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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Pois é. E Paulo, este país é cada vez menos para jovens, para nós.

Pois é, exato. Não é para velhos, também não é para novos. E até está mais injusto para as novas gerações. É isso que mostra a atualização do índice de justiça intergeracional. É um cálculo feito e atualizado por um grupo de especialistas e que foi ontem apresentado em áreas como a saúde, a habitação, as finanças públicas. Há um desequilíbrio na balança, mais a favor dos mais velhos ou, se quisermos, em prejuízo dos mais novos. Nalgumas áreas, estamos também a deixar heranças mais pesadas para os que vêm a seguir. É apenas mais uma consequência de um país relativamente estagnado, com pouco crescimento económico, poucas oportunidades e onde não se consegue dividir um pão que já é pequeno.

Então deixa-me acrescentar aqui mais um dado. Se o país não é para jovens, também é cada vez menos para quem mora no interior.

É, para esses e também para a imprensa, que já tem dificuldades de sobra. Sabemos, há duas ou três décadas, sobretudo por causa do impacto da internet. Neste caso, falamos da distribuição de jornais e revistas, não só nacionais como estrangeiros ou estrangeiras. Metade do país pode ficar sem venda de jornais e revistas em papel, físicas, porque a única empresa que as distribui, que é a VASP, está com dificuldades e a avaliar a necessidade de fazer ajustamentos à distribuição diária de imprensa em oito distritos do interior. As populações de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança correm assim o risco de ficar sem acesso às publicações nacionais e internacionais. Eu diria que é um cenário inimaginável, de alguma maneira, mas que é real e que seguramente se vai falar nos próximos tempos.

Se bem que não há eleições autárquicas, por isso temos bem certeza.

De qualquer forma, é aquela altura em que os poderes públicos eventualmente vão ter que tomar uma decisão sobre isto.

É verdade, para manter esse velho hábito de ir à banca.

Claro, por muito que muitas bancas só vendam um exemplar ou dois deste e daquele jornal ou revista, que é esse o cenário também.

É verdade.

Mas esse exemplar ou dois tem que lá estar de alguma maneira.

Paulo, apesar de tudo, a política continua a interessar a muita gente, verdade?

É verdade, continua. Isto até nos pode surpreender. Isto são dados, agora olhando para a outra face da imprensa, dados eletrónicos, que muita gente, quase toda a gente usa. São os dados, já os balanços anuais, neste caso, das pesquisas do Google, feitas no Google este ano em Portugal, que são um indicador fortíssimo. Eu acho que aqui, de facto, a amostra é muito grande, são milhões, e as pessoas vão deixando rasto, como é evidente. E então, o ranking, o top 10, a primeira pesquisa foi o Mundial de Clubes. Portanto, aqui o futebol a imperar, também não surpreende de alguma maneira, sobretudo num país que é futebolocêntrico. Depois, o apagão, aquele grande acontecimento fora da caixa.

Aquele que só se pode pesquisar depois, porque no dia não deu.

Porque a bateria do telemóvel e do computador já não dava.

E não havia internet.

Mas claro, as pessoas foram à procura, como é evidente, aqui é um caso até de utilidade muito própria. E depois, logo aqui no terceiro e quarto lugares das pesquisas aparecem-nos então dois temas políticos, também porque tivemos eleições, primeiro os resultados das autárquicas e depois as eleições legislativas, o que significa que depois aparece o Papa Leão XIV, o Elevador da Glória, sismo, ciclone pós-tropical Gabriel, aviso de vento costeiro, tempestade, e depois o Labubu, que eu tive que ver o que é, que aparece aqui no décimo lugar.

Eu já falei aqui uma vez do Labubu, não ligaste.

Não te liguei. Ou então, olha, escapou-me logo. Aparece aqui em décimo lugar.

São uns bonequinhos.

São uns bonequinhos que se compram e são muito fofinhos.

Tu não tens filhas e as mulheres gostam disso.

São muito fofinhos, João.

Ou não.

Claro. Mas aqui regista-se, de facto, em terceiro e quarto lugares, a pesquisa sobre eleições autárquicas e eleições legislativas. Por muito que se fale do alheamento e da abstenção, são temas que ainda vão interessando a muita gente.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.