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Começa agora o novo episódio do "América Dividida", sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Bem-vindo, Bruno.
Olá, obrigado.
Bruno, hoje começamos pelas sondagens mais recentes. Os democratas mantêm vantagem, mas Trump ganha popularidade. Por isso pergunto se Kamala Harris precisa estar mais preocupada.
A questão é que temos sondagens para todos os gostos.
Pois, é verdade.
Mesmo naquelas que importam mais, que são as sondagens nos estados que vão decidir a eleição, e sobre isso há bastante consenso, há uma enorme divisão em múltiplos aspectos na América, mas sobre isso há realmente bastante consenso. Se quisermos o único dado seguro desde o início da nova fase da campanha, com a desistência de Biden e depois o aparecimento de Kamala Harris, é que ela tem melhores resultados do que Biden, portanto, conseguiu voltar a tornar a campanha competitiva, e que a eleição se vai decidir em sete estados, que é aliás onde praticamente os candidatos passam os dias nas últimas semanas e vão passar nas próximas duas até à eleição, ou seja, o Wisconsin, o Michigan, a norte, a Pensilvânia, depois o Nevada, a Carolina do Norte, o Arizona e a Geórgia. Portanto, são estes sete estados que vão decidir a eleição. Aí, realmente, por exemplo, uma sondagem recente dava Trump com vantagem mais clara ou reforçada em três deles, na Carolina do Norte, no Arizona e na Geórgia, entre 1% e 2%, e depois a Kamala Harris a perder essa vantagem, e portanto empatada no Wisconsin e na Pensilvânia, e depois com uma ligeira vantagem no Michigan e no Nevada. Enfim, se isso fosse assim, realmente, ela teria muitas razões para se preocupar, mas, por exemplo, se formos olhar para o "Washington Post", a sua média das sondagens destes estados já dá um resultado completamente diferente, dá até a Kamala Harris com uma ligeira subida no Wisconsin e na Carolina do Norte, apesar de aí o Trump continuar em vantagem, mas com margens muito curtas, e no fundo mantendo-se aquela vantagem da Kamala Harris no Wisconsin e no Michigan, também na Pensilvânia, à volta dos 2%, e portanto não haver aqui claramente uma vantagem para Trump, até porque o estado mais populoso e mais importante aqui é a Pensilvânia. Portanto, eu diria, talvez aquilo que deva preocupar mais Kamala Harris são também números recentes de sondagens que mostram que ela realmente continua a perder votos, se compararmos com Biden, Clinton e com Obama, nos votantes negros, nos votantes afro-americanos, sobretudo entre os homens. Estamos a falar de uma diferença entre Obama, que andou à volta dos 90% de apoio entre os afro-americanos, Biden, que andou à volta dos 81%, Kamala Harris está nos 66%, ainda menos do que Hillary Clinton.
Pois, é uma diferença enorme.
Se isso for assim, realmente é bastante preocupante. No fundo, o que ela precisa é tentar compensar isso, mesmo esta estratégia, por exemplo, de fazer agora atos de campanha durante o dia de hoje com a Liz Cheney, no fundo, corresponde a esta ideia de tentar ir buscar votantes mais moderados republicanos, que tradicionalmente não votariam nela, e também tentar mobilizar, sobretudo as votantes mulheres, que tradicionalmente, aliás, diga-se, votam mais do que os homens, enfim, tudo o resto sendo igual. E portanto, no fundo, confiar que alguns destes votantes que estão a transferir as suas preferências tradicionais pelo Partido Democrático por Trump acabarão por não ir votar, e que as mulheres são um voto mais fiável, vamos dizer assim, e que isso acabará por ser decisivo depois na altura de contar os votos.
Entretanto, desde a visita de Donald Trump ao McDonald's, que temos ouvido falar numa espécie de McDonald's Gate. Bruno, conta-nos tudo.
Sim, isso terá sido talvez dos atos mais normais de Donald Trump já há bastante semanas. Obviamente, é um bocadinho um campaign stunt, é uma performance, mas é algo que os candidatos todos fazem há décadas e décadas, se não há mais. No fundo, é esta ideia de desempenhar aqui uma tarefa que as pessoas, vamos dizer assim, entre aspas, normais também desempenham. Mostrar empatia com o trabalhador comum, etc. Aí Trump não se saiu particularmente mal. Agora, não conseguiu resistir à sua postura habitual, que é de ataque constante, num estilo extremamente agressivo. E aproveitou isso para pôr em questão que a Kamala Harris tivesse realmente trabalhado como jovem, porque esse é um trabalho típico de muitos jovens americanos, ainda com menos de 18 anos. Fazer um trabalho em part-time, porque isso é legal, em part-time, neste tipo de cadeias de fast food, para ganhar algum dinheiro extra. E a Kamala Harris terá feito isso nos anos 80. Não sei se fez, se não fez. Se não fez, obviamente, é criticável, não se pode abrilhantar aqui o currículo para efeitos eleitorais, mas dizer, como diz Donald Trump, em que a grande prova disso é que ela não incluísse nalguns currículos profissionais, quer dizer, é evidente que se está a concorrer para procuradora-geral da Califórnia, não sei se isso é exatamente o mais relevante, ou enfim, para outro cargo jurídico qualquer. Portanto, à partida, acho que talvez o caso esteja ligeiramente exagerado do lado do Donald Trump. Mas claramente é o tipo de campanha que ele gosta também de fazer e que ele acha que resulta com a sua base e pelo menos com uma parte importante do eleitorado americano, aparentemente resulta.
