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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Então, Ícaro Esteves, ontem a assistir às votações parlamentares, ficou com a sensação de que este é um governo pisca-pisca, Paulo?

Claramente. Aliás, ontem o dia foi perfeito a esse nível, porque o governo olhou para a direita e pisca-pisca, aprovou a lei da nacionalidade com o Chega. Depois olhou para a esquerda, pisca-pisca, e tinha a lei do orçamento aprovada com o PS. E como já dizia a Ruth Marlene, andam por aí a pescar para ver se arranjam conquista. Parece que está a dar e que veio para ficar a moda de pisca-pisca.

Eu acordei para ouvir isto.

Eu não vou cantar.

Mas estás a fazer os gestos da Ruth Marlene.

Com as mãozinhas.

Ficas muito bem.

Por acaso não sabe.

Ganhas jeito.

Exato. Tu é que queres cantar.

Eu estou aqui quase a cantar, mas pronto.

Não, eu acho que de fato a Ruth Marlene já há muito tempo que viu isto.

Uma visionária.

Uma visionária política de análise política.

Temos que perguntar como é que isto vai evoluir.

Ela assegura que funciona e o governo vai andar nisto durante o tempo que a legislatura durar. Se durar toda a legislatura vai ser vira pra direita e vira pra esquerda.

Pisca-pisca.

Vemos se depois não bate de frente contra o muro.

Pois.

Às vezes acontece.

Bruno, então e a democracia no Livres? É muito peculiar?

É muito peculiar a democracia interna. Sempre foi uma das bandeiras do partido de Rui Tavares, da democracia interna, abertura à sociedade civil. Claro que nas ocasiões em que os resultados da democracia não agradaram a quem manda, o Livre teve de se dedicar ao contorcionismo ou então àquilo que comumente se chama engolir sapos. Com as presidenciais à porta e a incerteza quanto ao candidato a apresentar, o Livre oferece-nos mais um exemplo da sua democracia avançada e bastante complexa. É um referendo interno em que o boletim de voto traz quatro questões.

Então.

A primeira é se o Livre deve apoiar um qualquer candidato às presidenciais. A segunda é se esse candidato deve ser Jorge Pinto. A terceira é se o Livre deve ou não apoiar outro candidato da sua área política. E em caso de resposta afirmativa a esta pergunta.

Então a quarta.

Os militantes podem escrever o nome de quem gostavam que fosse o candidato. Isto não é fácil.

Uma engenharia eleitoral.

Com tantos cuidados, abertura e complicações, a democracia do Livres faz com que a eleição de um delegado de turma pareça um prodígio de sensibilidade, bom senso e simplicidade.

E transparência.

E transparência. Porque isto é muito complexo, não é nada fácil. Imagina que não percebem a caligrafia de algum dos militantes.

Repete-se também qual é a imprensa.

Claro. Eu não sei se um processo destes passava num crivo legal sobre as eleições, mas enfim.

Paulo, eu não sei se pensaste numa música pra próxima.

Diz-me.

No Parlamento, amor com amor se paga?

Não estou a ver a serada.

Havia uma novela com este título.

Mas o Bruno conhece uma canção.

Amor com amor se paga. Eu vou pensar, vou aqui aos arquivos.

Tu chegas lá.

Não, mas amor ou outro tipo de sentimentos. Com o mesmo tipo de sentimento se paga de alguma maneira. O regime é muito democrático, também nos ataques entre as várias bancadas parlamentares. Ontem viu-se perfeitamente isso. André Ventura resolveu falar da nacional corrupção que o PS permitiu e depois não gostou de ouvir a resposta. Eurico Brilhante Dias, sobre o Chega, fez questão de elencar as ilegalidades ou os crimes em que há militantes ou dirigentes do Chega envolvidos. E ele foi repetindo a lista. Militantes acusados de roubo, de extorsão, de assalto a caixa de esmolas, prostituição de menores, de roubo de malas, de roubo de gasolina em ambulâncias e de fogo posto. Depois aconteceu o caricato. Cada vez que a bancada do Chega protestava aos gritos, o tempo parava.

E a guerra dizia: "Ouviram, disseram, agora têm que ouvir."

Agora têm que ouvir.

Até à meia-noite, se for preciso.

Exatamente. E Eurico Brilhante Dias repetiu isto várias vezes. Ou seja, o Chega não ouviu isto uma vez, ouviu esta lista umas cinco ou seis vezes à vontade. É daquelas coisas que gostam de ouvir, de fato. E de fato, o Chega explodiu em gritos e protestos, passaram-se largos minutos nisto. Mas isto cá está, quem vem à guerra dá o leva.

Nós estamos aqui muito fortes nos ditados populares.

Também acho absolutamente.

Aliás, mais um, por um voto se ganha, por um voto se perde.

É esta a verdade, mas eu acho que até agora nunca tínhamos tido um verdadeiro exemplo prático desta máxima. Agora já temos na corrida à Câmara de Lisboa, e é bom lembrar que as eleições autárquicas, de alguma forma ainda não acabaram. Na corrida a Lisboa, a CDU ficou atrás do Chega por um voto. Começaram por ser 11 votos de diferença e depois foi reduzindo a margem. E agora depois do Tribunal Constitucional ter anulado um voto, que era do Chega, e de ter considerado válido um voto na CDU, que inicialmente tinha sido considerado nulo, a diferença cifra-se num voto. Quem votou no Chega deve estar satisfeito neste momento. Imagina, foi eu, o voto foi meu.

Era a minha cruz.

E a verdade é que foi, se pensarmos assim. Mas a história de fato não acaba aqui, porque ainda vai haver recontagem de votos e só aí se saberá para quem cai o segundo vereador. Portanto, não é uma diferença qualquer, isto tem um impacto na composição da Câmara Municipal de Lisboa.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.