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Rehnhida, empatada, demorada. Todas as previsões para a noite eleitoral falharam. Quem esperava acordar hoje na Europa ainda sem resultados, teve o nome do novo ocupante da Casa Branca. Donald Trump voltou a ganhar as eleições nos Estados Unidos. Daniela Melo, cientista política da Universidade de Boston, obrigada por estar conosco. Ontem falávamos aqui da demora na contagem dos votos, de quão renhidos estavam os swing states. Como é possível que as sondagens tenham errado, portanto, as sondagens que mostravam sempre os candidatos taco a taco?

Olá, boa tarde, Judite. Eu vou ser um pouco mais caridosa com as sondagens, porque todos os resultados que eu vejo agora nos estados oscilantes, na verdade, estão ainda dentro da margem de erro daquilo que as sondagens previam. Portanto, as sondagens previam que a corrida estava taco a taco nesses estados e realmente estava, mas ainda havia espaço na margem de erro, sendo essa margem de erro de mais três pontos ou menos três pontos, para um dos candidatos conseguir, sobretudo o candidato que tivesse conseguido mobilizar mais do seu eleitorado, da sua base, ou persuadir mais dos novos eleitores, conseguir basicamente fugir com a corrida, estando sempre ainda dentro da margem de erro.

E essa margem de erro caiu quase toda para Donald Trump.

É isso mesmo. Ou seja, este resultado ainda se insere no que as sondagens apanharam. As sondagens não erraram tremendamente, mas o que as sondagens não capturaram foi qual lado, se seria Kamala Harris ou Donald Trump, aquele que conseguiria realmente virar os estados-chave a seu favor. Portanto, foi Donald Trump, mas mais uma vez, tudo por margens de 2%, 3%, portanto, sempre dentro da margem de erro. Acho que também é importante salientar esse aspecto de como ler as sondagens, e perceber que apesar do resultado ter sido chocante para muitos, não só nos Estados Unidos, mas no mundo, não foi completamente inesperado.

O que mais penalizou Kamala Harris foi a herança de Joe Biden?

Ainda é um pouco cedo para percebermos o que a penalizou, mas é bastante possível que ela não se tenha conseguido descolar das políticas de Joe Biden, nem da imagem de Joe Biden, no pouco tempo que teve para fazer a campanha. Ela estava numa situação particularmente difícil, sendo vice-presidente, portanto também tendo um certo limite na potencial descolagem, visto que ainda exercia funções sob Biden, mas realmente uma das apostas que a sua campanha fez foi apostar no voto feminino e foi uma aposta que falhou. Eu entraria por aí como uma das principais explicações do que se passou esta noite.

Sim. Não conseguiu mobilizar as mulheres pelo menos quanto se esperaria, e que era fundamental.

Exatamente. Aliás, ela em vários estados teve votos ou margens inferiores àquelas que Hillary Clinton e que o próprio Biden conseguiram. Portanto, houve uma aposta da campanha que foi feita baseada, sobretudo, nos resultados das eleições intercalares dois anos atrás, em que as mulheres, na reação a quente à decisão sobre Roe v. Wade, a decisão do Supremo Tribunal de Justiça que eliminou o direito constitucional ao aborto, houve uma reação de muitas mulheres, mas essas mulheres claramente foram relaxando nos últimos anos. E o que vimos, por exemplo, é que se contava imenso com as mulheres brancas para realmente conseguirem colmatar a diferença na mobilização dos homens para os republicanos, mas as mulheres brancas não apareceram para Harris, ou seja, os números mantiveram-se relativamente estáticos. Isso diz-nos que basicamente esse será provavelmente o maior falhanço da Kamala Harris e da sua campanha.

Os eleitores conseguiram distinguir Kamala Harris da questão do aborto quando foram votar?

Basicamente, o que Donald Trump conseguiu fazer foram duas coisas interessantes. Por um lado, já passaram dois anos desde o Roe v. Wade, portanto, já houve tempo para haver um ajustamento e para muitas mulheres perceberem que, apesar de não existir essa lei, de não termos uma proteção a nível federal, que estado a estado, mesmo nos estados mais conservadores, os referendos para salvaguardar os direitos reprodutivos das mulheres estavam a passar de forma positiva. Portanto, muitas mulheres acomodaram-se, de certa maneira, a esta nova estrutura. Depois, Donald Trump também teve uma estratégia de separação da linha do seu partido, basicamente apelando à questão, ou tentando. E ele acabou por criar uma estrutura permissiva para que as mulheres votassem nele. E como é que ele acabou por fazer isto? Ele, por um lado, disse: "Eu pessoalmente concordo com o acesso à interrupção voluntária da gravidez e não concordo com com estados como a Flórida, que estão a tentar restringir isso para apenas algumas semanas. Ou outros estados, outras legislaturas que podem estar a tentar eliminar esse acesso a nível estadual. E o que eu fiz foi simplesmente dizer aos estados que os estados é que decidem. Mas eu não sou a favor, falo aqui por Donald Trump, mais uma vez, eu não sou a favor de passar uma lei a nível federal que proíba o aborto. Portanto, posicionou-se dessa maneira, criando essa tal estrutura permissiva. Eu aqui adicionava mais um ponto, que me parece que é relevante. Se olharmos para o voto religioso, parece que houve aqui uma retaliação, um backlash da América religiosa, e esse backlash pode estar relacionado com a questão do aborto. Porque se nós formos ver o voto dos protestantes, em que se inserem também os evangélicos, vemos que Donald Trump ganhou claramente, teve mais de 60% do voto desses eleitores, mas o voto católico, que foi ganho por Biden há quatro anos, ganho claramente com mais de 55% ou 56%, desta vez foi ganho por Donald Trump. Portanto, houve claramente um movimento à direita no voto religioso, sobretudo no voto católico por Donald Trump. E aqui a questão pode ser realmente uma reação do posicionamento de Kamala Harris em relação à questão do aborto.

