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Começa agora o novo episódio do "América Dividida", sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington, nos Estados Unidos. Bem-vindo, Bruno.

Obrigado.

Olá. Chegamos ao dia das eleições, os candidatos andaram pela Pensilvânia, um estado decisivo, e o final da campanha ficou marcado por contrastes. Enquanto Trump insiste em acusar os democratas de estarem a enganar os eleitores, Kamala Harris alerta para os perigos de um segundo mandato de Trump e invoca otimismo naquilo que descreve como uma nova geração de liderança na América.

Sim, Trump, no fundo, eu acho que redobraram ou reforçaram, eventualmente, a sua mensagem. Kamala Harris é muito esta ideia: vamos virar a página. Isso, por exemplo, é claramente um slogan vencedor. As pessoas nos comícios começam a gritar, estava a ouvir exatamente o da Pensilvânia, o de Filadélfia, e as pessoas começam a gritar entusiasticamente: "Não queremos voltar, não queremos voltar atrás, queremos virar a página, portanto, não queremos voltar a ter Donald Trump". E isso se liga a esta ideia de que ela também é, em certo sentido, uma candidata de mudança, embora isso seja realmente um pouco paradoxal e, à partida, até aponta porque a eleição será eventualmente mais renhida e porque é que, à partida, também um candidato republicano teria condições, em situação normal, para vencer, que é esta questão que nos últimos 20 anos, os democratas têm governado sempre, com exceção dos quatro anos de Donald Trump. No fundo, aqui a aposta é o temor do regresso de Donald Trump, é um fator mobilizador muito importante, a par desta ideia de que ela tem algumas propostas novas, que vai defender também a questão dos direitos reprodutivos, como se diz aqui, ou seja, a questão do aborto, etc. Donald Trump também redobrou a sua aposta, ou seja, uma retórica muito radical, esta ideia de que forças sombrias estão a ameaçar os Estados Unidos, de que se vocês, estou a citar também um comício hoje na Carolina do Norte, "nós não os vamos deixar tomar o nosso país, não os vamos deixar conquistar, ocupar o nosso país. Estas são as últimas eleições em que podemos recuperar o nosso país". É esta a ideia de que, ou é Donald Trump ou é o caos e o fim dos Estados Unidos, pelo menos tal como os seus apoiantes o entendem. Claramente, os dois consideram que isso são mensagens mobilizadoras. No caso de Kamala Harris, isso certamente também é resultado de uma gestão de campanha bastante profissional. No caso de Donald Trump, a gestão da campanha até parece bastante profissional, mas é evidente que quem decide em última análise o que ele diz é ele. Até porque em muitos casos percebe-se que ele simplesmente ignora o que está escrito e continua a falar durante mais uma hora, às vezes, do que está previsto.

Bruno, as eleições começam daqui a umas horas. Tu estás em Washington, são menos cinco horas. Dá para sentir o reforço dos dispositivos de segurança? Será que há risco de violência e de uma nova guerra civil?

Na verdade, há estados onde se começa a votar à meia-noite, onde já se está a votar. Por exemplo, no New Hampshire. São estados que começam basicamente no primeiro minuto do dia, da primeira terça-feira de novembro, que é a regra que está estabelecida. Mais uma vez, variam e muito os horários, as horas em que se abre e que se fecha. De um modo geral, a partir das 07h, nos diferentes fusos horários, estão abertos, mas há estados em que inclusive começam logo à meia-noite, como eu dizia, no New Hampshire. Sim, há realmente referências por todos os estados. Estava a ver também referências à Pensilvânia, o próprio procurador-geral a dizer: "Quem achar que pode ameaçar pessoas, funcionários eleitorais, etc., tentem, que nós temos a polícia preparada, temos as celas preparadas", estou literalmente a citar. Aqui, por exemplo, em Washington, D.C., foi muito visível na zona de Georgetown, que tem não só a universidade, mas também a residência oficial da vice-presidente, ou seja, do vice-presidente, neste momento da vice-presidente Kamala Harris, o chamado Naval Observatory. Embora seja um complexo enorme, até maior do que a Casa Branca, penso eu, é realmente um parque enorme com vedações e com segurança bastante reforçada, mas em todo caso, ela foi ainda mais reforçada, há uma espécie de segunda cerca, deixou de ser possível circular no passeio junto à cerca dessa zona. Há genericamente um reforço de segurança, quer da vice-presidente, quer do candidato Donald Trump, e também um reforço grande da segurança nos locais de voto e, em particular, naqueles que geram mais controvérsia e que poderão dar mais controvérsia, por exemplo, nestes estados oscilantes e sobretudo também em círculos eleitorais, em municípios que dizemos em counties, como dizem aqui, Maricopa, no Arizona, na zona da capital, de Phoenix, no Arizona, ou, por exemplo, nestas zonas dos arredores de Filadélfia.

