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Está no ar o América Dividida das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é sempre do historiador Bruno Cardoso Reis, que está em Washington. Bem-vindo, Bruno.
Obrigado.
Olá. Bruno, importa começarmos pelo discurso de Joe Biden, que deixou acusações sobre a corrida à Casa Branca.
Pareceu-me que foi um discurso muito ao estilo de Joe Biden, que ele deve ter gostado de fazer, porque toda a sua carreira política tinha culminado na eleição pra presidente, mas muito com esta agenda, com esta ideia, que ele próprio muitas vezes afirmou, de impedir que Donald Trump continuasse a ser presidente, porque via em Trump uma ameaça aos valores da América, à democracia americana, etc. Obviamente, agora teve de fazer um discurso a reconhecer a vitória de Trump. Enfim, todo o discurso pode ser lido como uma espécie de crítica a Trump, porque Biden reconhece que Trump venceu, quando ele nunca fez isso em 2020. Oferece-se para colaborar na transição de poderes, coisa que ele não fez em 2020. Já disse que vai estar na cerimônia de posse, coisa que ele não fez também pela primeira vez em toda a história. Tudo isto é pela primeira vez em toda a história dos Estados Unidos, em 2020. E insiste neste ponto que é não podemos apenas gostar do país quando vencemos, não podemos apenas gostar dos nossos vizinhos quando concordamos com eles. E insistir neste ponto que é, no fundo, é uma variante desta máxima, que Mário Soares também usava muito, que é enquanto não estamos derrotados, enquanto não desistirmos de lutar. Podemos perder uma batalha, mas a luta continua. Foi muito esse o tom. Realmente, o discurso também surge num contexto em que há muito esta discussão sobre quem é que deve ser culpado pela vitória de Trump. Neste momento, acho que há aqui duas tendências, uma, democratas que dizem, basicamente, olhando para os números, realisticamente, seria impossível a algum democrata vencer. Há outros que dizem que se calhar era possível, mas tinha de ser uma figura que não fosse uma mulher, uma figura que em termos identitários permitisse buscar homens, etc. Como Biden fez no passado. E há quem diga que a grande questão foi que houve alguns erros na campanha, há aqui várias tendências. Que também tem a ver com esta disputa sobre se o partido deve virar mais ao centro, deve insistir nestas políticas identitárias, mas de outra maneira.
Sim, agora há toda uma reflexão a fazer.
Exatamente. Acho que o discurso de Biden nisso não adiantou muito, mas não há dúvida que também surge marcado por esse contexto.
E Bruno, este resultado mostra que as sondagens, analistas, jornalistas falharam ao não prever a vitória de Trump. É de fato assim?
Já agora, aqui uma curiosidade interessante ligando com a anterior, que é: para já, Donald Trump ainda não conseguiu ou provavelmente irá atingir o número total de votos, que foi a volta de 104 milhões, que ele conseguiu contra Joe Biden, mas não vai conseguir bater Joe Biden, que conseguiu a volta de 81 milhões. Ele vai ganhar com menos votos do que Joe Biden teve em 2020. Um dos grandes problemas claramente aqui foi que os democratas não conseguiram mobilizar muitos dos votantes que votaram por eles em 2020. E provavelmente aí a questão da economia é uma questão crucial. Em relação a essa questão, vamos lá ver. Acreditar que Donald Trump ia ganhar, porque se gosta de Donald Trump, não é análise, é fezada, é fé. E o fato de isso ter concretizado não transforma isso em análise, não deixa de ser fé. As sondagens, basicamente, pelo que vi até agora, embora tudo isso tenha depois de ser melhor estudado, e aqui nos Estados Unidos há muitas sondagens, e há muitas sondagens pós-eleições também pra se perceber exatamente o que é que aconteceu. Pelo que eu vejo, genericamente, os resultados estão dentro das margens de erro que estavam definidas, ou seja, na margem superior. Houve várias médias de sondagens que apontavam pra uma vantagem do Donald Trump na maior parte dos swing states, não em todos, mas na maior parte. E mesmo naqueles em que Harris tinha vantagem, geralmente era por margens muito curtas, que estavam bem dentro da margem de erro. Nós fomos sempre insistindo nesse ponto, que é perfeitamente possível que o Donald Trump ganhe. É verdade, também dizíamos, também é possível que Kamala Harris ganhe. Agora, com os dados disponíveis, não era fazer análise séria, dar certezas que eram impossíveis. E a verdade é que esta eleição acabou por ser um pouco menos renhida do que eventualmente se