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Sejam bem-vindos. Começa aqui mais um episódio de "ADN da Energia". Este é um podcast de literacia energética do Observador, em parceria com a Galp. Hoje falamos dos consumidores, o que podem e devem fazer para ter boa energia, se quisermos, mais barata, mais amiga do ambiente. E para isso convidamos a Carolina Carvalho, é gestora de projetos de energia da DECO, Associação de Defesa dos Consumidores. Vamos, certamente, ao longo desta conversa, falar de poupança, transição energética, soluções para o consumo doméstico. Carolina Carvalho, antes de mais, bem-vinda. Obrigado por ter aceito o nosso convite. É um gosto tê-la aqui.

Muito obrigada.

Obrigado, é um gosto. Nós vamos falando de transição energética, sabemos que é um setor importantíssimo, não só para as economias domésticas, mas também para o ambiente, para a competitividade das economias, enfim, um papel vastíssimo, um setor também que não é muito fácil de entender. Qual é o papel do cidadão nesta coisa da transição energética, as metas que nós ouvimos falar, como é que o cidadão individualmente pode entrar nisso, pode contribuir e vai ter que contribuir?

Sim. Sem dúvida, cada vez eu acho mais que em vez de chamarmos o consumidor para a transição energética, devemos envolvê-lo nesta transição energética. Não só porque é essencial, os consumidores são uma grande parte deste consumo, porque do consumo, isto é um ciclo, quanto maior o nosso consumo de energia, maior vai ser a produção de energia.

Claro.

Que aqui também todas estas fases vão ter as consequências que nós todos sabemos, das emissões de gases de estufa. E aqui também é essencial envolver os cidadãos e informá-los, principalmente. E ter uma informação clara do que é necessário fazer e dar apoio, porque eu acho também é essencial, e há aqui alguma falta, deste apoio, porque o setor energético é tão complexo, que eu acho que o consumidor se sente um pouco perdido do que é que afinal deve ou não deve fazer.

O que é que ele deve fazer. Claro.

Exatamente.

Esse tipo de comportamentos. Estamos sempre a falar, quando se fala aqui, neste caso, de cidadão consumidor e transição energética, talvez a poupança de energia seja logo o primeiro passo. Isto é, como a Carolina já disse, quanto menos gastarmos, menos é necessário produzir.

Exatamente.

E isso é possível? É possível ainda haver ganhos de eficiência energética em nossa casa?

Claro que sim. Temos desde dicas de poupança de baixo custo a elevado custo. Claro que elevado custo, sabemos que há famílias vulneráveis e é sempre mais complicado aplicar estas, desde painéis fotovoltaicos, apostar no isolamento térmico. Isto por quê? Porque quanto maior for a eficiência energética da nossa casa, maior vai ser os certificados energéticos com classe A, que sabemos que é bastante importante. Contudo, em Portugal, existe o contrário, que é a pobreza energética. Sabemos que há um grande número de pessoas nesta situação. E depois, por outro lado, temos as dicas de baixo custo, que são aquelas desde pequenos gestos, que às vezes nem nos lembramos, como por exemplo, limpar o congelador, uma coisa tão simples e que pode fazer uma diferença. E aqui também dicas como, por exemplo, usar a luz solar e o melhor dela.

Isso é para a iluminação, não é?

Exatamente. Sim, para evitarmos usar a luz artificial. Pequenas medidas e que podem logo fazer tanta diferença ou, por exemplo, não deixarmos a ficha ligada, aquele consumo silencioso.

Aquela sinal que fica em "standby" do televisor ou de outros equipamentos.

Exato. Sim.

Portanto, o conselho aqui é poupar o mais possível, não só por questões financeiras da família, obviamente, mas também porque faz parte da participação na transição energética e na poupança de energia. Por exemplo, troca de eletrodomésticos só fará sentido se for para classes energéticas superiores.

Claro, quanto maior a classe energética, melhor. Sei que o investimento inicial, geralmente, quase sempre, é maior. Só que depois, mesmo nós fazendo contas, a longo prazo, isto vai compensar. E não só estamos a ajudar o ambiente, mas também nós próprios estamos a poupar na nossa própria fatura em cada mês, que acho que também é o que, no fim ao cabo, todos pretendemos.

Claro. Há pouco disse que é importante envolver os cidadãos, de uma forma genérica, em todo este processo. O que é que falta? Falta informação de alguma maneira?

