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Este é o som do América Dividida. Conosco e a partir dos Estados Unidos, já está o historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Bruno, começamos pelos comícios de Trump e Kamala Harris. A democrata está na Pensilvânia, o republicano em Nova York. Já vamos a Harris. O comício de Trump foi comparado por Tim Walz ao comício nazi, também na Madison Square. Bruno, será mesmo assim e será a curso eleitoral? O que está Trump a fazer em Nova Iorque?

Essa seria a primeira questão. Ainda antes de começarmos com comparações, realmente, o Walz pegou num facto histórico que é bastante conhecido na história política americana. Esta grande sala, esta grande arena desportiva, que é no fundo um centro de congressos, um local de reuniões, quer de jogos, sobretudo dos New York Knicks, do basquetebol, mas também de concertos e de reuniões políticas há muitas décadas, foi usado realmente pela Bund, uma espécie de associação de amizade Alemanha-Estados Unidos em fevereiro de 1939. Na verdade, essa associação, depois veio-se a saber, era no fundo um braço do partido nazi nos Estados Unidos, e não era muito difícil de perceber porque eles usavam suásticas, uniformes e faziam comícios muito com a estética nazi e a apoiar explicitamente as ideias de Hitler. Ele realmente evocou isso, mas o que poderia eventualmente ser aqui mais estranho, e já vou explicar porquê, é o que o Trump está a fazer em Nova Iorque. Ele próprio esteve a falar imenso tempo, como também é costume. Este comício demorou uma série de horas. Eu consegui sair de casa, ver o início do comício, ir a um concerto, voltar a casa, voltei um pouco para trás, mas ainda apanhei toda a fala de Trump. Mas realmente, no entretanto, fui vendo o que estava a passar e o que é estranho é tanto tempo, tanta atenção, tantas estrelas, o Elon Musk, a Melania, esposa do Donald Trump, que não costuma aparecer, o Hulk Hogan, enfim, uma série de pessoas que à partida é solidamente democrática, ou seja, não é daqueles que vai oscilar. O Trump terminou praticamente o discurso a dizer: "Vamos ganhar Nova York, vamos reconquistar o país e vamos ganhar Nova York, é possível". Mas sobretudo, voltamos a este dado que é: isto é tudo muito centrado em Donald Trump. Do ponto de vista de lógica de campanha, não há nenhuma lógica nisto, é desperdício de tempo e dinheiro, numa altura em que todos os votos e todo o tempo conta, faltam só nove dias pro dia final das eleições, se quisermos. Em muitos estados já se está a votar. Mas realmente para Donald Trump, Nova York é o centro da sua vida e provavelmente uma das principais razões da sua carreira política é a sua enorme frustração e aquilo que ele sente como razão de queixa em relação às elites norte-americanas em geral, em particular em relação às elites de Nova York. Isto foi uma forma de marcar terreno, de ir ao terreno do inimigo, que é assim que ele descreve. Foi mais uma vez assim, literalmente, que ele falou no discurso, em termos de inimigo e não de adversário político ou do outro partido, o partido rival. Esse é o lado mais estranho. Em relação à comparação, houve discursos completamente normais, houve discursos a falar dos temas centrais da campanha republicana. A campanha realmente tem sido gerida de forma muito profissional, ao contrário de 2016. Uma enorme insistência. Havia, aliás, uma espécie de ecrã luminoso a insistir no voto antecipado, embora depois Donald Trump, no próprio discurso, tenha dito que ele prefere mesmo que votem no dia, mas votem de qualquer maneira. Donald Trump fez um discurso um pouco mais disciplinado, eventualmente, do que é costume, e com alguns slogans fortes, esta ideia de que a economia está terrível, a saúde está terrível, está tudo terrivelmente caro e ele vai voltar a devolver isso a preço acessível aos americanos, vai voltar a fazer a América saudável, forte e grande outra vez. Agora, de caminho, com uma retórica muitas vezes extremista. Já referi esta questão do inimigo, já fala da ocupação. A América está ocupada, está invadida, vamos libertar a América. É o tipo de linguagem que realmente é típico destes movimentos extremistas. E é isso que leva muitos líderes conservadores norte-americanos, a grande maioria dos seus antigos ministros, o seu antigo chefe de gabinete, na semana passada acusou-o de ser fascista, de ser um extremista de direita radical autoritário. É isso que leva todas estas figuras, que não deixaram de ser conservadoras, mas consideram que a primeira coisa a conservar é o sistema político, o regime democrático, o regime constitucional americano. Donald Trump, mais uma vez, não conseguiu deixar de cair nesses extremos, ou se calhar, quer mesmo insistir nesses extremos e até acha que poderá ganhar insistindo nesses extremos. Houve uma sondagem nestes últimos dias que dizia que realmente a maioria dos americanos consideravam Donald Trump extremista, mais de 50%, penso que eram 52%, mas o número mais impressionante era 8% dos que consideravam Donald Trump extremista e fascista, 8% iam votar nele. Ou seja, no fundo, achavam que esse extremismo e esse radicalismo seria recomendável. O ponto mais discutido, só para terminar, do comício do Trump em Nova York, foi de um destes apoiantes, referências aos porto-riquenhos vivendo numa ilha de lixo, fazendo referência aos porto-riquenhos, que são uma das comunidades latinas mais importantes, basicamente como lixo. Ora, os porto-riquenhos são das comunidades mais importantes latinas na Flórida, que à partida pode não ter grande impacto, porque à partida é um estado hoje mais pró-republicano, mas ainda assim entre os mais pró-republicanos é daqueles que ainda pode oscilar qualquer coisa, e sobretudo, são uma comunidade muito importante na Pensilvânia, que toda a gente concorda que será um estado fundamental. Vamos ver se isso tem peso ou não.

