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Começa agora o novo episódio do "América Dividida", sempre com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Bem-vindo, Bruno.
Obrigado.
Bruno, ontem não tivemos tempo para falar sobre os donos do Washington Post e do LA Times terem bloqueado as tradicionais declarações de apoio que seriam para Kamala Harris. Vários editores demitiram-se sem protesto. Bruno, vês alguma explicação para isto? O bloqueio no Post terá vindo do dono, Jeff Bezos, que entretanto veio tentar justificar a decisão.
Sim, publicou hoje, há poucas horas, uma declaração, no fundo, uma coluna da opinião também a explicar a sua decisão e a garantir que ela não teve a ver com os seus interesses ou com os interesses das suas múltiplas empresas, e o risco disso poder ficar em perigo com a administração Trump, mas simplesmente com uma questão de procurar preservar não só a realidade, mas também a percepção, a aparência de independência da imprensa. E realmente, eu diria que para muitos leitores na Europa, muitos ouvintes na Europa, realmente pode parecer um pouco estranha esta ideia dos jornais americanos declararem apoio e apelarem ao voto em determinados candidatos. Mas realmente é essa a tradição nos Estados Unidos, que tem também uma prática bem conhecida por trás disso, que é uma separação entre a redação e a edição e todas as colunas da opinião. E, portanto, há uma equipa responsável pela opinião distinta da equipa responsável pela redação, ou seja, pela parte propriamente jornalística do jornal, e esta parte dita editorial, ou seja, da opinião, depois no conjunto, de facto, define posições dos jornais em relação a múltiplos assuntos, enfim, procurando defender essas posições com base em certos argumentos, dados, etc. E aqui a questão que levantou mais suspeitas foi não só esta prática continuada há muitas décadas em múltiplos jornais, mas o facto do próprio Washington Post, em particular, que é muito jornal, digamos, da casa aqui da capital americana, ter, por exemplo, anunciado o seu apoio à candidata democrata ao Senado do Maryland, que é o estado logo ao lado, e portanto, o jornal é muito lido também no Maryland, claro. E portanto, isto foi há poucas semanas. Também saber-se que já estava preparado o texto de apoio à Kamala Harris. E portanto, isto surgiu, de facto, tudo muito em cima da data das eleições e levantou muitas suspeitas. O Jeff Bezos até admite que isso foi um erro, ou seja, que a decisão foi demasiado tardia e demasiado em cima das eleições, mas defende que não houve aqui nenhum tipo de autocensura por receio de Donald Trump. Mas é realmente muito essa a percepção de muitos jornalistas e inclusive de um dos editores, portanto, um dos responsáveis dessa dimensão editorial do Washington Post, o Robert Kagan, o Bob Kagan, que é alguém que trabalha sobretudo sobre a parte internacional e que é um conservador, aliás, durante muito tempo republicano, mas completamente hostil a Donald Trump e que se demitiu em reação a esta decisão, com o argumento que ele via nisto, no fundo, algo até muito mais grave, que vai para além do Washington Post, que é no fundo um prenúncio daquilo que será uma nova presidência Trump, ou seja, uma deriva iliberal de um presidente que declaradamente diz, ameaça os jornais. Enfim, ele fez isso com o Washington Post e com o Bezos. Houve um contrato de bilhões entre a Amazon e o Departamento de Defesa durante o período da administração Trump, que acabou por ser anulado. A interpretação generalizada foi retaliação pelo facto do Washington Post ser muito crítico de Trump e o dono ser Bezos e resistir a essa pressão. E no fundo, é esta ideia que muitas vezes nos regimes ditatoriais, nos regimes autoritários, há muitos mecanismos de censura, mas também há muitos mecanismos de autocensura. E hoje em dia, se calhar, o que prevalece mais nesse tipo de regimes é mesmo a autocensura. Ou seja, as pessoas sabem que não é do seu interesse e que terá um custo muito elevado criticarem o poder estabelecido e, portanto, acabam por tomar a opção de não o fazer. E portanto, é isso que justifica muito o alarme em relação ao Washington Post, muitos cancelamentos também das assinaturas. Mas Bezos vem aqui procurar explicar que as suas intenções eram benignas. Enfim, deixa os ouvintes aqui à avaliação em quem é que acreditam mais.