Sim, falta. Falta informação e eu sinto, e também a DECO sente, que os consumidores se sentem muito inseguros. Um exemplo, os painéis fotovoltaicos. Os consumidores estão a ficar entusiasmados para aderirem, comprarem painéis fotovoltaicos, mas acabam por desistir a meio porque sentem-se desmotivados ou pela falta de apoio, que consideramos que até deveria ser obrigatório haver aqui um apoio.

Um apoio público.

Exatamente, que não da parte do comercializador, para ser um apoio imparcial, em que pudesse informar, aconselhar, para conseguirem ter a melhor produção possível, otimizar o melhor possível.

Sinto que há apoios públicos para isso, para a instalação de fotovoltaicos, mas são esgotados rapidamente?

Claro, e também, nomeadamente a DECO, também temos o gabinete de aconselhamento energético e os balcões de habitação e energia, onde as pessoas podem dirigir. Mas aqui as pessoas acabam por se sentir, às vezes Enganadas. Como esse apoio não é obrigatório, muitas vezes não se recorre, porque muitas vezes não sabemos que existe, não recorremos.

Claro.

Por exemplo, já tivemos sete casos de pessoas que sentiram que, após a instalação, de facto, tinham sido instalados painéis fotovoltaicos a mais de acordo com o seu consumo, ou seja, para eles o retorno não estava a ser nada rentável.

Investiram mais do que deviam, de alguma maneira, para aquilo que é o seu consumo. Mas esse é um dos caminhos. É preciso literacia também nessa matéria, isto é, informar o que está em causa nessa instalação de painéis fotovoltaicos, que eu diria, e corrija-me se estiver errado, é a forma mais fácil de cada um de nós se tornar produtor de energia.

Sim.

Mais fácil e, se calhar, mais à mão e mais indicada.

E mais rápida. Diria que para nos tornarmos um consumidor eficientemente energético é, sem dúvida, a forma de ajudarmos. Só o facto de não estarmos a consumir energia proveniente de combustíveis fósseis é logo uma ajuda.

Claro, é uma vantagem.

Uma vantagem gigante, tanto a nível do ambiente como a nível da dependência energética em Portugal. Portanto, sim, sem dúvida, é apostar aí.

E que tipo de soluções? Fotovoltaico é claramente a-

Fotovoltaica, sem dúvida.

E para vender à rede. Portanto, o primeiro passo para isto é tentar produzir uma parte da energia que consumimos em casa.

Exato.

É preciso fazer contas a isto, não é? Isto é, o investimento e o retorno do investimento. São fáceis de fazer essas contas?

É assim, estas contas vão variar sempre muito. Há sempre aquelas condições, por exemplo, é importante ter-se uma orientação solar o mais adequada possível. Também termos as condições de espaço indicadas. Claro que, às vezes, as pessoas ouvem que o retorno pode ser só, por exemplo, entre oito, nove anos e, pronto, isto acaba por não ser muito motivador. Mas, de facto, é uma estimativa que há, que normalmente oito, nove anos acaba por haver um retorno do investimento.

Ao fim de oito, nove anos de poupança na fatura de energia, vamos pôr as coisas assim, está pago o investimento que foi feito.

Sim, claro que isto é um estudo, isto é uma média, pode ser menos ou mais.

Claro, dependendo, obviamente, do caso concreto. Portanto, esse é o primeiro passo. Depois, há a possibilidade até de venda de energia à rede. Isto é, as pessoas que produzem para além daquilo que é o autoconsumo, podem vender esse excesso de produção de energia à rede. Isto já é feito de forma fácil, é acessível a uma família média que tenha, obviamente, condições logísticas, e imagino que isto não é no cimo de um prédio, mas tem que ser uma instalação já com alguma capacidade.

Infelizmente, é sem dúvida algo que acredito que se deve investir mais e é o caminho a seguir, mas por enquanto, em Portugal já é possível, mas ainda não está a compensar os portugueses e os consumidores não estão contentos.

Porque é pelas tarifas que são pagas?

Requer um investimento muito grande, porque aqui temos que sempre ter uma forma de armazenar energia, ou seja, as baterias. E que são bastante caras. Claro que têm uma duração de vida maior até que o painel fotovoltaico. Contudo, o que se ganha desta venda de energia ainda é muito pouco. É claro que estes valores variam conforme o comercializador a que vamos vender a nossa energia, mas por enquanto o retorno ainda é muito pouco face ao investimento de, por exemplo, ter uma bateria.

É obrigatório ter então sistemas de armazenamento, baterias, para isto.

Sim.

Que é um dos grandes problemas da energia elétrica, não é? De facto, o armazenamento é caro e estamos muito naquela lógica do "temos que produzir em função do consumo imediato".

