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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui, olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder linearmente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Olha.
Ora lá está.
Olha. Fiz.
Só para ti, João.
Não conhecia.
É um indicativo. Muito giro, moderno.
Muito giro.
Então, mas afinal Centeno pode suceder a Centeno no Banco de Portugal?
Ora bem, foi isso que admitiu ontem Luís Montenegro, ainda que se possa entender de forma retórica ou teórica. O primeiro-ministro disse que Mário Centeno reúne todos os requisitos para continuar a ser governador do Banco de Portugal e, de facto, reúne em termos técnicos, como é evidente.
Claro, já lá está, em princípio.
Já lá está e não está a violar nenhuma regra do BCE, nenhuma regra do país, nenhuma lei do país.
Portanto, pode ser uma lapa alisada.
Pode ser uma lapa alisada. O governo prometeu para esta quinta-feira, de facto, o anúncio da pessoa que vai liderar o Banco Central nos próximos cinco anos. Eu agora já nem digo que vai suceder a Centeno, até porque pode ser o próprio, portanto não sei. Centeno termina o mandato este fim de semana, está em prolongamento. Também é normal as pessoas nos cargos em Portugal ficarem às vezes meses, às vezes anos até à espera de serem substituídas. Bom, há aqui várias questões sobre esta declaração do primeiro-ministro. Será que Montenegro quer apenas baralhar neste momento para dizer que eles até ponderaram que Centeno pudesse ficar e que a decisão não é contaminada, se quisermos, partidariamente? Não sabemos. Depois também é assim: há a dificuldade de encontrar um sucessor. Por quê? Porque a lei, que é nova, digamos, que tem pouco tempo, e que traça os impedimentos do governador do Banco de Portugal, diz nomeadamente isto: não podem ser designadas governadores do Banco de Portugal ou para a administração, pessoas, vou só referir esta que é aquela mais limitadora, que nos três anos anteriores, portanto nos últimos três anos, que tenham integrado órgãos sociais ou desempenhado atividades ou prestado serviços, remunerados ou não, em entidades sujeitas à supervisão do Banco de Portugal. Ora bem, basta que alguém tenha feito um trabalho de consultoria, mesmo de borla, ou integrado um conselho de administração não executivo de uma qualquer instituição financeira do país. Falamos de bancos, gestoras de fundos vários, de qualquer entidade financeira, nos últimos três anos, fica logo impedida disto. Isto risca logo 90% das pessoas que nos podem vir à cabeça para isto.
E que são as pessoas da área.
E que são as pessoas da área, que conhecem.
Que conhecem o ecossistema.
Exatamente. Ao mesmo tempo, pede-se competência técnica na área. Portanto, isto limita, se calhar, a escolha a meio de os acadêmicos, e acadêmicos que não tenham feito qualquer trabalho de consultoria para instituições financeiras. Portanto, não é fácil. Bom, mas não sabemos o que é que vai na cabeça de Luís Montenegro. Também pode servir, imaginem, uma recondução de Centeno. Pode servir para que o governo diga que toma a decisão sem olhar a cor partidária. Aliás, sei que o que o PS está agora, no fundo, a pedir. Vamos ver.
Vamos ver. Quinta-feira.
Quinta-feira, não falta muito.
Quinta-feira, vamos ficar a saber isso. Entretanto, já sabemos que na Iniciativa Liberal, Mariana Leitão é a líder de CEG. Agora sabemos se o partido vai estar unido ao lado desta nova liderança?
Não sabemos. Aliás, estas eleições de candidato único nos partidos nunca são muito clarificadoras. Mariana Leitão foi eleita este sábado, mas candidata única, foi eleita líder da Iniciativa Liberal, teve 73% dos votos, porque os outros 27% foram abstenção a votos brancos. Portanto, houve declaradamente 27% dos eleitores internos da IL que quiseram dar o sinal.
De que não era esta a liderança que queriam.
Obviamente. Nós estamos habituados mais nestas ocasiões àquelas maiorias à albanesa, de 97, 98%. Enver Hoxha tinha na Albânia. E, portanto, há aqui um quarto dos eleitores que claramente não queria esta liderança. Obviamente, a culpa não é dela. Ela não tem culpa de se apresentar sozinha. Outros elementos do partido é que faltaram à chamada. Mas isto nunca dá saúde a um líder partidário. Ir sozinho e depois ganhar com este... Significa que há ali uma bolsa de resistência sempre no partido e, neste caso, é uma bolsa que é uma bolsa substancial, é um quarto. Veja-se, por exemplo, José Luís Carneiro no PS também. Notam-se frações no partido, porque candidato único. A expressão da oposição não foi refletida nessas eleições, fica sempre ali qualquer coisa por resolver.
Paulo, agora a Iniciativa Liberal tem um enorme dilema: fazer ou não coligações com a AD?
É, isso passou um pouquinho nesta convenção da IL, e é um dilema difícil de resolver para partidos que não são assim tão pequenos, pequenos-médios, digamos, como a IL. Ainda por cima, agora estamos na corrida para as autárquicas. Basicamente, se coliga com a AD, a IL pode desaparecer e ser engolida, perde a identidade própria, deixa de saber quanto vale, o CDS sabe o que isso é. Se não se coliga, dificilmente terá eleitos autárquicos que lhe deem experiência na gestão pública. Portanto, é um pouquinho aquela coisa brasileira: se ficar, o bicho come, se correr, o bicho pega. Não, é o contrário.
Isto é assim.
Isto should I stay or should I go.
Mete um bicho.
Exato, mete um bicho e a coisa não corre bem de qualquer maneira. Neste momento, já há 30 candidaturas próprias autárquicas da IL e 30 coligações, portanto, a coisa está mais ou menos empatada e o mesmo depois se coloca no plano político nacional. Aliás, os pequenos partidos passam a vida a experienciar isso. E depois quando apoiam o governo, também a coisa pode correr mal. Veja-se o Bloco de Esquerda e o PCP, nunca é fácil, isto da política não é fácil.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui, olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder linearmente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.