Entretanto, o procurador-geral da Pensilvânia avançou com um processo contra Elon Musk por causa da lotaria de um milhão de dólares. Bruno, o que se sabe sobre isto?
Bem, é daquelas coisas muito da cultura litigiosa americana. O que é curioso é que muitas vezes essa cultura tem enormes habilidades e portanto, é muito complicado argumentar em tempo útil um caso de compra de votos, até porque o Musk foi, apesar de tudo, hábil, no sentido que não apelou diretamente a votem no Partido Republicano, eu dou-vos 100 dólares se registarem e um milhão de dólares numa lotaria, etc. Ele simplesmente apelou que as pessoas se recenseassem, associando isso realmente à subscrição de ideias que são associadas ao Partido Republicano, e em particular a Donald Trump, como a questão da posse de armas e uma certa interpretação da liberdade de expressão. Mas aqui o que foi hábil do lado da Pensilvânia, portanto, isto é um processo estadual e não federal, que não tem a ver com as leis eleitorais nacionais, mas com as leis da Pensilvânia a respeito do jogo e das lotarias e deste tipo de concursos, dos prémios, da atribuição de prémios. E, portanto, o procurador-geral da Pensilvânia diz que isto é manifestamente ilegal, porque há regras diferentes para concorrentes diferentes em zonas diferentes, com prémios monetários diferentes, e portanto, isso viola as regras da lotaria da Pensilvânia e que justifica uma decisão judicial para suspender imediatamente esta lotaria, esta tentativa de motivar os trumpistas a registarem-se, a recensearem-se. E portanto, vamos ver se resulta, mas em todo caso, mostra como realmente funciona muito aqui a cultura judicial também e política americana.
Bruno, estamos a uma semana das eleições. Tens ideia de quantos americanos já terão votado antecipadamente? E isso será bom ou mau para Harris ou para Trump?
Não é uma ideia, temos mesmo dados bastante seguros, porque os Estados vão publicando esses dados e há um projeto na Universidade da Flórida que vai contabilizando e analisando os dados que estão disponíveis. Sabemos que, neste momento, já 45 milhões de americanos votaram. Muitos países europeus já tinham esgotado a população, em Portugal muito mais do que a população total. Mas de facto, nos Estados Unidos, isto é só entre aspas, à volta de 30% dos 155 milhões de eleitores que estão registados. É menos do que há quatro anos, o que também não é estranho, porque essas eleições foram muito excepcionais por causa da questão da pandemia. Muita mais gente do que alguma vez no passado e provavelmente no futuro, votou de forma antecipada e por voto postal, etc. Sabemos que, isso é objetivamente uma boa notícia, diria eu, para Donald Trump à partida, melhor do que para Kamala Harris, é que há mais votantes registados, porque há Estados que publicam esses dados, não só quem é que votou, mas se esses eleitores estão registados como republicanos ou democratas. Mais uma vez, uma ideia muito estranha para aquilo que são as nossas práticas eleitorais, mas nos Estados Unidos isso tem uma justificação que é, há muitos Estados que exigem esse registo para as pessoas poderem votar nas primárias do respectivo partido. Ou seja, se a pessoa quiser escolher o candidato do Partido Democrata, tem de se registar como democrata e só pode votar nessas primárias. E a mesma coisa para o Partido Republicano. Há Estados em que as regras são diferentes, ou mais flexíveis, ou não exigem isso. Com isso sabemos que realmente há bastante mais republicanos a votar antecipadamente do que há quatro anos, embora os democratas continuem a liderar. Isto valida esta ideia de que, de facto, houve aqui uma inversão na posição do Partido Republicano e do próprio Donald Trump em relação à questão do voto antecipado e que isso está a ter um impacto. À partida, eu diria que isto favorece os republicanos, embora não se possa excluir que uma parte destes eleitores republicanos até mudem o sentido de voto. Não há uma obrigação por estar registado como republicano, obviamente, votar no Partido Republicano nas eleições. E em todo o caso, temos 24% do total de votos que estão registados, em que é possível contabilizar esta questão, que estão registados como independentes. Não dá para tirar conclusões definitivas, acho que isso seria precipitado, mas em todo o caso, eu diria tendencialmente boas notícias para Donald Trump, piores notícias para Kamala Harris.