Sim, porque sem a bateria, os painéis fotovoltaicos, estima-se em 15 minutos, depois já não há o consumo instantâneo. Portanto, por exemplo, de noite já não vamos conseguir utilizar a energia produzida à tarde. Contudo, com estas baterias, claro que já vamos conseguir esse aproveitamento. Se não acontecer isto, o que vai acontecer é que o excedente de energia que foi produzido vai ser vendido. Vendido, não. Pode ser vendido, mas vai ser entregue à rede de forma gratuita.

Claro. Depois, olhando aquilo que é o comportamento do consumidor e as escolhas que ele tem que fazer, o mercado está aí, há 1001 ofertas. Dentro de cada fornecedor de energia, há também vários tipos de tarifários. Não é fácil, às vezes, nós navegarmos e percebermos o que está em causa. Por exemplo, as tarifas dinâmicas de eletricidade. Acha que o consumidor doméstico tem capacidade, neste momento, de informação, no fundo, para as decodificar e para aceitar as variações diárias, por exemplo, de preço?

Não, no sentido que ainda não há informação suficientemente clara e talvez a divulgação dessa informação, a meu ver, ainda não é clara o suficiente para os consumidores. Sempre que não há informação suficiente, o consumidor sente-se inseguro.

E não avança muitas vezes para isso.

Exato.

Claro.

Em tudo. Porque o que eu sinto é que os consumidores estão incentivados para esta transição energética, para estas alterações. Contudo Sente-se muito reticente. Por exemplo, mudar de comercializador, também é algo que já se está a ver mais, mas as pessoas continuam a ser muito reticentes.

Têm receio de quê? De acordo com a vossa experiência na DECO, qual é o receio das pessoas nessa mudança? Porque hoje o processo é fácil.

Sim, sem dúvida. O processo é muito fácil, rápido e, neste momento, até é o próprio comercializador novo para que mudamos, que é depois responsável pela mudança.

Exatamente. E não há períodos de fidelização.

Exatamente. Mas há tanta informação, que eu acho que é difícil para o consumidor saber o que ver, onde ver. E isto é bastante complicado.

Perceber o que é relevante, de facto.

O que é relevante, porque a eficiência energética é um mundo. Se para mim que estou a trabalhar na área, é um bocadinho assustador ver que há tanta coisa, o próprio consumidor que não está tão habituado à área, assusta-se.

Claro. Porque, de facto, há muitos tarifários. Por exemplo, aquela deslocação típica que é aconselhado, deslocar o consumo para horas mais favoráveis, isto é, para a chamada hora de vazio. Aí são as tarifas bihorárias? Como é que se chamam?

Sim, há a tarifa simples, bihorária e trihorária.

Certo. A simples, já agora, é o mesmo preço da energia ao longo das 24 horas do dia e dos dias da semana. O preço por quilowatt-hora consumido. As bihorárias divide-se o dia.

Temos dois horários, sendo que o horário mais barato é, por exemplo, das 10 da noite às 7 da manhã.

A chamada horas de vazio, quando há menos consumo.

Exatamente. Isto acontece por quê? Porque há uma menor produção. Então vai baixar o preço. As fábricas estão fechadas, as empresas também. Só que aqui também é importante realçar que não quer dizer que compense. Isto é também necessário adequar conforme os nossos comportamentos. Por exemplo, alguém que esteja o dia inteiro em casa, em teletrabalho, por exemplo, e vá colocar a sua máquina a lavar durante o dia, vai cozinhar também durante o dia, não vai compensar. Porque depois também aqui, fora do vazio, o preço é mais elevado face ao simples. Portanto, é aqui também ver conforme os nossos comportamentos.

Claro. Não é fácil, de facto, fazer essas escolhas, mas é realista que as famílias transfiram, de alguma forma, uma parte do consumo para as chamadas horas de vazio? Ou isso é um bocadinho uma ideia que depois na prática acaba por se ficar pelas boas intenções e não se concretizar. Essa coisa de pôr a máquina de lavar, por exemplo, a roupa, às 11 da noite.

É tudo uma questão de boa vontade. A verdade é essa. Temos que também fazer a nossa parte. Que depois, por exemplo, se calhar, e mesmo que não seja a nível ambiental, talvez pensarmos aqui que, de facto, se queremos poupar na fatura, é necessário fazer algo. E para tal, é necessário esse esforço. Se calhar, ter a intenção que a minha máquina de lavar a roupa e da loiça, se calhar, só às 10 da noite é que vai ser colocada ou aos fins de semana, que também tem um horário vazio. Claro que aqui, isso já é parte do consumidor e que incentivamos fortemente e que informamos para isso. Por isso é que também tentamos realçar tanto a importância disto, para que haja essa ação.