Estado fundamental onde está Kamala Harris. Não sei se tiveste a oportunidade de assistir, se tiveste a ver. O que destacas, Bruno?

Sim, esse é um discurso que faz bastante sentido. Por um lado, é um discurso numa igreja progressista, mais preocupada com as questões sociais, portanto, no fundo, procurar passar esta mensagem. Deixou clara essa mensagem de que o cristianismo não é um patrimônio exclusivo do trumpismo ou do Partido Republicano, é um patrimônio bastante partilhado na sociedade americana. A sociedade americana tem tido uma quebra significativa em termos daqueles que vão regularmente às missas ao domingo, mas continua a ser uma sociedade muito mais religiosa que a europeia e continua a ter níveis de participação nas cerimônias religiosas dominicais muito superiores àquilo que acontece na Europa. E há muitos políticos importantes do Partido Democrático que são crentes convictos, católicos praticantes, a Nancy Pelosi ou o Joe Biden, por exemplo. E de fato, a Kamala Harris achou importante passar essa mensagem numa cidade que será potencialmente decisiva pra decidir um estado decisivo, que é a Pensilvânia, já falamos várias vezes por que, é o mais populoso destes estados oscilantes, é aquele que tem mais votos no colégio eleitoral. Pareceu uma mensagem mais disciplinada da parte de Kamala Harris e muito também a insistir neste ponto, que é fundamental votar, que é fundamental participar nestas eleições, e que estas eleições são potencialmente decisivas, mais uma vez insistir neste ponto, na questão da economia, mas também na questão da democracia. Vamos ver, eventualmente, o que é que pesará mais para os americanos.

Sim. Bruno, também uma nota rápida para Israel, que respondeu ao ataque do Irã de 1 de outubro, como tinha prometido, com recurso a ataques de precisão contra alvos militares. Joe Biden e Kamala Harris foram informados da raliação, no que a Casa Branca descreveu como manobras de autodefesa. Bruno, isso pode ter, de alguma forma, impacto nas eleições da próxima semana?

Tendencialmente favorece Donald Trump, no sentido que ele está literalmente a usar nos seus anúncios televisivos, por exemplo, os que eu vi com insistência na Pensilvânia, esta ideia de o mundo está num caos, guerra por todo lado, e se eu vier aí, um homem forte, isto acaba. Eu acabo com a guerra no Médio Oriente, acabo com a guerra na Ucrânia. Obviamente, algo que não tem nenhuma credibilidade, pra quem perceba minimamente a complexidade destes fenômenos, a guerra no Médio Oriente dura há muitas décadas. Múltiplas guerras, múltiplos conflitos, aliás, relacionados uns com os outros. Aí os atores fundamentais são os atores locais, mas não quer dizer que estes atores locais, sobretudo o atual primeiro-ministro de Israel, que eu recordo sempre, foi educado, passou parte da sua juventude nos Estados Unidos, foi embaixador de Israel nos Estados Unidos, é alguém que conhece muito bem a política americana, conhece muitos elementos da elite política americana e portanto sabe muito bem o impacto político que estas coisas podem ter. Apesar de tudo, eu diria que ele procurou aqui um certo equilíbrio. Não terá sido apenas por causa dos Estados Unidos, mas eu estranharia que ele não tivesse isso em conta, tendo em conta precisamente este passado e a importância dos Estados Unidos como aliado. Por um lado, de facto, haver um ataque, haver mais violência, claramente a guerra continuar no Médio Oriente é algo que favorece a narrativa Trump, pelas razões que eu referi. Por outro lado, foi um ataque calibrado, no fundo, limitado, pelo que percebemos, a alvos militares, pelo que percebemos também já das reações iranianas, o Irã tendencialmente não irá escalar, pode ser que a coisa fique por aqui. Isto corresponde à pressão muito forte que ele recebeu da administração Biden para evitar uma escalada, evitar um alargamento, evitar obrigar os Estados Unidos a envolver-se mais diretamente no conflito, tudo coisas que o Joe Biden tem tentado evitar a todo custo. Isso, aliás, é uma das coisas partilhadas ao nível das elites democráticas e republicanas, a falta de vontade de se envolverem em operações militares em grande escala, em envolver muitas tropas americanas em combate. Os americanos estão muito cansados de décadas de conflitos, das quais retiraram muito poucos benefícios e tiveram enormes custos em vidas e também em termos monetários, em termos orçamentais, no Afeganistão, no Iraque. E portanto, aí há um certo consenso, embora com estilos e depois implicações muito diferentes no caso do Donald Trump e, por exemplo, Kamala Harris ou Joe Biden.

