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Este é o som do América Dividida, sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir do Washington, DC. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Olá, Bruno. Vamos olhar então para a vitória expressiva do Donald Trump. Mérito do republicano ou demérito do legado do Joe Biden?
Eu penso que é sempre uma combinação de coisas. Acho que houve problemas, provavelmente, na campanha democrática. Claramente, Trump teve uma aposta acertada quando, nomeadamente na fase final, achou que esta retórica muito radicalizada provavelmente seria mobilizadora do seu eleitorado e não iria afastar eleitores em grupos-chave. Um dos grupos que foi fundamental, de acordo com os dados que já começamos a ter, por exemplo, foram os latinos, em que Joe Biden venceu em 2020 ainda com a volta de 60% dos votos e agora foi quase uma inversão, Kamala Harris ficou pelos 44%. E sobretudo porque conseguiu, apesar de tudo, ainda algum apoio das mulheres. Mas eu diria que a questão da inflação-
Pois, era o que eu ia perguntar, se o custo de vida e a imigração levaram Trump a esta vitória histórica.
Sim, parece-me isso bastante evidente. Eu, mais uma vez, estou à vontade, porque quando tínhamos ainda o Café América, várias vezes falámos desta questão, que me parecia que a inflação é um problema muito sério, politicamente é muito impopular em todo lado, ninguém gosta de ver os preços subirem de uma forma muito acelerada. As pessoas não estão habituadas a isso. É verdade que historicamente, este pico de inflação, sobretudo tendo em conta factores como a pandemia e várias guerras, inclusive a guerra na Ucrânia, não são assim tão de estranhar, nem são assim tão altos. Nos anos 80, por exemplo, no século XX, foram muito mais elevados e noutros períodos, mas a verdade é que as pessoas não viveram essa experiência ou já se esqueceram. E pareceu-me que a complacência da administração Biden, o facto de até ter provavelmente intensificado esse fenómeno com políticas muito expansionistas de recuperação após a pandemia e com declarações que realmente a inflação era algo que seria provavelmente necessário, que era normal, isso pareceu realmente um erro e parece confirmar-se isso, tendo em conta, mais uma vez, também aquilo que as pessoas vão dizendo sobre os principais factores que decidiram o voto e depois a questão também da fronteira, da imigração ilegal, que mais uma vez é um problema estrutural. Se temos um país muito rico e se temos países muito mais pobres e com situações até muitas vezes de grande instabilidade, violência criminosa, etc., na vizinhança, a tendência é para as pessoas tentarem ir para o sítio onde estão mais seguros e onde ganham melhor. Mas a verdade é que também os democratas desvalorizaram o problema durante muito tempo. Houve aquela aposta também completamente disparatada em cidades santuário. Uma espécie de zonas de não lei, onde não se cumpre a lei em relação a imigrantes ilegais, etc. Portanto, tudo isso acabou por ser usado pelo Partido Republicano, que percebeu que estamos aqui num realinhamento. Realmente, há uma tendência, que não é apenas nos Estados Unidos, que é global, para o crescimento desta tendência para o nacionalismo nativista, para políticas populistas, também muito ajudadas pelo contexto pós-crise financeira de 2008, que abalou muito a confiança das pessoas nas elites e nos especialistas, etc. E portanto, eu diria que esses factores foram importantes. Do ponto de vista da campanha de Kamala Harris, apesar de tudo, melhorou substancialmente em relação àquilo que estava a acontecer com Joe Biden. Um dos problemas de base também foi esse, de Joe Biden nunca se devia ter recandidatado, como é evidente. E também estou à vontade, que é um tema que eu falo há muito tempo, que é esta tendência preocupante para uma certa gerontocracia nas elites políticas americanas, mas em particular no caso do presidente. E Kamala Harris, que melhorou em relação ao Joe Biden, apesar de tudo, parece-me que não terá entendido o grau de insatisfação das pessoas. Quer dizer, esta coisa de fazer uma campanha de alegria, ter a Oprah Winfrey a gritar: "Nós somos muito alegres". Há muita gente nos Estados Unidos que não está muito alegre. Portanto, acho que isso foi talvez um pouco tone deaf, como eles dizem aqui, não perceber bem. E sobretudo também esta questão de que ela nunca conseguiu distanciar-se de Joe Biden. E esse acho que, a haver um erro que se possa apontar a ela, e estas coisas nunca são apenas a questão do candidato, é esse. E basta ver que a campanha de Trump pegou naquela resposta desastrosa e desastrada que ela dá quando lhe perguntam o que é que fazia diferente ao Joe Biden. "Bem, não me ocorre nada". Pegou nisso e passou o tempo a passar isso nos seus anúncios publicitários. Até pode ter sido por lealdade, por qualidades humanas muito apreciáveis, mas na política às vezes há que ser implacável e já lhe seria difícil fazer esse exercício de distanciamento, mas ela realmente não se mostrou para o fazer e claramente não o conseguiu fazer.
