Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora o Novo América Dividida com o historiador Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Olá Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Esta tarde, nos Estados Unidos, tiveste a oportunidade de assistir ao comício de Kamala Harris. Como é que correu, Bruno? Um comício que teve direito a um editorial do The Washington Post, depois de toda a polêmica sobre apoios.
Sim, eu acho que provavelmente os editoriais do Washington Post vão ser, durante os próximos dias, uma espécie de versão em fascículos daquilo que acabou por não ser publicado por indicação do Bezos. Ou seja, no fundo, eles transformam este editorial sobre o comício de Kamala Harris numa declaração de apoio à Kamala Harris e numa declaração de crítica a Trump, dizendo, termina assim o editorial: "Este é o sítio ideal, porque realmente é o sítio que viu Trump lançar uma multidão contra o Capitólio, com uma violência e provocando uma destruição como não se via desde que os britânicos invadiram Washington e destruíram o Capitólio em 1814." Isto diz bastante do tom. Em relação ao comício, realmente ele foi apresentado, como aliás o de Madison Square para o Donald Trump, como uma espécie de comício de fecho da campanha, ou seja, não de fecho no sentido do último dia, mas de fecho no sentido de deixar aqui o mote para os últimos dias, para o último esforço de mobilização de votos até terça-feira. A própria manifestação, o próprio comício, é usado para mobilizar eleitores para fazerem trabalho voluntário ou telefone, ou mesmo em pessoa, na Pensilvânia, por exemplo, ou na Carolina do Norte, são os estados mais próximos da capital, sobretudo a Pensilvânia é muito próxima, que estão em disputa, que serão decisivos para a eleição. E também em termos de tom, ou seja, no fundo, Kamala Harris vem o tom, enfim, toda a cenografia muito patriótica, com o hino, com dezenas de milhares de bandeirinhas com as cores da bandeira, com os slogans, também vão muito no sentido de passar esta mensagem de Kamala Harris como alguém que é uma patriota, uma defensora da união e da unidade nacional contra alguém que é um divisor, que promove o medo, as divisões, os conflitos entre americanos, que divide americanos em inimigos e, no fundo, os leais a ele. Portanto, muito esse tema. Também uma visão muito liberal, ou seja, procurando contrariar esta ideia de uma radical de esquerda. Muitas referências a programas de apoio a pequenos empresários, muitas referências à política do Donald Trump ser uma política dirigista, estatista e que vai destruir emprego, vai criar inflação, a questão das tarifas como um imposto que é disfarçado, que é apresentado de outra forma, mas que será um imposto brutal sobre o consumo dos americanos e, portanto, vai levar a uma inflação mais descontrolada. A questão também do aborto apresentado em termos de liberdade de escolha, portanto, é muito esta imagem da muito liberal contra um presidente iliberal. Agora, há aqui uma questão que é, no meio de tudo isto, tínhamos precisamente na Casa Branca, que era o que se via ao fundo do palco onde estava Kamala Harris, a estragar ou pelo menos a contaminar, a criar ruído no meio da campanha.
Falas de Joe Biden, não é? A dizer que os apoiantes de Trump eram lixo.
