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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta essa.

Começa agora uma nova edição do Ainda Bem Que Faz, essa pergunta da Rádio Observador. Eu estou a ser alvo de bullying aqui no estúdio. Importa dizer, hoje trago uma camisola cor neon.

Florente!

É um colete.

Não é um colete, é uma camisola. Vocês é que não estão na moda. Vocês são muito antigos.

Desculpa. Tu estás com um colete.

Não estou nada fashion.

Eu vinha ali ao fundo. Claro, eu vinha ali ao fundo e pensei: "Ali há um acidente, tenho de ir devagar". Afinal, é a camisola da Maria João.

É bem gira.

Não, são muito antiquados. São muito cinzentos. Não percebem.

Aqui de cima tinhas a camisola posta nos ombros e as mangas.

Mas estou prateado por baixo.

Os coletes não têm mangas, parecia mesmo um colete sem mangas. Ao menos estás à vontade se a polícia te apanhar, estás com o colete, não pagas multa.

Vamos recomeçar isto?

Vamos lá.

Hoje falamos de velhos quiosques, à espera que o telefone toque, a força do futebol, mas continuamos a descobrir o país.

Continuamos a descobrir um país, aquele, Paulo, que raramente aparece nas notícias.

É verdade, quem diria? Chegámos a 2024.

Vim fazer turismo no Portugal real.

É verdade. Cinco dias depois das eleições, já lá vão cinco dias, vão-se sucedendo as reportagens que tentam explicar porque é que quase um em cada cinco eleitores votaram no Chega. Esse é, sem qualquer dúvida, o grande acontecimento político destas eleições. O Expresso, por exemplo, foi a Algoz, no concelho algarvio de Silves, onde o partido de André Ventura teve uma das maiores votações nacionais. Teve lá 30% dos votos, contra 24% do PS e 19% da AD. O repórter ouviu coisas como: "As pessoas estão fartas de problemas que ninguém resolve". Perguntando: "Então, mas a votação no Chega não foi pelo que disse sobre a etnia cigana ou os imigrantes?" A resposta de eleitores ouvidos por lá: "Não, foi pelo descontentamento. O pessoal está farto de promessas." E o Chega é diferente, perguntam. Isso é o que vamos saber depois. Há uns anos isto seria uma reportagem sobre o país profundo, hoje é basicamente explicar o que, visto de Lisboa, é muito difícil de entender.

E por falar em aparecer nas notícias, Juca, podemos dizer o futebol, essa força imutável?

É verdade. Fico encandeado com este aqui.

Eu tenho esse efeito.

É, tens. Isto não é uma crítica, claro.

Não, não é uma crítica a cor da camisola.

Não, é uma força das circunstâncias, da cultura, sei lá o que vocês quiserem chamar. Ontem os jornalistas voltaram à greve, 40 anos depois. Uma justa greve, de resto, face ao panorama que se vive de baixos salários, ausência de progressão nas carreiras e uma quebra de qualidade numa das atividades que é de facto um dos pilares da democracia. Várias dezenas de redações estiveram paradas ou condicionadas e estações de rádio ao longo do dia não transmitiram mesmo os respetivos noticiários. Mas ao que parece, se podemos viver sem noticiários, já sem o futebol, nem pensar. Em dia de decisões de Liga Europa para o Benfica e Sporting, os relatos e respetivos acompanhamentos não faltaram. 50 anos depois, Portugal ainda continua a ser muito futebol, Fado e Fátima.

É, mas a crise da imprensa não passa também pelos velhos quiosques?

Isto é uma curiosidade. Ontem vi uma reportagem sobre quiosques em Itália que estão a desaparecer. Era mesmo sobre um que tinha mais de 70 anos e que o jovem que estava à frente dele, já de terceira geração, porque isto tinha sido o avô, tinha posto o quiosque à venda porque a crise na imprensa é generalizada. O número é impressionante. Há uma década, em Itália, vendiam-se nove milhões de jornais por dia. Hoje não chega a um milhão. Mas provocar a recuperação dos quiosques bem que podia ser uma das medidas, entre muitas outras, claro, que podiam ajudar a imprensa. Há muitos leitores, muitos mesmos, que ao longo dos anos se habituaram a ler jornais e deixaram de os comprar porque o mais perto que têm para os adquirir é mesmo a área de serviço, que por norma não fica bem ali no bairro. As câmaras bem deviam olhar para isto e fazerem um esforço para os recuperar. Era sempre uma ajuda.

Paulo, e quem é que quer ir para o governo?

Quem quer, não é? Pois é, estamos num daqueles momentos em que há por aí muita gente que não tira os olhos do telemóvel ou do telefone. Uns à espera que ele toque, outros rezando para que ele não toque. E nós não sabemos, de facto, se Luís Montenegro vai ter dificuldades ou não em recrutar elementos para o governo que já terá na cabeça. À partida, o recrutamento será fácil, se for feito junto dos dirigentes partidários que têm estado ao seu lado. A dúvida coloca-se mais quando se fala de independentes. A favor dessa missão está o facto de haver notoriamente muita coisa a fazer e de ser o início de um novo ciclo e de haver, já agora, também contas equilibradas. O problema, de facto, é a instabilidade que se adivinha. A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta essa.