Bruno, e uma coisa é o que se diz em campanha, o que disse Donald Trump. Vejamos o que vai dizer a prática. O que é que podemos esperar em relação às guerras, à NATO, ao futuro da Europa?
O Donald Trump é um objeto político bastante particular e complicado desse ponto de vista. Eu insisto sempre nisso. Eu acho extraordinário, com um lado de imprevisibilidade, mas com opções que são bastante recorrentes em relação, por exemplo, à Europa. Ele é o único presidente na história dos Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, pelo menos, que diz que a União Europeia e a Europa são inimigos, estou a citar, dos Estados Unidos. Por exemplo, esta opção em relação à imigração, por exemplo, a opção em relação às tarifas, à ideia de que as tarifas são uma coisa maravilhosa, estou a citá-lo literalmente, uma coisa maravilhosa, e basicamente a solução para todos os problemas. Ele chegou a dizer que uma das formas de acabar com guerras é ameaçar com tarifas, com impostos alfandegários. Como se ele chegasse ao Irã ou Israel, o Irã com o qual, aliás, os Estados Unidos têm relações diplomáticas e praticamente não têm relações econômicas, e o facto de ele dizer: "Atenção, eu vou decretar um imposto alfandegário", isso levasse o Irã ou Israel a deixar de entrar nos conflitos que entendem que devem entrar. Ou a mesma coisa em relação à Rússia e à Ucrânia. Há esta questão que é, muitas vezes os próprios defensores do Donald Trump, no fundo, os defensores mais envergonhados, e nomeadamente na Europa, a grande defesa que fazem do Donald Trump é dizer: "Não acreditem nele, não levem a sério", porque implicitamente o que estão a dizer é que ele é um mentiroso compulsivo e passa o tempo a dizer tudo e mais alguma coisa, mas nada vai acontecer. Eu, apesar de tudo, levo um pouco mais a sério. Acho que se tem que levar mais a sério aquilo que o Donald Trump diz, não como uma declaração daquilo que vai acontecer, porque nem sequer um ditador totalitário consegue levar a cabo tudo aquilo que pretende, porque o mundo oferece alguma resistência, mas como uma declaração de intenções. Acho que temos que levar a sério aquilo que ele diz realmente como declaração de intenções. É a única base que temos para fazer algum tipo de análise. O resto é achismo e fezada. Não vai fazer nada do que diz, mas com base em quê? É verdade que o Donald Trump também, mais do que ser um mentiroso compulsivo, é o que aqui nos Estados Unidos chamam de bullshit artist. É alguém que diz o que for preciso, seja verdade ou não, para conseguir o que quer. Acho que essa é a caracterização mais rigorosa. Pode ser que agora, estando eleito, eu acho que houve uma série de coisas que disse que afinal já não são precisas. E também é verdade que ele tem aqui um aspecto que pode atenuar um pouco o efeito potencialmente destrutivo e radical de muitas das promessas que ele fez, que põem em questão coisas como as relações econômicas transatlânticas ou até a própria economia e o comércio mundial, como a sobrevivência da NATO, a própria sobrevivência da Ucrânia, etc. Há uma coisa que é, ele realmente, em muitos casos, é bastante indisciplinado, é bastante preguiçoso, de acordo também com muitos dos testemunhos das pessoas que trabalharam com ele, é muito fácil de distrair e é muito atento, sobretudo, à questão da imagem. Se lhe oferecerem uma oportunidade para ele poder dizer que conseguiu isto e aquilo.
É o que fará.
Alguns destes objetivos, mesmo que isso esteja muito longe de ser verdade, se calhar, será o suficiente.