No fundo, é muito importante dar informação cada vez mais aos consumidores para eles tomarem as decisões mais racionais.

Sim, sem dúvida. E, por exemplo, eu neste momento, um dos meus projetos, um principal foco é mesmo o de informar. Nós percebemos que há tanta coisa, que é necessário que as pessoas conseguirem ir a, neste caso, nós criamos um website com uma academia, que é o Eva, e as pessoas conseguirem ir lá informar-se de forma adequada, sabem que é seguro, é uma fonte fidedigna e podem ter lá desde todos os temas, mas num sítio reunido, porque como está tudo em diferentes locais, é muito confuso.

Claro, ir buscar informação aqui e ali. Os simuladores, por exemplo, são uma boa ajuda.

Sim.

E as pessoas utilizam os simuladores?

Não muito. Eu sinto que as pessoas ficam sempre impressionadas quando veem o que podem poupar com o simulador. Nomeadamente, eu às vezes, mesmo com amigos, eu peço: "Olha, dá-me aí a tua fatura de eletricidade".

Que é para perceber o perfil de consumo daquela família.

"Eu vou ver o que é que tu podias estar a poupar". E, de facto, é extraordinário quando eu digo: "Olha, podias estar a poupar por ano 200 e tal euros", e eles ficam: "Ah, não me digas. Mas como?" E eu: "Tens que mudar de comercializador".

Claro.

E eles: "Mas e foste buscar isso aonde?" Os simuladores existem, mas de facto as pessoas ou não estão informadas que existem, ou não sabem como funcionam.

Há uma certa passividade dos consumidores. Agora, aqui falando de energia, só, mas acha que há uma certa passividade dos consumidores. Passividade no sentido de: até existem ferramentas, até existe informação, existem simuladores. Hoje podemos mudar de operadores de fornecedor de energia com um telefonema ou com email ou com acesso a um site muito facilmente, mas não o fazemos por inércia, de alguma maneira.

Sim. Há, de certa forma, uma certa passividade. Contudo, sinto que está a melhorar, que cada vez mais os consumidores sentem-se incentivados Adotar mudanças para terem menores custos na sua fatura e também serem mais sustentáveis. Começa-se também a ver estes consumidores. Contudo, também não esquecendo as pessoas, que com a sua vida, têm a sua rotina, depois há sempre aqueles comentários de: "Mas eu não tenho tempo de estar a rever de seis em seis meses qual é o melhor comercializador. Eu não tenho tempo, não tenho paciência". Há sempre essa parte. E depois também há a desmotivação quando têm a paciência para o fazer, chegam a um ponto em que não se sentem apoiados e não há informação.

Para confirmar a decisão deles.

Não se sentem seguros.

Muito bem. Carolina Carvalho, gestora de projeto de energia da DECO. Nós vamos terminar aqui a nossa conversa no FM da Rádio Observador, no entanto, vamos continuá-la e quem quiser pode depois ouvir o restante desta conversa em podcast. Estamos então já em podcast. Estamos a conversar com Carolina Carvalho, gestora de projetos de energia da DECO, Associação de Defesa dos Consumidores. Falar sobre, de facto, o papel dos consumidores em toda esta mudança. Já falámos aqui daquilo que podemos fazer em casa. A questão da mobilidade elétrica. Estamos com um crescimento forte de carros elétricos a ser vendidos, carros 100% elétricos ou plugin, portanto, há várias combinações. Os consumidores também sabem um pouco o caminho para eletrificar a sua mobilidade. Aí há mudanças grandes nos condomínios, por exemplo, por causa dos carregadores. Há informação sobre isto?

Vou-me repetir um pouco, mas lá está, há informação, mas se calhar não chega aos consumidores da forma correta.

Claro.

Mas é, sem dúvida, um caminho também, porque, de certa forma, o que é pretendido é a eletrificação mesmo. E um dos passos é esse da mobilidade elétrica. Contudo, já se vê, os consumidores estão cada vez a aderir mais. Claro que isto também depende de um investimento inicial.

Que é do automóvel.

Exatamente. Muitos, infelizmente, não conseguem. Informação. Eu acho que as pessoas já estão ocorrentes, porque cada vez mais se vê carros elétricos. Contudo, eu acho que neste momento, se calhar, a barreira mesmo aqui é o investimento.

