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Há uma razão pela qual Donald Trump e Kamala Harris estão a intensificar os esforços para ir além dos apoiantes tradicionais nas semanas finais da corrida à Casa Branca. Mais tarde vamos ouvir esta música por completo. Mas, para já, falamos de um eleitorado que está em mudança. Pequenas alterações em estados decisivos podem ser trágicas para os candidatos, se não as souberem aproveitar. Por exemplo, o fato de os brancos não universitários terem caído consideravelmente desde 2020, mais no Michigan e no Wisconsin do que na Pensilvânia, pode ajudar a explicar por que a maioria dos analistas considera que este estado é mais difícil para Harris. Para nos ajudar nestas consequências, bem-vindo, Nuno Amaral Jerónimo, professor na Universidade da Beira Interior. As mudanças no eleitorado, a substituição de gerações, têm alterado a forma como normalmente Partido Republicano e Partido Democrata se comportariam numa eleição?
Olá, boa tarde. Obrigado pelo convite. Sim, isso é visível e não é só nos Estados Unidos. As mudanças geracionais vão trazendo mudanças no comportamento do eleitorado, mudanças naquilo que são as relações do eleitorado com os partidos políticos, no surgimento até de novos movimentos políticos. Nos Estados Unidos, os partidos políticos têm o mesmo nome, mas não têm as mesmas configurações. Portanto, mudou o eleitorado, mas também mudaram os partidos políticos. E isso pode, por exemplo, até também dificultar a forma como os especialistas do marketing eleitoral trabalham o discurso dos candidatos e dos partidos para os seus eleitorados e tornar mais difícil uma previsibilidade, não só dos resultados finais, mas até de como se dirigir a cada um dos segmentos demográficos.
Isso leva-me a uma próxima pergunta, porque Kamala Harris precisa de ativar a base democrata tradicional, negros e latinos incluídos, que neste momento ameaça uma parte significativa optar por Trump. E eu pergunto como é que isto se explica. Harris não terá jogado suficientemente a cartada racial que podia jogar?
Sim, mas eu não sei se é suficiente. Estava a ler um estudo do Pew Research Center. Tem muitos feitos ultimamente referente sobre os temas das eleições. Especificamente sobre os latinos, mostra duas coisas que nós podemos conjugar. Uma, o tema a que os latinos dão mais importância é a economia e, portanto, muito menos a questões raciais ou até culturais. O tema que eles dão mais importância é a economia. E depois quando nós vamos ver as intenções de voto, já estão em 60/40. Os latinos estão divididos já em 60 a favor da Harris, claro, mas é uma diferença grande com um tradicional voto que chegava a ultrapassar os 80%.
Biden teve mais em 2020.
Isso. E este facto de quando se pergunta qual é o assunto a que dá mais importância, e se é a economia, pode ser relevante. E, portanto, eu percebo a sua pergunta, que é: podia ter jogado a carta racial? Podia, mas não sei se resultado. Por causa desta mudança também no eleitorado, que está a olhar de outra maneira. Há uma parte do eleitorado que não sei se dá tanta importância a estas questões identitárias, raciais, como daria anteriormente.
Harris também precisa de recuperar o voto suburbano. Dizia-se que os subúrbios ganhavam eleições. Ainda é assim?
Essa é uma pergunta com várias respostas, porque os subúrbios representavam uma América de classe média. E nós já falámos aqui uma vez, há uns programas, que essa classe média tendia a decidir as eleições, muito também porque uma parte do eleitorado mais pobre ou menos escolarizado, não votaria. Isso fez-me lembrar uma frase do Gore Vidal, que dizia que metade dos americanos nunca leu um jornal e metade dos americanos nunca votou. Ele dizia: "Esperemos que seja a mesma metade". O que acontece é que hoje, se calhar, não é mesmo essa metade. Ou seja, uma parte das pessoas que não têm essa educação tradicional, chamemos-lhe assim, não tem estudos universitários ou pelo menos de escola secundária e não é informada pelos mídia tradicionais. Isso também é uma coisa interessante, que nos republicanos a confiança nos mídia sociais é mais ou menos a mesma que nos mídia tradicionais. Quando eu digo mídia social é redes sociais. Nos mídia digitais é quase igual, ou seja, dá ela por ela. E portanto, há um eleitorado que tem um tipo de formação cívica, ela não é pior nem melhor, mas diferente daquela a que as elites, ou pelo menos o mundo suburbano estaria habituado, e portanto também pensa de maneira diferente e consequentemente vota de maneira diferente. E perderam essa hegemonia.
Garantidamente tem havido de tudo, mas antes de irmos aos dois últimos momentos inusitados da campanha, deixe-me fazer-lhe uma pergunta para um milhão de dólares: o que pode decidir uma eleição tão dividida?
