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E hoje os americanos já votam depois de uma longa campanha em que vimos a América dividida. A última sondagem da NBC dá um empate entre Donald Trump e Kamala Harris. Será que teremos resultados quando acordarmos amanhã e por que não vamos ter, em princípio, e demorará tanto tempo a ter esses resultados? Ana Cavalieri, especialista em Relações Internacionais, obrigada por estar conosco. Em Dixville Notch, é o primeiro local dos Estados Unidos a votar, há apenas seis eleitores e, portanto, seis votos, e a pequenina localidade de New Hampshire é sempre a primeira a anunciar os resultados a cada eleição. Este ano houve um empate. É um prenúncio do resultado destas eleições, das mais renhidas, pelo menos nos últimos 60 anos?

Boa tarde. Esse empate é interessante, porque há quatro anos, cinco residentes votaram em Joe Biden e um não tinha votado, e agora três votaram em Kamala Harris e três votaram em Trump.

Sendo que há quatro eleitores registados como republicanos e dois que não têm declaração.

Exatamente. Mas isto torna um pouco as coisas complicadas de analisar.

Esquizofrênicas, quase.

Exatamente. E naturalmente, quando são seis eleitores, a estatística normalmente não é relevante. Existe aqui um problema: as sondagens que saíram ao longo deste último mês, por um lado, tinham, no início e a meio do mês, dado algum entusiasmo a Donald Trump, mas agora claramente Kamala Harris conseguiu terminar com mais força, principalmente a partir daquele rally, daquele comício em Madison Square Garden, que a cobertura mediática, muito por causa daquela piada sobre os porto-riquenhos daquele comediante, transformou um pouco como um ato de mobilização dos democratas para redefinir todo o rally e também a candidatura de Donald Trump como xenófoba e racista.

E não caiu bem no seio dos latinos. Não estamos a falar só das vedetas, estamos mesmo a falar do eleitorado latino.

Eu penso que não caiu bem nos latinos e também para aquilo que é a grande esperança dos democratas, que são as mulheres mais velhas ou mulheres também com uma educação e uma classe social, talvez média, média-alta. E isso, não é preciso ser-se latino, eu acho, para ter-se um bocado a ideia de que Trump tem uma personalidade truculenta e agressiva e que divide o país, e as mulheres são um pouco, como demografia, isto eu estou a falar em termos muito gerais e estatísticos, estão a demonstrar uma aversão maior do que os homens. Eu volto a frisar, isto já é a terceira vez que eu penso que eu disse isto neste programa, que isto é uma batalha entre homens e mulheres. Nós sabemos que, por exemplo, Hillary Clinton, em 2016, ganhou o voto das mulheres por cerca de 12, 15 pontos, mas Trump ganhou porque os homens votaram nele ainda em maior proporção. E a grande esperança é que os indícios de que as mulheres participam mais e participaram mais efetivamente no voto antecipado destas últimas semanas vai ser contrabalançado, pelo menos esta é a esperança dos republicanos e de Trump, por uma grande participação de homens no day off, ou seja, no dia de eleições hoje. Mas isso é preciso que os homens saiam para votar e sabemos que as mulheres são um bocadinho mais participativas do que os homens, em regra geral.

E se de facto houver um empate, o que acontece?

Um empate de 169 a 169. Primeiro, não vai haver empate.

Não? Ok.

