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Está no ar o América Dividida das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é sempre do historiador Bruno Cardoso Reis, que está em Washington. Bem-vindo, Bruno.

Olá. Obrigado.

Olá. Trump está envolvido em nova polêmica. Desta vez é acusado de abuso sexual por uma modelo que conheceu nos anos 90, através de Jeffrey Epstein. A ex-modelo Stacey Williams diz que nunca escondeu esta acusação, mas partilhou-a agora num evento relacionado com a campanha de Kamala Harris. Bruno, isto está a ter algum impacto nos Estados Unidos?

É tanta coisa. Ainda agora estava a ver na televisão as pessoas a queixarem-se do excesso de anúncios.

É difícil acompanhar tudo, não é?

O jornalista estava a dizer: "Eu estive na Pensilvânia", como eu também estive, e realmente é impossível. Ele dizia: "Eu até ficava contente quando aparecia um anúncio de detergente ou alguma coisa assim", porque realmente são muitos anúncios políticos. As pessoas já estão um pouco cansadas. Mas a questão aqui é que, por um lado, o Trump não está no mesmo campeonato que os outros políticos todos. Houve mesmo políticos americanos que tiveram problemas muito sérios por causa de escândalos sexuais, que não têm nada a ver com as acusações que o Trump já enfrentou. Já foi condenado, no caso até civil, a pagar uma indenização a alguém que ele terá assediado, aparentemente, de acordo com os tribunais. Obviamente, não sei se é verdade ou não, mas o tribunal achou que sim e que ele tinha que pagar, embora ele continue a recorrer. No fundo, isso significa que as regras habituais a ele não se aplicam. Mais uma vez, temos mais uma acusação, que até já era mais ou menos conhecida. Aqui eu diria que, apesar de tudo, isto pode ser útil, minimamente, para o partido democrata, neste sentido, que é ajudar a recordar que há estes casos em relação ao Trump e a questão do Jeffrey Epstein aparece aqui como particularmente grave, toda a tipo de associação a ele. Mas eu francamente duvido que tenha grande impacto entre os eleitores de Trump. Não sei se entre os indecisos ainda é preciso mais um caso deste tipo para os que estão indecisos se decidirem, tenho grandes dúvidas. Não tenho dúvidas que em relação àquele eleitorado mais fiel a Trump, realmente isto não interessa nada.

Já faz parte da cabala.

Tudo isso como normal ou como parte destes ataques das elites. Os outros eleitores que também já têm muitas dúvidas em relação a Trump, provavelmente também já se terão decidido. Há sempre esta questão dos indecisos, o que é que aqui poderá ser determinante, se será uma questão deste tipo ou outras. Obviamente veremos no dia das eleições, mas eu tenho dúvidas que este caso tenha grande impacto.

Bruno, esta tarde, nos Estados Unidos, estiveste num evento à porta fechada de Brookings sobre o futuro das relações entre Estados Unidos e Europa com uma nova administração, ou seja, depois do dia 5 de novembro. Como é que correu? O que é que nos podes contar, Bruno?

