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Este é o Som do América Dividida, sempre com a análise do historiador Bruno Cartaxo Reis, que está em Washington, DC. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, boa noite, bom dia.
Bom dia. Kamala Harris foi entrevistada esta noite na Fox News. Bruno, como é que se saiu a democrata? Notas positivas e negativas.
Acho que, sobretudo, ela conseguiu transmitir uma imagem de que não tem receio de enfrentar perguntas difíceis. Era evidente que isso ia acontecer na Fox News, que é um canal à partida mais conservador, e realmente foi uma entrevista bastante combativa, com perguntas difíceis sobre questões transgênero, sobre questões da imigração, se ela ia simplesmente ser uma continuação de Joe Biden. Muita insistência realmente na questão da imigração. Talvez os primeiros 10 minutos da entrevista foram sobre esse tema. E ela realmente conseguiu responder sem se atrapalhar, sem ter gafes evidentes e conseguiu também ser muito disciplinada, no sentido, mesmo em questões mais difíceis, procurar sempre redirecionar a pergunta no sentido de atacar, de apontar para as falhas do Donald Trump, para os problemas de caráter do Donald Trump, para o tipo de argumentação que poderá eventualmente ir buscar alguns eleitores republicanos, que tradicionalmente são quem mais vê a Fox, alguns homens mais conservadores, que são tradicionalmente quem mais vê a Fox, para a sua coligação. É isso que, sobretudo, os candidatos estão a fazer nesta altura, é procurar aqueles blocos de votos que lhe faltam. Agora, não quer dizer que, por exemplo, nesta questão da fronteira, é realmente uma questão complicada para os democratas, mas ela insistiu sempre: "Nós tivemos uma proposta legislativa logo no início do mandato, que foi recusada. Tivemos uma no final, que até tinha sido negociada pelos dois partidos, que Donald Trump ajudou a afundar". Claro, por exemplo, o entrevistador disse-lhe: "Mas podia haver aqui iniciativas do Executivo". O próprio Joe Biden tomou depois iniciativas por decreto, já mais tarde, que não tomou inicialmente. Houve uma questão complicada que tinha a ver com assassinatos de jovens por imigrantes ilegais. Sabemos que isso percentualmente é uma percentagem reduzida desses imigrantes, seja dos legais, seja mesmo dos ilegais, mas não deixa de ser uma tragédia. E portanto, ela procurou mostrar alguma empatia, mas evidentemente são questões difíceis. Mas eu diria que, no fundamental, ela cumpriu os seus objetivos. Resta ver se depois isso é suficiente para conseguir realmente votos e votos que se reflitam nas sondagens, mas sobretudo nas intenções de voto nas sondagens, mas sobretudo depois no voto, que já está a ocorrer em vários estados.
Sim, e estamos a menos de três semanas das eleições. Bruno, Trump parece liderar as sondagens depois dos primeiros votos em estados decisivos. Ontem esteve na Geórgia, onde também já se vota, um estado que em 2016 deu a vitória a Trump, mas em 2020 a Biden.
Sim, há uma sondagem exatamente da Fox, que já deu a Kamala Harris com vantagem. Agora dá uma vantagem no voto popular, no voto nacional, ao Donald Trump, na volta de 2%, e uma vantagem do Donald Trump basicamente em todos os estados oscilantes, estes swing states. Mas eu volto sempre ao mesmo ponto: a questão não é de ser da Fox ou de ser do New York Times. É que não podemos dar demasiada importância a apenas uma sondagem, ou seja, temos de procurar ver as médias, e eu fui mais uma vez verificar as médias e inclusive também as médias das sondagens por estes estados oscilantes, embora aí haja menos sondagens e, portanto, as médias são menos fiáveis do que as médias nacionais. Basicamente continua tudo mais ou menos na mesma, ou seja, com uma ligeira vantagem nestas médias de sondagens para Kamala Harris, que está a reduzir-se um pouco, mas continua a ser favorável a Kamala Harris. E nos estados basicamente também a mesma coisa. Ou seja, por exemplo, na Geórgia, o Donald Trump com vantagem, mas tudo por margens de menos de 1%, 1%, ligeiramente mais do que 1%. E portanto, tudo margens que estão dentro da famosa margem de erro. Ou seja, as sondagens têm margem de erro por alguma razão e, como o nome indica, quer dizer que é impossível, se a disputa for muito renhida, é impossível as sondagens acertarem exatamente em quem é que vai ganhar, porque como são tão renhidas, estão dentro desta margem de erro.
