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A oito dias das eleições, as sondagens continuam a apontar para um empate entre Donald Trump e Kamala Harris. No voto antecipado, mais de 40 milhões de norte-americanos já votaram, 42% deles são registados democratas, 40% republicanos e 18% sem partido. Falta um pouco mais de uma semana, mas ainda é impossível antecipar um vencedor. Na reta final, os candidatos à Casa Branca apostam tudo. Donald Trump juntou 20 mil apoiantes no Madison Square Garden, em Nova York. Kamala Harris junta vedetas e usa o trunfo Michelle Obama. Ana Cavalieri, obrigada por estar conosco mais uma vez. Vamos olhar para esta reta final. Começamos com o comício no Madison Square Garden. O jornal New York Times fala numa energia negra e racista, com insultos contra os porto-riquenhos e Kamala Harris. Trump voltou a prometer uma deportação em massa e não destoou do registro xenófobo do comício. Diversas personalidades hispânicas vieram logo sinalizar o apoio a Harris nas redes sociais. Mesmo assim, Donald Trump continua a trilhar esta estratégia. Presumo que seja a melhor para garantir o seu eleitorado.

Boa tarde. Eu penso que o comício foi quase uma segunda convenção final do Partido Republicano pela dimensão. Nós tivemos Donald Trump a falar, mas também tivemos Elon Musk, Robert Kennedy Jr, que tinha feito as primárias no Partido Democrata, mas depois acabou por apoiar formalmente Donald Trump. Tivemos também Vivek Ramaswamy e também J.D. Vance, todos a discursar. E eu penso que eles cometeram um erro. E eu penso que foi a primeira vez que vi a campanha de Donald Trump ter de emitir um comunicado a dizer que não estava de acordo com aquilo que um dos intervenientes tinha dito, que foi este cómico. Foi um humorista, ele é chamado aquilo que nos Estados Unidos se chama roast comic, ou seja, é um comediante que faz insultos e insulta toda a gente, mas fez insultos que eu penso que nesta altura da campanha, com base racista, parece evidente, nomeadamente relativamente a Porto Rico.

Chamando-lhe uma ilha de lixo.

Exato. Penso que foi um erro, até porque nós sabemos que Pensilvânia, que é um estado muito importante, é a terceira maior diáspora de porto-riquenhos. E penso que também uma campanha como a de Donald Trump, que neste momento está a sair-se muito bem com os hispânicos, principalmente homens e homens mais novos. Nas sondagens que têm agora saído, em que têm as chamadas cross tabs, que é basicamente um desdobramento com as várias demografias, homens, mulheres, hispânicos, brancos, negros, como é que eles estão a votar. Existem algumas sondagens em que Donald Trump até vai à frente em hispânicos, o que é algo que parecia impossível até há quatro anos, em que, por exemplo, Joe Biden, a demografia que acaba por lhe dar a vitória em termos de etnia e raça, foi precisamente os hispânicos. E agora eu acho que isto foi um tiro no pé. De resto, há coisas positivas na perspectiva da campanha republicana relativamente ao comício ontem em Madison Square Garden. O discurso de Trump foi um pouco o mesmo, muito longo, com algumas divagações, um pouco desconexo, às vezes, em termos do raciocínio.

Isso acontece quando ele larga o papel, não é?

