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Este é o som do América Dividida, sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, que está em Washington, DC. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Bruno, começamos pela declaração de apoio de Arnold Schwarzenegger a Kamala Harris. Isto vai ter algum impacto?
Eu acho que é complicado dizer que os famosos decidem as eleições. Tivemos muita gente famosa a apoiar a Hillary Clinton. Apesar disso, o Donald Trump venceu. O Donald Trump tem aqui um argumento, uma narrativa poderosa para contrariar algum peso, alguma influência destas figuras, que é usar isto para dizer: "Cá está, as elites, os poderosos, mesmo as antigas elites do antigo Partido Republicano estão contra mim e, portanto, isto só mostra que eu sou verdadeiramente o defensor dos verdadeiros americanos", etc. Usa isso um pouco para a sua narrativa. Apesar de tudo, é verdade que Schwarzenegger na Europa, em Portugal, imagino que seja sobretudo conhecido pelos seus filmes, "O Exterminador Implacável", etc., mas ele foi também uma figura política importante. Foi o último governador republicano da Califórnia, conseguiu quebrar o monopólio democrático nesse estado nas últimas décadas. Foi governador até 2011 e isso dá-lhe uma autoridade política adicional. Para mais, ele apresentou-se sempre na política como um pragmático, como alguém que procurava compromissos, que era crítico de uma certa esquerda mais radicalizada e o argumento dele, desse ponto de vista, eu acho que interessa para a campanha de Kamala Harris, nesta linha de procurar conquistar votos de republicanos moderados. Eu diria talvez de verdadeiros conservadores, ou seja, daqueles que realmente se preocupam que talvez Donald Trump seja demasiado radical, que embora não concordem com tudo também no Partido Democrático, em termos de programa económico ou de alguns excessos nestas guerras culturais, etc., apesar de tudo, acham que, ponderando tudo, Kamala Harris será uma figura mais moderada, mais disposta ao compromisso e até em termos de política económica, também com uma política económica mais equilibrada. E são tudo áreas em que Schwarzenegger se destaca. Aliás, ele também se apresenta muito como um empresário, como um investidor, nomeadamente no imobiliário, e não apenas também como um ator ou como um antigo governador. Portanto, desse ponto de vista, eu diria que tem aqui algum interesse, mas imagino que muito marginalmente poderá ter algum impacto, mas em todo caso, é interessante para Kamala Harris desse ponto de vista.
Entretanto, mais declarações polémicas de Donald Trump, e falavas há pouco de algum radicalismo, que diz que se Kamala Harris for eleita, vai levar o mundo a uma Terceira Guerra Mundial. Bruno, é com um discurso como este que o republicano cativa o eleitorado ou dispersa quem poderia pensar em votar na democrata?
Nós vemos aqui anúncios na televisão com alguma frequência a insistir nesse ponto, de imagens de guerras por todo lado, esta ideia do mundo está um caos e é Donald Trump, o homem forte, e dos compromissos, esta ideia de que ele é a pessoa que faz as negociações e os acordos.
Aliás, ele está sempre a dizer isso, que vai resolver e que vai acabar com as guerras, não é?
Desse ponto de vista, é muito a narrativa que ele quer promover, que é: ou eu ou o caos, seja interno, seja externo. Muito esta mensagem procurando um pouco assustar as pessoas, diria eu. E há um outro anúncio que são umas senhoras velhotas, que pelo contexto percebe-se que serão judias, a dizerem as coisas terríveis que os democratas andam a dizer sobre Israel. "Eu não gosto do Donald Trump, não gosto do Partido Republicano, nunca votei nos republicanos, mas ele ao menos mantém-nos seguras", etc. Desse ponto de vista, parece-me que corresponde a uma estratégia e certamente também corresponderá a informações, a sondagens mais direcionadas que o Partido Republicano, que a campanha do Trump, que é bastante profissional, a parte da campanha. Isto também corresponde muito aos instintos e à tendência do Donald Trump, de ter sempre uma linguagem muito radicalizada, muito agressiva e acho que aí as duas coisas provavelmente combinam bem. Obviamente, não me parece que isso seja de todo credível. Não é crível que Donald Trump vá resolver de um dia para o outro questões tão complicadas como a paz no Médio Oriente, que é algo que se está a tentar desde o fim da Segunda Guerra Mundial, desde 1948, ou a questão, por exemplo, da Ucrânia. Mas realmente é isso que ele promete e aparentemente há muita gente aqui nos Estados Unidos que está convencida que isso tem alguma credibilidade.