Bruno, e é impossível não te perguntar: como é que devemos interpretar a eleição de um presidente que foi condenado em vários processos? O que isso nos diz sobre a democracia nos Estados Unidos? Trump é o primeiro presidente condenado por crimes.
Sim, diz-nos bem do caráter absolutamente excepcional do Donald Trump na política americana e também a dinâmica de transformação radical que isso traz. Eu acho que, francamente, foi um erro fazer contra Donald Trump. Há outros que eram inevitáveis, ou seja, a questão, por exemplo, do seis de janeiro, o assalto ao Capitólio, é de uma extraordinária gravidade. Basicamente, é uma tentativa de fazer um golpe, de impedir umas eleições de terem o seu natural resultado, que é que o vencedor dessas eleições assuma o poder e quem perdeu pacificamente ceda o poder. Ele lança uma multidão violenta sobre o Parlamento para tentar impedir isso. Acho que, francamente, a questão de quanto é que ele pagou uma estrela pornográfica, isso alimentou.
Depois, está numa secundária, depois disto.
E pior, do ponto de vista de quem acha que o Donald Trump realmente é problemático na política americana e até global, é que alimentou esta narrativa vitimista e populista, ou seja, de que ele é vítima das elites. Mas a verdade é que isso claramente não foi, acho que por esta razão, um argumento suficiente para o impedir de vencer. Terá sido importante para muitos americanos que votaram contra Donald Trump, apesar de tudo, Kamala Harris teve 66 milhões de votos, algum peso terá tido, mas para a maioria dos americanos, claramente, isso ou não foi um fator, porque ignoraram e valorizaram outros aspectos, a questão da economia, ou viram neste prisma, de que isto é um sinal de que ele realmente tem aqui as elites contra ele. Também não podemos subestimar, até historicamente, realmente a popularidade da ideia de um homem forte, que está acima da lei, e com isso consegue ser mais eficaz. Isso é algo que no passado foi muitas vezes muito popular. Houve ditadores que chegaram ao poder por via eleitoral. O próprio Hitler é um bom exemplo disso. Obviamente, não estou aqui a dizer que o Trump será um novo Hitler, mas há aspectos em que se pode fazer comparações e, também neste aspecto, já agora, que é esta ideia de que quem vence uma eleição, também aparentemente em algum comentário que eu ouço, parece que quem vence uma eleição de repente passa a ser automaticamente um grande democrata. Se fosse por esse critério, o Hitler também era um grande democrata, porque também venceu as eleições em 1932 e 1933, antes de assumir o poder legalmente na Alemanha em 1933. Obviamente, sabemos que não é necessariamente assim.
Bruno, a terminar. Há já quem aponte J. D. Vance como candidato a presidente daqui a quatro anos e que este vai ser o pior inimigo de Trump durante este mandato. Concordas?
O vice-presidente não tem poderes para além daqueles que o presidente lhe der, ainda menos no contexto atual, em que aparentemente os republicanos vão conseguir uma maioria relativamente confortável, pelo menos para o que tem sido habitual nas últimas décadas no Senado, onde o vice-presidente tem o poder desempatar quando há um empate de 50 a 50, o Senado tem 100 senadores. Portanto, acho que vai ser interessante perceber essa dinâmica. Se tivermos em conta o passado, que é o padrão que me parece mais rigoroso, basicamente Mike Pence não teve nenhum tipo de função, nem de peso significativo, e acabou, aliás, completamente marginalizado, ostracizado e com apelos da multidão trumpista para ele ser enfocado. Isso diz bem do grau de afastamento entre ele e Donald Trump, e obviamente não o apoiou nesta reeleição. Mas acho que vai ser interessante perceber isso. Donald Trump não é alguém que convive propriamente muito bem com alguém a fazer-lhe sombra, com a ideia de que pode haver alguma alternativa válida a ele. Portanto, acho que seria normal na política americana que isso acontecesse, mas tendo em conta a forma como Donald Trump olha para a política e para o poder, acho que provavelmente não será exagerado prever aqui uma relação de alguma tensão com J.D. Vance, que provavelmente tentará evitar isso mostrando total lealdade a Donald Trump, como aliás já tem sido o caso, afastando-se de declarações muito críticas que tinha feito no passado.
Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos, muito obrigada pela análise. Bom descanso, Bruno. Até amanhã.
Obrigado.
Obrigada.