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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta.

E esta quinta-feira, no Ainda Bem que Faz Essa Pergunta, da Rádio Observador, falamos de pobreza, de milhões, acreditar até ao fim, mas mesmo até ao fim. Assumir o que correu mal, mas começamos por uma reação que chega antes da ação.

Antes da ação mesmo, não é? E é uma pergunta que eu estou a pensar já há algum tempo.

Andas a matutar nisso.

Ando a matutar, a maturar.

E então?

E então, o PCP é o primeiro partido a assumir ao que vem?

Com pouca surpresa, os comunistas, de facto, anunciaram que vão apresentar uma moção de rejeição ao programa de governo no Parlamento. Por um lado, o PCP é o menos tático dos partidos e não faz contas de cabeça para saber o que resultará a prazo das decisões que toma. Se está contra o governo de direita, como sempre esteve e sempre estará, fará então o que puder para o derrubar e já nem precisa de conhecer o programa de governo. Acho que com uma representação parlamentar cada vez mais pequena, o PCP tem necessidade, de facto, de dar a prova devida. Esse passo dos comunistas tem agora, pelo menos, a vantagem de obrigar todos os partidos a uma primeira definição sobre o governo que Luís Montenegro formará, como se prevê. Basicamente vai-se perguntar quem vota a favor, quem vota contra e quem se abstém. Podem sentar-se depois.

Mas Júlio, devia o PCP esclarecer o que correu mal nestas eleições?

O que correu mal.

O que correu mal.

Pois não está a correr nada bem.

Também devia. É verdade que os comunistas são os menos táticos, como dizia aqui o Paulo, e normalmente dizem ao que vêm, e fizeram bem esclarecer a sua posição, que de resto até não é surpresa nenhuma. Mas se estiveram a analisar os resultados de domingo, era bom também dizerem onde acham que falharam ou estão a falhar. Para um partido histórico, este resultado é muito pouco. Certamente, na discussão interna encontraram motivos para isto, mas convinha todos saberem ou sabermos. Por exemplo, eles acham que a posição que têm sobre a guerra na Ucrânia não é um dos motivos desta derrocada. Como dizem os orientais, estamos sempre dispostos a apontar o dedo ao próximo, mas muito raramente nos perguntamos: "E nós, onde é que falhamos?"

Pois é. Então, Paulo, e Rui Tavares acredita até ao fim?

Acredita, como diz lá. Acredita, acreditalmente. Acredita e parece ser o único, de facto, a acreditar e a defender esta ideia. Ainda é possível um governo de esquerda. E por quê? Porque, diz o líder do LIVRE, não se pode dar por adquirida uma contagem de votos que ainda não foi feita, não foi terminada, ainda faltam os círculos da imigração. Rui Tavares tem razão, ainda não é seguro que a AD e sobretudo o PSD tenha mais deputados do que o PS. Mas esta razão factual do líder do LIVRE tem dois problemas. O primeiro é que também é verdade que há uma larga maioria de direita no novo Parlamento e essa não está ainda dependente de contagens finais. E segundo, o próprio Partido Socialista, Pedro Nuno Santos, já disse que não queria governar neste contexto parlamentar, independentemente do número de deputados. Seja como for, podemos ter aqui um daqueles imbróglios jurídicos.

Não perca os próximos capítulos. Imbróglios. Uma palavra.

Fica sempre bem.

Nessa matéria, tenho a dizer-lhe que...

Aproveito para perguntar: somos mesmo um país assim tão pobre?

Ainda bem que me faz essa pergunta. Ontem, de rajada, ouvi aqui três notícias seguidas. Vou eu entrar pelos caminhos de Paulo Ferreira outra vez.

Vou, se faz favor. Vai com toda a confiança, Júlio.

Aqui vão. A EDP recusa-se a pagar cerca de 50 milhões de imposto extraordinário ao Estado e vai para tribunal. O Santander acionou um processo ao Ministério das Finanças para receber cerca de 160 milhões, que se podem transformar depois em 250. A Santa Casa da Misericórdia teve um prejuízo de 60 milhões no ano passado, com forte impacto do investimento de internacionalização no Brasil, e prevê que o Estado tenha agora que fazer um reforço de 40 milhões para salvar a Casa. Isto tudo pago por nós, tristes contribuintes. Com tantos milhões, é difícil perceber porque é que nos acham o país mais pobre da Europa Ocidental.

Realmente.

Estás a ver que correu bem.

Não se percebe. Imbróglio. Boa, Júlio. Imbróglio.

Agora é que vai ser confiança.

A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta.

Essa é a verdade.