pensava, porque, nomeadamente nestes estados-chave, Donald Trump acabou por vencer, provavelmente porque os indecisos foram decidindo por Donald Trump nesta fase final. E isso é sempre também algo que é muito difícil as sondagens apanharem em tempo real. Mas sobretudo, eu queria aqui insistir neste ponto que é: as sondagens são declaradamente estudos de intenções de voto, não são garantias certificadas de que a pessoa vai votar e menos ainda que vai votar da forma como disse. As pessoas podem ter aquela intenção de votar assim e depois não ir votar, ou podem mudar essa intenção. E aquilo que é normal numa democracia é exatamente haver incertezas quanto ao resultado As sondagens são um instrumento, são dados que ajudam a perceber isso, como outros indicadores que fomos também discutindo e que apontavam realmente para uma vantagem para Trump, por exemplo, a grande insatisfação com o estado do país, à volta de 60% das pessoas diziam-se insatisfeitas, a questão da importância dada à economia, também em muitas sondagens. Mas realmente, numa eleições, numa verdadeira democracia, ao contrário do que diz Donald Trump, que afirmava que o único resultado possível era ele vencer, tudo o resto era inaceitável. Isso é assim nas ditaduras que organizam eleições. Numa verdadeira democracia, felizmente, as eleições à partida têm sempre um grau de imprevisibilidade, porque se são realmente as pessoas a decidir, podem mudar de ideias à última hora e é impossível, no fundo, eliminar completamente essa dimensão de alguma incerteza e fazer análise séria é dizer exatamente isso, indicar tendências, enfim, padrões, etc. Mas não dá certezas que não é possível dar com base nos dados existentes e com este facto fundamental. Eu, aliás, previ isso com toda a confiança, meses antes. Era fácil prever que o Vladimir Putin ia ganhar as eleições na Rússia, mas não era possível prever quem ia ganhar com certeza as eleições nos Estados Unidos.
É muito diferente, sim, cenários diferentes. Bruno, gostava também de falar de Susan Wiles. Como é que vês a nomeação de Wiles como chefe de gabinete de Trump?
Bem, é algo que agora vamos ter de acompanhar com alguma atenção. Até também temos de perceber o perfil da administração. Um dos lugares mais importantes será certamente o ministro da Justiça, o attorney general, que aqui acumula as funções com o procurador-geral. Portanto, é ele que lidera a Procuradoria-Geral da República, vamos dizer assim, o que lhe dá poderes excepcionais e geralmente lhe dá também um estatuto especial de autonomia em relação ao presidente, também muito garantido pelo Senado. Donald Trump sempre deixou claro que achava isso inaceitável, sempre mostrou grande insatisfação com os seus procuradores-gerais terem aderido a essas normas escritas e não escritas e, portanto, provavelmente vai tentar nomear alguém que seja um lealista. Esta nomeação era talvez a mais esperada. Chefe de gabinete pode parecer um lugar pouco relevante. Geralmente, é um lugar de imensa importância, inclusive na Europa, inclusive nos nossos governos, mas nos Estados Unidos, muitas vezes costuma-se dizer que o chefe de gabinete do presidente é a segunda figura mais importante a seguir ao presidente, porque basicamente é ele que controla a agenda, é ele que controla o acesso ao presidente e, portanto, é realmente uma figura de enorme poder. A Susie Wiles foi a co-chefe de campanha de Donald Trump, foi bastante elogiada, eu próprio elogiei várias vezes.
No discurso de vitória também.
Sim, eu próprio também elogiei, dizendo que era impossível garantir que Donald Trump fosse um candidato disciplinado. Eu acho que ele arriscou muito com uma retórica muito extremista, mas claramente isso não lhe custou votos, se calhar até ganhou. Mas nos aspetos que dependiam dos gestores da campanha, a campanha parecia-me bastante eficaz. Portanto, desse ponto de vista, parece-me uma nomeação justa. É a primeira mulher a ser nomeada. Não sei se isso será celebrado por muitas feministas. Talvez isto levante a questão de saber se realmente o que é mais importante são as ideias, os programas ou realmente a questão da identidade, mas em todo o caso, é geralmente vista como alguém competente e, portanto, eu diria, pelo menos dá aqui alguma garantia que há a tentativa de que esta administração e inclusive o processo de constituição da administração e nomeação dos ministros seja uma coisa relativamente organizada, mais organizada do que a Casa Branca de Donald Trump entre 2016 e 2020, que em muitos casos foi bastante caótica.
