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É a recta final na campanha para as presidenciais dos Estados Unidos e há cada vez mais analistas que veem nestas eleições uma batalha dos sexos e olham para uma vitória de Kamala Harris dependente das mulheres nos chamados swing states. Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, obrigada por estares conosco mais uma vez. Serão as mulheres nos sete Estados mais decisivos que poderão dar a vitória à candidata democrata?
Olá, boa tarde, Judite. Sim, de facto, o que as sondagens têm indicado neste ciclo eleitoral é que há uma grande clivagem entre o voto dos homens e das mulheres. Os homens claramente mais propensos a votarem em Donald Trump e no Partido Republicano, e as mulheres maioritariamente a votarem em Kamala Harris. E os primeiros dados que temos destes mais de 50 milhões de americanos que já votaram, e sobretudo nos swing states, é que de facto as mulheres estão a votar mais, em alguns Estados com vantagem superior a 10 pontos percentuais em relação aos homens. E ainda melhor para Kamala Harris é que as mulheres das minorias, sobretudo latinas e afro-americanas, que votam mais no Partido Democrata, estão a votar mais. E isso claramente é positivo para Kamala Harris, pois sabe-se que ela irá precisar definitivamente do voto feminino para vencer as eleições. E se contrapusermos isto com algumas sondagens que nas últimas semanas têm dado uma recuperação a Donald Trump ou mesmo vantagem em alguns desses Estados, isso é um bom indicativo, porque estes votos que já estão depositados em urna são positivos para Kamala Harris e sabe-se claramente que ela neste momento está à frente nas pessoas que já votaram.
Steve Bannon, o grande ideólogo americano de extrema-direita e aliado de Donald Trump, foi libertado mais cedo da prisão. Bannon foi condenado a quatro meses na cadeia por se recusar a colaborar com a investigação do Congresso norte-americano sobre o ataque ao Capitólio. Pode ter algum efeito na campanha de Trump ou já vai tarde?
Sim, parece-me que Steve Bannon é uma figura bastante influente na direita radical americana. Foi muito importante na primeira campanha de Donald Trump, tendo chegado a colaborar na Casa Branca, na sua primeira administração. Depois afastou-se, mas manteve-se sempre muito próximo de Donald Trump e destes círculos radicais que apoiam o candidato republicano. A uma semana não me parece que irá fazer grande diferença, até porque este eleitorado mais radical e mais fora do mainstream já apoia Donald Trump pelo próprio candidato e também por outros apoiantes de Donald Trump que circulam perante este tipo de eleitorado. Portanto, é positivo para Donald Trump, porque é mais um aliado que vai estar a fazer campanha por ele, mas não acredito que faça grande diferença até à próxima terça-feira.
Há, entretanto, um argumento republicano que está a perder força: a inflação. O preço dos combustíveis está a cair rapidamente. O gás é muito mais barato em Estados decisivos como Nevada ou Arizona do que era há um ano. Esta tendência mina um dos maiores argumentos que os republicanos usaram para criticar os democratas em relação ao custo de vida ou uma semana não é suficiente para que tenha efeito no discurso e, por consequência, nas urnas?
Sim, a economia e a inflação é um dos temas que mais claramente favorece o Partido Republicano e tem prejudicado Kamala Harris e o Partido Democrata. É evidente que é melhor agora ter os preços da gasolina mais baixos do que há um ano e que a tendência seja de descida. Mas, na verdade, a percepção que a economia na administração Biden foi pior que nos tempos da administração Trump é uma realidade. Os americanos têm essa percepção e não é por agora alguns preços estarem a descer que isso vai mudar, até porque o custo de vida claramente está mais caro nos Estados Unidos. Há muitas famílias que precisam de ter dois empregos para conseguir manter o nível de vida e não é por aí que irá mudar essa percepção. Agora, obviamente, para Kamala Harris é mais fácil ter este argumento a dizer que as políticas da administração Biden para combater a inflação e o aumento do custo de vida estão a resultar. Isso é uma evidência e ela tem-no feito durante a campanha nestes últimos tempos. Agora, não me parece que ela vá conseguir conquistar uma maioria positiva em relação ao tema da economia, quando todas as sondagens continuam a indicar que este é um tema que favorece o Partido Republicano.
Com um cenário de empate entre os candidatos, Pensilvânia é sempre o Estado crucial para a eleição.
