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Véspera de eleições nos Estados Unidos. Falta um último sprint até ao dia tão esperado na corrida à Casa Branca. O último dia de campanha é passado na Pensilvânia. Kamala Harris e Donald Trump escolheram o estado que, neste ciclo eleitoral, é considerado o mais importante dos sete estados decisivos. Harris continua à frente nas sondagens nacionais, mas por uma margem inferior a dois pontos. Termina a sua campanha de três meses com três comícios na Pensilvânia, o estado com mais votos no Colégio Eleitoral. O candidato republicano ruma a Reading, na Pensilvânia, e ao final da tarde estará em Pittsburgh, tal como Harris. Mas a última sondagem do Iowa, divulgada este fim de semana, faz-nos olhar para este estado, porque Harris está ligeiramente à frente do ex-presidente Trump num estado que o republicano tinha conquistado anteriormente. E é, em parte, graças ao apoio das mulheres à vice-presidente, o que vem mostrar o papel que o gênero desempenhou nestas eleições. João Diogo Barbosa, especialista em Relações Internacionais, obrigada por estar conosco mais uma vez. Esta eleição tem sido uma batalha dos sexos ou a divisão também é feita, por exemplo, em relação à escolaridade?

Rosite, eu acho que, neste momento, tudo aponta para uma eleição dividida por sexo. E essa é uma grande questão e uma grande novidade da campanha eleitoral. Vamos ver se, em primeiro lugar, isso se verifica, porque se se verificar, é uma mudança tectônica na forma como as campanhas são conduzidas na América e até na forma como a política passará a ser feita. Ou seja, se se verificar a ideia de que os democratas cavam uma grande vantagem junto às mulheres e os republicanos cavam uma grande vantagem junto aos homens, a forma como a partir de agora as campanhas vão ser conduzidas e a própria ação política se faz diariamente vai mudar radicalmente. Até agora, a maior parte da sabedoria consolidada em relação às campanhas assumia que as principais diferenças tinham a ver com questões sociais, questões econômicas e questões de escolaridade. Foi muito nesse âmbito que foi disputada a primeira eleição de Donald Trump em 2016. Foi muito aí que foi disputada a eleição entre Joe Biden e Donald Trump em 2020. E precisamente Joe Biden vence essa eleição porque consegue, ao contrário de Hillary Clinton, convencer os homens a votar nos democratas, e homens que seriam não só os homens com maior escolaridade, menores rendimentos, mas homens um bocadinho por todo o tipo de classe social. Acho que vai ser muito importante perceber também se se verificar a divisão entre os sexos, se isso tem a ver com os candidatos, ou seja, o fato de os democratas candidatarem uma mulher e os republicanos, mais do que candidatarem um homem, candidatarem Donald Trump. Mas, no final do dia, independentemente de isto ser uma novidade que possa ser replicada noutras eleições, essa divisão, que neste momento é antecipada por quem faz sondagens, tem muito a ver com a questão do aborto. Ou seja, se na maior parte dos assuntos que dominaram a campanha, a questão na cabeça dos eleitores, a divisão de gênero não é muito evidente. E pensemos, por exemplo, no estado da economia. A economia estar bem ou estar mal afeta de forma mais ou menos igual homens e mulheres. A questão do direito ao aborto e, de forma mais ampla, como os democratas a têm colocado, os direitos das mulheres, o facto de serem directamente as mulheres, e o facto de ser Donald Trump o candidato, apesar de a sua posição não ser inteiramente radical nesse âmbito, certamente ajuda. Donald Trump é uma pessoa muito conhecida, é uma personalidade muito conhecida dos americanos, mas é uma personalidade que é conhecida principalmente por não ser um grande aliado da luta das mulheres. E isso pode ser absolutamente relevante nestas eleições e pode fazer com que essa divisão entre os sexos, se calhar, não se repita em 2028, se Donald Trump não for candidato, ou até antes disso, nas eleições intercalares dos próximos dois anos.

Na Pensilvânia, há cerca de 100 mil eleitores indianos americanos e uma grande proporção de porto-riquenhos americanos, cujo voto pode ser potenciado pela piada ofensiva feita num comício de Trump. Por tudo isto, Pensilvânia é, nesta eleição, o mais decisivo dos estados?

