Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Está no ar o novo episódio do "América Dividida". Eu sou a Maria João Simões. Como sempre, a análise é do historiador Bruno Cardoso Reis, que está nos Estados Unidos. Bem-vindo, Bruno. Bom dia, boa noite.
Olá, bom dia e boa noite.
Impossível passarmos ao lado da morte do líder do Hamas, Sinwar. Bruno, esta conquista, entre aspas, de Israel, pode ter impacto na eleição americana?
Eu penso que a expectativa é que, apesar de tudo, torna as coisas um pouquinho mais fáceis para a administração Biden. Aliás, não por acaso, Harris falou da questão expressamente, até antes de Trump se pronunciar e, portanto, no fundo, tentando aproveitar esta vitória militar de Israel para procurar avançar com o resto da agenda da administração Biden, ou seja, sublinhar esta preocupação com a defesa de Israel e, portanto, no fundo, dizer: "Havia aqui uma ameaça muito séria que, entretanto, está claramente a ser derrotada e, portanto, isso dá margem a avançarmos com os outros aspectos", nomeadamente a questão de negociações para uma certa pacificação regional e até recuperar um processo de paz com os próprios palestinianos, começando pela questão dos problemas com a libertação dos reféns e também com os civis em Gaza. E, portanto, eu diria, isto torna a situação um pouco melhor para a administração Biden. Agora, não sabemos o que é que vai acontecer nos próximos dias. Está pendente esta questão de um ataque de Israel ao Irão. Será que esta vitória em Gaza permite ao governo israelita não avançar com isso? É suficiente para restabelecer a credibilidade regional do Estado de Israel, que foi muito afetada pelo 7 de outubro, ou não é assim que o governo de Israel pensa e, sobretudo, até politicamente, não é isso que convém a Netanyahu e, portanto, ele vai querer continuar a avançar com uma postura que aposta mais na demonstração da força militar, que é algo que é importante para a direita israelita e que ele sabe também que provavelmente ajuda mais o presidente Trump, cria mais dificuldades a Joe Biden. Portanto, teremos de ver, mas realmente é um assunto que é claramente bastante relevante para a campanha. Portanto, eu volto a sublinhar, a candidata, que também é vice-presidente, mas está claramente aqui a pronunciar-se como candidata, Kamala Harris, não desperdiçou a oportunidade de vir falar sobre o assunto. Ora, por regra, as questões externas não são propriamente a grande prioridade na campanha dos candidatos nos Estados Unidos.
Entretanto, Trump, numa outra frente, afirma que Zelensky nunca devia ter deixado acontecer a guerra com a Rússia. Faz sentido este tipo de afirmação?
De facto, confirma aquilo que tem sido repetidamente a tendência de Trump para culpar a Ucrânia por ter sido invadida. Portanto, a culpa da invasão não é do invasor, não é do imperialismo expansionista russo, não é da autocracia de Putin. No fundo, implicitamente, o problema foi a Ucrânia querer ser um país plenamente independente e ter a sua própria política externa e até optar por se aproximar não da Rússia, não de Putin, mas do Ocidente, da Europa livre e dos Estados Unidos. Portanto, realmente nada disto seria normal num contexto político normal nos Estados Unidos, vai contra tudo aquilo que são as tradições de política externa americana há muitas décadas, pelo menos desde os anos 30, e também contra as melhores tradições do Partido Republicano, que era conhecido ainda há pouco tempo como sendo o partido de Reagan. Um dos grandes trunfos e triunfos políticos do Partido Republicano, de Reagan e depois do seu sucessor e vice-presidente George Herbert Bush, o primeiro presidente Bush, foi precisamente a vitória na fase final da Guerra Fria, a libertação dos países do leste da Europa da dominação soviética, da Rússia comunista, de Moscovo. E, portanto, tudo isso, aparentemente, atualmente não interessa para Donald Trump, que aposta aqui nesta ideia de uma espécie de paz a qualquer preço e em que, sobretudo, quando há alguma crítica a fazer, ela é feita à Ucrânia e não propriamente à Rússia.
