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A duas semanas das eleições presidenciais nos Estados Unidos, Kamala Harris e Donald Trump continuam praticamente empatados na corrida à Casa Branca. A candidata democrata lidera por apenas 1,7 pontos percentuais abaixo da margem de erro. Com uma disputa tão renhida, a decisão vai recair nos famosos swing states, que historicamente oscilam entre democratas e republicanos, o que prova uma coisa: o país nunca esteve tão dividido. E para falar nessa América dividida, convidamos Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana. Nuno, bem-vindo. Obrigada por estar conosco mais uma vez.
Olá, Boa tarde, Célia.
Olá. Com tudo a recair nos sete estados decisivos, Kamala Harris está a insistir na conquista de independentes e republicanos moderados ao visitar Michigan, Pennsylvania e Wisconsin, sempre acompanhada pela republicana Liz Cheney. De alguma forma, a campanha de Harris parece acreditar que é capaz de ganhar para si aqueles que votaram na republicana Nikki Haley nas primárias. Isto faz sentido?
Sim, é verdade. E nós estamos numa fase da corrida, como bem estás a dizer, que é decisiva e neste momento não há muitos eleitores indecisos entre Donald Trump e Kamala Harris. E precisamente alguns desses indecisos, ou uma boa parte desses indecisos, são eleitores mais próximos do Partido Republicano, mas que por não gostarem de Donald Trump, estão abertos a votar em Kamala Harris. E é por isso que ela tem dedicado estes últimos dias e estes últimos tempos a cortejar este tipo de eleitores, porque ela sabe que podem ser decisivos. E olhemos precisamente para o estado da Pensilvânia, que é onde ela tem feito imensa campanha e tem cortejado estes eleitores. Nikki Haley teve 150 mil votos nas primárias já depois de ter desistido. Ora, Joe Biden há quatro anos venceu apenas por metade desse valor o estado. E estes eleitores podem ser decisivos. As sondagens apontam que alguns destes eleitores, digamos assim, os eleitores Nikki Haley, já voltaram ao Partido Republicano e estão dispostos a votar em Donald Trump, mas há uma parte considerável que vai votar em Kamala Harris e há uma parte também, numa sondagem que eu vi, que seria cerca de 5% destes eleitores, que ainda não sabe em quem é que vão votar. E se transpormos isso para os outros swing states, estes eleitores podem ser decisivos, precisamente porque a eleição está completamente partida a meio e mais 30, 40 mil votos podem ser decisivos. E por isso que Kamala Harris tem passado e vai passar esta semana por estes estados, não só com Elizabeth Cheney, mas com outros republicanos, para precisamente convencer estes eleitores mais conservadores, mas que não gostam de Donald Trump, a votar na sua candidatura.
Kamala Harris tem também apostado no discurso de que Donald Trump está cada vez mais instável e desequilibrado. Nos últimos comícios, começou a mostrar vídeos de declarações de Trump sobre temas polêmicos e chegou, numa entrevista recente, a chamá-lo de fascista. É nesta reta final que Harris está, como se costuma dizer, a deitar as unhas de fora? E a questão é se ainda irá a tempo.
Na verdade, quando as campanhas se aproximam do fim, é normal os candidatos, digamos assim, radicalizarem um pouco o seu discurso. E isso está a acontecer com Donald Trump, está a acontecer também com Kamala Harris, precisamente porque ela precisa de capturar estes eleitores que não são tradicionalmente democratas, mas que não gostam da personalidade de Donald Trump. E ela ao recorrer a este tipo de ataques, está a tentar demonstrar a estes eleitores, ou pelo menos a recordar-lhes, porque é que eles não gostam de Donald Trump. Donald Trump, de facto, nas últimas semanas tem tido alguns comportamentos bizarros, comportamentos que, aliás, têm sido repetidos nestes últimos oito anos em que ele está na vida política, mas Donald Trump tem uma espécie de imunidade e pode dizer ou fazer certas coisas que outro tipo de candidato nunca poderia. Repare-se que nestes últimos dias, Donald Trump passou uma parte de um discurso a falar das partes íntimas de um antigo golfista que faleceu. Teve cerca de 15 minutos a falar nisso num comício. Não podemos imaginar outro tipo de candidato a falar nisso e a sua campanha não acabar nesse dia. Teve declarações insultuosas em relação a Kamala Harris e tem também demonstrado uma ou outra vez que tem problemas cognitivos. Kamala Harris agora surge a recordar esses episódios todos. O problema de Kamala Harris, e quando falamos, por exemplo, ao atacar Donald Trump por considerar que ele é idoso, que ele tem problemas cognitivos, é que o Partido Democrata passou um ano a defender um candidato, que era o seu candidato, Joe Biden, precisamente por ataques deste gênero, que ele era muito idoso, estava com problemas cognitivos, e agora Kamala Harris tenta devolver esse ataque a Donald Trump. E parece-me que esses ataques não terão assim tão efeito quanto isso, porque o Partido Democrata passou um ano a defender um candidato de 81 anos e com notórios problemas, pelo menos físicos. Mas será muito normal que Kamala Harris passe estas duas últimas semanas ao ataque e isso faz sentido.
Barack Obama está agora a percorrer o país em nome de Kamala Harris. No espaço de cinco dias, participa em comícios em quatro swing states. Fará a sua primeira aparição de campanha conjunta com Harris na Geórgia, na próxima quinta-feira. No sábado, a candidata democrata fará campanha com a antiga primeira-dama, Michelle Obama. Podemos dizer que é o all in para Kamala Harris?
