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O apoio ou a falta dele dos jornais norte-americanos tem sido a fonte de decepções. Kamala Harris considera que os donos de jornais como o The Washington Post, que anunciou que não irá apoiar os democratas, como faz habitualmente, prova que os ricos estão com Donald Trump. Ainda vice-presidente dos Estados Unidos, argumenta que as políticas de Trump apostam na proteção dos mais ricos. Quando o Trump foi presidente, os bilionários beneficiaram de uma redução de impostos e Kamala Harris garante que o republicano, caso seja eleito presidente, vai agora fazer o mesmo. Mafalda Pratas, investigadora na área de Ciência Política e colunista d'O Observador, é nossa convidada para este América Dividida de hoje. Bem-vinda e obrigado por ter aceitado o nosso convite. Esta observação de Kamala Harris faz sentido? Os ricos não querem arriscar apoiar a democrata porque esperam ser beneficiados com Trump no poder, como, por exemplo, o dono do Washington Post, Jeff Bezos?
Eu acho que há uma certa motivação por parte do Jeff Bezos, mas não é bem essa ideia que me parece que Kamala sugere, que estarão à espera ou preferem que Trump seja eleito, eventualmente, por causa de benefícios fiscais. Eu creio que no caso de Jeff Bezos, é mais uma questão da sua própria empresa, a Amazon, que é uma empresa gigante e que em muito depende de regulações ao nível do governo federal. E no fundo, ele não está mais do que a querer dizer que ele apoia Donald Trump, o que eu acho é que ele quer, no fundo, pôr-se numa posição em que quer ganhe um, quer ganhe outro, o seu principal negócio, que é a Amazon, não é o Washington Post, digamos assim, não será prejudicado, porque, como sabemos, Donald Trump às vezes pode ser um bocadinho vingativo. E, portanto, sabendo que o Jeff Bezos e sendo dono do Washington Post, que eventualmente esse jornal faria uma grande campanha de apoio à Kamala, poderia retribuir mais tarde, uma vez eleito, e dificultar muito as contas à Amazon.
O Washington Post, na sequência desta decisão de não apoiar a candidata democrata, e era essa a expectativa, já perdeu mais de 200 mil subscritores. Editores e colunistas demitiram-se, porque o jornal bloqueou uma declaração de apoio a Harris. Como alguém que acompanha de forma bastante próxima a política norte-americana, como é que vê esta decisão do jornal, tendo em conta a tradição que existe a imprensa por lá apoiar candidatos, em particular o Washington Post?
Sim, eu não creio que a decisão em abstrato, ou seja, se tivesse sido, por exemplo, há um ano, há dois anos ou quando comprou o jornal, o que seja, em abstrato, um jornal pode perfeitamente decidir não apoiar nenhum candidato, e eu acho isso perfeitamente legítimo, e acho até que provavelmente conduziria a uma maior confiança do público em geral nos vários órgãos de comunicação social, em vez de estes serem percepcionados como partidários. No entanto, qual é que é a questão aqui? É que ele não fez esta decisão em abstrato ou longe de uma eleição. Ele faz esta decisão já depois da própria redação e, neste caso, do grupo editorial, ter feito uma declaração de apoio à Kamala Harris, como era costume já há muitas décadas. E aliás, o jornal, nestas eleições, já apoiou e apoia candidatos, por exemplo, ao Senado, em estados que fazem fronteira com Washington, por exemplo, Maryland. Portanto, não é uma questão de ele não apoiar, digamos assim, em abstrato, não ter uma política de não apoiar candidatos. Parece-me mais que foi uma decisão muito ad hoc e feita já depois do grupo editorial ter tomado uma decisão. E eu acho que esse é o principal problema. Ou seja, é uma eventual interferência dos donos de um jornal naquilo que é publicado no jornal, e não a decisão em abstrato de não apoiar nenhum candidato. Agora, é evidente que também sendo obviamente uma decisão tão perto da eleição e tão perto de uma eleição tão importante, tão renhida, quer dizer, ao longo de décadas, ter apoiado sempre e agora não apoiar, é evidente que isto, no fundo, é uma questão.
É uma expressão de desconfiança em relação a Kamala Harris?
Não, eu não acho que seja uma expressão de desconfiança em relação a Kamala Harris. Eu acho que, sinceramente, Jeff Bezos não está nada preocupado se Kamala Harris ganhar as eleições. Eu acho simplesmente que ele quer não arriscar e quer cobrir, digamos assim, todas as apostas e principalmente o que ele quer é caso Donald Trump seja eleito, que apesar de tudo, eu acho que neste momento é ligeiramente mais provável, mas caso Donald Trump seja eleito, não ver o seu modelo de negócio digamos assim, ferido. E a verdade é que o Washington Post, e isso tem a ver com este modelo de negócio, no fundo.
Sendo que já estão a sofrer com esta perda de 200 mil subscritores.