Depois de Kamala Harris na Fox News, Trump foi ao canal de língua espanhola Univision para um town hall. Bruno, isto no fundo é cada um a tentar captar o eleitorado onde tem maiores dificuldades. Ontem falámos sobre Harris, e a Trump correu bem? Irá conseguir o voto da comunidade latina?
Ele realmente fez esse esforço, foi talvez das entrevistas ou destes town halls, portanto, destas sessões com perguntas do público, aquela em que ele esteve menos à vontade. Ele tinha feito um, por exemplo, na Fox com mulheres, mas entretanto percebeu-se que basicamente era com mulheres, todas elas filiadas, ligadas ao Partido Republicano. Algumas até declararam que já tinham votado em Donald Trump neste voto antecipado, etc. Aqui realmente houve perguntas mais complicadas, mais difíceis. Eu não estou seguro de Donald Trump se ter saído assim tão bem. Houve perguntas do tipo: "Se deportar toda esta gente, quem é que vai trabalhar, quem é que vai fazer os trabalhos difíceis?" Ou "Eu já fui republicano, mas fiquei muito chocado com o tipo de caos, desordem, violência do 6 de janeiro. O que tem a dizer sobre isso?" Portanto, realmente Donald Trump não tenho a certeza de ter respondido exatamente bem a todas essas questões, mas apesar de tudo percebe-se esse esforço e a verdade é que as sondagens lhe são mais favoráveis do que no passado e o voto latino é crucial em estados como por exemplo o Arizona, onde representam 40% da população, mas mesmo na Pensilvânia representam três ou quatro milhões de pessoas que podem ser cruciais. E aí realmente Kamala Harris consegue melhores resultados nas sondagens do que estava a acontecer com Joe Biden, mas ainda assim é o pior resultado para o Partido Democrático nas últimas três eleições. O Partido Democrático tem estado sempre a descer entre os votantes latinos. A diferença entre Kamala Harris e Trump é de 54% favorável a Kamala Harris, 40% para Trump e depois 6% de indecisos, são os tais que estão aqui a procurar se conquistar Nas eleições de 2020, por exemplo, Biden venceu com uma margem de 36 pontos. Claramente, o Partido Republicano está a conseguir ir buscar algum eleitorado a estes votantes latinos, seja por questões de maior conservadorismo, questões ligadas, por exemplo, ao aborto, à religião, às escolas religiosas, seja por questões económicas, seja, mais uma vez, também por esta questão do diferencial de género. Aquilo que também se percebe nas sondagens é que estes votos latinos que estão a ser captados pelos republicanos são tendencialmente mais de homens do que de mulheres, portanto, provavelmente é uma combinação destes vários fatores. É claramente algo em que vale a pena Trump apostar, mas veremos depois nas sondagens e, sobretudo, nas eleições, qual é o balanço deste esforço.
E está a decorrer o Al Smith Dinner, uma gala anual da diocese de Nova Iorque, e é tradicional os dois partidos estarem representados. Harris mandou um vídeo, já Trump esteve presente e falou. Como é que se saíram, Bruno? E pergunto também como será o voto católico.