Bruno, e o que estas eleições significam para o futuro da esquerda e também da direita nos Estados Unidos?

Mas também tinhas esta questão sobre a violência.

Sim.

Realmente, a polarização extrema e o facto de, embora eu diria com uma gravidade diferente ou com um tom diferente, nos dois lados há claramente uma grande desconfiança em relação ao outro. No caso de Donald Trump, esta ideia de que muitos dos apoiantes democratas nem sequer são cidadãos, que estão a cometer fraude, que estão a roubar eleições, que querem conquistar, ocupar o país, etc. Tudo isso, no fundo, pode levar à legitimação da violência. E depois, do lado de Kamala Harris, também é verdade que há a ideia de que Donald Trump ameaça a democracia americana. Estes extremos de polarização, esta tendência para uma certa demonização e desumanização do outro lado, Donald Trump a falar de imigrantes que envenenam o sangue dos Estados Unidos, é o tipo de linguagem que historicamente levou ao surgimento de violência política, inclusive de guerras civis. Eu não estou a dizer que estou a prever isso aqui Acho que não seria de espantar que acontecesse episodicamente, a começar pela questão do escrutínio, do apuramento dos votos, sobretudo se as eleições forem realmente muito renhidas e se começar a haver alegações de fraude aqui ou acolá, da parte destes líderes políticos, por exemplo, Donald Trump, mas também de líderes, eventualmente, do Partido Democrático. Apesar de tudo, há um fator que pode limitar isso, ou dois, em relação a outros contextos, que é: as forças da ordem são muito fortes e muito organizadas nos Estados Unidos e estão bastante mais preparadas, acabámos de referir isso. Além disso, também as pessoas têm muito mais a perder. Há até estudos que falam em, depois aqui varia, mas a partir do momento em que se começa a haver um PIB per capita significativo, acima dos seis, dos 10 mil dólares, muito dificilmente há episódios de violência política organizada ou guerras civis. Por que é que um país com a diversidade étnica e religiosa da Suíça não tem guerras civis, mas a Bósnia, ali ao lado, teve? Se calhar, tem alguma coisa a ver com o diferencial no nível de riqueza e, portanto, com o facto de os suíços terem muito mais a perder se perderem a cabeça e começarem a disparar uns contra os outros do que propriamente aconteceu no caso da Bósnia ou de outras regiões. Agora, em relação ao futuro da esquerda e da direita. Já falámos aqui disso na minha entrevista com o Farid Zakaria, na conversa que eu tive com ele, ele era muito claro a dizer: “Há aqui uma viragem.” E há uma viragem no sentido, sobretudo, do Partido Republicano mudar muito, ou seja, deixar de apoiar o comércio livre, se tornar muito mais protecionista, nacionalista, de se fechar muito mais, de deixar de valorizar as alianças tradicionais, como a própria Aliança Atlântica, como a NATO, apostar numa política muito mais isolacionista. Ele defende a ideia de que mesmo que Trump perca, provavelmente esta tendência continuará e eu tendo a concordar, a não ser que houvesse aqui uma derrota muito significativa, ou seja, se as sondagens estivessem muito erradas e se realmente houvesse uma derrota muito significativa de Donald Trump. Se ele mais uma vez perder, mas perder por poucos, se continuar a reclamar que até venceu, ou seja, vender esta tese, mesmo que sem provas, de que houve fraude, etc., isso provavelmente ajudará, no fundo, a ele manter um certo controle sobre o partido. Obviamente, se ele vencer, essa viragem será ainda muito mais acelerada e reforçada, quer em termos de nacionalismo económico, de protecionismo, quer em termos de desvalorização de alianças e maior isolacionismo. No caso do Partido Democrático, apesar de tudo isto, reforçará também uma tendência que é para, se houver aqui uma vitória, no fundo, apostar nesta ideia de que a perda de votos entre o eleitorado tradicional, nomeadamente homens, vamos dizer assim, trabalhadores brancos, pode ser compensada com o crescimento do número de licenciados, pessoas com formação superior, profissionais, portanto, melhor qualificados, mulheres, e que isso permitirá criar uma coligação um pouco diferente da coligação histórica do Partido Democrático. Apesar de tudo, há aqui uma questão por resolver, se isso é suficiente. Se ela perder, eventualmente poderá ganhar mais força esta ideia de que os democratas precisam ter respostas mais eficazes para as preocupações das classes mais baixas, das classes trabalhadoras, que eram o eleitorado tradicional do Partido Democrático, e até para algumas minorias que eram muito dadas como votantes garantidos, como os afro-americanos ou os latinos.