Claro, para as pessoas darem esse passo. E depois há também contas a fazer, não só no investimento, como também nas poupanças eventuais ao longo da vida do automóvel, porque o consumo energético da eletricidade, se quisermos, é inferior, com os preços que temos atualmente em vigor, é inferior, por cada 100 km percorridos, por exemplo, aquilo que é o consumo médio de um carro, de um automóvel a combustão. Isso também é claro, de alguma maneira, ou também ainda falta esclarecer os consumidores sobre o custo de um carregamento num posto público, por exemplo?

Eu acho que está a claro. Para tal é preciso pesquisar bem esta informação e eu aconselho sempre a pedir aqui aconselhamento. Se as pessoas não se sentem seguras, dirijam-se, pode ser à DECO, dirijam-se a alguém que vos vá conseguir aconselhar, porque aqui as pessoas, apesar de saberem as estimativas, o que muita gente quer saber é: "O que eu vou poupar? Ao fim de quanto tempo, o que eu vou poupar?" E estas informações que, se calhar, com o aconselhamento, de forma mais personalizada, é importante.

Claro. Outra coisa que tem mudado, de alguma maneira, é a interação, se quiser, tecnológica, com os contadores inteligentes, que são cada vez mais, não sei qual é a percentagem já de instalação de contadores inteligentes nas nossas casas, mas eles permitem uma abordagem diferente dos consumidores também? Isto é, a informação que o contador inteligente dá e transmite, permite que as famílias conheçam melhor o seu consumo e poupem?

Sim, um problema dos contadores inteligentes agora é que muitos ainda não estão ativos. Isto é um problema, por quê? Porque as pessoas continuam a ter que retirar a sua contagem e sendo estes contadores digitais, para muitas pessoas isto é mais complicado. E os contadores inteligentes têm aqui uma vertente bastante interessante. Para além de se retirar a contagem, também é muito interessante a nível de eficiência energética, que através dos contadores inteligentes nós conseguimos, por exemplo, saber o que está a gastar mais na nossa casa. Isto é muito importante no sentido de sabermos, "OK, o fogão está a gastar mais, se calhar, posso reduzir aqui um pouco". Mas, pelo que sei dos consumidores que chegam à DECO, os próprios consumidores não sabem como é que podem fazê-lo.

Que essas funcionalidades existem, não é?

Exato. Ou como fazê-lo.

Exato, não sabem que podem fazê-lo, como fazê-lo, e portanto, aquilo que podia ser uma ferramenta ótima, que já está disponível em casa deles para os ajudar na poupança de energia, acaba por ser desperdiçada, de alguma maneira.

Sim, é estar lá, mas não está a ser aproveitado.

Claro, e o que pode ser feito agora, e quase a terminar a nossa conversa, o que é que pode ser feito para melhorar isso? Dar informação, obviamente. A DECO faz o seu papel, o regulador faz o seu papel, os operadores do mercado também vão fazendo o seu papel, mas obviamente têm um interesse próprio, como é evidente, porque eles estão a operar no mercado. Mas há um papel, muitas vezes, didático também. O que pode ser feito e deve ser feito? Falta-nos informação de uma forma genérica para esta transição energética.

Aqui eu acho que a transição energética é, sem dúvida, necessária, mas aqui é necessário fazer uma transição energética cumprindo e respeitando os direitos dos consumidores. E aqui também digo no sentido de informar e prestar informações claras, os contratos serem claros, a informação ser clara, porque muitas vezes a informação que vem no setor de energia é muito complexa, muitas vezes não está feita para o consumidor comum, que pode não ter muita literacia energética, compreender. Tanto que agora, recentemente, estive com alguns consumidores, nomeadamente famílias vulneráveis, e eles disseram-me: "Parece que as faturas vêm complicadas de propósito". E eu estive lá a explicar, para descomplicar a fatura para eles.

Dar uma daquelas linhas, não é?

Exatamente. E eles: "Eu nem sabia que a fatura trazia isto". E eu: "De facto, parece que tudo tem que ser complicado, não é?". Eu acho que aqui o essencial é descomplicar, informar, porque os consumidores o que querem é sentir-se seguros, porque é com insegurança os consumidores dificilmente vão conseguir agir e fazer mudanças no seu comportamento.

Muito bem. Carolina Carvalho, com esta mensagem final, de facto, se a informação não for clara e se o consumidor não se sentir seguro, seguramente não vai fazer ou colaborar na transição como o desejamos. Carolina Carvalho é gestora de projeto de energia da DECO, Associação de Defesa do Consumidor. Este episódio do "ADN Energia" fica por aqui. Voltaremos brevemente, sempre dentro deste tema da literacia energética, com mais um tema e um convidado. Até lá.