E mais, admito que quando começarem a sair os resultados logo à noite, se se identificar a tendência que vai ser fundamental, que foi aquela tendência que a Ann Selzer, naquela sondagem do Des Moines, em Iowa. Iowa tem se transformado nos dois últimos ciclos como sendo republicano, ou seja, passou de um purple state para republicano, e ela, Ann Selzer, tem uma das empresas de sondagens mais reconhecidas por conseguir identificar essa virada um pouco mais para os republicanos, e tem um track record impecável. E ela apareceu há alguns dias com uma sondagem chocante em que provavelmente não estará certa, provavelmente Iowa ainda vai ser republicana, mas identificou uma tendência, que para os republicanos foi assustadora, de um abandono de mulheres, nomeadamente mulheres mais velhas dos condados rurais e suburbanos, que normalmente eram uma demografia muito do Partido Republicano, conseguiu identificar essa tendência que elas estavam a abandonar o Partido Republicano em enormes números para o Partido Democrata. Essa tendência, se se verificar em estados como Iowa ou outros estados, vai ser uma tendência que se irá replicar. E se nós virmos os results e conseguirmos definir, porque vai haver sondagens à boca da urna, que são as crosstabs, ou seja, por demografias, como é que as pessoas escolheram, como é que os homens brancos estão a votar, como é que os homens negros estão a votar, como é que as mulheres brancas estão a votar, como é que as mulheres negras ou hispânicas estão a votar. Se nós em outros estados identificarmos já essa tendência, vamos poder extrapolar que nos estados cinzentos é provável, por exemplo, Kamala Harris irá ganhar Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Se essa tendência. Por outro lado, se vermos que não, que essa esperança de que o voto das mulheres esteja muito a apoiar Kamala Harris não seja de forma tão expressiva como se antecipa, ou então que os homens estão também de forma desproporcional a votar em Donald Trump, podemos já começar a extrapolar. Eu, se calhar, estou a ser um bocadinho precoce, mas eu não acho que seja um caso como 2020. Isto porque em 2020 havia muito mais boletins por correio, as regras eram mais tensas. Hoje, nestas eleições, muito do early voting, muito do voto antecipado foi presencial e eu penso que as contagens serão mais rápidas, exceto, por exemplo, no Nevada, porque o Nevada é dos poucos estados.

E na Califórnia também, não é?

Califórnia, como é Kamala Harris, não há hipótese. Califórnia não há hipótese. Aliás, as pessoas às vezes não percebem porque a Califórnia se tornou de um estado tão republicano para, de repente, democrata. Mas foi a Amnesty Bill de 86 que fez com que seis milhões de imigrantes ilegais tivessem um pathway to citizenship, ou seja, uma possibilidade de se tornarem cidadãos, isso altera a demografia de tal maneira. Então Califórnia será democrata.

Vamos então ao colégio eleitoral, porque não é fácil de perceber e eu acho que é uma boa altura para falarmos nele.

Sim.

O que é curioso é que a representação dos grandes eleitores não é totalmente proporcional ao número de votos. E ainda pode haver o caso de um grande eleitor decidir votar contrariamente, que foi o que aliás aconteceu com Hillary Clinton.

Sim, mas apesar disso, seria impugnado. Eles estão por lei obrigados a votarem de acordo com o que o voto popular indicou. E, portanto, se alguém faria isso, ou se, por exemplo, um governador quiser certificar uma lista alternativa de eleitores, isso seria imediatamente impugnado pelos advogados da campanha adversária. E mesmo, por exemplo, no Congresso, se cada objeção que for levantada sobre uma determinada irregularidade e que determinado eleitor ou determinado grupo de eleitores não devia marcar o seu voto para o partido que foi declarado vencedor, tudo isso tem que ser levantado por um senador e um congressista, depois tem de haver um debate e depois tem de haver a aprovação da maioria. E não vai haver uma maioria de republicanos, para não falar de democratas, que alguma vez irão tentar rejeitar o voto popular, porque isso seria um suicídio político quase para o partido, porque as pessoas também não iriam aceitar.

Vamos falar da proporcionalidade então.

Antes de mais, as pessoas pensam que o presidente está ali para representar o povo. Não é verdade. O Congresso, na Casa dos Representantes, representa o povo, o Senado representa os estados e o presidente representa a União. E isso significa que o presidente tem legitimidade popular, porque grande parte do número dos eleitores está definido através do censo e da dimensão populacional de cada distrito, que depois dá a cada estado um determinado número de eleitores, mais dois. E, portanto, nós temos Califórnia, Nova York, Flórida e Texas com muito mais eleitores do que, por exemplo, Nebraska. E isso existe uma correlação entre a quantidade de população, o número de cidadãos que está a viver num determinado estado e quantos eleitores é que vão ter. Mas o presidente não é um cargo puramente sustentado por democracia pura. Não, existe aqui também, a união de representação do povo, mas também dos estados. Até porque se não fosse assim, quando todo este esquema constitucional foi aprovado, quando se fez a união dos estados, estados mais pequenos nunca iriam naturalmente aceitar perder a sua soberania se soubessem que a determinada altura, tudo aquilo que era o poder central deveria ser definido por Califórnia, Nova York, Texas e Flórida. Mas isso traz estas contas um pouco complicadas e também uma forma de campanha muito focada em estados e não puramente uma campanha de voto popular.

