na geração de eletricidade do que noutro tipo de usos Ou seja, eu na eletricidade, com certa facilidade e a um custo comportável, vou substituindo centrais a carvão, como substituí centrais a derivados do petróleo, a gasóleo, a fuel óleo e, no futuro, a gás natural, substituir por fontes renováveis. E depois, tenho é que utilizar essa eletricidade renovável em outros usos, seja nos automóveis, na mobilidade, seja na climatização.
Nalgumas indústrias também se substitui combustíveis fósseis por energia elétrica.
Isso é um processo gradual e que nós estamos a fazer. Atenção, porque há sempre que estar atento, que monitorar a dinâmica deste processo. Há algumas nuvens no horizonte em mantermos a pedalada para atingirmos os objetivos a que o país se comprometeu para 2030. Há que estar atento. Podemos ter uma quebra, por exemplo, no investimento em painéis fotovoltaicos e na captação de energia solar para a geração de eletricidade, mas isso poderá ser uma outra conversa. Mas estamos num caminho em que eu diria que é consensual, mesmo a nível de todas as forças políticas, a necessidade de fazermos essa mudança do uso dos combustíveis fósseis, com vantagens enormes para o país, não só sob o ponto de vista de fazermos parte do combate às alterações climáticas, dentro da nossa pequena porcentagem, mas um escudo é um escudo ou um euro é um euro, como também os efeitos a montante que isso tem, porque estas tecnologias são tecnologias que nós temos conhecimento, seja nas universidades, nos institutos de investigação, seja nas empresas. Temos conhecimento de como as construir, fabricar equipamentos, instalar equipamentos, manter os equipamentos, tem muito mais incorporação nacional do que, por exemplo, eu ir comprar fora, aos suspeitos do costume, uma central a gás ou uma central nuclear ou uma refinaria ou o que quer que seja das tecnologias tradicionais. E além do mais, estamos a substituir a compra de barris de petróleo, de toneladas de carvão ou de metros cúbicos de gás natural.
Claro, e em termos económicos, isso é vantajoso também.
É fundamental.
Nuno Ribeiro da Silva, e para fechar esta nossa conversa, deste primeiro episódio do "The End Energia", significa que esta mudança das não renováveis para as renováveis, que vai ser progressiva, já há pouco falou disso, vai ser progressiva, vai ser lenta, vai ser custosa, quer em termos tecnológicos, quer em termos de investimento económico, de alguma forma vai mudar também o mapa estratégico quando se olha para a energia como basicamente uma arma, ou um ativo muito importante na geoestratégia?
Vai. Repare-se, ligado à economia do petróleo, criou-se e desenvolveram-se regiões no mundo e países completamente a fazer, chamaria a monocultura do petróleo. Caso do Médio Oriente, uma maneira muito evidente, caso da Rússia, que é uma economia sobretudo assente na venda de produtos primários, do petróleo, do gás, em particular, do carvão também, é um grande banco de energia a Rússia, e sabemos bem o que isso nos tem custado. E, portanto, como dizíamos, sem que isto ocorra de um dia para o outro, essas fontes de riqueza colossais que beneficiaram nos últimos, eu diria, sobretudo a partir dos anos 70 do século passado, zonas como fiquemos no Médio Oriente, para simplificar, começam a bater válvulas, começam a ter um horizonte que não vai ser sempre assim. Aliás, esses países já o interiorizaram. Não sei se o interiorizaram, mas reconhecem e começam a dizer que não podem ficar dependentes, para sobretudo manter os níveis de vida e de sofisticação técnica e de bem-estar que criaram para os seus cidadãos, começam a pensar que essa, passe a expressão, vaca leiteira, não vai durar para sempre. E têm que começar a pensar em diversificar as suas economias, as suas fontes de riqueza, têm que começar também a preocupar-se com a maneira como usam a energia, porque tornaram-se altamente, deixe-me usar palavrão, energívoros, energético-intensivos. E, portanto, há que arrepiar caminho, começar a arrepiar caminho, que é também um processo longo e arrastado. Ou seja, o Médio Oriente a perder sensivelmente importância estratégica, coisa que já se vem fazendo sentir dá uma década e tal a esta parte, quando os Estados Unidos começam a ter menos foco em proteger a Arábia Saudita, o Irão, que eram as grandes fontes de petróleo que alimentavam os Estados Unidos quando os Estados Unidos eram, aliás, muito deficitários em termos de necessidades próprias de petróleo. Portanto, isto tem efeitos muito relevantes na geoestratégia, como tiveram em chamar essas zonas do globo, dos bancos de petróleo para a primeira linha, sobretudo a seguir à Segunda Guerra Mundial, quando o petróleo foi crítico. Há quem interprete que o colapso do Reich e da Alemanha foi essencialmente por ter perdido, e era estrategicamente pelos aliados, prosseguido o objetivo de controlar, já no Médio Oriente, as fontes onde a Alemanha ia buscar o petróleo para alimentar o esforço de guerra. Portanto, esta mudança de paradigma é, de facto, com uma democratização da obtenção de energia, nomeadamente com o recurso às fontes renováveis, difusas, dispersas pelo planeta, mais ou menos num local ou noutro, deixar de ter a proeminência e o eixo que se criou a seguir à guerra do telefone direto entre Washington e Riad, na Arábia Saudita, porque a América não funcionava sem o petróleo saudita.
