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Este é o América Dividida, edição das manhãs 360. Também pode ouvir uma nova edição sempre depois das 17h, na "Tarde Política" da Rádio Observador. Hoje convidamos Nuno Amaral Jerónimo, professor de Sociologia da Universidade da Beira Interior. É especialista em Sociologia da Comunicação. Como de costume aqui nas manhãs, o América Dividida é conduzido pelo Bruno Vieira Amaral.
E logo após o debate entre os candidatos presidenciais, Taylor Swift manifestou nas redes sociais o apoio à Kamala Harris e a pergunta que se faz é que efeito poderá ter este apoio junto do eleitorado, sendo Taylor Swift uma artista transversal na sua base de fãs, embora sejam mais jovens. O efeito poderá ser o de mobilizar os progressistas ou poderá chegar o apelo a setores da América que à partida não estariam dispostos a votar em Kamala Harris. Bom dia, Nuno Amaral Jerónimo. Como olha para esta publicação nas redes sociais de Taylor Swift, talvez a artista mais famosa do mundo, a manifestar o seu apoio à candidata democrata?
Olá, bom dia. Muito obrigado pelo convite. Não me parece, sinceramente, que uma estrela da música pop, mesmo sendo uma das maiores, traga grande gente ao eleitorado. É sempre interessante ver como é que os artistas se posicionam, mas era preciso fazer alguns estudos mais concretos sobre isso. Mas confesso que tenho algumas dúvidas se os seus fãs vão votar ou saiam de casa só porque um artista diz que vai votar num determinado candidato, até porque, em princípio, as pessoas têm um gosto eclético, mesmo do ponto de vista ideológico. Se uma pessoa gostar de dois cantores e cada um vote em dois candidatos diferentes, não sei muito bem como é que isso resultaria. Portanto, tenho algumas dúvidas disso. As pessoas às vezes não votam nem no mesmo partido em que vota a irmã, o pai, a pessoa com quem vive. Tenho muitas dúvidas que vá atrás do voto de um artista. Mas isso é interessante também por outra razão, que é um fenômeno que muitas vezes nos passa despercebido aqui em Portugal, na Europa, que é uma certa divisão, que é também uma divisão social e hoje uma divisão eleitoral da América urbana e da América rural. Claro que isto é uma simplificação. E do apoio que a maior parte dos cantores da pop e do hip-hop declaram à Kamala Harris, enquanto, por exemplo, os cantores, os artistas da música country, a maioria está claramente do lado republicano. Isso é bastante curioso porque mostra essa divisão e hoje há uma aproximação desse lado que nós conhecemos menos, que é a música country e o mundo que a música reflete.
Essa é uma das linhas, de fato, que divide a América atualmente, até historicamente. Existem as linhas raciais, as de coloridade, e existe esta linha musical que divide a América. No caso da música country, pode-se dizer que sabendo que música e que estilo de música é o preferido de um eleitor, é possível ter ideia em qual candidato ele irá votar?
Isso. Sociologicamente, nós falamos sempre em tendências. Há sempre minorias, quase nunca há 100% nada. Mas tendencialmente, há essa divisão ou essa atribuição. Os eleitores republicanos são mais ouvintes de country ou vice-versa. E também isso acontece com o hip-hop e os democratas, e vice-versa. Ou seja, os eleitores democratas ouvem hip-hop, os ouvintes de hip-hop votam democrata. Mais uma vez, absolutamente haverá exceções, mas a grande tendência poderá ser essa. Mas na música country há um fenômeno curioso, que ela hoje é uma espécie de declaração inequívoca de uma identidade redneck, com uma espécie de agravamento da divisão com a tal América urbana, sofisticada, cosmopolita, que posso dar alguns exemplos, mas na origem, ou mais atrás, ela vem dos blues e de uma tradição das working songs ou das canções que as pessoas cantavam enquanto trabalhavam. Ela era uma canção da classe operária e das agruras da classe operária, da dificuldade da vida, daquilo que era difícil, mas ao mesmo tempo de uma certa alegria de viver de uma forma simples. Essa ligação a um cantor que deu uma entrevista a uma revista de música country, em que ele próprio diz que tem pena que se tenha colado a música country a um lado mais conservador. Por quê? Precisamente porque ele achava que as suas origens estavam noutro lado. Mas depois se nós pensarmos que também do ponto de vista sociopolítico, o voto operário estava noutro lado, que não nos republicanos. Portanto, parece que o voto acompanha a política. E eu digo isto porque esse ressentimento vem um bocadinho de trás. Vou dar aqui um exemplo: só sobre a divisão, há uma canção muito clássica do Alan Jackson, ele faz até um jogo cromático, digamos assim, que é o meu pescoço vermelho, redneck.
Meu redneck, sim.