Sim, e repare-se que é normal os candidatos utilizarem as suas principais figuras do seu partido. Donald Trump não pode utilizar as figuras do passado, porque não o apoiam, mas Kamala Harris, que tem o partido, o atual e o antigo partido a apoiá-la, e é normal que ela utilize Barack Obama, Michelle Obama, Bill Clinton também vai fazer isto em feito de campanha, porque são nomes que ainda dizem muito a algum eleitorado. E com estas figuras, Kamala Harris tenta também recuperar algum eleitorado, que ela precisa, porque as sondagens têm indicado que ela está mais frágil que os anteriores candidatos democratas em dois segmentos do eleitorado, os latinos e os homens negros. Ora, estes antigos presidentes, antigas figuras do Partido Democrata, podem precisamente ajudar este tipo de eleitores que têm algumas reticências na candidata Kamala Harris, mas sempre votaram no Partido Democrata, a votar nela. E isso faz sentido. O exemplo de Michelle Obama é muito bem utilizado porque sabemos que Michelle Obama é muito popular nas mulheres americanas e Kamala Harris, que tem uma vantagem considerável nas mulheres, mas que vai precisar de uma votação recorde das mulheres para vencer os eleitores, e utilizar uma figura como Michelle Obama é muito bem jogado, obviamente.
Entretanto, Elon Musk já começou a sortear cheques de US$1 milhão a quem assine uma petição de apoio à Primeira e Segunda Emendas da Constituição dos Estados Unidos. Há quem diga que isto pode ser ilegal. O dono da plataforma X não se comoveu com essa possibilidade. Promete sortear um cheque por dia até às eleições. Isto é a prova de que a campanha de Donald Trump também está a dar tudo o que pode.
Sim, e também digamos que é uma muito boa jogada por parte da campanha de Donald Trump e Elon Musk, que já provou e que já demonstrou que tem muito dinheiro para gastar nesta campanha, está a dar uma ajuda importante a Donald Trump, precisamente porque Donald Trump espera capturar aquele eleitorado que não costuma participar no processo político, que não vota em todas as eleições, aquelas pessoas que não leem notícias, que não consomem o dia a dia da vida política americana. E Elon Musk tem essa plataforma e chega a muito eleitorado que Donald Trump precisa para vencer. Elon Musk a fazer um número deste gênero, obviamente está a atrair muita publicidade para Donald Trump e ajuda-o a conquistar este tipo de eleitorado, nomeadamente homens, que é uma das forças da campanha de Donald Trump e Elon Musk chega onde os outros políticos não chegam. Ainda por cima aqui atribuindo US$1 milhão a quem estiver disposto a assinar estas petições, é muito bom para Donald Trump, diria eu, e pode ajudá-lo a conquistar muitos eleitores que normalmente não participam na política.
Donald Trump esteve no McDonald's, passou pela secção de batatas fritas e acusou Kamala Harris de mentir, ela que disse que trabalhou no McDonald's quando esteve a estudar. Este episódio pode ter alguma relevância?
É mais um episódio de Donald Trump a chamar a atenção à sua campanha e chamar a atenção que Kamala Harris teria dito que trabalhou no McDonald's, como não há provas ou pelo menos não apareceram, é mais uma oportunidade de Donald Trump chamar mentirosa Kamala Harris. Sabemos que foi um número encenado. Não é a primeira vez que um candidato cozinha durante uma campanha eleitoral. Eu ontem estava a ver algumas fotografias antigas e apareceu Ronald Reagan também no barbecue. Não é um número completamente original, mas é um número sui generis que também representa um pouco o que esta campanha de Donald Trump tem feito ao longo destes últimos meses.
E não deixa de ser curioso porque Donald Trump, enquanto acusado, nunca poderia trabalhar no McDonald's, porque não seria contratado.
Como condenado, não poderia ser contratado.
Exatamente. Obrigada, Nuno Gouveia, por ter estado conosco no "América Dividida". No fecho de hoje, o Nelson Ferreira volta a fazer contas a esta campanha eleitoral, num trabalho com sonoplastia de Pedro Oliveira.
Ao contrário das sondagens que continuam a revelar resultados muito renhidos, as angariações de fundos para a campanha eleitoral demonstram uma clara vantagem da candidatura democrata. Kamala Harris conseguiu mesmo um recorde. Nunca ninguém conseguiu tanto dinheiro em apenas três meses, cerca de US$1 mil milhões, US$359 milhões dos quais só durante o último mês de setembro. Em comparação, Donald Trump está a amealhar bem menos do que durante a campanha de 2020 e em setembro ficou-se pelos US$160 milhões. Segundo o New York Times, a candidatura democrata tem agora em carteira US$346 milhões, enquanto que os republicanos detêm US$283. Isto quando estamos a 14 dias da eleição. Mas se Kamala Harris tem mais dinheiro, Donald Trump pode gabar-se de ter o maior contribuidor individual. Trata-se de Timothy Mellon, um discreto bilionário norte-americano, herdeiro de uma fortuna da banca, que só no mês passado doou US$25 milhões para a organização Make America Great Again, totalizando assim donativos neste círculo eleitoral de cerca de US$150 milhões. "You've Got a Friend in Me", Randy Newman, 1995, Estados Unidos da América.