Bruno, vamos à nossa curiosidade deste "América Dividida". Em novembro, não há apenas eleições para a presidência dos Estados Unidos, mas também para muitos outros cargos, por exemplo, para um terço do Senado. Por que um terço?
O Senado realmente resulta deste grande compromisso que foi a Constituição americana de 1787, que depois é ratificada, entra em vigor em 1788, 89. E como parte desse compromisso, temos realmente a questão de, no fundo, dois parlamentos, diríamos nós, duas câmaras, um sistema bicameral e não apenas uma Câmara, uma Assembleia da República, como nós temos em Portugal e em vários outros países europeus. Isto tem muito a ver com uma parte desse compromisso, que é o compromisso entre pequenos e grandes Estados. Ou seja, os pequenos Estados queriam garantir a representação igual para os diferentes Estados, independentemente da população, os grandes Estados achavam que isso era inaceitável. O compromisso, a Câmara dos Representantes, a Câmara Baixa, é eleita com base na população e portanto, os Estados com mais população têm muito mais representantes na Câmara dos Representantes, mas no Senado, na Câmara Alta, dois senadores por cada Estado, independentemente da população. Isto significa que temos 100 senadores e vai-se à questão, por que esta rotação de um terço? E aliás, como é que isso se faz? Porque 100 não divide por três. Na verdade, nós temos 34 senadores que vão ser eleitos ou reeleitos este ano e depois temos, daqui a dois anos teremos 33 e depois daqui a quatro anos outros 33, para perfazer o total de 100. Isto é feito de forma deliberada, porque os mandatos são realmente de seis anos, mas podia-se ter eleições de seis em seis anos. Mas a questão aqui é evitar deliberadamente que facilmente se consiga uma maioria, um presidente. Ou seja, esta ideia que é central na política americana, na cultura política americana, dos pesos e contrapesos, de não haver uma excessiva concentração de poder. Isso muitas vezes gera frustrações e críticas, mas é algo que é deliberado desde o início. Aqui a curiosidade é, por azar para os democratas, por sorte para os republicanos, este ano é um ano bastante adverso em relação às possibilidades de vitória dos democratas e poderem manter a maioria no Senado, porque há dois terços de lugares democratas em jogo e só um terço de republicanos. Por acaso, há mais senadores democratas que têm de reconquistar ou de conquistar a eleição, portanto, manter esse lugar, do que republicanos. E ainda por cima, há vários Estados muito conservadores, que se tornaram muito republicanos, em que senadores democratas bastante populares estão em reeleição ou simplesmente decidiram abandonar a política e portanto, o lugar está em aberto. Isso leva a que, por exemplo, na Virgínia Ocidental, que falámos aqui ontem, esteja um lugar em aberto e é dado por seguro que os democratas vão perder esse lugar, porque era de um senador muito popular localmente, um senador democrata, ainda assim bastante conservador, mas simplesmente ele abandonou a vida política e este é um Estado, como vimos ontem, onde o Trump ganhou com quase 80% dos votos. É dado por seguro que os democratas perderão logo esse à partida e há vários outros Estados no Hawaii, no Montana, etc, onde essa possibilidade também existe. Isto significa que, à partida, se Donald Trump vencer, tem aqui uma vantagem à partida. Desde logo, basta-lhe empatar no Senado 50/50, porque quando é assim, o vice-presidente desempata e o vice-presidente será o vice-presidente Trump, ele terá automaticamente a maioria, embora por uma margem mínima. E se Kamala Harris vencer, muito provavelmente vai ter o problema de não ter uma maioria no Senado. Ora, o Senado é muito importante conjugado com a presidência, porque tudo que são nomeações presidenciais mais importantes têm que ser aprovadas pelo Senado, por exemplo, para juízes do Supremo Tribunal, para embaixadores, para ministros, e também a ratificação de tratados, ou seja, em termos de política externa, é a câmara mais poderosa.
Bruno, muito obrigada pela análise e pelos esclarecimentos. A partir dos Estados Unidos, o Bruno Cardoso Reis, que regressa amanhã. Bom descanso, Bruno.
Até amanhã. Obrigado.