Entretanto, no último comício no Wisconsin, Trump voltou a pegar nas declarações de Biden sobre os imigrantes serem lixo. Disse que é o mesmo que Kamala Harris pensa, mas que não diz.
Sim, ele estava vestido com um colete que parecia ser do homem do lixo. Não percebi muito bem, confesso, mas é uma forma de passar essa mensagem, essa ideia que realmente não faz sentido falar em lixo. E obviamente eu concordo com isso em relação a qualquer pessoa, por causa das suas opções políticas. Para quê usar o colete num comício precisamente com os seus eleitores? Mas claramente a ideia aí foi voltar a suscitar essa discussão. Eu acho que objetivamente Biden realmente não ajudou a campanha de Kamala Harris. O facto de a campanha Trump insistir nesse tema só mostra isso. No fundo, eles estão a tentar usar isto como uma estratégia de mobilização de eleitores. Isso resultou bem em 2016 quando Hillary Clinton fez aquelas declarações infelizes a chamar os votantes de Donald Trump de deploráveis. Estão a tentar fazer aqui a mesma coisa. Agora, a questão é: Biden não é o candidato, é Kamala Harris, e Kamala Harris distanciou-se claramente dessas declarações. Aliás, o próprio Biden tentou distanciar. Não sei se acredito inteiramente naquela justificação, que não foi bem isso que ele quis dizer Ou não foi bem isso que ele disse, mas em todo caso, a verdade é que isto interfere com a mensagem de Kamala Harris, que era muito para estes últimos dias, que é muito esta ideia: "Eu sou alguém que traz uma viragem de página, o fim do ódio, das divisões, desta retórica muito agressiva". Portanto, Biden vem um pouco interferir com isso, apesar de tudo, deu-lhe a oportunidade de ela se distanciar de Biden, que é algo que ela também precisa de fazer e tem hesitado muito em fazer. Acho que até, se calhar, por bons motivos, de lealdade pessoal, mas na política raramente a lealdade é muito recompensada e às vezes é preciso ter aqui algum lado mais implacável. E portanto, ela neste aspecto, realmente distanciou-se rapidamente de Biden. Vamos ver aqui o que é que prevalece, se é esta estratégia de mobilização à conta disto por parte de Trump, no fundo, dizendo aos seus: "Estão a ver como vocês são desprezados por esta elite democrática", ou se apesar de tudo, Kamala Harris consegue convencer as pessoas que se deixam convencer por esse tipo de argumentos, também nunca votariam em Kamala Harris. Mas pelo menos consegue convencer alguns destes republicanos, destas pessoas moderadas, que muitas vezes hesitam em votar ou não votar nos republicanos nos últimos anos, se os consegue convencer ou não votar em Trump ou até votar nela, apesar desta retórica pouco útil de Biden.
Bruno, temos também de falar de uma publicação viral que tem dado que falar. Publicação de um agente conservador, que depois foi republicada pelo X de Elon Musk, que alegou fraude eleitoral numa igreja católica. As freiras já reagiram, claro.
Por um lado, mostra de facto a ignorância afoita que é típica das redes. Alguém deparou-se com um mosteiro beneditino, que está como tal identificado, digamos até no Google Maps, numa zona do leste da Pensilvânia, já a chegar aos Grandes Lagos, na zona do lago Erie, e achou muito estranho que houvesse 50 pessoas registadas como estando a viver lá e a votar a partir de lá. Obviamente, qualquer pessoa que sabe o que é um mosteiro beneditino não acharia estranho esse facto. Realmente essas pessoas foram lá, viram que era um mosteiro, acharam: "É impossível haverem aqui 50 pessoas". Não só isso, como depois ainda por cima divulgaram publicamente o nome, entre aspas, "das supostas pessoas", ou seja, das reais freiras que viviam nesse mosteiro e que estavam nas listas eleitorais como sendo potenciais votantes. A prioresa, neste caso do mosteiro beneditino, reagiu com grande indignação, dizendo que tinham sido caluniadas, que tinha sido divulgada informação privada.