Bruno, hoje na nossa curiosidade falamos sobre a Virgínia e a Virgínia Ocidental. Que divisão é esta e como é que votam nas presidenciais?

A Virgínia é um dos estados fundadores dos Estados Unidos, é uma das 13 colônias que se vão tornar independentes, e a mais importante dessas colônias, a mais populosa, por isso mesmo, entre os cinco primeiros presidentes, quatro vão vir da Virgínia, a começar pelo primeiro, George Washington. Mas realmente quando chega a altura da Guerra Civil, e por causa da questão da escravatura, a Virgínia é talvez dos estados do Sul daqueles que mais hesita em quebrar essa união em que teve um papel tão importante, mas vai acabar por entrar nessa guerra de secessão, ou seja, vai procurar separar-se do resto dos Estados Unidos e juntar-se com os estados confederados do Sul. Ora, a parte ocidental da Virgínia, que era uma zona muito mais pobre, mais rural, mais de pequenos agricultores, não tinha aquelas grandes plantações de grandes plantadores muito ricos da zona mais costeira, vai separar-se da própria Virgínia, e vai manter-se dentro da União. E como recompensa por isso, vai ser reconhecida como um novo Estado, a Virgínia Ocidental. O que é interessante é que, até como resultado disso, a Virgínia Ocidental vai se manter republicana durante muito tempo. Eu recordo, o Partido Republicano era o partido do Lincoln, portanto, da abolição da escravatura, mas depois torna-se mais competitiva, vai se tornar predominantemente democrática, basicamente até Bill Clinton, portanto, até há relativamente pouco tempo, e depois, a partir daí, começa a ser cada vez mais solidamente republicana e trumpista. O Trump ganhou com margens absolutamente esmagadoras, quer em 2016, quer mesmo em 2020, quando perdeu a eleição, mas na Virgínia Ocidental venceu com 68% dos votos. A questão aqui é que a Virgínia Ocidental é uma zona lindíssima, de parques naturais, da zona do Vale do Shenandoah, etc. É muito bonita agora no outono, mas quase não tem população, ou seja, tem uma dimensão praticamente igual à de Portugal e não chega a ter dois milhões de habitantes, tem só quatro votos no colégio eleitoral, que é um a mais do que o mínimo. A Virgínia propriamente dita, que se manteve tendo perdido este território, é uma zona muito influenciada por Washington, D.C. Eu disse aqui que a capital, onde eu estou, pesa muito pouco na eleição. É verdade em termos estritos, mas pesa depois muito indiretamente, sobretudo por causa da Virgínia, ou seja, as zonas a sul do rio Potomac, que na prática fazem parte da zona da Grande Washington, todas elas estão na Virgínia, nomeadamente Fairfax County, tem quase um terço da população da Virgínia, e portanto muitas vezes decide as eleições, e cada vez mais tem decidido no sentido do Partido Democrático. Ora a Virgínia tem, apesar de tudo, 13 votos no contexto do colégio eleitoral e nas últimas eleições, em 2020, os democratas venceram por uma margem de 10 pontos percentuais e claramente virou-se para o Partido Democrático.

Bruno Cartaxo Reis, a partir dos Estados Unidos. Obrigada pela análise, Bruno. Até amanhã. Bom descanso.

Obrigado. Até amanhã.

Até amanhã.