Ainda o tema da desinformação, Bruno. É uma palavra apenas usada por quem a faz ou será que existe mesmo e houve um exemplo recente com o candidato a vice-presidente, o democrata Tim Walz?
Isso é algo que o Elon Musk, o dono do Twitter, agora chamado X, veio dizer. No fundo, quem fala desinformação geralmente está a fazer desinformação, dando a entender que isso é um conceito que é só usado para efeitos de retórica política. Ora, na verdade, é um problema bastante sério e, como referias, teve uma tradução concreta agora nestes últimos dias. Houve uma investigação do Washington Post. Aparentemente, há um vídeo que tem sido partilhado milhões de vezes, de alguém que utiliza o nome, portanto, se apropria da identidade de um aluno, se calhar, não por acaso, afro-americano da escola de Tim Walz, e que depois utiliza isso para fazer alegações de abuso em relação ao candidato a vice-presidente. Ora, essa pessoa realmente existe. O Washington Post falou com ela e ela desmente tudo isso e diz que está a ter um impacto terrível também sobre ele, que se sente violentado na sua história de vida, na sua identidade. Esse é um bom exemplo concreto de que realmente a desinformação é um problema bastante real e que muitas vezes, para ser eficaz, pega em pedaços de verdade. Em coisas que até podem ser comprovadas. Por exemplo, este aluno realmente existe, esta pessoa realmente existe e realmente frequentou aquela escola, para depois criar narrativas completamente falsas e que podem ser altamente nocivas para as pessoas envolvidas. Ter um impacto na sua reputação, pois é muito difícil de desmentir completamente, porque essas histórias acabam por sempre ir circulando nas redes virtuais, etc. Também muito graças, já agora é importante sublinhar isso para terminar, muitas vezes esta desinformação não precisa de ser especialmente sofisticada, só precisa de ser ideologicamente conveniente. Por exemplo, para explicar o impacto enorme que tem a desinformação russa em muitos países ocidentais, não é que ela seja especialmente brilhante ou sofisticada, que não entre em contradições evidentes, que seja fácil de detetar. É que realmente corresponde aos preconceitos, às preferências ideológicas das pessoas e, portanto, as pessoas preferem acreditar naquilo que ajuda a alimentar essas narrativas e essas preferências ideológicas, do que verificar se é realmente verdade e evitar espalhar informações falsas, mas que são convenientes para o argumento que se quer defender.
Bruno, vamos à curiosidade deste “América Dividida”. O presidente tem de viver na Casa Branca? Porque os presidentes não o fizeram no passado.
Exatamente. Não há nada na lei que obrigue a isso. Há uma lei, por exemplo, que estabelece o Distrito de Colúmbia, portanto, o Distrito Federal, a zona onde está a cidade de Washington, como a capital dos Estados Unidos. Também foi nessa altura que se decidiu reservar um terreno e depois estabelecer um concurso para se construir aquilo que foi conhecido inicialmente como o Palácio do Presidente ou o Palácio ou a Mansão do Executivo. Mas depois rapidamente adquire este nome de Casa Branca. Há uma lenda que diz que isso teve a ver com um facto real, que tem a ver com esses períodos em que o presidente não ocupou a Casa Branca, que entre 1814 e 1817, como resultado de uma guerra entre os britânicos e os americanos, não a Guerra da Independência, mas a Guerra de 1812, realmente Washington foi destruída, foi queimada grande parte da cidade, de uma cidade que ainda estava a começar, e inclusive a própria Casa Branca também foi queimada pelas tropas britânicas e portanto teve de ser reconstruída, mas na verdade ela sempre foi pintada de branco. Na verdade, é possível documentar que o nome já estava em uso até antes disso, mas realmente tirando esse período de 1814 a 1817, em que o presidente ocupou uma mansão emprestada das poucas que sobreviveu na cidade, e o período, sobretudo entre 1889, 90, portanto o início mesmo da República Americana, e 1800, ou seja, os 10 anos em que a cidade de Washington e a própria Casa Branca estão a ser construídas, tirando esses dois períodos, realmente, por regra, o presidente habita a Casa Branca. Habita e trabalha. E uma explicação muito simples para isso é que é bastante conveniente e é também bastante seguro, e sobretudo nos últimos anos, isso tornou-se praticamente obrigatório. Imagino que os serviços secretos que protegem o presidente, o seu pior pesadelo seria a ideia de que o presidente passaria a viver noutra casa qualquer, noutro sítio qualquer. Sempre que sai, já tem que tomar grandes medidas de proteção e de segurança, mas portanto, tem esta vantagem prática e também de segurança, que leva a que na prática, de facto, seja assim. E depois também há uma dimensão simbólica que também ajuda ou obriga. Sabemos, por exemplo, Donald Trump não gostava particularmente da Casa Branca, que achava que era demasiado pequena e pouco luxuosa, o que diz bastante também de como ele é um representante do americano comum. Mas realmente, por razões também políticas, acabou por, na prática, estar grande parte do tempo da presidência na Casa Branca.
Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Muito obrigada pela análise, Bruno. Bom descanso. Até amanhã.
Obrigado. Até amanhã.