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Donald Trump terá desejado a lealdade dos generais que Hitler tinha e as reações não se fizeram esperar. A revelação foi feita pelo antigo chefe de gabinete de Trump na Casa Branca, John Kelly, que diz que o antigo presidente se enquadra na definição de fascista. Durante um comício em Wisconsin, o candidato a vice-presidente, Tim Walz, não perdoou estas novas demonstrações de extremismo. A campanha de Trump nega a troca de impressões entre Donald Trump e Hitler, mas o fascínio pelo ditador nazi já veio documentada em livros sobre o candidato republicano. É a última polêmica da campanha às eleições nos Estados Unidos. E vamos começar por aqui. Ricardo Silvestre, obrigada por estar conosco. Esta é uma daquelas revelações que pode ter efeito na campanha, esta cartada do medo. Já agora, há uma semana, o antigo presidente sugeriu usar os militares para lidar com o que chamou de inimigo interno. Esta questão é também daquelas que, de alguma forma, pode assustar os eleitores.
Olá, Judite, muito obrigado por me terem novamente. É um privilégio estar aqui. Sem dúvida, eu vou pegar naquilo que tu disseste, não só foi John Kelly, que é um general de quatro estrelas, aliás, um general que vem de um ramo das Forças Armadas que é bastante impressionante, são os Marines, e também Mark Milley. Mark Milley era o chefe do Estado-Maior durante a administração Trump e foi exactamente uma das fontes que tu estavas a dizer, desses livros que existem, onde ambos, tanto John Kelly como Mark Milley, dizem claramente que Trump é fascista no seu íntimo, no seu âmago, e que se transforma em tudo aquilo que nós vimos, que tu acabaste de dizer, ou seja, numa entrevista com a Fox News, ele diz que: "Se for preciso, a gente mete o exército nas ruas para impedir os votantes democratas de votarem. Eu vou ser um ditador no primeiro dia e depois faço aquilo que quiser. Eu vou deportar pessoas contra a sua vontade. Eu vou alterar a Constituição, por exemplo, para tirar aquilo que é um direito que vem, que é quando tu nasces nos Estados Unidos, és americano por direito constitucional". Ele diz que vai retirar isso tudo. Portanto, há aqui um caldo bastante denso, mas explícito para pessoas que seguem isto mais perto e que faz, exactamente como tu disseste, e bem, não é só uma questão de ter medo, faz realmente pensar o pior ainda pode estar para vir durante esta semana e meia.
No que diz respeito, e isto já se falou, sobretudo porque sabemos que o Capitólio tem já um plano preparado para evitar que algo semelhante ao que aconteceu em 2021 volte a acontecer. Estamos a falar na invasão ao Capitólio de 6 de janeiro. Esse perigo parece-lhe real?
Sim. Primeiro, vamos ainda recuar mais um pouquinho, porque isso aí já estamos a falar no dia da tomada de posse do futuro presidente. Neste caso, estamos a falar num risco que a Kamala Harris, tomando posse como presidente no 21 de janeiro, possa haver uma repetição daquilo que tu mencionaste agora. Eu vou ainda um bocadinho mais atrás, Judite, e é importante. Eu gostava de trazer isto para ti, para o nosso auditório, porque ainda antes disso, principalmente na noite de 5 de novembro, à medida que os resultados começam a chegar, e eu aqui vou ser rápido, mas explicar isto de uma forma que faz sentido. Tal como em Portugal, nós temos um conjunto de votos que aparecem antes. Por quê? Porque são votos de distritos ou de concelhos que têm poucas pessoas. E depois os votos de Lisboa ou do Porto são aqueles que chegam mais tarde porque há mais votos para contar. Naqueles estados que são os estados de cisão, que tu referes várias vezes, os chamados swing states, o que vai acontecer é que vamos ver a mesma dinâmica. Vamos ver um conjunto de votos que vão começar a chegar de zonas rurais, Trump vai estar à frente por 30, 40, 50 mil votos, e depois começam a chegar os votos das grandes cidades e de repente