A questão que eu ia dizer é precisamente essa. É que mais ou menos, porque esse é o ponto, porque o Jeff Bezos está-se um bocadinho nas tintas sobre se o Washington Post tem mais ou menos 200 mil subscritores, simplesmente porque aquilo é um projeto de mecenato de Jeff Bezos e ele simplesmente vai injetar muitos milhões sempre no jornal e estas decisões dos subscritores não afetam propriamente a sobrevivência do jornal, por exemplo, ou o modelo de negócio do jornal. O que eu creio é que tem também a ver com este modelo de financiamento do jornal, em que uma só pessoa, neste caso, um mega milionário, não é só milionário, é um bilionário, decide de fato comprar o jornal e pode utilizar o jornal um bocadinho à sua disposição e sem qualquer controle por parte nem dos leitores, porque os leitores não conseguem influenciar propriamente o jornal, nem os próprios jornalistas, porque ele, de fato, na verdade, não precisa de nada disto. O Washington Post é quase como um hobby. O negócio principal dele, de longe, é a Amazon e é isso que gera todos os lucros, e mais alguns. O dinheiro que ele tem não vem do Washington Post. Portanto, nesse aspecto, ele pode fazer um bocadinho o que quiser e não se vai sentir prejudicado se mais gente cancelar as subscrições do Washington Post.
Vamos mudar a agulha. E agora para falar do eleitorado árabe e muçulmano, porque a poucos dias das eleições, Donald Trump está a obter ganhos junto deste grupo de eleitores americanos. De acordo com uma sondagem hoje publicada, o ex-presidente está à frente de Kamala Harris entre os eleitores árabes americanos, 43 contra 41%. Embora o número esteja dentro da margem de erro, Donald Trump obteve o apoio de Bill Bazzi, presidente da Câmara de Dearborn Heights, no Michigan. Heights é uma cidade com uma grande comunidade árabe. A posição de Harris em relação a Israel tem sido prejudicial para a campanha democrata?
Eu acho que a ironia aqui é um pouco que sim. Não é tanto Harris, é mais da administração que está atualmente na Casa Branca e da qual ela faz parte. No fundo, não foi ela que ditou a política externa, foi muito mais Biden e principalmente o secretário de Estado, o Antony Blinken, que deram uma política bastante pró-Israel. Agora, a ironia aqui, que me parece ser a grande ironia, é que, na verdade, a plataforma de Donald Trump é ainda mais pró-Israel do que a plataforma democrata neste momento. Por exemplo, recentemente, há uns dias, Donald Trump afirmou que contacta frequentemente Netanyahu e que é um grande amigo dele, e que inclusive já lhe disse para não aceitar nenhum acordo de cessar-fogo que Biden lhe esteja a propor, porque no fundo, quase que a dizer: "Eu conseguirei algo melhor pra ti quando eu for presidente". No fundo, um bocadinho pra boicotar a tentativa de cessar-fogo. Eu acho que a grande ironia aqui, por um lado, eu percebo que os eleitores americanos de origem árabe não estejam contentes com a posição da Casa Branca quanto ao conflito Israel-Palestino e ao apoio a Israel, mas a verdade é que acho que qualquer uma das duas opções, quer do Partido Democrata, quer do Partido Republicano, neste momento, são bastante concordantes quanto ao apoio a Israel, e isto iria acontecer quer tivesse lá uma administração democrata, quer tivesse lá uma administração republicana. Na verdade, onde há mais discordância é no apoio à Ucrânia e não no apoio a Israel.
Vamos visitar um outro argumento que tem sido invocado pelo Partido Republicano como um trunfo de campanha, a economia e, em particular, a inflação. Ora, este é um argumento que aparentemente está a perder força. O preço dos combustíveis, por exemplo, está a cair rapidamente. O gás é muito mais barato em estados decisivos como Nevada e o Arizona face a há um ano. Esta tendência mina, de alguma forma, um dos principais argumentos invocados pelos republicanos, que foi usado para criticar a administração democrata em relação ao custo de vida? Uma semana é suficiente para que tenha algum efeito nas urnas?
Eu creio que a economia será o grande fator decisivo destas eleições. É o fator mais decisivo na mente dos eleitores não frequentes, portanto, nos eleitores que não costumam ir sempre às urnas e que estão mais indecisos, é o grande fator decisivo, é o que os faz apoiar Donald Trump e eventualmente decidir a eleição se essas pessoas forem às urnas. E é, sem dúvida, o fator que leva muita gente que não é uma partidária do Partido Republicano ou um partidário de Donald Trump a votar nele pela questão da economia. Vamos ver, a inflação ao longo dos últimos anos subiu em todos os países ocidentais. E na verdade, os Estados Unidos, através da Reserva Federal, conseguiram baixar a inflação mais cedo do que os países europeus. Agora, eu creio que provavelmente não foi a tempo essa evolução do último ano. Claro que é melhor do que se não tivesse acontecido. Se não tivesse acontecido, provavelmente era ainda pior e a inflação estaria ainda pior e as coisas estariam melhor para Donald Trump. Mas acho que é muito em cima da eleição e que no fundo, o que as pessoas contam não é só o que se passou nos últimos meses, é um bocadinho o que se passou ao longo de todos os quatro anos e comparam um bocadinho como era há quatro anos, com como é agora. Acho que esta evolução final poderá ter impedido que se tornasse um problema ainda maior para Kamala Harris, mas não vai deixar de se tornar isso o grande assunto da eleição e provavelmente o assunto decisivo.