E é algo que também é o que encanta as multidões que estão à volta. Ele está a falar muito pra multidão, eles gostam de quando ele sai do script. E aliás, é uma das críticas muito dirigidas a Kamala Harris, é que ela está sempre a seguir um script, ou físico ou mental. E quando fazem uma pergunta, por exemplo, no town hall que ela fez agora na CNN, ela foi muito criticada, porque quando o Anderson Cooper, que era o jornalista, tentava fazer perguntas de seguimento, ela não saía daquilo que eram as respostas formuladas e os eleitores independentes que queriam saber um bocadinho mais sobre o que ela pensava da imigração, porque é que os três primeiros anos da administração Biden foram tão permissíveis em termos de imigração, ela não saía desse script e houve assim momentos um bocado embaraçosos para Kamala Harris. Para Donald Trump, a mensagem principal do discurso foi: vocês estão melhores agora ou há quatro anos, quando eu era presidente, nomeadamente naquilo a que se chamam os fundamentals, que são aqueles grandes temas que normalmente movem a escolha do eleitorado, economia, inflação, imigração, crime, política externa, apesar desta última com menos impacto. E ele esteve muito focado nesses temas, mas com muitos insultos, que é a maneira de fazer política. Há muita gente que eu acho insuportável, mas muitos da base dele são atraídos por essa postura um bocadinho mais agressiva.

Enquanto isso, a candidata democrata foca os seus comícios precisamente nas comunidades latina e negra, sabendo que precisa insistir nestes segmentos da população. São estratégias totalmente opostas e são as mesmas desde o início da campanha, com os resultados das sondagens a mostrarem exatamente o mesmo ou quase sempre o mesmo. Resta saber se esta é a melhor estratégia também para Kamala Harris.

Eu penso que é o que ela pode fazer, porque ela neste momento está a fazer playing defense, ou seja, está a tentar garantir aquilo que são as demografias que normalmente são fiéis ao Partido Democrata e que neste momento eles estão a ver escapar entre os dedos, nomeadamente era negros e hispânicos, nomeadamente os homens. Aliás, tanto Barack Obama como Michelle Obama, no discurso que ela fez, ela quase que dá um ralhete àquilo que são os homens, nomeadamente negros ou de minorias étnicas, que não percebem que, segundo ela, ao escolherem Donald Trump, estão a pôr em causa o bem-estarE a liberdade das próprias mulheres que eles amam, mães, filhas, irmãs. E é muito essa mensagem, até um pouco de dar um raspanete, um ralhete. Penso que isso, neste momento, é o que eles têm de fazer. Penso que a Kamala Harris tem também algumas limitações que ela não está a conseguir ultrapassar. E existe um segmento que a acha pouco convincente a explicar porque ela mudou de uma perspectiva muito radical progressista em 2019 para a postura mais moderada que ela agora aparenta ser. Ela não está a fazer um bom argumento relativamente a essa mudança. E alguns também têm alguma queixa relativamente àquilo que é a falta de pontos concretos e específicos do que ela faria diferente relativamente a Biden. Esses são os grandes temas que normalmente a prejudicam. Ela não está a conseguir aprofundar bem, ou pelo menos comunicar a pessoas que estão descontentes com a performance de Biden, mas também acham o Trump truculento, insuportável, chato e tóxico, então estão ali um pouco no limbo. E ela não está também a conseguir convencer que não é ou radical, ou que consiga então mudar também aquilo que foram os shortcomings à administração Biden. Mas eu penso que neste momento ela está muito a tentar garantir aquilo que são as demografias que tradicionalmente têm votado democrata ultimamente, já que ela já perdeu a classe laboral e a classe operária branca, que era de antes, nos anos 80, nos 90, início dos anos 2000, eram eles que sustentavam o Partido Democrata. A partir de Donald Trump, em que o Partido Republicano abandonou o mainstream, aqueles conservadores fiscais, muito intervencionistas em política externa e passou a ser um partido mais a tentar seduzir a classe trabalhadora e a classe operária e mais isolacionista em política externa. Eles perderam, no fundo, esse segmento da working class, ganharam as elites urbanas e também ganharam as demografias de minorias étnicas, que agora estão a perder, pelo menos homens. E ela está a tentar conseguir garantir e também tentar convencer mulheres, principalmente mulheres dos subúrbios e de condados rurais, que tradicionalmente apelariam mais aos republicanos, assim muito na linha de Liz Cheney, e está a tentar agora ainda conseguir também seduzi-las. Vamos ver se resulta.

