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Mostrou que não receia questões difíceis e esteve sempre combativa ao longo da entrevista ao canal conservador Fox News. Kamala Harris falou mais de Donald Trump do que do programa com que se apresenta às eleições nos Estados Unidos, mas deixou claro que, caso vença, não será a continuidade da administração Joe Biden. Madalena Mayer Resende é especialista em Relações Internacionais. Obrigada por estar conosco e bem-vinda mais uma vez. Kamala Harris mostrou ontem que consegue desenvencilhar-se de entrevistas mais difíceis?
Olá, muito obrigada eu também. Sim, ela foi bastante assertiva na sua resposta a um entrevistador claramente hostil. E de fato, o senhor Biden pareceu mais um debate do que propriamente uma entrevista. Portanto, esta capacidade que ela mostrou de não ser desviada dos assuntos quando o entrevistador a tentava controlar, de certa maneira, foi bem-sucedida e penso que ela passou bem este teste que até agora tinha evitado. Portanto, demonstra que está a conseguir provar que é uma política combatida e capaz de estar em situações de grande tensão sem se desviar dos assuntos que quer apresentar.
Quando foi questionada sobre o comentário que fez recentemente de que nada mudaria em relação às ações da administração Biden, Harris foi muito clara ao dizer que a sua presidência não será uma continuação da de Joe Biden. É importante passar esta mensagem?
É muito importante. Eu penso que estamos num momento pivô desta campanha. Seguiu-se, depois do anúncio dela, um certo período de lua de mel que ela conseguiu navegar bastante bem, mas sem apresentar as suas propostas e o que traria de novo à presidência que Joe Biden não tivesse já realizado. Só que esta estratégia já não funciona e de certa maneira podemos ver um momento em que Donald Trump volta a estar com a iniciativa na campanha e Harris aparece como à defensiva. E ela tem, de facto, que entrar num modo mais ofensivo e num modo em que demonstra aos eleitores quem é ela, ao que vem e o que ela traz de novo aos eleitores que não seja já conhecido. Portanto, foi muito importante que ela se tente descolar da herança de Joe Biden.
Na entrevista, os primeiros 10 minutos foram só sobre imigração, em que Harris tentou explicar que foi Donald Trump que não permitiu que fosse aprovada legislação, por exemplo, para contratar mais guardas nas fronteiras. Parece sempre que este tema é o calcanhar de Aquiles de Kamala Harris.
Sim, sem dúvida. Não só o tema da imigração é um dos temas mais centrais da competição entre Harris e Trump, como o seu legado não é propriamente brilhante, ou seja, ela foi incumbida de uma tarefa bastante ingrata, que era gerir a política de imigração como vice-presidente, e não foi propriamente brilhante. Portanto, a sua prestação é exatamente o calcanhar de Aquiles da sua campanha. E também é sabido que a 20 dias das eleições, tanto Trump como Kamala Harris estão a tentar retirar o apoio das bases políticas um do outro. Harris com os republicanos e Trump com os eleitores latinos. E obviamente que nesta tarefa, é muito difícil para Harris ter que lidar com este dossiê da imigração e de uma política claramente em que está em tensão com a política republicana.
Harris procura o apoio do eleitorado afro-americano, isso tem sido evidente, que é essencial para a vitória de qualquer candidato democrata. As últimas sondagens têm preocupado a campanha de Harris. Segundo o New York Times, 78% dos eleitores negros dizem apoiar Harris. São menos 12% do que em 2020 apoiavam Biden. E nos últimos dias tivemos Barack Obama na campanha, Harris a lançar um pacote de medidas endereçados especificamente para a comunidade afro-americana. Esteve também num importante programa de rádio, que é ouvido por oito milhões de pessoas por mês, maioritariamente homens negros. Isto parece ser uma estratégia diferente daquela que usou nos últimos dois meses.
Sim, ela evitou exatamente e penso que vem lançar uma campanha baseada na sua identidade étnica, digamos assim racial e mesmo de género. Ou seja, ela tentou evitar ser a candidata mulher negra, não é? E isso teve, aparentemente, um bom retorno ao ela tornar-se consensual, não só no contexto do Partido Democrata, como em geral, ser vista como uma candidata de uma larga coligação de americanos. Agora, de facto, estes eleitorados específicos que estão a ser escrutinados ao último milímetro, dado que a corrida continua a ser extremamente indecisa, ou seja, há ainda completa abertura sobre quem será o vencedor, e ao tentar ir a estes eleitorados onde há esta ideia de que poderão estar aqui os votos cruciais para que Harris consiga vencer Trump nos estados decisivos, faz com que ela tenha que mudar um pouco a sua abordagem e dirigir a sua mensagem apelando à sua própria identidade étnica, sem ser demasiado explícita em relação ao seu género de mulher. Mas é uma batalha dura, porque são duas estratégias um pouco opostas.
Kamala Harris também está com o mesmo problema na comunidade latina. Ontem, Donald Trump esteve na televisão de maior audiência latina a responder a perguntas e a dada altura disse que também estava a defender os imigrantes latinos que já estão no país contra aqueles que querem entrar. Isto é uma dicotomia muito difícil para Kamala Harris lidar.
Exato. É uma mensagem que é provavelmente estudada pelos assessores de Trump e de Biden. Trump está, de facto, a tentar conquistar os eleitores latinos mais conservadores, que estão estabelecidos nos Estados Unidos há mais tempo, protegendo o seu estatuto face a novas vagas de imigração. Este é um conflito que é conhecido entre várias vagas de imigração, mesmo dentro do mesmo grupo étnico. E é uma mensagem extremamente complexa e que para Harris é de facto mais difícil, uma vez que ela vem do Partido Democrata, em que a política de imigração tem sido muito mais liberal do que a do partido conservador. Portanto, para ela é mais difícil credivelmente passar esta mensagem de que está a proteger os eleitores democratas latinos contra novas vagas de imigração e, portanto, uma mensagem conservadora, mesmo vindo de Trump, que não é propriamente muito adorado pelos latinos, pode vir a convencer umas centenas de milhares deles e ser crucial para o resultado final das eleições. Estamos neste patamar, como sabemos, neste momento.
Obrigada, Madalena Meyer Resende, por ter estado conosco em mais um "América Dividida". No fecho de hoje, o Nelson Ferreira vai até ao estado onde os candidatos estão a colocar todas as fichas nesta reta final da campanha, um trabalho com a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar.
De todos os chamados estados-chave que podem vir a decidir esta eleição, a Pensilvânia parece ser a grande aposta dos candidatos. A poucas semanas do dia decisivo, nenhum outro estado recebe tantas visitas de republicanos e democratas como este, que é o quinto estado do país em termos de população, cerca de 13 milhões de pessoas. Só nos últimos três meses, e juntando as iniciativas dos candidatos a presidente e vice-presidente, contam-se mais de 50 visitas e o ritmo não vai abrandar até 5 de novembro. O resultado das sondagens, que é nesta zona dos mais renhidos do país, é um dos fatores que está na origem desta predileção. Mas nem só de visitas se faz esta campanha e o investimento publicitário também é maior na Pensilvânia. Segundo a empresa Ad Impact, em cada quatro dólares gastos em publicidade, um é investido neste estado, o que revela o enorme investimento que está a ser feito para esta população. Em 2016, Trump venceu na Pensilvânia por um triz e também foi por um triz que em 2020, esse mesmo estado deu a vitória a Biden. "Pennsylvania 6-5000", Glenn Miller and His Orchestra, 1940, Estados Unidos da América.