Bruno, vamos à nossa curiosidade e tenho uma pergunta para te colocar: por que o processo de certificação dos resultados nos Estados e também a nível nacional demora tanto e o novo presidente só assume o poder a 20 de janeiro?
Realmente é algo que tem a ver, mais uma vez, com a história dos Estados Unidos e com a geografia dos Estados Unidos, que foram coisas que falámos aqui muitas vezes nestas curiosidades. Realmente os Estados Unidos são um país enorme, ainda hoje isso é uma realidade, mas obviamente no final do século XVIII, ou seja, a primeira eleição presidencial decorre entre o final de 1788 e 1789. Portanto, nessa altura, obviamente, as dificuldades de comunicação rápida eram muito maiores. A deslocação das pessoas, de comunicação das notícias e, portanto, o processo está pensado exatamente tendo em conta essa realidade. Houve, apesar de tudo, uma adaptação. Inicialmente, a posse do primeiro presidente, George Washington, é no final de março, 30 de março 1789, depois passa para o início de março e depois já no século XX, é alterada realmente para 20 de janeiro ou 21 de janeiro, dependendo se o dia cair num domingo. Mas isso tem a ver muito com esta questão que é a dimensão e depois com um dado, esse novo, mas que justifica que isso tenha mantido, não só por tradição e por ainda haver, apesar de tudo, grandes distâncias, mas sobretudo a questão de a nova administração nos Estados Unidos nomeia imensos cargos. Trump quer nomear ainda mais, quer afastar muitos funcionários públicos de lugares permanentes, que são geralmente dados a especialistas, mas pelo menos 5 mil lugares têm de ser preenchidos. Portanto, isso é uma tarefa enorme. Essas pessoas têm de ser escolhidas, têm de ser nomeadas, têm de chegar a Washington, alugar casas, enfim, tratar de questões práticas, começar a ajustar os dossiês e, portanto, este período também serve para isso, para a nova equipa ser nomeada, ser escolhida, começar a tomar conhecimento dos dossiês. Há um processo montado para isso ser possível ainda antes de tomarem posse e, portanto, é isso que também explica que esta tradição se tenha mantido e não haja, por exemplo, como acontece na Grã-Bretanha, uma tradição de ao fim de poucos dias da eleição haver um novo primeiro-ministro.
Bruno, muito rapidamente e a terminar. A eleição ainda não acabou. Como é que estão as coisas no Senado e na Câmara dos Representantes?
Sim, realmente não acabou, ou seja, continuam as contagens e em alguns casos até as disputas. Por exemplo, o lugar de senador da Pensilvânia, onde Trump venceu, está por uma margem muito curta e, portanto, está a ser disputado, embora à partida os republicanos tenham ganho, mas as coisas estão a parecer favoráveis aos republicanos. Isso também acontece muito nestas eleições em que o presidente é eleito, pois nas eleições intercalares muitas vezes essas maiorias são difíceis de manter. Eles já têm garantida a maioria no Senado, com 52 senadores, mas provavelmente vão ter mais um ou dois e, portanto, é uma maioria bastante razoável, até porque depois podem sempre contar com o voto do vice-presidente se houver algum empate, se houver senadores dissidentes, vamos dizer assim. E no caso da Câmara dos Representantes, estão a muito poucos lugares, cinco ou seis lugares, de conseguirem os 218 que garantem a maioria. E a previsão é que provavelmente conseguirão uma maioria muito curta, talvez mesmo 218, 219, mas é o cenário mais provável. Isso significaria que realmente os republicanos controlariam todos os centros de poder. Portanto, quando se fala aqui em contrabalançar o poder de Donald Trump, pelo menos ao nível do governo federal, isso parece não ser muito realista com os dados que temos neste momento.
E Bruno, num próximo programa havemos ter a hipótese de falar sobre o significado disso na própria mudança dos Estados Unidos.
Exatamente.
Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Obrigada pela análise, Bruno. Bom fim de semana.
Obrigado.
Muito obrigada.