Sim, daqueles sete swing states que falámos, claramente a Pensilvânia, até porque é o que tem mais votos no colégio eleitoral, é aquele considerado decisivo. Alguns analistas americanos apontam mesmo que quem vencer a Pensilvânia terá 90% de possibilidades de vencer as eleições. A Pensilvânia é um Estado interessante, porque até Donald Trump, nas últimas décadas, foi um Estado onde votou sempre no Partido Democrata. O último republicano a ter vencido a Pensilvânia tinha sido George Bush em 1988, mas Donald Trump em 2016 venceu este Estado e desde 2016 que o Estado tem vindo a ficar mais republicano. É um Estado que é um pouco um espelho da América, onde o Partido Democrata vence com larga margem nas grandes cidades, nomeadamente em Filadélfia e em Pittsburgh, mas a grande maioria do Estado rural é cada vez mais conservador. E é aqui que provavelmente irá-se decidir as eleições. Parece-me que se Kamala Harris vencer na Pensilvânia, possivelmente irá vencer os outros dois Estados do Midwest, Wisconsin e Michigan, e será eleita presidente. Por outro lado, se Donald Trump vencer na Pensilvânia, tem o caminho aberto para vencer as eleições, mesmo que perca os outros estados do Midwest poderá vencer, vencendo na Geórgia, na Carolina do Norte ou no Arizona. Portanto, é um estado decisivo e não é por acaso que é o estado onde os candidatos mais têm estado presentes. Por exemplo, desde que Kamala Harris é candidata, desde agosto, ela já esteve 13 vezes na Pensilvânia. Donald Trump, neste período, também esteve 11 vezes e é aquele estado claramente onde está a ser gasto mais dinheiro e há mais recursos no terreno a mobilizar o voto.
Por fim, vamos à última gafe de Joe Biden, a propósito de uma rábula feita a Porto Rico, acabou a chamar lixo aos apoiantes de Donald Trump. Levou até que a Casa Branca emitisse um esclarecimento. Isto é uma daquelas trapalhadas que se evita ao máximo numa reta final de campanha.
Ainda por cima, no momento em que foi dito. Tínhamos passado as últimas 48 horas a discutir aquele comediante que insultou a ilha de Porto Rico, dizendo que era um conjunto de lixo no oceano e claramente a campanha republicana estava na defensiva e muitos porto-riquenhos estavam a ajudar Kamala Harris neste segmento eleitoral que será decisivo. E ontem também, à mesma hora, Kamala Harris dava um discurso muito importante em Washington perante mais de 70 mil pessoas, onde no fundo estava a desenvolver a sua mensagem final de campanha. E ao mesmo tempo, Joe Biden, que não tem sido convidado para participar na campanha de Kamala Harris, faz um discurso online onde tece essa declaração infeliz, obviamente logo aproveitada pelos republicanos para criticarem os democratas e de facto foi uma boa oportunidade para Joe Biden não aparecer, ou pelo menos não deveria ter aparecido desta forma, porque prejudicou um pouco a mensagem da Kamala Harris.
Nuno Gouveia, muito obrigada por teres estado conosco mais uma vez neste "América Dividida".
Prazer.
No fecho, Nelson Ferreira destaca hoje a entrada na campanha de duas figuras da realeza de Hollywood. Sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar.
George Clooney e Julia Roberts são as mais recentes estrelas a entrar na campanha eleitoral norte-americana. O ator empresta a voz ao mais recente anúncio televisivo da organização Vote Common Good, um grupo evangélico progressista que apoia os democratas. Neste novo vídeo exibido ontem na NBC, o vencedor de um Óscar relembra os eleitores que podem votar em quem quiserem porque nunca ninguém vai saber. Todo o tom do anúncio pisca o olho aos votantes do Partido Republicano e mostra um deles a entrar numa assembleia de voto, dando todas as indicações que vai votar Trump. No entanto, quando cruza o olhar com a sua filha mais nova, muda o voto para Kamala Harris. Há alguns dias, a Vote Common Good lançou um anúncio semelhante, mas com a voz de Julia Roberts e direcionado para o público feminino. Nele pode ouvir-se a estrela de "Pretty Woman" a lembrar que a mesa de voto é o único sítio na América onde as mulheres têm direito de escolha. Quanto à agenda de campanha, Kamala Harris visita hoje três estados-chave, Carolina do Norte, Pensilvânia e Wisconsin, enquanto que Donald Trump também passa pela Carolina do Norte, terminando o dia em Green Bay, Wisconsin, onde vai fazer um comício onde vai estar também a estrela de futebol americano Brett Favre. "Oh, Pretty Woman", Roy Orbison, 1964, Estados Unidos da América.