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Os aliados da vice-presidente Kamala Harris no movimento sindical estão a tentar captar os eleitores brancos da classe trabalhadora, o grupo demográfico mais fraco em termos de eleitores. O Working America, que tenta alcançar os trabalhadores não sindicalizados, tem cerca de 1600 angariadores pagos que andam de porta em porta nos estados decisivos do Arizona, Georgia, Michigan, Pensilvânia e Wisconsin todos os dias, e é apenas uma parte do esforço para tentar minimizar a vantagem de Donald Trump e alcançar uma vitória democrática. É uma inevitabilidade ou consequência do mandato na Casa Branca ao lado de Joe Biden? Este é um dos temas que vamos falar com a Lívia Franco, investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Bem-vinda mais uma vez. Obrigada por estar conosco. Está este grupo perdido para o Partido Republicano ou pertencem aos desiludidos com a actual administração, sobretudo em temas relacionados com a economia, a inflação, preços no supermercado?

Olá, Judite, boa tarde. Eu acho que são as duas coisas. Acho que importa começar por dizer que é verdade que historicamente é este grupo de trabalhadores chamados white collar, de classe média e classe baixa nos Estados Unidos, que tem sido um dos grupos eleitorais de maior apoio ao Partido Democrata e nomeadamente entre eles aqueles que estão efetivamente sindicalizados. E portanto, é normal que sempre que acontecem eleições presidenciais, que vêm as grandes centrais de sindicatos dizer que apoiam o candidato do Partido Democrata. Este ano isso aconteceu, mas não aconteceu na mesma dimensão que anos anteriores e especialmente, por exemplo, grandes sindicatos, como seja dos camionistas norte-americanos e os bombeiros, vieram dizer que não queriam apoiar oficialmente nenhuma candidatura. E portanto, isto é sinal que qualquer coisa está a mudar. O que resta saber é isto: se está a mudar por causa da candidata do Partido Democrata deste ano, Kamala Harris, ou se de facto há aqui uma mudança de posicionamento político-partidário nesse grupo eleitoral. Eu acho que são ambas as coisas. Acho que, por um lado, de facto, Kamala Harris não colhe muito entusiasmo junto deste grupo de trabalhadores e sobretudo trabalhadores sindicalizados. E isso nota-se também muito bem nos dados que nos têm sido apresentados pelas sondagens. Em particular, por exemplo, em 2016, Hillary Clinton, apesar de tudo, ainda tinha algum impacto, se bem que perdeu dois estados-chaves, onde estes grupos são muito importantes, o Michigan e a Pensilvânia, mas eles foram recuperados com vantagem por Biden e contrariamente, portanto, a Trump. Só que a verdade é que os números deste ano indicam que provavelmente esses dois estados em particular vão estar perdidos, porque de facto as indicações que nós temos é que este grupo especialmente está mais inclinado a ir votar em Trump. Eu acho que isto se explica essencialmente por aquilo que é o perfil e o estilo de Kamala Harris. Quer dizer, ela é uma jurista, é uma mulher que vem da Califórnia, fez uma carreira política, procuradora-geral, ou seja, é aquilo que os americanos chamam uma blue collar. E portanto os white collar, os trabalhadores white collar, têm muita dificuldade em empatizar com ela e em reconhecer, no fundo, aquilo que ela representa e aquilo que é o seu discurso político.

Ao contrário, Joe Biden estava muito próximo do movimento sindical.