Exatamente. Ou seja, foi uma declaração extremamente infeliz e no pior momento. Portanto, por um lado, desvia atenções da Kamala Harris, que devia ser a estrela naquilo que era o seu último grande comício, vamos dizer assim. Ainda por cima, desvia atenções também de toda a polêmica em torno do comício Trump e das várias declarações extremamente controversas, não só de Trump, mas de outros em Nova York. Portanto, no fundo, agora põe-se a questão, mas então também se condenou essas declarações, dizer que os porto-riquenhos eram lixo, agora não se condena estas de Biden. E portanto, tudo isso eu diria que não é útil para a campanha da Kamala Harris, cria-lhe aqui um ruído desnecessário. Enfim, há aqui um lado, depois, também extraordinário, que a mim parece-me evidente, e alguns, aliás, comentadores, analistas, políticos democratas vieram dizer: realmente foi um erro, aquelas declarações não deviam ter sido feitas, não se deve caracterizar nenhuns americanos como lixo. Mas depois é extraordinário, por exemplo, ver o candidato a vice-presidente do Donald Trump, J.D. Vance, que reagiu a toda esta polêmica sobre Nova York dizendo: "Vamos lá ter calma, isso são só umas palavras aqui e acolá, mas vamos crescer e ultrapassar estas coisas, são só umas palavrinhas." E agora está extremamente indignado com estas declarações de Biden. Portanto, há também depois aqui este lado de-
Desse aproveitamento, claro
...de aproveitamento político muito contraditório de um lado e de outro, mas parece-me que objetivamente não foi útil para Kamala Harris, vamos ver também se tem assim tanta importância. A verdade é que uma resposta recorrente da parte de representantes da campanha é dizer: "Não é Joe Biden que está a concorrer." Donald Trump faz declarações deste tipo todos os dias, passa o tempo a descrever os Estados Unidos como um caixote de lixo, múltiplos grupos de americanos como lixo, cidades inteiras como lixo e coisas piores, inimigos a abater pelos militares, etc. Vamos ver se isto tem algum impacto ou não. Mas isso desvia a atenção desta mensagem de Kamala Harris, que era de unidade, de apelo até aos republicanos. Houve vários participantes antes de Kamala Harris falar, dois deles eram um casal de agricultores republicanos da Pensilvânia, que pela primeira vez iam votar em uma democrata, e portanto, tudo isto desvia a atenção dessa mensagem de unidade, de união e o virar a página, que era algo em que Kamala Harris queria insistir, mas talvez ela possa passar, ainda que implicitamente ou tacitamente, a mensagem de virar a página também em relação ao Joe Biden. Ela, aliás, disse isso no comício também: "Eu não vou ser a continuação de Joe Biden, eu sou uma pessoa diferente, os desafios são diferentes".
Bruno, ainda o Washington Post, de acordo com uma investigação do jornal, Elon Musk não tinha documentos legais nos Estados Unidos quando fundou a empresa Zip2, que vendeu por 300 milhões em 99. Joe Biden reagiu prontamente, criticou a hipocrisia de Musk, disse: "O homem mais rico do mundo, afinal, era um imigrante ilegal cá, não estava a estudar, violou a lei e está a falar sobre todos estes imigrantes que estão a vir". Isto pode de alguma forma prejudicar a campanha de Trump ou se o ataque ao Capitólio não prejudicou nada, não o fará?
Eu acho que é uma história bastante interessante. Eu devo dizer que tenho bastante admiração pela capacidade empreendedora de Elon Musk, acho que é um inovador, é algo que é preciso para as economias, para os países avançarem, é algo que faz falta na Europa. Agora, realmente, sempre teve aquele lado, um certo egocentrismo, um certo narcisismo, que se calhar é preciso também para quem tem esse tipo de ambição, mas que se transfigurou, sobretudo nos últimos meses, de facto, em alguém que também procura um protagonismo político enorme, e aí torna-se um alvo legítimo para este gênero de questão. Quer dizer, apesar de tudo, se ele simplesmente se limitar a apoiar Donald Trump, era uma questão. Agora, ele está a ter um papel muito ativo na campanha, a fazer declarações com alguma frequência, inclusive grande hostilidade em relação aos imigrantes, falando de invasão, de ocupação. Ora, ele próprio é um imigrante da África do Sul e, pelos vistos, foi um imigrante ilegal, que também é algo que acontece a muitos americanos, enfim, em gerações sucessivas, que vêm para os Estados Unidos com um determinado visto, acabam por perceber que há enormes oportunidades econômicas no país, ajudam, aliás, a desenvolver economicamente o país, a criar novas empresas, novo emprego e acabam por ficar. E às vezes, nesse acabam por ficar, estão numa situação ilegal durante um certo período e depois acabam por se legalizar. Agora, tudo isso seria normal, tirando que realmente Elon Musk se aliou aqui, alinhou e tem alinhado com uma narrativa nativista de hostilidade visceral em relação aos imigrantes ilegais, que realmente eu diria que torna-se complicado de sustentar com esta contradição. Agora, como dizias também, enfim, estamos num contexto em que há uma extrema polarização. Há uma enorme tendência para as pessoas funcionarem em silos fechados, em termos informativos. Muita gente já não ouve, não lê a imprensa de referência, fica-se pelas redes e por informação que está completamente direcionada para aquilo que são as suas preferências ideológicas e, portanto, provavelmente muitas dessas pessoas nem se vão aperceber de toda esta questão ou se surgirem essas notícias vão desvalorizá-las, algo que aliás é um dos aspectos mais questionáveis de toda esta retórica de Trump, que é utilizar uma expressão que é historicamente, objetivamente, uma expressão nazi, que é esta ideia da imprensa mentirosa, da fake news, da imprensa falsa. A Lügenpresse é uma expressão que vem do tempo dos nazis e que basicamente significava que tudo o que vocês leem sobre factos, em imprensa de referência mais ou menos independente, é mentira, só aquilo que o líder diz é que é verdade. Portanto, são os factos que são validados pelo nosso partido, pelo nosso conjunto de correligionários ideológicos, é que é verdade. Isso é obviamente um dos grandes problemas da política americana atual, desta extrema polarização.
