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Este é o Som do América Dividida, sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, que está de regresso a Washington, DC. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Bruno, depois de Elon Musk pelos republicanos, agora é Bill Gates pelos democratas, o fundador da Microsoft doou 50 milhões de dólares à candidatura de Kamala Harris. Ele, que é um dos homens mais ricos do mundo, quis manter isto em segredo, mas a notícia foi avançada pelo The New York Times. Bruno, que diferença faz esta doação em termos de resultados no dia 5?

Bem, qualquer doação em si não faz diferença. Agora, o somatório é que é fundamental. E claro, 50 milhões, enfim, numa eleição na Europa faria uma diferença tremenda. Aqui, para termos uma noção, estamos a falar de milhares de milhões. Portanto, no conjunto de todas as despesas das duas campanhas, republicanos e democratas, e não só para o presidente, mas também para os outros cargos no Congresso, fala-se em alguma coisa como 16 mil milhões. Agora, realmente, isso exige muito financiamento, inclusive de muitos milionários. Quando falámos aqui da controvérsia em torno do Elon Musk, eu não sabia que isto ia aparecer, mas avisei que realmente não era só o Elon Musk, era normal haver doações enormes de milionários e bilionários, na verdade, para os dois partidos. Só assim é que se conseguia depois financiar campanhas com este volume, até porque grande parte disso tem realmente financiamento privado, o financiamento público não é nada de extraordinário, é muito reduzido mesmo. Aqui, o que é importante sublinhar é que este financiamento não é diretamente para a campanha, é essa a regra, ou se quisermos, a forma de contornar as regras, diria eu, mas enfim, foi a interpretação do Supremo. Portanto, são os famosos super PACs, ou seja, são no fundo grupos de financiadores que se juntam para defender uma causa, uma ideia, um programa. Geralmente nas campanhas presidenciais, isso significa ideias, programas associados a um dos candidatos. E, portanto, na prática, desde que não haja uma subordinação direta à campanha, de facto, isso não é ilegal. E portanto, aqui o Bill Gates, o que foi explicar é que ele é discreto, ao contrário do Elon Musk, que procura trabalhar e diz que trabalha e trabalhará. Exatamente. O Elon Musk teve aqui um protagonismo e continua a ter um protagonismo que não tem precedentes. Não é a questão tanto do volume de doações, que é enorme, mas há alguns outros bilionários que podem fazer doações desse tipo. O Elon Musk, 75 milhões, por exemplo, o Bill Gates, 50 milhões, portanto, não é assim tão menos o Bill Gates, mas realmente ele explicou que era uma doação até excepcional, porque ele procura, de um modo geral, trabalhar com pessoas dos dois partidos. Acha que há pessoas válidas nos dois grandes partidos, mas que esta eleição lhe parece excepcional. Portanto, ele acabou por esclarecer: "Embora eu quisesse ser discreto, não tenho aqui nada a esconder. E a razão é que eu acho que realmente o Donald Trump é um candidato especialmente mau e especialmente perigoso para uma série de causas em que eu acredito, como a questão, por exemplo, da saúde global, até da ajuda ao desenvolvimento nessa área da saúde, etc." E, portanto, foi isso que o levou a decidir apoiar a candidatura. Enfim, não a candidatura diretamente, mas as ideias, no fundo, ajudar a promover as ideias que ajudarão a eleger ou não Kamala Harris.

Entretanto, a campanha de Trump apresentou queixa contra o Partido Trabalhista inglês por causa do envio de voluntários para ajudar Kamala Harris. A equipe do ex-presidente diz que isto viola a lei eleitoral e fala numa interferência à vista de todos. Bruno, há aqui alguma razão?