Ficou aquém no voto dos eleitores negros, perdeu o voto latino, como é que isto se explica?

Bem, os eleitores negros foram os que mais apoiaram Kamala Harris, definitivamente, mas perdeu umas pequenas margens. E essa é a grande história desta noite, ou seja, Kamala Harris só conseguiria vencer se tivesse margens iguais ou superiores às de Biden nas cidades, em cidades como a Filadélfia, Pittsburgh, Detroit. Não chegou lá. Chegou perto, mas não chegou lá. Eu dou um exemplo. A Filadélfia foi ganha com 80% do voto ou perto de 80% do voto, e da última vez que vi os números estavam nos 77%, 78%. Pode parecer uma diferença pequena, mas não é, porque num estado onde há grandes divisões entre o meio rural e o meio urbano, essas margens fazem toda a diferença. E ela precisava de uma margem de, no mínimo, 50 pontos nas cidades para conseguir apanhar Donald Trump e superá-lo com o voto que ele iria arrecadar nas zonas rurais. Essa história passou-se basicamente, foi-se vendo ao longo da noite a desenrolar-se em vários estados. Ou seja, ela não conseguiu superar as margens de Biden, aliás, em muitas zonas ficou abaixo do que ele conseguiu há quatro anos atrás, e Donald Trump, consistentemente, mesmo nos condados onde ele já era o vencedor, conseguiu subir essa margem dois, três pontos. Isso marcou a diferença.

Trump também conseguiu o Senado. Que implicações práticas é que esta vitória do Senado tem?

Conseguiu o Senado e pode ainda conseguir a Câmara dos Representantes. Portanto, ainda estamos a fazer a contabilização dos votos em várias corridas para a Câmara dos Representantes, mas se isso acontecer, Donald Trump terá realmente um alinhamento político entre o poder executivo e o legislativo que lhe será completamente favorável, ou quase completamente favorável. É verdade que apesar de ele ter o Senado, muitas iniciativas, se não mesmo a maioria das iniciativas, requer cerca de 60 votos no Senado para avançar. Portanto, há um mecanismo que pode abrandar algum deste poder executivo ou deste conluio entre o poder executivo e o poder legislativo, sobretudo se a Câmara dos Representantes também estiver nas mãos dos republicanos, mas é isso, é um mecanismo. Portanto, Donald Trump sai desta noite com um mandato, um verdadeiro mandato para transformar as instituições dos Estados Unidos. É isso que ele tem prometido, para transformar a política externa dos Estados Unidos. Ganha o voto popular e ganha o colégio eleitoral de forma incisiva. É bastante claro, irrefutável, que ele é o vencedor da noite e que lhe é dado o mandato por grande parte do povo americano para transformar os Estados Unidos.

Como é que fica a Europa com a vitória de Donald Trump?

Ora bem. Donald Trump tem-se posicionado de uma forma bastante clara em relação à Europa. Ele não é um grande fã da continuidade da aliança transatlântica da Guerra Fria, portanto, ele tem-se posicionado de forma extremamente crítica em relação à NATO, em relação à União Europeia, em relação à questão da guerra na Ucrânia, como sabemos. O afastamento dos Estados Unidos e da Europa, que a cada dia foi progressivo na primeira administração de Trump, pode acelerar de forma bastante clara nos próximos quatro anos, sobretudo se Trump se posicionar para uma saída da NATO. Enfim, uma saída indireta também é possível. Ele basicamente já lançou ambas as ideias de não sair, mas deixar de fazer contribuições financeiras e militares para a NATO, o que em si daria basicamente o mesmo resultado. Portanto, adivinha-se realmente um novo panorama para a Aliança do Atlântico a curto prazo, talvez até a longo prazo. Isto pode ser um incentivo para que os europeus decidam tomar as rédeas em áreas que até agora dependeram dos Estados Unidos, como na sua própria segurança, na sua capacidade militar, mas isso ainda é um grande se. E não acontecerá do dia para a noite. O que se torna cada vez menos provável é que a Ucrânia consiga vir a ser um membro da NATO ou até mesmo da União Europeia, porque se realmente houver uma negociação de certa maneira forçada pelos Estados Unidos, o mais provável é que parte dessa negociação seja não só uma perda de território significativa para a Ucrânia, mas também uma promessa de que não entrará na NATO.

Obrigada, Daniela Melo, por ter estado conosco mais uma vez. Bom descanso, porque foi uma noite longa, ainda assim.

Foi uma longa noite.

Exatamente. Hoje fechamos com um dos grandes apoiantes de Donald Trump, o cantor de música country Jason Aldean, sempre de chapéu de caubói.