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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta essa.

Começa agora mais um Ainda Bem que Faz Essa Pergunta, Paulo Ferreira e Júlio Magalhães. Esta terça-feira falamos, claro, de ovos moles e outras coisas boas de Aveiro, as tripas de Aveiro. Orçamentos cor-de-rosa, avisos cinzentos. Mas Paulo, começamos com o semáforo amarelo.

É verdade, aqui nas relações do governo com alguma esquerda. Será que o governo já desistiu do bloco de esquerda para a aprovação do Orçamento Estado?

Ora, Paulo, parece que a relação com o PCP está melhor do que com o bloco, não é assim?

E ontem à tarde, Mariana Mortágua disse mesmo que nenhuma das propostas apresentadas pelo Bloco de Esquerda estavam incluídas no orçamento. A deputada do Bloco de Esquerda falava obviamente com base na última ou nas últimas notícias que eram conhecidas, e disse que tinha que esperar para ver a versão final do documento, que veio já tarde, perto da meia-noite, como nós sabemos. Mas era essa a preocupação, em jeito de reclamação ou lamento, mas como sabemos também, é até o lavar de cestos à vindima. O documento está agora no Parlamento, vai ser discutido e aí pode ser alterado e negociado com as várias bancadas. Portanto, vamos ver qual é a maioria parlamentar que se forma.

Ora, Paulo, aqui em Aveiro as relações são mais originais, ou seja, são mais azedas e travam-se entre socialistas. Será que as autárquicas ainda não acabaram?

Então conta lá o que se passa e diz por aí.

É verdade, os resultados das eleições em Aveiro agravaram feridas profundas aqui no PS local. Alberto Sousa Souto, o único socialista a ganhar eleições em Aveiro nos últimos anos, desferiu um violento ataque no Jornal Diário de Aveiro ao candidato PS a estas eleições. Mário Sousa, que animado com a campanha de António Costa, que veio dar aqui uma mão e sustentada em algum descontentamento com Ribau Esteves, o presidente atual e reeleito, descontentamento esse à custa de obras em dois locais emblemáticos da cidade, a Avenida Ricardo Peixinho e o Rossio. O candidato PS tinha um feeling que ia ganhar. Ora, os resultados foram desastrosos para o PS. Ribau Esteves, pese embora já com dois mandatos em cima e estas questões polêmicas das obras, ganhou com maioria absoluta, conseguindo sete de nove vereadores. O artigo de Alberto Sousa é de uma violência extrema e não se sabe ainda como vai ficar aqui o PS local.

Vamos ver. A par disso, continuam todos de caderninho na mão a tomar nota dos sucessivos avisos de Mário Centeno.

É, o governador do Banco de Portugal voltou ontem a fazer alertas.

Fê-lo pela segunda vez numa semana. Ontem Centeno aproveitou uma conferência sobre finanças para dizer que não há razão para ser complacente com bons resultados. Alertou novamente para a dívida, que diz, é muito mais alta devido à pandemia e para a necessidade de descer os níveis de desemprego. Portanto, os alertas estão feitos, só não percebe quem não quiser e quem não quiser perceber está certamente a entrar numa zona de risco que pode acabar mal.

No meio do orçamento e dívidas, posso intrometer-me aqui com um pouco da história curiosa de Aveiro?

Força, Júlio. A Veneza de Portugal deve ter certamente aí muitas histórias curiosas para contar.

É, e esta é mesmo uma das mais curiosas. Sabes que Aveiro já foi uma cidade muralhada. A construção é do século XV, tinha formato pentagonal irregular. Foi pensada à imagem das muralhas de Jerusalém, uma das poucas feitas no mundo inteiro. Tinha, tal como as de Jerusalém, nove portas, três delas duplas, e por isso fala em 12 portas. Duas das três portas duplas eram viradas para o canal central da ria de Aveiro. Neste local preciso, onde estamos aqui a fazer a emissão da Rádio Observador, era exatamente a porta do Cais ou do Norte. Em 1806, foi autorizada a demolição da muralha. Como na época não havia orçamentos, mas antes reaproveitamentos, a muralha e os seus materiais foram utilizados e usados para consolidar aquilo que é hoje a Barra de Aveiro. Depois desta curiosidade, Paulo, voltemos ao século XXI e aos nossos dias.

É, e a outras muralhas e outras consolidações. António Costa disse que este orçamento vai ser bom. Mas será que é bom para o governo ou é bom para o país?

Essa é uma velha e eterna questão.

É, um orçamento bom para o governo é um documento que antes de mais garante que é aprovado pelo Parlamento. Porque disso depende a continuidade em funções do próprio governo. Por isso é preciso esticar daqui, puxar mais além, para acomodar as exigências do PCP, do Bloco de Esquerda, eventualmente do PAN, para garantir que depois o documento passa na Assembleia da República. Se depois disto ainda fica um bom orçamento para o país e para a economia, isso já é outra questão.

E sabes o que é garantidamente bom mesmo aqui em Aveiro?

Ora bem, por aquilo que vocês têm dito ao longo da manhã de ontem e de hoje, são os ovos moles, certeza.

O Júlio que o diga.

E mais, sabes que os médicos acham que a ingestão excessiva de açúcar tem a ver com o sistema nervoso.

Sempre suspeitei disso, Júlio. A culpa é do sistema nervoso.

É, do sistema nervoso. Quando andamos mais agitados, mais açúcar comemos. E como eu ando com o sistema nervoso alterado, e tudo tem a ver com o aumento, mais um, dos combustíveis, de tal maneira que te devia estar aqui a perguntar por que os combustíveis continuam a subir, então refugio-me nos doces para me acalmar. E dá como contar a história dos ovos moles, de origem conventual. O fabrico dos ovos moles manteve-se através de senhoras que haviam sido educadas em convento e que transmitiam, de geração em geração, o segredo do seu fabrico. Há documentos que atestam que o rei Dom Manuel I, em 1502, concedeu 10 arrobas de açúcar da Madeira ao Convento de Jesus, aqui em Aveiro, para o fabrico da doçaria conventual, e aqui vem a boa notícia, como remédio na convalescença dos doentes. Ora, os ovos moles são referidos também como sobremesa de almoços reais e referidos nos livros, claro, de Eça de Queirós, como Os Maias e A Capital de 1888, e até pelo escritor brasileiro, Henriques Veríssimo, que se refere na sua obra Solo de Clarinete, Memórias, em 73. E nós aqui a fazer a emissão de Aveiro, Paulo, não podíamos deixar de o referir também. Fica pra história esta referência também.

As perguntas que marcam a atualidade com o Paulo Ferreira em Lisboa e o Júlio Magalhães comigo, aqui em Aveiro. Já sabe que a edição de hoje fica disponível dentro de minutos em podcast para ouvir à hora que lhe der mais jeito.

A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta essa.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador Online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.