Realmente é um jantar que tradicionalmente era utilizado até para os dois candidatos, porque coincidia o calendário, quando era ano de eleições, coincidia com ser próximo das eleições, para quebrar um pouco o gelo e ver que tem naquela tradição dos jantares americanos em que há sempre algumas piadas no discurso dos vários intervenientes. Mas realmente, desta vez, Kamala Harris optou por não estar presente em pessoa. Aquilo que vem da campanha dá a entender que ela não queria estar em conjunto com Donald Trump, porque acha que de facto Donald Trump não é um candidato normal e, portanto, não queria ter aqui uma ocasião que pudesse normalizar Trump. Ao mesmo tempo, também não queria deixar de marcar algum tipo de presença, porque o voto católico é realmente importante e está muito dividido. Joe Biden, que aliás é um presidente católico, e um católico praticante, devoto, etc., da linha mais progressista, do catolicismo mais progressista, ganhou o voto católico nas últimas eleições, por exemplo, Trump ganhou em 2016, mas sempre com margens relativamente curtas, porque realmente os católicos estão muito divididos. Há muitos católicos mais progressistas que valorizam, sobretudo, a doutrina social da igreja e, portanto, mais esta dimensão de combate às injustiças, à pobreza, etc., a dimensão mais social, se quisermos. E depois há uma corrente mais conservadora, de católicos mais conservadores, se quisermos, ou que focam-se mais nas questões de comportamento, na moral sexual, etc., a questão do aborto, sobretudo, e esses tendem a votar mais no Partido Republicano. Mas é um voto muito disputado e apesar de tudo, os dois marcaram algum tipo de presença. Eu diria, Donald Trump, eu assisti realmente a tudo aquilo, até comentadores na Fox News a seguir vieram dizer: "Alguém lhe devia ter dito para parar", porque houve ali algumas piadas de um tom.
Sim, muita crítica e grande graça.
Mas depois houve outras que já não tinham grande graça, pouco caridosas, vamos dizer assim, e até na reação da sala, houve uma ou outra que mereceu uma reação claramente negativa, de apupos ou próximo disso. O próprio Donald Trump acusou o toque, não é? Ele não gosta de ser apupado. Disse: "Esta multidão não me é muito favorável, sei que aqui muita gente é elite", etc. Trump não terá corrido tão bem desse ponto de vista, mas não deixou de marcar pontos por estar presente. Em todo o caso, sinaliza que de facto as coisas estão diferentes na política americana. Esta tradição está de alguma forma em risco, porque realmente, os democratas veem Donald Trump como não sendo um candidato normal e também esta extrema polarização leva muitos republicanos a verem os democratas como uma ameaça, inclusive até em termos das liberdades religiosas, etc. E, portanto, o clima está cada vez mais tenso e menos propenso a estes gestos tradicionais de uma certa descompressão, mesmo no contexto de campanha eleitoral.
E terminamos com a nossa habitual curiosidade, Bruno. Quais são os estados que mais vezes votaram pelo candidato vencedor nas últimas oito eleições, desde 1988?
São estados que se caracterizam por serem, ou por terem sido, vamos dizer assim, estados oscilantes. E aqui o que é curioso é perceber quais é que ainda são e quais é que deixaram de ser. Mas os campeões com oito em nove eleições são o Nevada e o Ohio. O Nevada continua a ser um estado oscilante, o Ohio deixou de ser, passou cada vez mais a ser um estado republicano, faz parte desta chamada cintura industrial, o Rust Belt, ou cintura desindustrializada, se quisermos, da crise industrial, em que muitos eleitores realmente se viraram do Partido Democrático para o Partido Republicano. Depois a seguir temos o Colorado, que também se tornou cada vez mais democrático. O Novo México, a mesma coisa. A Flórida, que passou a ser mais republicana. E depois aqueles que continuam a ser, de facto, realmente swing states, Pensilvânia e o Michigan, todos eles com sete em nove. E depois temos outros, como por exemplo, o Arizona, com seis em nove. Realmente, mesmo nesta questão dos swing states, há aqui evoluções curiosas, mas isto é mais uma forma de nos recordar que realmente o que conta, sobretudo nas eleições presidenciais americanas, sendo eleições com resultados nacionais e com impacto nacional e global, são realmente as eleições estado a estado, por causa daquela questão que falámos muitas vezes do Colégio Eleitoral.
Bruno Carlos dos Reis, a partir de Washington. Muito obrigada pela análise, Bruno. Bom fim de semana. Até segunda.
Bom fim de semana. Até segunda.