Sim. Há longas filas já, por exemplo, na Carolina do Norte. Isto pode ser um sinal de uma boa participação? Falou-se muito no receio da abstenção, ou isto é algo que acontece naturalmente?

Eu antes de hoje, e ainda não sabemos os números, ainda é precoce, ainda são cinco horas atrás nos Estados Unidos, ou então na Califórnia são oito, eu pensava que a participação eleitoral estaria aquém de 2020, porque em 2020, por causa da pandemia, houve muitos meios para se votar por correspondência, então muitos eleitores abstenccionistas, que nos Estados Unidos se chama low propensity voters, votaram, que normalmente não votam. E então eu pensaria que esta eleição, apesar de ter um high turnout, ou seja, ter uma participação elevada, ainda estaria aquém. Mas há números muito interessantes e até chegarmos ao final das urnas, do tempo de possibilidade de votar, poderá ainda haver a possibilidade de, depois contados os votos antecipados e os votos deste dia, seja um número maior, mais elevado do que o de 2020. Isto é difícil fazer uma conexão de qual partido é que irá beneficiar, porque depende se, número um, os votos antecipados dos republicanos, que aumentaram brutalmente nesta categoria de voto antecipado, porque em 2020 Trump tinha dissuadido os seus eleitores de votarem antes do dia das eleições. Primeiro vamos ter de saber se esses votos canibalizaram votos de republicanos do próprio dia, ou se os republicanos conseguiram novos eleitores, ou então eleitores que não tinham votado em 2020 porque tinham deixado para o último dia e depois a vida acontece, o trabalho, acabaram por não chegar às urnas.

Covid na altura, não é?

Exatamente. Temos então de saber se isso vai corresponder a um maior número de novos eleitores para os republicanos, ou então se vai beneficiar os democratas, que normalmente beneficiam com eleições com grande participação eleitoral.

As últimas notícias dão conta de que o dólar está em queda pela percepção dos investidores. Lá está, no fim de semana, aquela tendência ter sido mais pró Kamala. Os investidores continuam a sentir-se mais seguros com Trump

Isto é difícil, porque sabemos que os economistas e os especialistas da área têm mais confiança no plano económico de Kamala Harris, até porque estes últimos meses da administração Biden, ou os últimos dois anos, em termos de bolsa de valores, tem atingido números recordes. Confesso que não sei bem avaliar as respostas dos mercados. Eu sei que, por exemplo, o mercado de apostas, já que estamos a falar de dinheiro, dá uma vantagem ainda a Trump. A última vez que eu vi, teria de ver agora os últimos números, mas há umas horas estava 60% com probabilidade de ganhar Trump e 30% com a probabilidade de ganhar Kamala Harris. Também sabemos que esse mercado de apostas, normalmente, quem participa são homens, então pode ser que parte dessas decisões seja wishful thinking, ou seja, seja a vontade que eles queiram ganhar, mas ao mesmo tempo estão a apostar o seu próprio dinheiro, pelo que tentam ser o mais racionais possível. Mas agora, neste momento, é um pouco difícil de se ver.

Obrigada, Ana Cavalheiro.

Muito obrigada.

Uma boa jornada para um dia tão louco como hoje. No fecho, e porque Katy Perry é mais um nome que se junta à Kamala Harris, ambas fizeram até um vídeo amador para as redes sociais com alguma graça, acabamos com um êxito da cantora, talvez o mais conhecido, "Firework".