a candidata democrática passa a estar à frente por 50, 60, 70, 80 mil votos. O que é que vai acontecer? Pode acontecer de nós termos violência política armada este ciclo eleitoral, Judite, e eu estou com muito receio. Eu espero que tu me possas chamar daqui a uma semana e meia para eu vir cá e me caracterizar aqui com os nossos ouvintes e dizer: "Estava perfeitamente enganado, estava completamente enganado". Eu quero que isso aconteça. Mas, neste momento, e só para terminar, tanto o Departamento de Justiça já criou uma task force para ameaças à eleição, o Homeland Security está a seguir grupos que são grupos extremistas e que podem assumir atos violentos nessa noite e inclusive em sítios onde se vota e se conta os votos, já tens vidros à prova de bala, botões de pânico no caso de haver algum ataque, as pessoas poderem chamar a polícia, ter as proteções, que são proteções que fazem com que as pessoas fiquem afastadas num certo número de metros. E dou-te, por exemplo, um último exemplo: há estados que inclusive até vão passar leis, que são leis que podem ser avaliadas constitucionalmente, que é proibir o porte de armas a partir de uma certa distância. Porque está tudo com receio de que se o Trump, de repente, começa a dizer: "Estão me a roubar a eleição e os votos têm que ser parados de serem contados", o que aconteceu, por exemplo, em 2020 em Michigan, havia um grupo de votantes do Trump que foram a um local de voto e batiam com as mãos nos vidros a dizer: "Parem a contagem, parem a contagem". Desta vez podem ter armas com eles. E depois basta um momento de tensão e, de repente, as coisas podem se descontrolar.
Acha que a noite eleitoral pode até ser mais complicada
Mais uma vez.
Do que qualquer eventual dia no Capitólio a 6 de janeiro.
Sim, porque a 6 de janeiro vai estar tudo preparado, porque é o Capitólio. Basta lá ter a National Guard e basta ter a polícia do Capitólio e as coisas ficam mais ou menos controladas. Agora, se tu tiveres num qualquer sítio de contagem de votos, seja em Maricopa, no Arizona, seja em Clark County, em Michigan, seja, por exemplo, em Pittsburgh, Pensilvânia, como é que tu consegues controlar isto? Vai ser muito difícil. Ainda por cima, estes estados são estados onde as pessoas podem carregar armas e podem andar com armas e podem andar armadas. Portanto, deixa-me dizer só esta última frase, eu vou repetir isto. Eu espero estar enganado, eu espero que tu me chames aqui e digas: "Foste um alarmista, estavas histérico". Mas a verdade é que eu estou com muito medo da noite de 5 de novembro. Aliás, pelo que sei, vamos estar aqui. Vamos estar a ver isso em direto.
Pois nós aqui estamos mais protegidos. Obrigada, Ricardo Silvestre, por ter estado conosco neste América Dividida. No fecho, o Nelson Ferreira destaca as contas do voto antecipado, que decorre a grande ritmo, aliás, num trabalho com sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar.
A apenas duas semanas da eleição, mais de 18 milhões de norte-americanos já escolheram o próximo presidente. Recorde-se que o voto antecipado pode ser feito de forma presencial ou então enviado por correio. E os republicanos parecem estar a fazer mais pela promoção desta funcionalidade que os democratas. Isto apesar de Donald Trump nunca se ter pronunciado por esta opção. No Nevada, por exemplo, os votantes registados como republicanos estão na frente, enquanto que na Carolina do Norte estão empatados. E na Geórgia nota-se uma clara predominância do voto antecipado das mulheres, que representam 55% do total. A comparação com 2020 não é fácil de fazer, devido às restrições decorrentes da pandemia de Covid-19, mas também porque em alguns estados-chave a população sofreu significativas mudanças nos últimos quatro anos. Ainda assim, sabemos que na última eleição, 150 milhões de boletins foram enviados antecipadamente. "You Can't Hurry Love", The Supremes, 1966, Estados Unidos da América.