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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Então o Bloco deitou-se no divã este fim de semana, Paulo?

Podemos dizer que sim. A convenção foi um exercício, ou os militantes e os dirigentes aproveitaram para fazer da convenção um exercício de análise e de autocrítica, de forma a um nível que é pouco habitual ver-se nos partidos portugueses e muito menos à esquerda. Admitiram que cometeram erros, praticaram sectarismo, não souberam ler as dinâmicas sociais. Jamila Porezo, o novo líder, pode ter o perfil indicado para o reposicionamento político que o Bloco de Esquerda precisa de fazer. É menos radical ou pelo menos tem um tom menos radical na forma como se dirige em público, menos zangado com quase tudo, também menos sectarista. Ele próprio disse que ia evitar esse tipo de práticas e dá a ideia que o partido tem a noção que é uma questão de sobrevivência. Tem a noção disso. Vão conseguir, de facto, fazer essa mudança? Não sabemos. Depende muito das estruturas internas, mas pelo menos parece que o diagnóstico está feito e há vontade de resolver o problema.

Paulo, e a Igreja portuguesa continua a arrastar os pés na questão das vítimas de abusos sexuais.

É isso que acusa a associação que representa essas vítimas. Num comunicado publicado ontem, a associação manifestou preocupação e indignação com o processo de análise da compensação financeira e diz que falta informação sobre o montante global a atribuir. O Grupo Vita, que foi criado pela Igreja precisamente para resolver este assunto, diz que o processo de análise e entrevistas deverá estar concluído agora no início do próximo ano, 2026, e depois disso a Conferência Episcopal Portuguesa avança para a atribuição das compensações. Mas a Igreja faz mal em andar a arrastar os pés nesta questão, que já dura há vários anos, depois da criação do Grupo Vita. Depois da cumplicidade e do encobrimento dos abusadores, esperava-se uma atitude mais próxima daquilo que são os valores cristãos.

Agora vamos ao que interessa.

Vamos lá.

Vamos lá esclarecer isto. Afinal, para quem era o beijinho que o Manelinho mandou no recreio do jardim infantil?

É uma questão muito importante. Vocês brincam com coisas sérias.

Vamos lá falar sobre isto.

Mas é uma questão importantíssima que vai animando por estes dias o jardim infantil Ursinho Peludo. É nome de jardim infantil, não é?

Ursinho Peludo.

Não, achas que não?

Ursinho Carinhoso.

Ursinho Carinhoso.

Peludo como é puta.

Pronto, fica Carinhoso então. É que o Manelinho, um dia desses, mandou um beijinho lá para o outro lado do recreio. A Clarinha viu, estava lá do outro lado e não gostou, fez queixa à professora, que levou o assunto ao conselho diretivo. Depois o Manelinho foi chamado ao conselho diretivo e disse que afinal o beijinho que ele estava a mandar não era para a Clarinha, mas era para o grupo da Mafaldinha, que estava ali mesmo ao lado. E agora o próprio Manelinho acusa a Clarinha de andar por lá a mentir, porque o beijinho não foi para ela. Agora, substitua-se aqui Manelinho por Filipe Melo do Chega, Clarinha por Isabel Moreira do PS e o grupo da Mafaldinha por bancada do Livre, e temos sem tirar nem pôr, o nosso Parlamento. O Parlamento anda a discutir isto na Comissão de Transparência. Acho que todos conhecemos o episódio. Isabel Moreira denunciou um gesto de Filipe Melo com os lábios a mandar beijinhos para aquela zona do Parlamento. A comissão agora analisou a questão. Filipe Melo disse que o beijo era para o Livre e não para Isabel Moreira e a partir daí acusou a deputada socialista de mentir. Portanto, andamos nisto. Há jardins de escola mais adultos do que isto. O gesto do deputado é burgês, seja para quem for o destinatário, e é desadequado. Não podíamos fechar só assim e acabava-se o assunto?

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.