Bem, não é ilegal. Por exemplo, eu estando aqui podia voluntariar-me para trabalhar numa campanha. Isso não é ilegal, desde que não haja pagamentos e desde que não haja contribuições financeiras, ou seja, desde que eu não seja pago e desde que eu não pague para a campanha, não contribua para a campanha. Isso é ilegal. E portanto, aqui o que suscitou também dúvidas e, no fundo, dá alguma legitimidade a esta queixa, é que a responsável do secretariado do Partido Trabalhista britânico anunciou a disponibilidade para voluntários que viessem ajudar a campanha de Kamala Harris. Isso é uma coisa que acontece há décadas, está mais do que sabido, há imensas referências em memórias. Acontece com os dois partidos. O Nigel Farage, por exemplo, é conservador neste caso, mas o defensor do Brexit publicamente teve um protagonismo enorme nas campanhas do Donald Trump. Os próprios conservadores também apoiaram no passado Donald Trump e ainda recentemente a Liz Truss, a antiga primeira-ministra conservadora, esteve cá a apoiar Donald Trump, a criticar o Joe Biden, que na altura ainda era o candidato. Portanto, isso é algo tradicional. Aqui, como eu dizia, suscitou dúvidas, foi que numa publicação nas redes, enfim, hoje em dia nas redes tudo se sabe, a apelar realmente a voluntários, havia uma referência a dizer: "E nós trataremos, resolveremos a questão da habitação", portanto, o alojamento. Ora, isso seria um problema se o alojamento fosse pago pelo Partido Trabalhista, isso seria uma contribuição, ainda que indireta. Aparentemente, a explicação que foi dada é que isso significava "setting you up", é uma expressão ambígua no inglês, mas significava "nós arranjamos maneira de resolver isso", ou seja, esses voluntários terão ficado em casa de outros voluntários da campanha democrática, portanto, americanos, no fundo, que apoiam Kamala Harris e que, como parte desse apoio, também acomodaram estes voluntários britânicos. Portanto, se foi isso, à partida, não será ilegal, mas claro, isso tudo serve à campanha de Donald Trump e muito a esta narrativa também, que ele tem muito esta estratégia retórica, muito hábil, de sempre que é acusado de alguma coisa, depois acusar o outro lado De fazer o mesmo, muitas vezes de forma completamente abusiva. Por exemplo, ele é acusado de tentar dar um golpe, de impedir, de facto, uma transição pacífica do poder a 6 de janeiro de 2021, não reconhecendo o resultado das eleições, etc. E depois ele diz que o Joe Biden foi afastado por um golpe pela Kamala Harris, apesar de não haver qualquer possível comparação. Até se pode achar mal o Joe Biden ter saído, mas foi algo que foi decidido por ele e foi decidido depois o que fazer a seguir pelos órgãos democráticos, de acordo com a lei do Partido Democrático. Mas enfim, também esta questão. Falam de interferência russa, de desinformação russa a apoiar Donald Trump, então ele vem falar de interferência também ilegítima, neste caso do terrível Partido Trabalhista inglês. Com as consequências sérias, eventualmente podem ser para as relações entre a Grã-Bretanha, ainda por cima mais isolada pós-Brexit, e os Estados Unidos, para a famosa relação especial que os britânicos prezam tanto e que os americanos, se calhar, já não consideram assim tão especial. E se calhar com Donald Trump considerarão ainda menos, porque ele não consegue separar as coisas. E portanto, perceber que há uma distinção entre o Partido Trabalhista, um governo trabalhista e um primeiro-ministro trabalhista, que é o caso atualmente na Grã-Bretanha.

Bruno, temos também de falar do town hall de Kamala Harris na CNN, em vez do debate que Trump recusou, e este formato também recusou. Como é que saiu a Harris? Esteve bem?