Bruno, importa também falarmos sobre as decisões dos tribunais, precisamente na Geórgia, mas também no Alabama, sobre as novas regras de escrutínio eleitoral e do recenseamento. O que é que se passa, Bruno, e que impacto poderão estas decisões ter a 5 de novembro?
Eu acho que o pior cenário aqui, é um cenário bastante realista, é que seja realmente uma eleição muito renhida, como temos visto, aliás, por regra, na maior parte das últimas eleições presidenciais, nestes últimos 25 anos, desde o início do século. A exceção foi a primeira eleição do Obama. Mas se for assim, o problema é que muito provavelmente vamos ter muitos tribunais envolvidos, muitas disputas judiciais, e isso será terrível para o prestígio internacional dos Estados Unidos. Será muito complicado também para a legitimação do futuro presidente. Felizmente, neste caso, apesar de tudo, eu acho que são decisões ainda em tempo útil e que procuram evitar esse tipo de problemas. Ou seja, nos dois casos, foram decisões que me pareceram sensatas, no sentido de dizer: "Isto é demasiado em cima de eleições para haver mudanças". Por exemplo, para haver mudanças nos cadernos eleitorais e no recenseamento, era o caso do Alabama, ou no caso da Geórgia, de haver alterações na forma como se faz o escrutínio. O juiz disse: "Bem, mas inclusive os próprios trabalhadores que estão a fazer, os escrutinadores não estão treinados, não têm formação para seguir estas novas regras É demasiado em cima para se garantir que isso é bem feito e feito dentro dos calendários a que também estão obrigados por lei. Eles têm basicamente uma semana para finalizar o escrutínio, no máximo, e portanto, isto não é exequível e eventualmente criaria problemas depois de legitimidade, de exequibilidade do escrutínio e de legitimidade do escrutínio que fosse efectuado. Parece-me que, à partida, é mau se houver muito envolvimento dos tribunais nas eleições, em geral. É muito possível que aconteça aqui e isso seria um mau sinal, e só iria alimentar polarização e eventualmente conflitos e até conflitos violentos num país que já está muito polarizado. Mas neste caso, parece-me que foram decisões, apesar de tudo, preventivas e no sentido certo, de evitar mudanças radicais e que possam complicar muito o processo eleitoral antes das eleições. Isto mais uma vez recorda-nos que o que é crucial aqui são sempre os estados. A eleição é uma falsa eleição nacional, que tem reais resultados nacionais e internacionais, até globais, mas na verdade são os estados que decidem e têm legislação eleitoral diferente e são também os tribunais estaduais que, em primeiro lugar, vão decidir este tipo de problemas, este tipo de disputas sobre legislação eleitoral, estado a estado.
Entretanto, Bruno, Kamala Harris está a ser acusada de, no seu livro, plagiar Martin Luther King sobre um episódio da sua infância durante o movimento pelos direitos civis. De que forma é que isto pode prejudicar a campanha dos democratas?
Sim, e também de plagiar a Wikipédia. Eu levo as questões do plágio bastante a sério. Acho que é realmente uma coisa séria, não sou daqueles que desvalorizam isso ou que acham que não tem importância. Quando realmente citamos ou usamos o trabalho de alguém, devemos reconhecer isso devidamente. Neste caso, apesar de tudo, não é segredo nenhum que o livro não foi propriamente escrito, em primeiro lugar e em último lugar, pela Kamala Harris. Não é propriamente um romance ou uma história, havia aqui uma coautora que é alguém que se especializa em escrever livros com pessoas conhecidas e, portanto, à partida seria provavelmente ela a principal redatora e também a principal responsável por estas questões, embora isso não isenta a responsabilidade de Kamala Harris, que escolheu.
Exactamente, a palavra final, se calhar, será sempre dela.
E portanto, escolheu mal, tem agora as consequências disso. Apesar de tudo, aparentemente não se trata do livro todo, trata-se de algumas passagens específicas, coisas que têm a ver com a Wikipédia, são coisas muito genéricas. E depois há esse episódio, realmente, do Martin Luther King. A história é suficientemente simples para não ser completamente impossível que houvesse aqui uma coincidência, ou seja, o Martin Luther King, a mãe ter-lhe-á perguntado o que é que ele gostava ou qual é o seu grande sonho, ele fez qualquer coisa tipo liberdade e a Kamala Harris teria dito algo parecido. Também não é impossível que seja realmente uma cópia dessa história e, portanto, se foi assim, está mal. Kamala Harris não se devia apropriar das histórias de outros e devia perceber que isso depois tem um risco político, de eventualmente ser descoberto. Agora eu tenho francamente dúvidas que isto afecte muito o eleitorado.