Exato. Ao contrário de Joe Biden, que aliás até foi muito elogiado pelo movimento sindicalista por ter sido o primeiro presidente americano a participar num piquete de greve, por exemplo, com os trabalhadores da indústria automóvel. E portanto, vendo os dois do mesmo partido, nós notamos de facto que o estilo e a personalidade de cada candidato também conta no momento dos grupos de eleitores irem escolher em quem é que vão votar, e na simpatia que sentem maior ou menor por cada um dos candidatos. E portanto, eu acho que esse estilo pessoal de Kamala Harris, de facto não tem o grande impacto, ou aquele que o Partido Democrata gostaria que tivesse. Também eu acho que há outro aspecto aqui. Ela não tem falado muito das questões que interessam essencialmente à indústria. E nós sabemos que estes estados, em particular o Michigan e a Pensilvânia, onde estes grupos de eleitores são muito importantes, são os estados dos chamados Rust Belt, da cintura industrial, e ela tem falado muito pouco daquilo que é política industrial. Ela, aliás, é muito defensora de causas que para os trabalhadores da indústria são causas que merecem alguma desconfiança, como seja, por exemplo, as alterações climáticas e a transição energética. Ela também não tem falado sobre temas que tenham impacto, por exemplo, na vida profissional destas pessoas e portanto, também não tem chamado tanto a atenção deles. É claro que a escolha do Tim Walz para parceiro do ticket presidencial tentou de alguma maneira suplantar este aspecto. Mas a verdade é que também, mais uma vez aqui, as sondagens mostram que apesar de estes grupos terem achado bem a escolha de Tim Walz, isso não os convenceu a alterar o sentido do seu voto. E portanto, de facto, há aqui uma certa fragilidade que a candidatura de Harris tem nesta questão. Mas eu juntava mais um elemento, que é: sabemos isto em geral, não apenas para este grupo de eleitores, mas sabemos em geral que na apresentação da sua agenda económica, ela não tem conseguido responder àquilo que são as maiores preocupações do cidadão comum e, em particular, claro, das classes médias trabalhadoras, que é a questão do custo de vida e da inflação, apesar de as condições estarem a mudar. Mas de facto não tem conseguido também mudar muito a inclinação de voto. E finalmente, eu diria mais um último elemento, que é mesmo por questões culturais Este grupo de eleitores tende a ser conservador. Homens brancos, trabalhadores da indústria, portanto olha com alguma desconfiança para a possibilidade de ver uma mulher ser eleita para Presidente da República nos Estados Unidos.

Leva-me à segunda pergunta, porque há vários artigos na imprensa norte-americana que dão conta de que esta eleição é também sobre gênero. Pode até transformar-se num referendo ao papel da mulher na América?

Eu acho que a questão de gênero tem efetivamente tido um papel muito relevante nesta campanha eleitoral em particular. Agora, ser um referendo às questões de gênero e ao papel da mulher parece-me um exagero e até acho que é uma simplificação, mas acho que ela tem acontecido, quer dizer, este exagero e esta simplificação têm acontecido. Eu acho que em particular tem sido muito trabalhada pela campanha do Partido Democrata, que obviamente tem a ganhar com isso e com intuitos precisamente eleitorais. Agora, eu também gostava de dizer que tem sido, do ponto de vista da análise da ciência política, tem sido muito interessante notar nos últimos anos o protagonismo das mulheres nas dinâmicas internas do próprio Partido Democrata. Nomes que todos nós reconhecemos, como Hillary Clinton, ou Elizabeth Warren, ou mesmo Nancy Pelosi, ou Alexandria Ocasio-Cortez e a própria Kamala Harris, são prova disso mesmo. Também importa, por exemplo, sublinhar que na Convenção Nacional do Partido Democrata, em agosto, as mulheres constituíam a maior parte dos delegados e, portanto, isso são alterações significativas que importa acompanhar. Também vimos que tem havido uma colagem muito grande a nível do partido, da sua retórica política e da sua prática política, entre a questão da defesa da liberdade e aquilo que são os direitos das mulheres também. E sabemos que isso também tem sido muito trabalhado agora na campanha eleitoral. Mas eu acho que reduzir a campanha só ou essencialmente a esta questão de gênero, eu acho que é um grande empobrecimento do debate político, porque eu acho que, de facto, a campanha eleitoral norte-americana tem referido e tem trabalhado sobre muitas outras questões, que muitas outras questões são importantes, que estão em jogo para os Estados Unidos e para a América. Agora, eu acho que importa sublinhar que, dizendo isto, eu não quero diminuir a importância nos Estados Unidos e, já agora, a propósito, em Portugal, o facto da mais alta magistratura do país poder ser exercida por uma mulher não seja uma coisa importante. É óbvio que é importante. O que eu acho é que a campanha eleitoral não se resume, e acho que é uma simplificação, nos Estados Unidos a ser, de facto, só uma questão de mulheres. Mas acho também, mais uma vez, que as mulheres constituem um bloco eleitoral muito significativo. E, portanto, não admira que os dois partidos, e sabemos que aqui o Partido Democrata leva vantagem, trabalham muito bem esse grupo, porque, de facto, é um grupo de eleitores que pode fazer uma diferença muito importante, sobretudo em idade jovem.