Eu acho que ela pelo menos merece ser louvada, porque fez algo que foi muito criticada por não estar a fazer. Agora tem feito em grande quantidade, entrevistas, este tipo de debates, etc. Portanto, expor-se a questões. E Trump, que dizia tão mal de isso não acontecer, era tão crítico, agora ele realmente parece estar com dificuldades em debater, em ser confrontado com questões que não sejam em eventos controlados por ele. Portanto, acho que a partir disso já é uma vitória, vamos dizer assim, de Kamala Harris. Agora, eu acho também que ela realmente não é um grande animal político, instintivo, carismático, como obviamente o Donald Trump é, por muitos defeitos que depois eram apontados, como alguém como Obama é também claramente, mesmo nesta campanha, ele está a fazer campanha ativamente por Kamala Harris. Nota-se uma diferença enorme. Portanto, mesmo em respostas, em questões em que ela provavelmente poderia ter brilhado mais, muitas vezes tinha dificuldade em fazê-lo, tem dificuldade também em estabelecer aquele rapport, aquela empatia, aquela relação com o público, que alguém como Obama ou Bill Clinton, ou noutro registo, Donald Trump, conseguem fazer com grande facilidade. Aliás, não tem esse traquejo, não tem essa experiência. Foi candidata a procuradora na Califórnia, o que para um democrata é algo bastante fácil. Depois foi candidata nas primárias para as presidenciais em 2020, mas desistiu muito rapidamente, portanto, teve aí pouca experiência e depois foi candidata a vice-presidente, que obviamente não tem o mesmo tipo de escrutínio, que tem depois como presidente. Apesar de tudo, eu penso que ela marcou alguns pontos. Eu diria talvez a melhor frase da noite foi quando ela disse algo que falta muitas vezes nas respostas dela, que são um bocadinho embrulhadas, etc. Acho que foi bastante clara e sintética: qual é a grande diferença entre mim e Donald Trump e por que é importante toda esta discussão, que também apareceu no debate sobre se ele é fascista, se vai usar os militares para prender opositores ou para disparar contra manifestantes, etc. E portanto, ela disse: "O Donald Trump, se for eleito, vai ter uma lista de inimigos a prender ou a abater, eu vou ter uma lista de problemas para resolver". E portanto, acho que isso é o tipo de discurso que ela precisa de insistir mais e desse ponto de vista, acho que marcou alguns pontos, mas também revelou algumas fragilidades. Portanto, realmente ela não é, como eu dizia, uma política naturalmente carismática e com este instinto, este killer instinct, ou esta capacidade de empatia com as pessoas que outros candidatos, seja Democratas, seja Republicanos, têm mostrado.

Bruno, fechamos com a habitual curiosidade. Hoje sobre Tim Walz, que este fim de semana vai fazer campanha na reserva dos Navajos. Bruno, desde quando os nativos americanos ou índios podem votar? E depois pergunto também se têm peso suficiente hoje em dia nos Estados Unidos para influenciar os resultados das eleições.

É realmente uma história muito longa e muito complexa das relações entre os índios, os nativos americanos e os norte-americanos, como sabemos, com muitos episódios sangrentos, também alguns episódios de colaboração, de alianças, etc. A relação foi variando muito ao longo dos séculos, mas a verdade é que o final, o desfecho, foi terrível para os nativos americanos. Muitos dos tratados assinados foram manifestamente violados. Houve, de facto, muitas práticas de limpeza étnica e inclusive genocídio e, portanto, a população de nativos americanos reduziu drasticamente. Entretanto, já recuperou, já estará talvez aos níveis em que estava quando os europeus chegaram. Estima-se talvez entre sete e oito milhões de nativos americanos. Agora, obviamente, num país tão grande e com uma população tão vasta, à partida, não tem grande peso, tirando em alguns estados, e o Arizona é exatamente um deles. Os Navajos são a maior comunidade de nativos americanos, são volta de 300 mil, e os nativos americanos no seu conjunto no Arizona representam volta de 4,5% dos votos. Ora, as eleições em 2020 foram decididas por 10 mil votos. E, portanto, realmente os democratas consideram, e eu penso que com razão, que vale a pena investir nos Navajos, no Arizona e nos nativos americanos, nalguns destes estados, sobretudo do Oeste, mas em particular no Arizona, que é um destes estados que vai decidir potencialmente a eleição.

Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos, muito obrigada pela análise. Bom descanso, Bruno. Até amanhã.

Obrigado. Até amanhã.