Bruno, vamos à nossa curiosidade. Quando é que os candidatos começaram a fazer campanhas eleitorais como hoje se conhecem?
Bem, nós temos nos recordar que, como já recordámos aqui com muitas destas curiosidades, nós estamos na eleição número 59, ou seja, a primeira eleição presidencial foi em 1788, 89, ou seja, há mais de 200 anos. Tivemos muitas fases. Há uma primeira fase em que basicamente não se faz campanha. E isso é mesmo verdade com o primeiro presidente, o George Washington, que foi, como já falámos aqui, eleito por unanimidade. Portanto, era alguém que era absolutamente consensual, um grande herói, alguém que tinha demonstrado que não queria o poder para si, tinha entregue o poder militar, devolvido esse poder ao Congresso, que depois recusou ser reeleito uma terceira vez. Depois, esse modelo marca muito aquilo que é suposto ser a prática até meados do século XIX e até um pouco depois, sendo que na prática, a partir de George Washington, começa a haver campanhas, mas em que o candidato não tem qualquer protagonismo, é suposto ficar em casa, geralmente na sua casa de campo, enfim, retirado, à espera que lhe venham exigir que ele assuma a presidência por aclamação popular. O presidente Polk, por exemplo, quando aceitou a nomeação democrata Em 1848, exactamente, tem esta expressão: "A presidência, por tradição, não se procura nem se recusa". Portanto, é um dever que se tem de aceitar. Na verdade, a partir de Andrew Jackson, nos anos 20 do século XIX, sobretudo também com Lincoln, começa a haver esta prática de uma espécie de pré-campanha, ou seja, anos antes da campanha presidencial, os candidatos procuram tornar-se conhecidos a nível nacional com viagens, com discursos, com debates. Mas é uma espécie de pré-campanha antes da verdadeira campanha em que essa postura de reserva é suposto manter-se. Isso só muda realmente a partir do final do século XIX, também por causa de mudanças tecnológicas. Aí começa a ser possível usar os comboios para fazer campanhas presenciais num país que é continental. Temos essa modalidade, o chamado Whistle Stop, que começa muito como populista também, o Brian, no final do século XIX, mas depois, por exemplo, o presidente Roosevelt, o presidente Truman fazem isso com muito sucesso já nos anos 30, em que também começam a utilizar a rádio, que é o primeiro veículo de comunicação de massa e que dá um acesso direto dos líderes políticos à população. É sobretudo Franklin Roosevelt que começa a utilizar isso com grande eficácia nos anos 30. A televisão só começa a ganhar importância a partir dos anos 60. Em 1960 é o primeiro debate televisivo e o segundo só vem em 1976, portanto ainda há alguma resistência a essas mudanças. E eu diria que a última grande mudança surge com o Obama e com o Donald Trump, que é o peso crescente das redes sociais, também aliado às sondagens e à ciência dos dados, uma espécie de microgestão da mobilização eleitoral, da procura do apelo ao voto. Tudo isso realmente criou aqui uma realidade nova, também de um acesso muito mais fácil e muito mais direto dos candidatos às pessoas. Isso começa já um pouco com o Obama e depois ganha ainda mais peso com o Donald Trump e hoje em dia é algo que é absolutamente incontornável.
Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Muito obrigada pela análise, Bruno. É sempre um gosto. Até amanhã, Bruno.
Até amanhã. Obrigado.