Claro, esse mundo está a acabar de alguma maneira.
Esse mundo vai começando a transformar-se.
O que é bom para o ambiente, isto também está a ser feito em nome do combate às alterações climáticas, mas é também, de alguma forma, esse mundo das renováveis, mais democrático, de alguma maneira, e mais igualitário.
Exatamente. E com tecnologias muito mais acessíveis. Quer dizer, o quadro de eu instalar moinhos de vento, se quiser, aerogeradores, de instalar painéis, não quer dizer que seja a panaceia para de um momento para o outro nos resolver o problema.
Mas vai ajudar nessa transição.
Mas vai ajudar.
E o custo económico disso deve ser muito menor.
E o custo é muito menor. O custo é muitíssimo menor. Veja-se na última semana, o custo da geração de eletricidade em Portugal, que esteve satisfeito com o facto de termos tido vento, termos tido chuva e muita água e muita hidroeletricidade, e temos tido também algum sol, o custo da eletricidade veio para valores abaixo de €10, o custo de geração de eletricidade abaixo de €10 por megawatt-hora, o que é um valor muito barato, fantástico.
Já agora, estamos a gravar aqui no início de março, portanto o período temporal a que nos referimos é este, mais ou menos. De facto, vão surgindo boas notícias e os dados que mostram que Portugal, sobre a evolução desses preços e também sobre o fato de ser cada vez maiores os períodos em que estamos só a consumir energias renováveis.
Renováveis para a eletricidade, para o consumo de eletricidade.
Ainda falta depois o resto.
Falta depois, nomeadamente, este enorme desafio na mobilidade.
Da mobilidade, automóveis, sobretudo.
Tenha-se presente que o consumo no bolo geral de consumo do país, o consumo da mobilidade, ou seja, dos transportes, dos veículos, é cerca de 40%, quase metade do total do consumo. E esse ainda está muito dependente, eu diria que é a última quinta do petróleo, porque mais de 80% do que energiza a mobilidade são derivados do petróleo. E aí há o grande desafio, que está em curso, realmente de se mudar a motorização dos veículos do chamado motor de combustão para o motor elétrico. E isso, em si, é uma revolução.
E demora muito tempo, como sabemos. No fundo, é renovar todo um parque automóvel.
Exatamente.
Em muitos países.
Cinco milhões de automóveis em Portugal.
Só em Portugal. Muito bem, Nuno Ribeiro da Silva, foi um gosto tê-lo aqui neste primeiro episódio do "ADN da Energia", onde respondemos à pergunta central ou de arranque, se quisermos, o que é energia, e ficamos aqui a perceber, de facto, a evolução temporal, mas também geográfica, que está em curso. Mais uma vez, foi um gosto tê-lo aqui, Nuno. Voltaremos certamente a encontrar-nos numa próxima oportunidade. Obrigado.
Obrigado eu. Sucesso nesta literacia energética.
Muito obrigado.