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Este é o som do América Dividida. Conosco, a partir dos Estados Unidos, já está o historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, boa noite, boa semana.

Olá, bom dia.

Bem-vindo.

Boa semana pra todos.

Bruno, hoje temos que começar por Elon Musk, que promete sortear um milhão de dólares por dia a quem se registrar para votar em Trump. Lembras-te de alguma coisa assim em outras campanhas e eleições?

Bem, ele teve o cuidado de ser um pouquinho mais hábil do que registrar em Trump, ou seja, registrar através de uma petição que apoia o direito a porte de armas sem restrição e à liberdade de expressão, mas que na prática são uma espécie de proxies, portanto, são slogans da campanha de Donald Trump. À partida, é ilegal as pessoas serem pagas para votar, como é evidente. Isso é um princípio básico em qualquer democracia. Isto está muito próximo disso. As pessoas são pagas para se registrar para votar, com base em posições que são claramente identificadas com um dos candidatos, por alguém que apoia abertamente e publicamente esse candidato. E ainda por cima, com prêmios monetários muito significativos, apenas nos sete estados que vão decidir a eleição, portanto nos sete estados oscilantes, e ainda com um bônus em relação à Pensilvânia, porque na Pensilvânia o pagamento pela inscrição é $100, é o dobro dos outros estados, além de se entrar na tal loteria que pode resultar em ganhar um milhão de dólares. Apesar de tudo isso, provavelmente quer dizer que, de acordo com a avaliação de Elon Musk, os números de inscritos, de recenseados, não são os ideais para Trump, portanto seria preciso mais, mas realmente isto não tem precedentes. Há muitos precedentes, e é aliás uma questão bastante séria na política americana, de envolvimento de milionários e bilionários. Isso é uma coisa que vem pelo menos desde os anos 70, 80 do século 19, a chamada idade dourada do capitalismo americano, os Robert Burns, os Carnegie, os Rockefeller, o JP Morgan, etc. Todos eles apoiavam financeiramente candidatos, partidos, etc. Mas por regra, de forma bastante discreta. Houve depois um esforço grande de restrição sobre a quantidade de contributos financeiros que se podia fazer, mas o Supremo Tribunal, quando passou a ter uma maioria conservadora, acabou com essas restrições em nome do princípio da liberdade de expressão. Portanto, a pessoa pode pagar o que quiser para exprimir as suas opiniões. O problema disso é que realmente conjugado com campanhas que são cada vez mais caras, também porque temos primárias a par das eleições principais, isso significa que muitas vezes os candidatos estão dois anos em campanha, em pré-campanha e em campanha, primeiro para as primárias, depois nas primárias e depois a seguir pré-campanha e campanha para a eleição propriamente dita. E portanto, todos os números apontam para valores recordes, qualquer coisa como 16 mil milhões de dólares para estas eleições. Isto dá realmente um papel enorme a pessoas com dinheiro nos dois partidos. Agora, este nível de envolvimento público, de exposição pública, realmente é uma novidade, é mais uma norma que apesar de tudo restringiu um bocadinho o protagonismo que estes atores tinham, que é quebrada com Donald Trump. Pelo menos, eu diria, tem esta vantagem, que é bastante claro, realmente, onde é que Elon Musk se situa, o que é que ele defende, e portanto, as pessoas também que estão a fazer uma opção, pelo menos fazem uma opção informada, mas realmente é algo que não tem precedentes na história americana e neste caso da compra de inscrições no censo dos cadernos eleitorais, que parece-me bastante questionável do ponto de vista legal, mas provavelmente ele tenha suficiente para aguentar qualquer processo que aí venha e no entretanto já teve aqui uma influência adicional no processo eleitoral.

Entretanto, mais declarações polêmicas de Trump, que diz que a China o respeita porque Xi Jinping sabe que ele é louco. Trump diz que conhece muito bem o presidente chinês, que descreve como uma pessoa intensa e ameaça aumentar as tarifas comerciais com a China se houver uma invasão de Taiwan. Como se não bastasse isso tudo, o republicano ainda insiste que se dá muito bem com Putin. Bruno, o que há a dizer sobre isto?