Há especificidades também no eleitorado que podem trazer algumas novidades, nomeadamente os eleitores judeus indecisos no swing state da Pensilvânia. Por quê?

Vamos lá ver. Estas são eleições que nós vimos que estão numa situação de empate técnico, e, portanto, a vitória vai ser decidida nas margens. E, portanto, todos os blocos, digamos assim, eleitorais têm que ser trabalhados, tendo em vista precisamente o ganhar-se o máximo de votos eleitorais possíveis para se poder depois ganhar a presidência. Nós sabemos que um dos estados onde isso é mais significativo, o peso dos votos eleitorais, e que estão ainda em jogo, é obviamente a Pensilvânia. E apesar de tudo, na Pensilvânia, os judeus constituem uma minoria, mas é uma minoria significativa. São cerca de 300 mil eleitores na Pensilvânia. Eles estão bastante zangados. Tradicionalmente são apoiantes do Partido Democrata, estão bastante zangados com o Partido Democrata neste momento, sobretudo por causa da questão da guerra em Gaza, e daquilo que eles julgam ser uma série de protestos e manifestações com tom antissemita. Mas a verdade é que, sendo 300 mil eleitores apenas, no caso da Pensilvânia, se nós notamos, por exemplo, que Biden ganhou esse estado em 2020 apenas por 82 mil votos, e Trump em 2016 com 44 mil votos, nós vemos que, de facto, 300 mil eleitores podem fazer uma grande diferença. E, portanto, é óbvio que o trabalho que está a ser feito por ambas as campanhas eleitorais no estado da Pensilvânia é um trabalho que tem em conta também, de facto, este grupo eleitoral.

Não deixa de ser irônico se atendermos aos problemas por motivos opostos com os árabes muçulmanos no Michigan. Mas enfim, preso por ter cão, preso por não ter.

Não, mas isso eu acho que interessa muito apontar para isto. Aliás, é interessante que há aqui um fio condutor da nossa conversa, que vai mesmo neste sentido, de indicar que a maneira como as vitórias são trabalhadas nos Estados Unidos não são em termos de distribuição do voto popular, mas antes trabalhar bem uma coligação eleitoral composta por vários grupos, sejam eles os judeus, os latinos, sejam eles os afro-americanos, sejam eles os trabalhadores brancos, sejam eles as mulheres. E, portanto, é o conjunto desses grupos bem trabalhados que permite formar uma coligação que, na verdade, vai garantir ou não arrecadar os tais votos eleitorais, pelo menos 270, que é o número mágico, dos 538 votos eleitorais que estão em jogo, e é isso que determina, de facto, quem é que vai conseguir eleger ou não a presidência.

E já estamos na reta final. Lívia Franco, muito obrigada por ter estado conosco. Deixamos aqui alguns pontos de fora, mas ficam para a semana. No fecho do América Dividida, o Nelson Ferreira destacou hoje o comício democrata, que acontece mais logo, na Geórgia, e que vai contar com uma parada de estrelas. Um trabalho com a sonoplastia de Pedro Oliveira.

Depois da aparição desta semana de Barack Obama num comício democrata, onde até citou Eminem, hoje é dia de regresso à campanha para o ex-presidente. Mais logo, faz a primeira aparição num comício ao lado de Kamala Harris, num dia em que Donald Trump aposta no Arizona e no Nevada, onde vai marcar presença num evento dedicado à comunidade asiática, que se realiza na cidade de Reno. Mas Barack Obama não vai ser a única estrela do comício democrata de hoje. A iniciativa, apelidada de Get Out the Vote, e que pretende baixar os níveis de abstenção da próxima eleição, vai decorrer em Atlanta, no estado da Geórgia. E para além de Barack Obama, vai contar com as presenças de Bruce Springsteen, dos realizadores Terry Perry e Spike Lee, do DJ Mix Master David e do ator Samuel L. Jackson. Nos próximos dias, mais estrelas estão previstas para as ações de campanha dos democratas, mas disso daremos conta nos próximos América Dividida. Urge Overkill, "Girl, You'll Be a Woman Soon", 1994, Estados Unidos da América.