Foi uma sessão muito interessante, mas com regra de Chatham House, não posso contar nada de muito específico, mas realmente foi bastante interessante. No fundo, confirmando este aspecto que é, para ser muito sintético, por um lado, esta ideia de que há tendências de mudança na política externa e no relacionamento com a Europa que vão para além do Donald Trump e que têm a ver com mais protecionismo, uma tendência para um certo fechamento maior e um retraimento maior dos Estados Unidos em termos de segurança e em termos econômicos. E isso verifica-se quer com administrações democratas, quer com uma administração trumpista, não será assim tão diferente desse ponto de vista. No fundo, é o argumento que muitos defenderam. Por outro lado, a ideia de que é indisfarçável que Trump será ainda um grau de desafio diferente, maior, para a relação entre a Europa e os Estados Unidos, em particular por causa da questão da Ucrânia, onde ele realmente parece apostar numa espécie de paz a qualquer preço com a Rússia. Embora isso também faça parte de uma tendência, ou seja, se tende a justificar em termos de uma tendência que também é mais ampla, que é esta ideia que para os Estados Unidos, no futuro, a Ásia-Pacífico, uma região muito mais dinâmica economicamente, será mais importante tendencialmente do que a Europa. Mas uma coisa é dizer isso e fazer uma certa recalibragem de prioridades, outra coisa é dizer: "Acabou-se completamente a Europa", porque a prioridade passa a ser apenas e só o relacionamento com a Ásia-Pacífico ou inclusive a contenção da China. Além do próprio estilo pessoal do Trump e esta ideia que também apareceu e com a qual eu concordo, eu muitas vezes sublinho isso, nós nunca tivemos um presidente dos Estados Unidos a dizer algo que Trump disse, ipsis verbis, que é: "A União Europeia é um inimigo". A União Europeia, ou seja, o mercado único, esta coordenação econômica entre os estados europeus, é um inimigo dos interesses econômicos dos Estados Unidos, é um inimigo dos Estados Unidos. Desse ponto de vista, não só a questão da Ucrânia, mas também em termos de guerra comercial, esta ideia de que ele vai passar a impor tarifas, taxas alfandegárias, mesmo aos países aliados, 10, 20%. Ele diz que nem sabe se não será mais. Tudo isso também foi outro tema recorrente neste debate. Em relação a possíveis soluções para lidar com o Trump, não há aqui receitas milagrosas, mas realmente uma questão que ele gosta bastante e que aparece bastante é sempre esta ideia de comprar americano, inclusive, por exemplo, comprar armamento americano. Isso é algo que ele realmente aprecia. Nesse aspeto, é alguém muito tradicionalista também. Preocupa-se sobretudo com a exportação de bens visíveis, e não há nada mais visível que um carro de combate ou um avião de combate.

Já aqui falamos da ajuda financeira de Elon Musk para a campanha de Trump, ontem a de Bill Gates a Harris Bruno. Desta vez destacamos a notícia do "Washington Post" de que o super PAC republicano apoia Jill Stein, a candidata dos Verdes.

Sim, é realmente uma história um pouco estranha se não tivesse a ver com a estratégia eleitoral, mas inclusive levanta questões interessantes do ponto de vista de toda essa discussão dos super PACs, estes grupos de grandes doadores que não têm limite nas doações que podem dar, porque existem limites às doações aos partidos, diretamente às campanhas, mas a estes super PACs não, supostamente para defender ideias. Este super PAC é organizado por alguém que é um dos principais responsáveis pela coordenação política dos republicanos no Senado, alguém muito próximo do líder republicano no Senado, Mitch McConnell. E de repente, aparentemente, transformou-se num ambientalista. Um dos principais investimentos deste super PAC foi em publicidade a denunciar os crimes ambientais, o fato de Kamala Harris não combater a poluição e não fazer mais pelo ambiente, não ter políticas mais radicais pelo ambiente, quando obviamente no Senado os republicanos se opõem a tudo isso e até a coisas bastante mais modestas. Obviamente aqui isso faz sentido porque um voto em Jill Stein, ou seja, em um destes candidatos de partidos mais pequenos que já falamos, de que há mais de uma dezena, muitos deles completamente desconhecidos. No caso da Jill Stein não é bem assim, ela é até uma veterana nisto, nunca conseguiu mais do que 1%. Agora, 1% pode fazer a diferença nestes estados-chave. No Michigan ou na Pensilvânia, esse 1% pode determinar a vitória ou a derrota de Donald Trump ou de Kamala Harris.

Então Bruno, antes da curiosidade do dia, se calhar olhávamos rapidamente para a guerra das sondagens e também das propostas em torno da economia. O que há de novo aqui?

Há uma má notícia e uma boa notícia para Kamala Harris. Má notícia, o Financial Times pela primeira vez numa sondagem que vai fazendo, no fundo aquilo que interessa muitas vezes nas sondagens também é mais a tendência do que propriamente esta sondagem ou aquela, mas nesta sondagem que está a ser feita já há alguns meses, pela primeira vez, Trump ultrapassa Kamala Harris em termos da questão da economia. Todos os esforços de Kamala Harris para reforçar a sua credibilidade, de acordo com o FT, não estarão a ter resultado. Há outras sondagens que apontam para a vantagem da Kamala Harris nalguns pontos desta questão económica, por exemplo, na questão da criação de emprego ou na ajuda ao custo da habitação, mas não na questão da inflação. Pode ser que seja um pouco isso, mas em todo caso, mais uma vez, estão praticamente empatados, as diferenças são pequenas. Um pouco mais positivo para Kamala Harris é que o Wall Street Journal, que é um jornal conservador, portanto não há suspeitas de ser uma sondagem que fosse favorável deliberadamente, pelo menos a Kamala Harris, mas é obviamente um jornal de referência, sobretudo neste campo da economia, diz que nesta sondagem 49% dos americanos consideram Donald Trump demasiado extremista, só 39% é que dizem isso de Kamala Harris, uma diferença de 10%, bastante significativa, favorável à Kamala Harris. Desse ponto de vista, também a ideia que Donald Trump tem tentado promover, de que ele não é extremista e que Kamala Harris é que é uma extremista de esquerda, comunista, etc. Aparentemente, isso também não está a ter resultados, de acordo com a sondagem de um jornal de referência, mas mais alinhado à direita. Sondagens, mais uma vez, para todos os gostos. Eu diria que a grande conclusão é: a eleição continua muito renhida e muito imprevisível.