E o sangue azul dela. Ou seja, era no fundo um casal, mas ela era das famílias ricas. Mesmo do Sul, ela era das famílias ricas e ele era da classe operária. Portanto, havia também essa divisão de classe, as canções falam muito nisso. E falam no amor da cerveja, da carrinha de caixa aberta, de andar na estrada de terra batida. Isso é uma descrição que aparece em inúmeras canções.
Mas isso também não é exaltação de uma América que está a desaparecer ou que em grande parte já desapareceu, ou o que se passa é que essa América continua a existir e é ignorada pelas elites?
Eu acho que é mais aquilo que o Bruno disse em segundo lugar. Ela existe e ela não é vista nas séries de televisão, não é vista, como eu dizia, na Europa, não é vista mesmo pelas tais elites das costas.
Da costa leste e da costa oeste.
Da costa leste e da costa oeste. Los Angeles e Nova York são uma espécie de pontos de referência, e eles falam nisso nas canções. Há uma canção que é: eu fui num avião, conheci um tipo de Nova York e ele tem amigos e vai a festas muito sofisticadas no Empire State Building e bebem champanhe, mas eu tenho amigos que conduzem carrinhas de caixa aberta. É uma referência.
E nesse mundo, onde é que podemos situar Taylor Swift? É representante desta bolha das elites ou é alguém que também canta essas experiências mais comuns do cidadão comum da Middle America?
Sim.
Ela namora com um jogador de futebol americano, o que também é um outro dos traços culturais dessa América do meio.
Dessa América, sim. Como já é uma estrela, uma superestrela da música internacional, ela acaba por ganhar essa dimensão, de um certo cosmopolitismo. Embora também tenha muitas vezes esse lado mais terra a terra que vem da música country. Há cantores de música country a apoiar a Kamala Harris. O que eu disse foi que tendencialmente.
Por isso é que lhe perguntava de início, sendo Taylor Swift esta figura, até do ponto de vista musical transversal. Porque há algum cruzamento de várias influências na sua música, da pop à country, se poderia chegar de facto a eleitores, ter esse efeito junto de eleitores que à partida não votariam numa candidata que associam a essas elites das costas e que ignoram a América real, por assim dizer.
A América real, por assim dizer, é isso mesmo. Continuo a dizer, tenho algumas dúvidas que mesmo sendo uma superestrela, influencie um número significativo de pessoas capaz de virar uma eleição. Acho que isso é mais difícil. Mas essa representação da América e esse ressentimento está espelhado numa canção. E o mais interessante nisto é que é uma canção que já é de 2011, ou seja, antecede o Trump. Peço desculpa, vou só dizer em inglês o refrão. Que toda a canção é uma descrição desse tipo de vida. Vou na minha carrinha de caixa aberta, o truck, na carrinha de caixa aberta por uma estrada de terra com uma cerveja. O meu pai lutou no Vietnã. E depois a coisa é: se tu não gostas desse estilo de vida, e em inglês a frase é: "You can kiss my country ass." Pode dar uma curva.
Sim.
Que é não me chateies ou se não gostas disto, sai daqui.
E é essa mensagem que os eleitores que votam em Trump também dão, é como se estivessem a dizer, através do voto, a dar essa mensagem, passar essa mensagem através do voto.
Era aí que eu queria chegar. É que me parece, e li já algumas reflexões sobre isso, também de alguns analistas americanos, que dizem isso, que há algum voto que diz Quase como se eles escrevessem no boletim de voto essa frase. E que espelham esse ressentimento é: "Este é o meu estilo de vida, esta é a nossa forma, vocês não gostam, vocês acham isso deplorável. E portanto, nós votamos nisso. Nós votamos num candidato, não tanto porque gostamos dele, mas quase para vos chatear ou para vos mandar dar uma curva, porque este é o nosso estilo" e que depois eles consideram como o da real América, aquilo que o Bruno dizia. Eles consideram isso sendo a real América e a outra uma espécie de América falsificada ou de América deturpada. E isso é muito visível, ou seja, a música country, que foi galhando também depois pouco a pouco muito essa defesa daquele estilo de vida e daquelas características, que tem um lado também muito comunitário. Porque também muitas canções são sobre os amigos que se juntam nos bares. E aí, deixa-me trazer mais isso. O álcool é também uma componente fortíssima, embora seja sempre a cerveja. Ou o uísque. A cerveja e o uísque são componentes fortíssimas das canções e há até uma certa apologia do alcoolismo, se quiser, de sair e beber.
E essa é mais uma das linhas culturais e sociais que dividem a América. Nuno Amaral Jerónimo, professor de Sociologia da Universidade da Beira Interior. Muito obrigado pela participação neste "América Dividida". Um bom fim de semana.
Obrigado.