Ou se passa ao lado.
Não tem aqui uma escala, e não sei se será exactamente a questão que preocupa também mais o eleitorado, esta questão da probidade na escrita. E obviamente aqui o contraste também com o Donald Trump torna a coisa bastante complicada. Sabemos que o Donald Trump passa a vida a dizer coisas que não são verdade. Isto não isenta, obviamente, o outro lado de não fazer isso, mas se calhar, mesmo em termos dos votantes de Kamala Harris, ajudará a relativizar este tipo de acusações. Eu tenho grandes dúvidas que isto tenha um grande impacto. Agora, para mim, e por uma questão de princípio, realmente quero deixar isso claro, eu sou sempre contra o plágio e acho mal. Se houve plágio, mesmo que seja em passagens relativamente limitadas, acho que é uma mancha no currículo de Kamala Harris e ela faria bem em reconhecer exatamente o que aconteceu, mas duvido que tenha impacto eleitoral.
Vamos à nossa curiosidade. Ontem falávamos do colégio eleitoral e de como os eleitores são distribuídos pelos estados, mas Bruno, quem ganha um estado fica com todos esses eleitores? Como é que funciona?
Sim, é exatamente assim e isso realmente tem um efeito péssimo. A começar pela capital em Washington, D.C., aliás, nem há sondagens, porque toda a gente sabe que o Biden ganhou em 2020, se não me falha a memória, por mais de 80% dos votos. Mas porque é que os republicanos estão ao trabalho de votar em D.C.? Não faz muito sentido, é realmente uma questão de princípio, de dever cívico. Mas mesmo em estados como, por exemplo, a Califórnia ou Texas, são estados em que, como têm uma população enorme, o Trump teve mais votos na Califórnia do que teve na maior parte dos outros estados que ganhou. O Joe Biden ou a Kamala Harris terá mais votos no Texas do que terá em muitos estados que vai ganhar. Mas realmente só dois estados, nos 50, é que não aplicam essa regra que referias, ou seja, todos os votos da Califórnia, todos os 54 votos eleitorais dos eleitores da Califórnia vão para quem ganhar o estado, independentemente de qual seja a percentagem dessa vitória, todos os 40 eleitores do Texas vão para quem ganhar o estado do Texas, independentemente da percentagem. Há realmente duas exceções que são o Maine e o Nebraska, que, a par de darem uma espécie de bônus a quem vence o estado, na verdade atribuem votos eleitorais por círculo eleitoral. E isso permite a existência de fenómenos como, nas últimas eleições, por exemplo, no Nebraska, o Joe Biden vencer num condado mais urbano chamado Omaha County. E isso pode realmente fazer alguma diferença nestas eleições, porque como eu também referi ontem, o número de votos eleitorais está dependente da população e, portanto, do censo. Ora, os censos são feitos de 10 em 10 anos e há oscilações no número de votos que é atribuído no colégio eleitoral a cada estado e, por exemplo, a Pensilvânia perdeu um voto. Por exemplo, os estados do Rust Belt tenderam a perder votos, enquanto os estados mais do Sul e mais pró-republicanos, como a Flórida ou o Texas, ganharam votos. Isto pode significar que realmente a Kamala Harris precise, para isto não acabar empatado, 269, 269, para ter 270, pode precisar realmente deste voto, por exemplo, deste círculo eleitoral do Nebraska. E eu diria que esta é, aliás, uma forma do colégio eleitoral se tornar menos propenso a dar resultados que ponham em questão a legitimação também pelo voto popular, porque a verdade é que o sistema é assim, a lei é assim, mas não deixa de ser importante, numa democracia, que o presidente seja eleito com a maioria do voto popular. Isto seria uma forma simples de corrigir os problemas maiores do colégio eleitoral, seria distribuir os votos não pelo estado, mas por círculos eleitorais mais pequenos, mas realmente não é essa a tendência. Aliás, houve uma tentativa dos republicanos de alterar estas regras no Nebraska, exatamente para acabar com este risco de perderem ali um voto eleitoral nestas eleições.
Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Obrigada pela análise. Um bom dia, Bruno.
Até amanhã.
Obrigada, até amanhã.
Obrigado.