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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Diz lá, Carla, o que te inquieta?
Tanta coisa.
Tanta coisa. Vou começar por uma.
Sim.
Os apoios presidenciais. O que tem de ser, tem muita força, não é, Paulo?
Tem muita força.
Tem que ser.
Tem mesmo que ser. O pragmatismo acaba sempre por impor-se, mesmo quando se tenta evitar. De facto, está decidido, o CDS vai apoiar institucionalmente, isto é, mesmo com um comunicado com o timbre do partido, com papel timbrado do partido.
Com carimbo.
Com o carimbo.
Que entusiasmo!
Exatamente, por comunicado. Apoiar institucionalmente a candidatura de Marques Mendes, no fundo, é a continuação da ágia por outros meios também, noutras batalhas, esta aliança entre o CDS e o PSD. Fica a ideia, obviamente, que Marques Mendes não seria o candidato natural preferido pelo CDS. O partido ainda suspirou por Paulo Portas, ainda terá avaliado a candidatura do José Melo. Vocês lembram-se há muitos meses de um jantar que era para ser secreto.
Um jantar?
Nem era jantar.
Foi um café. Era um drink. Um pós-jantar, é verdade.
Um digestivo.
De Nuno Melo, ministro da Defesa, com o almirante.
O almirante andou em muitos almoços e jantares.
É verdade. Nem temos que saber porque eles foram jantar. Não é jantar.
Foi um pós-jantar.
Fazer essa conversa, nem temos que saber, mas também podiam fazê-la nos gabinetes entre o ministro da Defesa. Não sei se na altura Govêa e Melo ainda era chefe do Estado-Maior.
Creio que já não.
Mas se ele fosse reunir ao Ministério da Defesa, era natural. Mas não aconteceu nada, nenhum desses caminhos se mostrou viável e ontem, de facto, num institucional, mas frio comunicado, o CDS veio manifestar o apoio ao candidato social-democrata. Por outro lado, também é menos uma divisão nesta corrida presidencial.
Nuno Melo vai cá estar na próxima terça-feira, dia 25 de novembro, na comissão de inquérito, vamos falarmos sobre isto. Agora está ao vivo, já não vem. Bruno, então mais com menos dá menos.
É essa a regra na matemática, pelo menos do que eu me lembro. Eu nunca fui um grande aluno.
Na multiplicação e na divisão.
Na divisão, exatamente. Mais com menos.
Mais com menos. Menos com menos dá mais.
Menos com menos é que dá mais. Mas esta regra na matemática também improu ontem na política, na votação das propostas de Chega e PS para o aumento das pensões. No ano passado, o mais com mais, ou o menos com menos, se quisermos ver uma coligação negativa, deu mais, mas este ano o PS e o Chega, de facto, não uniram forças no Parlamento. Quando um deu mais, o outro deu menos. O PS absteve-se na proposta do Chega de aumento de 1,5% das pensões até 1.567 €. Já o Chega votou contra a proposta do PS de tornar estrutural o aumento se houvesse o tal pagamento de suplemento das pensões. A coligação negativa teve negativa e o governo, em matéria de pensões, pelo menos, vamos ver o que acontece no resto, passou com positiva. Mais com menos, afinal deu mais, mas foi só para o governo.
Exato. Paulo, a Ryanair anunciou que vai deixar de voar para os Açores. Isto é bluff ou é mesmo para levar a sério?
Com a Ryanair e com o seu imprevisível CEO, isto nunca se sabe. Não é nada que eles não sejam capazes de fazer, fazer declarações bombásticas apenas como forma de pressão num processo negocial. O certo é que a empresa anunciou ontem que vai encerrar todos os voos para os Açores a partir de março de 2026. O motivo invocado são as elevadas ou alegadas elevadas taxas aeroportuárias que são cobradas, e a inação do governo, diz a Ryanair. Logo após o anúncio, foram muitas as bocas que se abriram de espanto com este anúncio em Portugal, quer nas autoridades regionais, quer nas nacionais, toda a gente a achar que é incompreensível, que não faz sentido. O governo veio mesmo dizer que as taxas açorianas aplicadas nos aeroportos açorianos não são o que a Ryanair diz, estão entre as mais baixas. Michael O'Leary, CEO da empresa, anda há algum tempo a pressionar para obter preços mais baratos. Os aviões, obviamente, todas as companhias, quando aterram e levantam do aeroporto, pagam por isso, para estacionar, para aterrar, para levantar e por cada passageiro e bagagem que é processada pelo aeroporto, são essas taxas a que ele se refere. E de facto, isto pode ser a derradeira ameaça da Ryanair.
Estamos até março.
Até março vamos ficar a saber se isto é bluff ou não, mas se isso acontecer, não é uma boa notícia para o turismo açoriano, a menos que esses slots ficarem livres sejam ocupados por outras companhias, o que é provável.
Certo, também pode acontecer. Agora, primeira pergunta: queremos transição energética?
Sim.
Sim, claro.
Então e se for no nosso quintal?
Não! É o fim ao fóssil, mas quando se trata de ter, por exemplo, uma central solar pertinho de casa, aí começam as dúvidas, já quase ninguém quer. O projeto Sofia, que prevê a construção de uma megacentral solar fotovoltaica que abrange, passa pelos conselhos do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, pode ter muitas vantagens. O promotor bem se tem esforçado por evidenciá-las, mas a posição das câmaras, separadamente, e da comunidade intermunicipal da Beira Baixa, para além dos grupos de cidadãos, é clara: aqui não. A associação ambientalista Zero também está contra e deu como principais argumentos o desenvolvimento de projetos caso a caso, que faz com que não haja um planeamento estratégico global, ou seja, não se pode conseguir o ordenamento, falar em ordenamento de território. Se os projetos são avaliados um a um, não há uma visão global destes projetos. E também o outro argumento que deu foi a ausência de envolvimento da população nas fases iniciais da discussão dos projetos. E também teme que este caso em particular gere um sentimento anti energias renováveis. Aliás, como já se está a ver um pouco na reação a este projeto. Independentemente de considerações sobre o projeto em particular, dos seus méritos, das suas falhas, as alternativas ao fóssil têm custos e às vezes não queremos perceber isso. Não é com um painel em cada casa ou em cada prédio que vamos deixar de depender do fóssil. O problema é que depois ninguém quer centrais no quintal. Aí já custa.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.