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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
E vamos começar com uma boa notícia: Portugal tem boa nota.
Tem boa nota. Voltamos a ser os bons alunos da Europa e do mundo. Longe vão os tempos em que o rating do país andava pelas ruas da amargura, nos caixotes do lixo das zonas financeiras mais perigosas. Agora já estamos ao nível de países como a França e a Bélgica. Somos de confiança, somos os maiores, viva Portugal. Quem nos subiu o rating para A+ foi a Fitch e a memória de quando as agências de rating eram também o Diabo na Terra, já está muito distante. Hoje o governo orgulha-se desta boa nota, diz que é sinal de que os investidores internacionais confiam na economia portuguesa e assim parece que vivemos no melhor dos mundos. É pena que estas boas notas não cheguem ao bolso dos portugueses ou se chegam, é de uma forma muito indireta, tão indireta que nem se nota.
Mal se dá por ela. Paulo, uma maratona parlamentar vai chegar para esclarecer as polémicas com Luís Neves?
Não, dificilmente isso vai acontecer. O assunto não desaparece com a maratona parlamentar que está prevista para amanhã. De manhã vamos ter o ministro a ser ouvido na comissão parlamentar e à tarde vamos ter a discussão da moção de censura apresentada pelo Chega. Isto vai em plenário. Vão ser muitas horas consecutivas de Luís Neves e sobre Luís Neves. Sobre os esclarecimentos que o ministro dará de manhã, enfim, não sabemos se vão ser ou não eficazes. Vai ser a terceira tentativa de explicação. Depois de uma conferência de imprensa e aquela coisa da Madeira. Vamos ver então se são esclarecedoras. Vamos ver também que perguntas é que os deputados lhe fazem. Já sobre a moção de censura, sabemos que será chumbada, e chumbada largamente, mas o assunto não vai, obviamente, acabar por aqui, até porque há vários inquéritos a decorrer no Ministério Público sobre o assunto. A auditoria pedida também pelo Ministério da Justiça, a gestão da Polícia Judiciária. Por isso, aconteça amanhã o que acontecer, o ministro da Administração Interna vai continuar precariamente à espera destas averiguações das outras entidades.
Bruno, o vento está a mudar na Alemanha?
Está a mudar e sopra a favor da extrema-direita. A AFD conseguiu uma vitória histórica para o parlamento da região da Saxônia-Anhalt, uma região da antiga RDA, com uma população de dois milhões de habitantes. E por essa razão, pela dimensão da região, há quem desvalorize o alcance e as leituras nacionais destas eleições. Mas pode ser mesmo a primeira vez que a AFD consegue governar uma das regiões da Alemanha. Dificilmente será com maioria absoluta, visto que os 44% que terá alcançado poderão não chegar para obter a maioria de 42 deputados. Mesmo assim, deixou a segunda força política, os democratas cristãos da CDU, a mais de 20 pontos. Mas o partido de extrema-direita terá dificuldades em formar um governo de coligação, por falta de parceiros. As linhas vermelhas, o cerco sanitário está em vigor na Alemanha. Seja como for, este resultado é um sinal de que o voto na AFD já deixou de ser um fenómeno marginal e ameaça entrar mesmo pelo coração da política alemã.
E Paulo, afinal, qual é que é a piada de tentar segregar Jerry Seinfeld?
Isso ainda vamos ver, se isso tem piada ou não, mas parece que o humorista americano queria vir a Lisboa para se promover. Oportunista e para alcançar a fama está a bolha de nomes.
Sim, também está a começar, é preciso perceber.
É lógico. Tinha assim a bolha de nomes consagrados na comédia internacional, como o Tributo Pop, o conjunto Cucamonga, Inês Aires Pereira, os Sepala Mol, que é a dupla de Eduardo Madeira e Filipe Almeidão e Fonseca, Pedro Touchas e por aí fora. E desde abril que se sabia que Seinfeld ia atuar em Lisboa no dia 1 de novembro, durante este festival, o festival Comédia à la Carte. E há anos que o artista americano, nascido de uma família tradicional judaica, ele é judeu, manifesta publicamente o seu apoio a Israel, mesmo depois de 7 de outubro, há quase três anos, que ele manifesta esse apoio. Bom, pelo menos desde abril, havia aqui motivo, obviamente, para quem não quisesse atuar com ele, estar no palco. Mas só agora é que estes artistas portugueses decidiram que afinal não querem participar do mesmo festival, porque dizem: "Seinfeld apoia o alegado genocídio de Israel contra os palestinianos". E então começaram nos últimos dias a cancelar a sua própria participação. Antes assim, isto é menos mal do que tentarem boicotar a atuação do próprio Seinfeld, mas podiam, numa atitude mais responsável, ter dito logo em abril que não estavam disponíveis, porque assim só passam a ideia de que são de compreensão lenta. Como aquelas pessoas que só riem meia hora depois da piada ter sido feita.
Se calhar tu devias estar lá no palco.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.