Mafalda Pratas, a uma semana das eleições, da ida às urnas nesta corrida presidencial à Casa Branca, consegue me falar de antecipar quem vai vencer esse ato eleitoral?
Eu acho que não. Neste momento, ninguém consegue antecipar. Quem disser que consegue, não está a dizer isso sobre nenhuma informação.
É de alguma forma surpreendente que estejamos nesta altura, a uma semana e haja este clima de indefinição em torno dessas próximas eleições?
Não me parece nada surpreendente casos, muitos contras contra eles. No caso de Donald Trump é uma figura muito divisiva, com muitos anticorpos em grande parte do eleitorado, especialmente desde a questão do 6 de janeiro e de outro tipo de declarações, mas no caso de Kamala Harris, também tem um grande contra, que é pertencer à administração atual da Casa Branca, que é muito impopular, em grande medida, por causa do custo de vida e da inflação. Eu não creio que seja surpreendente que esteja assim a corrida e acho que não é surpreendente que nenhum deles perca ou ganhe. Acho que é completamente um resultado dentro do que nós esperamos. Agora, claro que nós não gostamos de estar nesta indecisão, de estar a ler há tantas semanas que a corrida está 50-50. Eu acho que provavelmente estará um bocadinho mais favorável a Donald Trump do que a Kamala Harris, apesar de tudo. Por quê? Porque basta que ele ganhe um dos três, quatro estados, de Michigan, Pensilvânia e Wisconsin, ela precisa ganhar todos. Isso dificulta um bocadinho, porque as sondagens dão, neste momento, o empate técnico nos três e é preciso que os três virem da mesma forma e isso pode se tornar um bocadinho complicado. Eu diria que está um bocadinho mais favorável a Donald Trump nesse aspecto, mas não acho surpreendente que um ganhe, que outro perca, e acho também que não vamos saber na noite das eleições, porque há muito mais votos por correspondência do que havia em 2016, há menos do que em 2020, porque já não há pandemia, mas há muito mais do que em 2016 e do que nos anos anteriores, e demora muito mais tempo a contar, porque esses votos podem ser colocados no correio até ao dia das eleições e demoram a chegar. Todo esse processo, provavelmente, se Donald Trump perder ou se ficar muito empatado, vamos ter também todas aquelas questões sobre a legitimidade eleitoral, eventualmente questões nos tribunais sobre recontagem de votos, questões sobre o questionamento da legitimidade da eleição e do procedimento da eleição. Isso também vai durar provavelmente semanas pós-eleição, caso Donald Trump não vença de forma decisiva, nesse caso, acho que não há grande hipótese, porque acho que Kamala Harris, nesse caso, concede a eleição. Acho que se ficar numa margem muito curta, provavelmente, mesmo até o Partido Democrata, como pediu na Flórida em 2000, pedirá recontagens dos votos. E claro, caso Donald Trump perca, vamos ter uma repetição daquilo que se passou em 2020, com aquela contestação à legitimidade dos resultados eleitorais, porque depois todos os resultados eleitorais têm que ser aprovados ao nível estadual, ao nível de comitês específicos e eleitorais estaduais e todo esse processo demora meses, dois meses, um mês, mais ou menos, peço desculpa, até dezembro. Tudo isso, a meu ver, não é nada positivo, porque acaba por diminuir a confiança que as pessoas têm na legitimidade do processo eleitoral.
Claro, à semelhança do que aconteceu em 2020. Mafalda Fradas, investigadora na área da Ciência Política, colunista do Observador, muito obrigado por ter vindo hoje a este "América Dividida", que, como sempre, termina com o Nelson Ferreira, que hoje olha para as iniciativas de campanha agendadas para esta terça-feira, num trabalho com sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar. Na agenda da campanha eleitoral desta terça-feira, salta à vista um discurso de Kamala Harris. Até aqui, nada de novo. No entanto, o local onde vai ser proferido é que está cheio de significados. A candidata democrata vai falar ao país precisamente no mesmo local onde Donald Trump fez o discurso que foi visto como um incitamento aos distúrbios que acabaram com a invasão do Capitólio a 6 de janeiro de 2021. Segundo um responsável pela campanha democrata, o conteúdo da comunicação vai incidir sobre a ideia de virar de página da era Trump, bem como passar a imagem de uma Kamala Harris pragmática, que vai sempre pôr os resultados à frente do seu partido. O discurso acontece num dia em que foi libertado Steve Bannon, ativista de direita e conselheiro próximo de Donald Trump, depois de cumprir pena, precisamente num caso ligado a essa invasão do Capitólio. Já o dia de Donald Trump contempla um discurso em Mar-a-Lago e um comício, logo à noite, na cidade de Allentown, no decisivo estado da Pensilvânia. "I Ain't Marching Anymore", Phil Ochs, 1965, Estados Unidos da América.