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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Nada.

Bruno, tu queres ver que os ciganos já não são cabeça de cartaz no Festival Ventura?

Não, já não são. Saem os ciganos, entram as minorias do costume. O tribunal, já sabemos, ordenou a retirada dos cartazes onde se lia que os ciganos têm de cumprir a lei e mesmo antes de acatar a ordem do tribunal, o candidato André Ventura apresentou um novo cartaz que reza: "As minorias do costume têm de cumprir a lei". Num vídeo publicado nas redes sociais, enquanto aparentava estar a montar o outdoor, pergunta, André Ventura, se pode mesmo ser assim ou se também vão ficar melindrados. Era a pergunta de André Ventura. Sabe bem que não se trata de uma questão de melindre ou de maior ou menor sensibilidade, mas este é o jogo que lhe convém fazer e a verdade é que ninguém o joga como ele. É ele o verdadeiro cabeça de cartaz do seu próprio festival e nós continuamos a pagar para ver.

Pois. E Paulo, o que é que estava mesmo a faltar nesta campanha eleitoral?

O que estava a faltar era uma suspeita judicial sobre um ou vários candidatos. Tem sido sempre assim nos últimos anos, não há eleição ou que não seja motivada por um caso judicial, ou onde não apareça uma qualquer suspeita que está a ser investigada também sobre candidatos. Claro que essa suspeita é conhecida, por regra, sempre a poucos dias ou semanas do ato eleitoral. E a fava desta vez calhou a Gouveia e Melo. Com uns factos que têm quase uma década. Vamos ver se o Ministério Público esclarece devidamente o que se passou atempadamente. Em princípio, não, senão já o teria feito. Ou se vamos para aquele regime que está na moda agora das averiguações preventivas. Estão a fazer muito sucesso, tiveram grande saída na última campanha, portanto vamos ver se vamos por aí, mas pronto, cá temos.

Saíram que nem pãezinhos quentes.

Pãezinhos quentes, averiguações preventivas, sai é mais uma.

Paulo, mas ainda não foi desta que conseguimos acertar nos boletins de voto apenas com os candidatos efetivos, aqueles que vão mesmo a votos.

Exato, não é fácil isso. Pelos vistos, é uma ciência muito complexa esta coisa da organização de eleições, sobretudo de como fazer um boletim de voto. Isto mesmo 55 anos depois do homem ter ido à Lua, nós ainda não conseguimos, de facto, fazer esta coisa simples que é: primeiro verificar quais são as candidaturas aceites de acordo com as regras. Aceites a uma eleição. E só depois disso sortear a ordem dos admitidos e depois mandar imprimir os boletins de voto. Isto parece fácil, mas não é fácil de praticar. O Tribunal Constitucional faz as coisas por esta ordem, mas diz que faz as coisas pela ordem inversa, isto é, primeiro sorteia, só depois é que verifica se está tudo OK, mas diz que a culpa é da lei e que a responsabilidade é do Ministério da Administração Interna. Por sua vez, os boletins são impressos pela Casa da Moeda e no fundo o tribunal também lava daí as suas mãos. Depois há ainda a Comissão Nacional de Eleições a meter barulho, portanto, já são quatro entidades. Tem tudo sempre para correr mal. Tudo para correr mal. No fundo, é um país fantástico este, onde a mão esquerda do Estado não consegue saber nem coordenar-se nunca o que está a fazer a mão direita.

Quando sabemos que uma mão lava a outra, isto deveria ser tão fácil.

E Bruno, a educação é o instrumento mais eficaz de combate à pobreza?

Já devíamos saber que a resposta é sim, mas parece que ainda precisamos que os dados nos relembrem da importância da educação. De acordo com o inquérito às condições de vida e rendimentos do Instituto Nacional de Estatística, que foi divulgado a 11 de dezembro, há cerca de 300 mil crianças em risco de pobreza em Portugal, mas os números da taxa variam muito consoante a formação, a escolaridade dos pais. A taxa de pobreza é quase quatro vezes superior quando os pais têm apenas o ensino básico, e isto resulta de uma análise aos números do investigador Carlos Farinha Rodrigues. Em famílias em que os pais têm baixa escolaridade, a taxa de pobreza é de 34,3%. Nas famílias em que os pais têm ensino superior, este valor baixa para os 8,9%. E às vezes é preciso mesmo lembrar o óbvio, que a pobreza combate-se com educação. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.