Eu imagino, com pena, os responsáveis do Wall Street Journal, os vários editores, alguém como por exemplo a Peggy Noonan, que são conservadores bastante respeitáveis. No caso da Peggy Noonan, ela faz uma pergunta a dizer: "Certamente, presidente, se for eleito, não vai usar os militares para prender os seus inimigos políticos". E o Trump responde-lhe: "Com certeza que não vou dizer isso. Claro que vou. Se houver problemas, claro que vou chamar, pelo menos a Guarda Nacional". Portanto, realmente, ao menos, mais uma vez, há que dizer isto em relação ao Trump, que as pessoas vão votar de forma completamente consciente. É alguém que não faz a mínima ideia o que é uma democracia, que não tem a mínima intenção de respeitar as regras básicas de funcionamento de uma democracia. Por exemplo, que a liberdade de expressão de que o Elon Musk tanto fala não é só para ele e o Donald Trump exprimirem o que entenderem. É para toda a gente poder exprimir as suas opiniões políticas, dentro de certos limites, por exemplo, não poder apelar à violência, não poder dizer manifestas mentiras sem isso ter consequências, etc. Mas com regras básicas dessas, as pessoas realmente podem se exprimir livremente. Não é por terem uma opinião crítica do líder A ou do líder B. Isso é típico realmente dos regimes do Xi Jinping ou do Putin. Trump acaba sempre por ter palavras positivas para dizer. Este é outro paradoxo recorrente e revelador. O Trump não consegue falar de um líder democrático europeu sem lhe fazer críticas, às vezes algumas até eventualmente justificadas, mas é sempre uma postura extremamente crítica, de certo desprezo, e não consegue falar de um ditador, de um líder autoritário, sem mostrar algum tipo de empatia, de simpatia, de admiração por esse tipo de líderes. Portanto, acho que esta é a conclusão fundamental. Quanto a esta tese da estratégia do louco, como uma chave para o gênio em termos de relações internacionais, é um disparate, que já foi demonstrado historicamente ser um disparate. Havia essa tese também em relação ao Richard Nixon. Era suposto ser a grande teoria para a vitória na Guerra do Vietnã. E o que aconteceu foi, com tempos um bocadinho mais demorados, mas basicamente aquilo que aconteceu no Afeganistão, que é uma retirada americana E depois o colapso do regime que os Estados Unidos apoiavam antes. Essa teoria já foi claramente desmontada. O problema da teoria é que as relações internacionais fazem-se com base, à partida, em termos realistas, de compromisso de acordos, da tal arte de chegar a um acordo, que é algo que supostamente o Trump vende, com base na ideia de que se pode contar minimamente com certas atitudes, certos comportamentos do outro lado, ou seja, com uma dimensão de previsibilidade racional do outro lado. A ideia de que o outro lado é completamente imprevisível e louco, é algo que deixa qualquer parceiro potencial muito desconfortável. É algo que torna o valor de qualquer compromisso assumido com esse tipo de líder bastante questionável. E há aqui pelo menos um choque entre dois aspectos que Donald Trump tenta vender, que é ótimo a fazer acordos e compromissos e a manter a paz, e por outro lado, que é louco. Acho que pelo menos estas duas coisas não jogam muito bem, independentemente das vantagens que possa haver em ter um líder imprevisível em certos momentos.

Importa também falarmos sobre o novo livro "War", escrito pelo jornalista do "Washington Post", Bob Woodward. Será que pode ter impacto na campanha, Bruno?