Eu vou falar exatamente daquilo que a Ana estava a falar, do comício com Michelle Obama, porque de fato a ex-primeira-ministra tirou as luvas. Ela na convenção disse: "If they go low, we go high.” Desta vez, fez um apelo à luta, assumiu-se até um pouco zangada com as hesitações masculinas, dizendo, estou a citar: “Um voto nele, em Trump, é um voto contra nós”, ou seja, contra as mulheres. E isto chega ao público masculino? Ela fez uma série de acusações e contou histórias de casos relacionados com mulheres que estiveram à beira da morte por não poderem abortar, na altura em que já era certo que o feto era inviável. Esta mensagem chega ao público masculino?

Isto é a minha perspectiva pessoal, e penso que não. Apesar de, se há alguém que pudesse convencer pela sua retórica e também pelo seu carisma, talvez seria a Michelle Obama, que muitas pessoas sentem-se atraídas pela maneira dela comunicar mensagens políticas que normalmente são complexas. Todavia, eu penso que o Partido Democrata tem ou está a sofrer de um problema mais profundo, que não consegue responder àquilo que são as necessidades que os homens estão a demonstrar. Eu não quero aqui muito desenvolver teoria política, que é uma chatice, mas o Partido Democrata, já há quatro, cinco anos, adotou um pouco aquilo que é a teoria, a política, a ideologia do Partido Democrata da Califórnia, que é muito preso à teoria da interseccionalidade, critical race theory, gender queer theory, e abandonou um pouco aquilo que era o liberalismo clássico do Bill Clinton. Muito na perspectiva que o capitalismo e o neoliberalismo são sistemas que tentam promover aquilo que são estruturas de opressão de uma maioria branca e masculina, e que, portanto, os homens, nomeadamente os homens brancos, independentemente de não terem participado nessas estruturas de opressão, como a escravatura, têm aquilo que se chama o privilégio branco, estruturalmente avançam e é preciso discriminar contra eles para tentar, no fundo, colmatar. E eu penso que os homens ainda estão muito assustados, talvez, com esse tipo de mensagem que foi muito preponderante no Partido Democrata, em algumas figuras, como Gavin Newsom, a própria Kamala Harris em 2019. Por exemplo, existe um comentador, Van Jones, que é um comentador da CNN alinhado ao Partido Democrata, a dizer que esta é a principal mudança que o Partido Democrata tem de fazer, é como apelar aos homens. E ao mesmo tempo, estamos a ver Donald Trump ir ao Joe Rogan, por exemplo. Se Kamala Harris quisesse fazer uma mensagem eficiente, efetiva, eficaz para os homens, ela teria ido ao Joe Rogan, que ela foi convidada e o Joe Rogan queria muito que ela aparecesse, que é o podcast mais visto, principalmente numa demografia jovem e masculina. E ela não vai. Ela não vai porque seria talvez complicado ela conseguir conciliar uma mensagem para as duas bases dela, as bases mais radicais e o mais centrista. Iriam abrir-se talvez possibilidades para ofender um dos lados, e ela está muito cuidadosa. Mas se ela quisesse convencer os homens e chegar aos homens, teria, por exemplo, a um Joe Rogan. Mas eu percebo o risco que poderia ser. Michelle Obama, eu penso que já Barack Obama tinha feito essa, no fundo, tentar dar esse ralhete aos homens, eu penso que nesta altura não é o que irá funcionar. Vamos ver.

Já Barack Obama tinha usado o mesmo discurso, insistindo nos homens negros, nos eleitores jovens. Isto é prova de que Kamala Harris mais precisa deste eleitorado?

Sim.

Se os outros lhes escaparem pelos dedos, como estava a dizer, este pelo menos tem que garantir.