Judite, essa aí eu nem por um milhão de dólares conseguia acertar. Porque eu percebo a pergunta e eu acho que é a pergunta que toda a gente que está a seguir essas eleições faz. Repare que, mais do que nós, os candidatos e as equipas deles devem estar desesperadamente a tentar responder a essa pergunta. É capaz de ser muito difícil e eu não estou na América, não estou lá dentro, mas eu imagino que as equipas de marketing e de relações públicas, as equipas que estão a fazer as campanhas, não sei se conseguem dormir exatamente desesperadamente a pensar isso, porque aquilo que a Judite disse, pode haver pequenas fagulhas, ou seja, coisas muito pequeninas que possam fazer mudar para um lado ou para o outro. E como as margens são tão pequenas, eu não sei se eles conseguem dormir a pensar se para ganhar 10 mil votos num sítio, não podem perder 5 mil noutro e o efeito que isso possa ter. Portanto, é mesmo a pergunta para um milhão ou mais até, porque eu acho que deve ser muito difícil, mesmo para quem está a fazer a campanha, conseguir responder a isso.
Quem tem mais do que um milhão é Elon Musk, que anda a sortear um cheque por dia, no valor de um milhão de dólares, a quem assinar a petição de apoio à primeira e segunda emendas da Constituição. Isto é a prova de que a campanha de Trump está a dar tudo, até um milhão de dólares.
Tudo não, porque acho que o senhor tem um bocadinho mais do que aquilo. Porque outro dia, um jornal dizia: "Ele ainda vai gastar mais 17 milhões até ao fim da campanha." Não sei se isso faz muita diferença a uma pessoa com a fortuna de Elon Musk. Portanto, tudo também não é. Na verdade, parece que é muito para nós, é evidente, mas é migalhas daquilo que é a fortuna do Musk. Mas para aquilo que também, aparentemente, pode estar em causa na relação do Musk com o poder.
O que ele tem a ganhar ou a perder.
Exatamente. É evidente.
Portanto, é um investimento.
Pode ser, mas também eu acho que a política americana já nos habituou a isso e ela é muito mais espetacularizada do que a política europeia. Ou seja, nós estamos habituados a um modelo muito mais sisudo, se lhe quiser chamar, mas sóbrio. E essas coisas espetaculares, como aquelas que vamos falar a seguir, são factos, são mecanismos das campanhas. É evidente que a gente pode dizer que ser o Musk e ser o Musk a dar um milhão de dólares é exatamente o que a Judite dizia, é uma espécie de um investimento ou é sinal de tudo o que ele pode perder e, portanto, quase uma espécie de desespero. Mas eu acho que é um bocadinho por essa lógica de uma certa espetacularização da política. Eu não conheço, é provável que já tenha havido coisas parecidas com essas noutros sítios ou até em coisas mais locais ou regionais, mas não me espantou. Ou seja, mesmo quando eu vi isso, achei uma maluquice no sentido europeu, mas não é uma coisa que eu diga: "Que horror, como é que isto é possível?" Além disso, é outra coisa, o dinheiro é do Musk, ele pode fazer com ele o que ele quiser.
O que ele quiser. Agora íamos falar sobre a passagem pela secção de batatas fritas de Donald Trump no McDonald's, em que aliás acusou Kamala Harris de mentir. Harris que disse que trabalhou no MAC quando esteve a estudar. Andar a fritar batatas causa algum efeito no eleitorado?
Eu acho que é a mesma coisa. É uma coisa de espetacularização. Eu acho que estas coisas, como muitas outras, geram uma coisa parecida com o íman, ou seja, atrai aquilo que já está atraído e repele aquilo que já está repelido. Eu diria que os apoiantes da Kamala Harris veem isso como uma afronta até à classe operária, como é que um tipo como aquele, o que ele está a fazer no McDonald's. E os apoiantes do Trump dirão: "Estão a ver um homem que até se sujeita a ir trabalhar, um trabalho manual." Portanto, mais uma vez, é uma composição de personagens. A gente sabe que o Trump é, até mais do que outros candidatos, ele próprio uma persona. Ele construiu uma personagem e essa personagem tem essas manifestações histriônicas e exuberantes e que, mais uma vez, para a política europeia, sai um bocadinho daquilo que é o hábito. Embora nós também pela Europa fora e em Portugal também já temos episódios engraçados, não dirão McDonald's a fritar batatas, mas outros parecidos com esse, que também não são assim muito diferentes.
Presidentes da República a pentear cabelos, por exemplo.
Isso. O que agora é presidente da República, quando foi candidato à Câmara de Lisboa, a nadar no rio. São umas manifestações de, não sei se também populismo, mas de alguma popularidade, ou pelo menos de uma mediatização, sim, com certeza. Agora, se tem efeitos eleitorais específicos, eu acho que não, mas mais uma vez, teríamos que fazer depois uma espécie de uma mini sondagem. Não me parece que isso tenha efeito concreto no resultado final.
Mas leva os holofotes para aí, pelo menos durante um bocadinho. Obrigada.
Isso sim, com certeza. E permite uma risota. Permite uns sorrisos.
Exato. Obrigada, Nuno Amaral Jerónimo, por ter estado conosco no América Dividida.
Obrigado pelo convite.
Eminem pouco aparece publicamente, mas vai abrir uma exceção para introduzir o antigo presidente Barack Obama no comício de Detroit esta noite. Não irá atuar, antes apenas dar as boas-vindas ao palco ao Obama. As convicções de Eminem não precisam de apresentação. Em 2017 acusou Donald Trump de fazer uma lavagem cerebral aos seus apoiantes. Hoje pode não atuar no palco de Detroit, mas fica aqui na América Dividida para os nossos ouvintes.