É um jornalista bastante especial, muito prestigiado, é um dos principais editores do "Washington Post". Tornou-se muito conhecido, teve direito a um filme, "Os Homens do Presidente". Foi um dos dois responsáveis, a par do Carl Bernstein, pela investigação que depois levou a perceber-se o envolvimento do Richard Nixon no escândalo Watergate, numa de escutas ilegais ao Partido Democrático, ao partido rival, e que acabaram por levar ao afastamento de Nixon em 1973, que hoje em dia, cada vez mais, acaba por ser visto como uma figura comparada com o Trump, até bastante respeitável. Foi alguém que reconheceu que para evitar uma crise política maior, devia afastar-se. Para manter a respeitabilidade da presidência, devia afastar-se voluntariamente e não ser forçado a sair ou não resistir pela força a sair de ser presidente. Mas a verdade é que Bob Woodward diz, por exemplo, no livro, é talvez uma das frases centrais do livro, que eu já li na diagonal: "Trump é muito mais perigoso do que o Richard Nixon". Ele cita, por exemplo, o antigo chefe das Forças Armadas americanas, o general Milley, que tipicamente os republicanos, os conservadores respeitam muito, a dizer: "Nunca houve ninguém tão perigoso para os Estados Unidos". A dizer, estou a citar literalmente: "Eu não tinha percebido isto plenamente, mas eu estou convencido que as convicções do Trump são fascistas". Isto é dito por um general que foi o chefe das Forças Armadas americanas durante a presidência de Trump e que se viu obrigado várias vezes a dizer: "Eu não posso cumprir essas ordens, eu não posso mandar tropa para disparar contra manifestantes pacíficos nos Estados Unidos". Em circunstâncias normais, o livro seria uma bomba e tem imensas declarações de responsáveis da administração Trump a dizer o que já sabemos, mas de forma às vezes ainda mais explícita e mais brutal, que de facto consideram que o Trump não tem condições para ser presidente, e que se for presidente colocará em risco tudo o que tem sido a política interna e externa dos Estados Unidos, e até potencialmente o próprio regime democrático americano, se o deixarem. Potencialmente seria uma bomba. Do meu ponto de vista, realmente, no contexto atual, provavelmente não terá grande impacto, porque a forma também de Trump lidar com tudo isto é usar aquela estratégia populista de dizer: "Isto são as elites contra mim, são as velhas elites do velho Partido Republicano contra mim. Isto só mostra que eu é que sou o verdadeiro defensor do verdadeiro povo americano e que estou disposto a fazer tudo para defender, proteger o verdadeiro povo americano". E provavelmente não terá grande impacto, pelo menos não naquele núcleo duro de apoiantes de Trump, que se comporta um pouco como um culto. Veremos se terá algum impacto entre eleitores indecisos, os poucos que ainda restam, e nomeadamente aqueles eleitores mais conservadores, verdadeiramente conservadores e mais fiéis às tradições do Partido Republicano, que podem estar a hesitar em votar em Donald Trump, mesmo que concordem nele nalgumas coisas, como seja a baixa dos impostos ou reduzir o peso do Estado na economia, por exemplo.

Bruno, vamos à nossa curiosidade em dois minutos. Quando é que tivemos pela primeira vez uma mulher candidata a presidente e quando é que as mulheres tiveram direito de votar nos Estados Unidos?

As mulheres tiveram direito de votar nos Estados Unidos por uma emenda constitucional a partir de 1920. Isso estabeleceu que todas as mulheres poderiam votar em todas as eleições federais. Depois, quando é que começaram a votar, isso já é mais complicado, porque vai variando de estado para estado. Os primeiros estados que dão direito de voto às mulheres são nove estados no Oeste, nomeadamente o Wyoming em 1869, até para tentar captar população feminina. Tentar captar mulheres para povoar esses territórios. É um processo realmente gradual, mas relativamente rápido. Nas duas últimas décadas do século XIX, muitos estados começam a dar direito de voto. Depois, no início do século XX, um movimento muito forte, também que já vinha ali atrás, de sufragistas, vai ganhando peso também com a importância do papel das mulheres para preencher o lugar dos homens que foram combater na Primeira Guerra Mundial. Isso depois acaba por ser decisivo nessa emenda constitucional em 1920. Mas na verdade, há um longo histórico de mulheres candidatas. A primeira candidata presidencial é em 1872. Numa altura em que ela não poderia, à partida, votar nela própria. Portanto, é uma candidata, de forma não surpreendente, não conseguiu nenhum voto no Colégio Eleitoral e terá conseguido muito poucos votos em geral, talvez alguns milhares de votos. Mas realmente é extraordinário essa história mais antiga de candidatas femininas, ainda no século XIX, mas depois é preciso esperar realmente pelo século XX para começarmos a ter candidatas mulheres nomeadas pelos principais partidos ou até candidatas às primárias dos principais partidos. Isso começa a partir dos anos 70. Mas de facto, a primeira candidata mulher que vence as primárias, vence uma convenção de um grande partido nacional, de um dos dois grandes partidos nacionais, é realmente apenas Hillary Clinton em 2016. Antes disso, tinha havido duas candidatas vice-presidentes, vice-presidenciais, como agora Kamala Harris, que foi a primeira a ser eleita para esse cargo em 2020 com Joe Biden. Mas antes já tinha havido a candidatura da Geraldine Ferraro pelo Partido Democrático contra Ronald Reagan, na candidatura do Walter Mondale contra Ronald Reagan, que obviamente vai perder. E também a candidatura da Sarah Palin pelo Partido Republicano com John McCain contra Obama, que também vai perder.

Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos, é sempre bom ouvir-te. Muito obrigada pela análise, Bruno. Um bom dia.

Bom dia, obrigado.