Na curiosidade desta manhã, voltamos aos índios e desde quando votam, porque não houve tempo para irmos a esta questão. E já agora, Bruno, uma nota também sobre o peso dos afro-americanos no voto.

Sim, basicamente falámos dos números de nativos americanos, entre sete e oito milhões, variam as estimativas. No caso dos afro-americanos, estamos a falar de quase 48 milhões, uma população muito mais significativa, com muito mais peso, mas também muito distribuída pelo território. Desse ponto de vista, as zonas onde têm mais peso, que são cidades, grandes zonas urbanas, como por exemplo, Nova York, onde não tem grande importância, porque isso já é dado por adquirido, mas logo assim, por exemplo, vem Atlanta, que é fundamental na questão da Geórgia, que é um desses estados oscilantes, ou mesmo em sétimo lugar aparece Filadélfia, a zona da Pensilvânia, também aí terá um grande peso potencial no resultado da eleição. Realmente é um eleitorado que é muito focal, é muito visível, tem muitas queixas históricas, que tradicionalmente votava muito no Partido Republicano, por surpreendente que pareça, temos é de nos lembrar que o Lincoln foi basicamente o primeiro presidente republicano, aquele que faz do combate à escravatura, depois, uma prioridade. Durante muitas décadas e até aos anos 30, 40, os afro-americanos tendem a votar sobretudo no Partido Republicano. Isso começa a mudar com o Roosevelt e as suas políticas sociais, mas sobretudo muda nos anos 60, com o empenho de líderes democráticos, o presidente Kennedy, em particular o Lyndon Johnson, em garantir realmente, efetivamente, o direito dos afro-americanos a votar. Isso é que é impressionante. Só realmente em 1964, com uma lei do presidente Lyndon Johnson, é que começam a ter garantias para efetivamente conseguirem votar em muitos estados do Sul, onde tinham sido escravizados primeiro e depois discriminados durante muitas décadas, inclusive em termos legais, de forma legal e às vezes de forma também ilegal. Portanto, só em 1964. Os nativos americanos, que tinham e têm muito menos peso também em percentual, conseguiram isso a partir de 1924, mas de fato também em todo o período inicial da história norte-americana, com o argumento, inclusive, que não pagavam impostos e que muitas vezes estavam em conflito com os Estados Unidos, não eram considerados cidadãos, eram tratados até um pouco como uma espécie de nações soberanas, mas depois o problema é que esses tratados não foram respeitados e eles foram, de fato, incorporados, anexados ao território dos Estados Unidos. E só é invertida realmente essa injustiça histórica em 1924, muito por causa do papel dos nativos americanos na Primeira Guerra Mundial. Os nativos americanos sempre tiveram uma grande tradição guerreira, de que se continuam a orgulhar. Ainda hoje, de forma desproporcionada, voluntariam-se para as Forças Armadas. No museu, aliás, que existe aqui em Washington, dedicado aos nativos americanos, aos índios, há junto ao museu um grande memorial aos veteranos de guerra índios. Há um caso famoso na Segunda Guerra, que são exatamente os navarros de que falámos ontem, que são usados para um código na sua língua nativa, o que torna basicamente aquilo impossível de decifrar pelos japoneses ou por outros quaisquer. Mas é muito por causa desse argumento, do seu contributo para defender os Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, que em 1924, depois das mulheres em 1920, em 1924, os nativos americanos conseguem o direito ao voto.

Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington, é sempre um gosto ouvir-te. Bom fim de semana, Bruno. Obrigada até segunda.

Obrigado, bom descanso. Obrigado.