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A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta, essa.
E esta segunda-feira falamos de vir à superfície, flutuar como as rolhas, juízes ou dados.
Pouco dados.
Pouco dados, à liberdade, não é Zé? Mas começamos com uma falsa partida. Foi como isto, foi uma falsa partida. Afinal, a reunião de sábado do PS, Paulo, sobre as presidenciais serviu para quê?
Em termos mais práticos, serviu para decidir que não vão decidir agora e vão ter que marcar uma nova reunião da Comissão Nacional lá mais para a frente, para então tomarem uma decisão.
Não me digas, quando houver candidatos.
Quando houver candidatos, eventualmente. Eu diria que sim, que é melhor decidir sobre vários candidatos quando se sabe quem são esses candidatos. Mas pronto, isto são excentricidades da nossa parte, certamente. E em termos mais conceptuais, essa reunião serviu para traçar o perfil de um suposto candidato à presidência, que se adapta a qualquer dos candidatos que se perfilam. Dizem os socialistas que esse candidato tem que ter capacidade para representar Portugal. Bom, então mas essa não é uma das exigências básicas do cargo? Isso, e saber comer com garfo e faca, por exemplo, saber distinguir os talheres de carne e peixe também é importante. Foi, de facto, uma partida em falso. Não se sabe se António Vitorino, o desejado por uma parte do PS, vai avançar. António José Seguro, que deverá avançar e é desejado por outra parte do PS, mas ainda não confirmou que avança. O mais importante desta reunião terá sido o apelo às hostes. Não se guerrilhem em público, como tem acontecido nas últimas semanas. Tem sido muito feio. Vamos lá ver se os notáveis do partido agora acatam este pedido da direção.
Bruno, Estrasburgo continua a penalizar Portugal?
Continua, Carla. E das duas, uma: ou Estrasburgo não gosta de Portugal, ou é Portugal que não consegue acertar o passo no que respeita à liberdade de expressão e às condições das cadeias. Estrasburgo é onde está sediado o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e o ano de 2024 foi o pior para o nosso país desde 2016 em matéria de condenações. Foram 20 no ano passado e a maioria prende-se com a falta de condições nas prisões portuguesas e com a forma excessiva como os tribunais portugueses punem a liberdade de expressão. Em algumas celas das cadeias nacionais há ratos, há bolor e os reclusos defecam à frente dos companheiros de cela. Ou seja, além da privação da liberdade, que é a verdadeira pena do nosso sistema, os reclusos sofrem uma dupla penalização com condições capazes de envergonhar países do terceiro mundo. Houve também cinco violações cometidas pelos juízes portugueses relativamente à liberdade de expressão. Parece que os nossos juízes não conseguem perceber que a liberdade de informar se sobrepõe quase sempre ao direito ao bom nome e à privacidade. Será que estas condenações poderão ajudar a alteração de mentalidade, de comportamentos e de condições? Era bom, mas não vamos ser tão otimistas.
Paulo, explica-me uma coisa, o que é que é, na prática, proteger o bom nome de um partido?
Isso é raro, Carla. É uma formulação que pode prestar-se a muitas coisas, mas algumas podem ser óbvias. O Bloco de Esquerda está a alterar os seus estatutos e a direção do partido propõe um catálogo de deveres para os militantes. Um desses deveres é mesmo esse, o dever de proteger o bom nome do partido. Não é difícil questionar se um militante que critique publicamente decisões da direção está ou não a violar essa norma, ou se outro militante que divulgue, eventualmente, isto em termos teóricos, práticas duvidosas da gestão laboral do Bloco, isto obviamente não acontece, nem nunca acontecerá, se está também a pôr em causa o seu bom nome, o bom nome do partido. A oposição interna considera a proposta perigosa, diz que é uma espécie de lei da rolha, que não existe nas regras dos outros partidos. O que parece aqui é que o Bloco está traumatizado com o caso das jovens mães que foram despedidas, mas esta, de facto, não será uma boa maneira de tentar evitar eventuais denúncias futuras.
Bruno, então e a Iniciativa Liberal quer que Gouveia e Melo venha à superfície?
Maria José, há coisa que a Iniciativa Liberal não desperdiça é uma boa piada ou um bom trocadilho. Estão a ver a coisa. Presidenciais, Gouveia e Melo, submarinos. A Iniciativa Liberal já apresentou a candidata às presidenciais, Mariana Leitão, e visto que o favorito, pelo menos a acreditar nas sondagens, tem estado em silêncio e nem sequer oficializou a candidatura, o presidente dos liberais, Rui Rocha, desafiou o almirante a sair das profundezas. Pode ser uma boa tática, reconheceu o líder da Iniciativa Liberal, mas apenas em determinadas situações militares. Na política, diz Rui Rocha, deve estar-se de cara aberta. Bem, nada garante que assim seja. Se olharmos apenas para as sondagens, a estratégia do silêncio ou de dizer o mínimo, pode até ser o caminho mais rápido para Belém. Naturalmente, os candidatos que já vieram à superfície vão adotar a tática do forcado a provocar o touro para que ele invista ou, neste caso, a desafiar o submarino para vir à superfície. Mas Gouveia e Melo já pode ter percebido que tem vantagem em comportar-se como um peixe de águas profundas. Há de emergir quando achar que isso lhe traz benefícios e não quando convém aos seus adversários. A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta, essa.