Mas os homens negros, isso é outro problema. Atenção, isto são sondagens e é muito difícil ainda saber até que ponto estas sondagens vão ser uma boa previsão. Mas Donald Trump, em princípio, vai conseguir a maior percentagem do voto negro, e muito influenciado pelas mudanças que os homens negros estão a expressar, do que Mitt Romney ou John McCain. E até melhorando a percentagem que Donald Trump teve em 2016. Neste momento, ela não devia estar a gastar energias da campanha para conseguir segurar esta demografia, que à partida estaria já há muito parte do núcleo duro demográfico do Partido Democrata. Mas neste momento é o que ela tem de fazer, porque os números, e provavelmente também as sondagens internas que a própria campanha está a fazer, estão a indicar que esses ou não estão a dirigir-se às urnas, porque já estamos com voto antecipado, ou então estão mesmo a votar em Donald Trump. Basicamente, aquilo que poderá salvar a campanha de Kamala Harris é tentar não perder muito homens negros e homens hispânicos, e que mulheres brancas, nomeadamente dos condados rurais e talvez dos subúrbios, saiam em prol dela um pouco em massa e com uma aversão àquilo que é o estilo mais truculento de Donald Trump. Isto é uma batalha de sexos, esta campanha, e muitos vão escrever sobre isso no futuro ou no imediato curto prazo, porque vai ser isso que vai determinar.

Se há alguma coisa que tem marcado é o género. A campanha tem sido marcada pelo género.

Não só nos Estados Unidos como na Europa, isto é uma trend mundial e podemos dedicar uma hora de rádio a discutir o porquê de os homens e as mulheres estarem com comportamentos eleitorais cada vez mais diferentes e distintos. Mas nesta eleição vai ser isso que vai decidir, se Donald Trump consegue mobilizar os homens, homens com número suficiente, porque cada um está, por exemplo, os homens estão a votar em Trump numa proporção, segundo as sondagens, 55%-45%, e as mulheres 55%-45% para Kamala Harris. Sendo certo que as mulheres, e os homens também, mas homens solteiros, homens casados e mulheres casadas com filhos tendem a preferir Donald Trump e o Partido Republicano, e são as mulheres solteiras, sem filhos, daí J.D. Vance ter feito aquele comentário que lhe saiu mal, mas que o substrato do comentário tem algo de realidade, e que as mulheres solteiras e sem filhos estão a conseguir votar numa vantagem de 40 pontos, que é enorme, no Partido Democrata, e é isso que tem salvo ou poderá salvar a campanha de Kamala Harris.

Ana Cavalieri, muito obrigada por ter estado conosco. No fecho, o Nelson Ferreira recorda o fim de semana de campanha, olha para as iniciativas que estão previstas para hoje na Geórgia, Wisconsin e Michigan. É um trabalho com a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar.

O fim de semana da campanha eleitoral ficou marcado pelo megacomício de Donald Trump no Madison Square Garden, em Nova York. E se os democratas têm usado e abusado das presenças de estrelas da pop nos seus eventos, também Donald Trump conseguiu neste comício apresentar-se ao lado de alguns famosos, como o lutador de wrestling Hulk Hogan ou o apresentador de televisão Dr. Phil. E foi de um dos convidados que saiu uma das frases que marcou todo o evento. Trata-se do comediante Tony Hinchcliffe, que no meio da sua atuação, apelidou Porto Rico de Ilha de Lixo. O tom irado continuou mais tarde pelo próprio candidato republicano, que anunciou que caso vença as eleições, vai concretizar a maior operação de deportação de imigrantes de sempre. Quanto ao arranque desta semana na campanha eleitoral, fica marcado por iniciativas de Donald Trump, já hoje no estado da Geórgia, e pelas presenças dos candidatos a vice-presidente no crítico estado do Wisconsin. Mais tarde, Tim Walz vai também juntar-se a Kamala Harris num comício na cidade de Ann Arbor, no Michigan, onde a estrela convidada é a cantora Maggie Rogers. "Love You For A Long Time", Maggie Rogers, 2019, Estados Unidos da América.