É, sobretudo, o estado mais decisivo pra Kamala Harris. Se nós virmos um mapa, especialmente aqueles mapas interativos que permitem ponderar cenários e ver qual é a vantagem no Colégio Eleitoral, a Pensilvânia é seguramente o estado que está mais dividido e que ao mesmo tempo representa um número muito relevante de eleitores no Colégio Eleitoral, são 119, julgo eu. E isso tem muita relevância, porque entre aqueles que estão mais empatados de acordo com as sondagens, Kamala Harris não tem, se calhar, grande possibilidade de chegar, por exemplo, ao Iowa, apesar da recente sondagem. E a Pensilvânia, ao significar 19 votos, pode ser absolutamente fundamental num cenário em que, como temos eleições estaduais muito próximas, qualquer eleitor a mais pode ser decisivo e, aliás, até pode evitar um impasse. A verdade é que, estando as eleições tão empatadas em tantos estados diferentes, também não é de excluir que simplesmente as sondagens não estejam a conseguir captar A verdadeira tendência do eleitorado, isto é, que em muitos desses estados onde os resultados das sondagens nos mostram um empate, na verdade, pode haver uma ligeira vantagem de um dos candidatos e no final do dia, se calhar a Pensilvânia não era assim tão necessária ou disputada, porque tal como a Pensilvânia se mudou para Donald Trump ou seguiu Kamala Harris, muitos daqueles estados vizinhos fizeram o mesmo. O fato de nós termos, neste momento, sondagens muito empatadas e que dão prevalência a estados como a Pensilvânia, pode não significar que amanhã ou nos próximos dias não estejamos a falar de uma vitória no colégio eleitoral que é retumbante, só que se calhar é retumbante porque o método do winner takes it all dos estados americanos beneficia quem ganha se calhar por 0,5 ou por 1 ponto percentual nesses pequenos estados que ainda não estão propriamente decididos.

O voto antecipado disparou nesta última semana, perto de 80 milhões já votaram, menos do que em 2020, claro, mas esse ano foi de pandemia, como todos nos recordamos. Com estes votos, apesar de eles só serem contados quando as urnas forem encerradas, mas sabendo a tendência dos estados, já é possível antecipar um desfecho?

Eu não tenho coragem para o fazer. Acho que tudo o que nós soubemos durante esta campanha, desaconselha previsões, até porque a campanha pareceu decidida várias vezes por vários lados. Eu recordo que a certa altura de Trump ter sofrido uma tentativa de atentado, foi uma notícia bastante relevante e que pareceu ter sido a campanha. Hoje já quase nem nos lembramos disso. E não seria se calhar o número de votos antecipados ou votos por correio a decidir tudo. Acho que, aliás, é um dos problemas da forma como a América se organiza para votar. Estes períodos longos em que os eleitores podem votar antecipadamente, seguramente servem para aumentar a participação eleitoral, mas criam várias dificuldades. A primeira é fazer sondagens, porque não é exatamente fácil estimar, neste período longo em que as pessoas podem votar antecipadamente, quem é que vai deixar de o fazer no dia das eleições. Mesmo que actualmente os números do voto antecipado favoreçam ligeiramente os republicanos em estados importantes, não é exatamente fácil prever que os democratas não vejam essas notícias e decidam em massa amanhã comparecer às urnas, e dificulta um pouquinho a previsão, mas dificulta também a contagem. A partir de amanhã, esses votos, em que a disputa tem que ser contados, é possível que, como já temos visto noutras eleições, os votos por correio sejam os mais difíceis de contar e sejam daqueles que levam a campanha a prolongar-se para já depois do momento em que os votos foram depositados em urna, ou seja, os votos por vezes chegam tarde, por vezes são extraviados, há uma série de problemas com a forma como esses votos fazem o seu caminho e depois como são contados entre cada um dos estados. E também os estados têm grande liberdade para organizar a forma de contagem e há estados que naturalmente são mais competentes ou mais experientes a fazê-lo. E a verdade é que se estivermos ainda na quarta-feira bastante inseguros quanto ao resultado das eleições, ou até ao final da semana ou mais tempo ainda, num cenário mais caótico, à espera de saber quem foi o vencedor das eleições, provavelmente isso deve-se ao voto antecipado. É uma chatice para quem tenta fazer previsões, é uma chatice para quem tente contar o voto, mas não me parece que seja um indicador muito seguro de quem vai ganhar. Acho que o único indicador em que podemos confiar é mesmo o número de votos contados. E mesmo esse é possível que seja disputado nos próximos dias.