Bruno, e que impacto vão ter estas eleições no resto do mundo e em particular aqui na Europa?

Eu diria, com algumas exceções, há bastante preocupação com a ideia de Donald Trump regressar à Casa Branca. As exceções são Vladimir Putin, para começar, ou seja, isto pode-lhe permitir conseguir arrancar uma espécie de vitória, embora a um custo tremendo na Ucrânia, pode até colocar seriamente em causa a Aliança Atlântica, pelo menos como uma aliança funcional, eficaz, que era sempre o seu grande objetivo. Por exemplo, alguém como Orbán, no contexto da União Europeia, o primeiro-ministro húngaro, que se está a apresentar como uma espécie de interlocutor privilegiado de Trump, portanto, de repente pária no contexto da União Europeia, poderia passar a ser aqui uma espécie de principal ponte com uma nova administração Trump. Imagino que a China de Xi Jinping, que se quer consolidar como uma grande potência global, também não verá com maus olhos o caos e a confusão que pode ser associada a Donald Trump, embora com custos económicos, eventualmente significativos, em termos de guerras comerciais, etc.

E Netanyahu?

Netanyahu também provavelmente desejaria uma presidência Trump, certamente lhe daria carta-branca. Já é mais duvidoso, do meu ponto de vista, que Trump se empenhasse muito em apoiar com tropas, com meios no terreno, um Israel mais agressivo, mas certamente deixaria de o condicionar tanto ou de pressionar tanto para negociações, para acordos de paz com os palestinianos, etc. Arábia Saudita, provavelmente, também veria Trump com bons olhos desse ponto de vista, de não colocar grandes problemas. E de um modo geral, os regimes mais autocráticos. Os grandes receios vêm, sobretudo, diria eu, dos aliados tradicionais dos Estados Unidos, dos países com relações económicas mais intensas com os Estados Unidos, países como o Canadá e o México, a par dos países europeus, das democracias europeias. Esses provavelmente prefeririam realmente Kamala Harris, porque mesmo que haja discordâncias, mesmo que haja uma tendência para um maior nacionalismo, mesmo que se manteve com Joe Biden, até por causa destas preocupações de conquistar a classe média trabalhadora, etc., a verdade é que isso é feito, apesar de tudo, com alguma diplomacia, valorizando, apesar de tudo, como Kamala Harris também insiste nos seus discursos, o contributo que os aliados dão para a segurança e para a prosperidade dos Estados Unidos. Portanto, eu diria, uma eleição de Donald Trump provavelmente aumentaria guerras comerciais, o problema da inflação iria se agravar. Do ponto de vista económico, ironicamente e contrariando tudo aquilo que ele diz, provavelmente seria bastante mau para os Estados Unidos, mas seria péssimo para a economia europeia. E também em termos de segurança e defesa, de garantia de segurança da Europa, seria péssimo. Em termos globais, eu diria que aumentaria a tendência para um certo caos, confusão, que já está associada a este retraimento estratégico dos Estados Unidos, cria alguns vazios de poder, mas isso seria muito agravado com a propensão de Trump para ser muito pouco diplomático, muito caótico. Com Kamala Harris, essa tendência para algum retraimento também existiria, mas de uma forma muito mais diplomática e, portanto, criando menos riscos de aumentar o caos, a confusão, os conflitos, que já são uma tendência estrutural no sistema internacional atual, do meu ponto de vista.

A emissão especial da Rádio Observador para acompanhar as eleições nos Estados Unidos começa às 17h, prolonga-se até às 10h de amanhã. E Bruno Cardoso Reis, claro, contamos muito contigo em direto de Washington ao longo desta maratona. Por isso, vai descansar e até logo, Bruno. Obrigada pela análise.

Obrigado. Até logo. Obrigado.