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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parece que garrados.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Tantas perguntas e uma saga do Banco de Portugal. Paulo, encerra-se um capítulo e abre-se outro?
É, o capítulo que é encerrado, foi fechado ontem, é o da sucessão de Mário Centeno. Álvaro Santos Pereira é o escolhido, como se sabe, não se tem falado outra coisa nas últimas horas.
Mas Mário Centeno, segundo ele, ainda vai ficar mais uns dois meses no banco.
Fica dois meses, exato. Agora é preciso a audição parlamentar de Álvaro Santos Pereira, que não é vinculativa, mas é obrigatória por lei. Há de haver um parecer técnico.
Metem-se as férias.
Exatamente. Aliás, o Parlamento vai trabalhar nas férias, em princípio, por causa disto. O Parlamento há de emitir um parecer depois dessa audição, que mais uma vez não é vinculativo, e depois Álvaro Santos Pereira pode então tomar posse, ser empossado. Uma cerimónia que há de ser presidida pelo ministro das Finanças. E Mário Centeno vai à sua vida e este é o capítulo que se abre, basicamente. Que vida será essa? Temos agora um quase ex-governador, que está disponível para prosseguir uma carreira, como é evidente, vai ter que continuar a sua carreira. A grande questão é se é uma carreira técnica ou política de Mário Centeno. Isto é, ele vai continuar ligado à economia, sobretudo, eventualmente num cargo nacional ou internacional, como Álvaro Santos Pereira fez, por exemplo, como economista-chefe da OCDE, ou vai para a carreira política. Não esqueçamos que Mário Centeno esteve disponível para ser primeiro-ministro quando António Costa se demitiu. Foi desejado por uma ala do PS importante para candidato a presidente da República. Pensou no assunto, tanto que depois veio dizer que depois da reflexão, ele decidiu não avançar e portanto está aí disponível. Tem ambição política, como estes dois factos provam também. Vamos saber agora o que é que-
Qual é o futuro.
Qual é o futuro e o que a política lhe reserva, porque a política também traz surpresas aos próprios protagonistas. Às vezes abrem-se portas que ninguém está à espera.
Então e Marcelo, não concorda mesmo com a lei de estrangeiros?
Pelo menos é muito crítico mesmo em alguns aspetos da lei aprovada pela AD e pelo Chega. Critica duramente as alterações, por exemplo, no reagrupamento familiar, que estão previstas, diz que podem mesmo violar legislação europeia e por isso enviou o diploma para o Tribunal Constitucional. Mas as críticas vão além disso, isto é, ele critica a pressa com que a legislação foi feita. Diz mesmo que foi feita sem audições constitucionais, fossem elas obrigatórias ou não. Dá a ideia, de facto, que o presidente da República até podia vetar politicamente esta lei. Tantas são as críticas e tão fortes que ele coloca, porque as reservas que aponta vão além da tecnicidade jurídica e da questão de saber se viola ou não viola a Constituição. E, portanto, eu diria que este é um dossier em aberto ainda. Vamos ver, antes de mais, o que o tribunal diz no prazo de 15 dias. Mas diria que este é um dossier que tem desfecho ainda em aberto, em termos políticos, como é evidente.
Pois, em termos políticos, sim, embora saibamos que legalmente isto volta ao Parlamento e depois o presidente tem que aceitar.
Sem dúvida.
Mas politicamente, isto marca. Já no combate à corrupção, vamos ter alguém que vai passar da teoria à prática?
É verdade, este é daqueles casos em que nós muitas vezes dizemos: "Bom, já que estás para aí a criticar, por que não vens cá fazer melhor?" Falas, falas, falas, mas não fazes. A fazer melhor, pelo menos. Por que não vens cá fazer melhor? E essa pessoa vai mesmo tentar fazer melhor agora. Falamos de quem? O governo nomeou ontem, numa das nomeações do Conselho de Ministros, esta fala-se menos, mas nomeou ontem o juiz José Mouraz Lopes para presidente do Mecanismo Nacional de Anticorrupção, o MENAC. Ora bem, Mouraz Lopes era juiz conselheiro do Tribunal de Contas e perito das equipas de avaliação do GRECO. O GRECO é o Grupo de Estados Contra a Corrupção do Conselho da Europa. E foi nessa qualidade que ele há cerca de meio ano, portanto nem foi assim há tanto tempo, deu uma entrevista ao Público, em que apontava, e citamos, "uma fragilidade nos mecanismos de integridade pública, nos controlos da corrupção" e dizia mesmo assim: "Ainda não sabemos o que se fez no âmbito do Mecanismo Nacional de Anticorrupção." Ora bem, ele agora vai poder saber e experienciar na primeira pessoa, de facto, o que faz este mecanismo, já que ele vai presidir ao organismo. Depois das críticas, vai poder corrigir o que acha que está mal. Eu diria que é uma boa jogada, quer do governo, que nomeia alguém que há pouco tempo criticou a inoperância destes mecanismos, quer do próprio, que aceita um desafio numa área que ele criticou. Portanto, vamos ver o que isto vai dar.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
A pergunta parece que garrados.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.