Há a possibilidade de os resultados serem tão próximos, que o processo se arraste. Em caso extremo, a decisão até pode chegar só a 20 de janeiro. Até lá, Joe Biden continua com poderes para tomar decisões, por exemplo, sobre um apoio militar à Ucrânia. Um reforço de um apoio militar à Ucrânia, claro.

E a verdade é que nós já quase nos esquecemos de Joe Biden, tirando a referência ao lixo nos apoiantes de Donald Trump, Joe Biden tem estado desaparecido, e isso provavelmente é intencional. Joe Biden não tem grandes números de popularidade, e a verdade é que nem o fato de se ter retirado da campanha eleitoral e de se ter tornado uma figura menos envolvida na luta política diária o beneficiou muito aí. A verdade é que Joe Biden constitucionalmente mantém os seus poderes, não só até à data da eleição, mas até à data da tomada de posse do próximo presidente em janeiro de 2025. Dito isto, ainda que formalmente os poderes residam todos em Joe Biden, há uma série de questões políticas que desaconselham a tomada de decisões pesadas. Desde logo, esta parece-me ser a principal, não só em relação à Ucrânia, mas também, por exemplo, em relação a Israel, a ideia de que as suas ações, por ser o presidente democrata em exercício, possam afetar a campanha eleitoral. E essa parece ter sido uma constante dos últimos meses, o fato de Joe Biden ter sido lento, quer no apoio à Ucrânia e em relação a Israel, ter sido um pouquinho menos rápido do que tinha sido em outras alturas. Isso tem claramente a ver com as leituras políticas e com o dano que isso podia fazer à campanha de Kamala Harris. Depois de terminada a campanha eleitoral, Joe Biden é um presidente a prazo, claro. Havendo urgências é de pensar que tome decisões rapidamente, mas mesmo do ponto de vista material, a sua legitimidade, sendo um presidente que está de saída, sendo um presidente que talvez conheça, já nem isso podemos assegurar, talvez conheça o seu sucessor, isso desaconselha que tome grandes decisões e que tome decisões em sentido contrário às que seriam tomadas pelo seu sucessor, seja ele quem for. Vale a pena recordar que a partir do momento em que haja maior definição sobre quem ganha as eleições, começa o trabalho de transição entre a presidência de Joe Biden e a presidência de Kamala Harris ou de Donald Trump. E esse trabalho, que também é moroso, que é burocrático e é chato, desaconselha que grandes alterações sejam feitas nos próximos meses. Este é o curso normal do governo. Como sabemos, há sempre eventos que obrigam a mudar as regras do curso normal dos eventos.

Só para terminar, hoje no comício de Harris em Filadélfia, na Pensilvânia, vão participar Oprah e Lady Gaga. As estrelas têm tido algum impacto? Pelas sondagens, não parece.

Não, e as estrelas estão bastante do lado de Kamala Harris, sobretudo as estrelas das artes e do entretenimento. Nós podemos considerar, por exemplo, o Elon Musk, que é o grande apoiante de Donald Trump, como uma figura extremamente relevante nas redes sociais, por exemplo. Tem milhões e milhões de seguidores na sua rede social e tem um impacto aí que não é menor do que o das outras estrelas. A verdade é que seguramente terão algum impacto todos esses apoios, todos esses endorsements a Kamala Harris, porque, lá está, são pessoas cujos conteúdos ou cujo posicionamento público chega a pessoas que normalmente não estão assim tão ligadas à política e que ajudam a criar a ideia de que pessoas que são admiradas votam mais num determinado candidato do que no outro. Agora, em termos tangíveis, não me parece que tenha sido decisivo até agora, pelo que sabemos das sondagens, o apoio das estrelas. E isso foi muito relevante quando Taylor Swift, por exemplo, declarou o seu apoio público a Kamala Harris. Tinha sido um momento muito esperado, muito discutido durante a campanha. Aconteceu, mas foi mais um daqueles momentos que já foi esquecido, já passou rapidamente no ciclo noticioso. Portanto, a resposta simples é não, talvez não seja pelas estrelas que Kamala Harris vai ganhar as eleições, talvez seja mais pela Pensilvânia.

Obrigada, João Diogo Barbosa. Muito obrigada por teres estado conosco mais uma vez e por falar em Lady Gaga, ficamos com "Shallow".