Claro, a identificação.
A identificação, a morada, etc. Até muito catolicamente mostrou disponibilidade para falar com estas pessoas, esclarecer isto, mas evidentemente, depois estes ignorantes afoitos nunca estão dispostos a esclarecer questões com base em factos, essa coisa bastante incômoda, e portanto não parece ter havido grande resultado e ameaçou inclusive também com algo muito americano, que são os tais processos judiciais, nomeadamente por causa também do enorme impacto de milhões de pessoas a ver isto. Em todo caso, isto faz parte de uma tendência mais ampla. À procura de informação sobre isto encontrei, por exemplo, referências a falsos jornais católicos e diocesanos a apelarem ao voto, nomeadamente em Donald Trump.
Impossível.
E dioceses católicas também a denunciarem isso. Como já aqui referimos, o voto católico está realmente muito dividido e é muito disputado. Joe Biden foi apenas o segundo presidente católico dos Estados Unidos, mas era um católico e bastante praticante, obviamente da linha mais progressista, mais preocupada com a doutrina social, com a justiça social, etc. Mas depois também há muitos católicos mais conservadores, que dizer, ou que privilegiam mais a dimensão dos costumes e, por exemplo, a questão do aborto, e que obviamente tendem a votar mais no Partido Republicano, mas é um voto muito dividido e muito contestado e que pode ser decisivo em vários destes estados oscilantes.
Bruno, hoje na nossa curiosidade, olhamos para a forma como historicamente têm votado precisamente os swing states, o Wisconsin, Michigan.
Sim, temos visto alguns swing states e agora juntámos estes dois que estão lá no norte, junto aos Grandes Lagos. O Wisconsin foi um estado a partir de 1848. Foi, durante muitas décadas, basicamente até à Grande Depressão, um estado republicano, como são muitos destes estados do norte. O Partido Republicano é um partido que começou por ser o grande partido do norte, progressista, antiesclavagista, anti-escravatura. O Lincoln é o primeiro presidente a ser eleito pelo Partido Republicano. E depois isso muda realmente com a Grande Depressão. E depois, desde aí, houve um período de dominação pelo Partido Democrático, mas depois, a partir do final da Segunda Guerra Mundial e até aos anos 80, volta a ser um estado solidamente republicano e nos últimos anos tornou-se parte do chamado Blue Wall, ou seja, esta muralha supostamente inexpugnável, democrática, muito ligada também ao voto sindicalizado, aos trabalhadores sindicalizados, por exemplo, da indústria automóvel, nesta zona do norte. A verdade é que em 2016, Donald Trump conseguiu quebrar isso, surpreendendo muitos. O Michigan é um estado mais antigo, juntou-se à União em 1837, mas tem um padrão muito semelhante, ou seja, republicano basicamente até à Grande Depressão, depois um longo período de várias décadas pós-Segunda Guerra também com peso dominante dos republicanos, e depois esta questão da Muralha Azul a partir de 1992. E mais uma vez também em 2016, Trump consegue surpreender, derrotando Hillary Clinton. Aqui a questão que no fundo vai ser decisiva e que vai ser interessante perceber do ponto de vista da análise política, é se realmente esta tendência se inverte, ou seja, se Trump foi realmente uma exceção, ou se o que estamos a ver, nomeadamente em termos destes estados, é a erosão crescente e cada vez mais significativa deste voto de homens brancos, trabalhadores pouco qualificados, mal remunerados, que tiveram no passado trabalhos bem remunerados, por exemplo, na indústria automóvel, sindicalizados, etc., e que agora isso está cada vez mais em risco ou já não existe, e que também por razões de guerras culturais, não se identificarem com uma agenda mais progressista, que eles veem como elitista do Partido Democrático, e por queixas económicas, acabam por começar cada vez mais a votar num partido republicano trumpista e mais populista em termos económicos.
Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Muito obrigada pela análise, Bruno. Bom descanso, bom fim de semana.
Obrigado, igualmente.
Obrigada, até segunda.
Até segunda.