Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

No rescaldo das eleições nos Estados Unidos, é a altura de olhar pra frente. E vamos começar pela política externa, área onde Donald Trump promete, por exemplo, acabar com a guerra na Ucrânia. Luís Tomé é especialista em Relações Internacionais. Bem-vindo, obrigada por estar conosco. Donald Trump fala no fim relâmpago da guerra na Ucrânia e hoje o Wall Street Journal avança que os mais próximos do presidente eleito apontam para a continuação de fornecimento de armas à Ucrânia, caso Kiev suspenda a candidatura à NATO durante 20 anos. O que isto nos diz das pretensões norte-americanas?

Olá, boa tarde. É difícil, porque nós tivemos declarações contraditórias, quer de Donald Trump, quer do seu vice-presidente, J.D. Vance, quer de outros líderes republicanos ao longo da campanha. E agora as informações em sentido contrário continuam. Trump verbalizou em tempos, a propósito de Taiwan e da China, que não revelaria se os Estados Unidos entrariam em guerra com a China caso a China invadisse Taiwan, invocando que tem que guardar os trunfos e os jokers escondidos dos seus adversários. E aparentemente, as várias versões sobre aquilo que a sua administração fará em relação à Ucrânia também estão um pouco nessa linha. Aquilo que se percepciona é que a abordagem de Trump foi sempre muito no sentido de aproveitar o contexto de referências à guerra na Ucrânia para criticar a administração Biden, dizendo que foi fraca e que com ele jamais teria havido invasão da Ucrânia e esta agressão russa. Mas na verdade, foi sempre dando sinais também no sentido de que era um erro a administração Biden estar a entregar armas, ajuda financeira, sem contrapartidas pra Ucrânia. E chegou mesmo a dizer que, quando muito, teria que ser doado armamento pago pelos ucranianos ou por outros, geralmente os europeus. E portanto, de uma forma mais transacional. A percepção generalizada é que uma vitória de Trump, como aconteceu, seria má, desde logo pra Ucrânia, porque não há uma mesma predisposição na futura segunda administração Trump, que a administração Biden tem tido, para sustentar o fardo de apoiar o tempo que for necessário e com os meios que forem necessários à Ucrânia. O interesse e a prioridade é conseguir a paz. E o próprio J.D. Vance verbalizou o tal plano de Trump, que incluiria um cessar-fogo imediato nas linhas, estando as linhas fechadas, portanto não havendo mais progressos, mas isso na prática seria o controle russo dos territórios que ocupa, dos territórios ucranianos. E eu acho que isso, se for o plano de paz, fechar a guerra a qualquer preço. Nestes termos, a Ucrânia definitivamente não é membro da NATO, a Ucrânia aceitar que a Rússia controla, fica na posse dos territórios que já ocupa. Isto parece-me ser absolutamente inaceitável pro lado ucraniano e inaceitável pros países europeus. Como é que os ucranianos e os países europeus poderão impedir um cenário deste tipo, se for essa a vontade de Donald Trump? A prioridade é a contenção da China em Ásia e Pacífico e, portanto, no caso da Ucrânia, é fechar o conflito. Isso está para se perceber se é efetivamente assim e qual é que será a reação do lado ucraniano e dos países europeus, porque isso seria a capitulação, e portanto, que viria brechas ainda mais profundas do que aquelas que continuam a existir entre o eixo europeu e o americano, a colisão da aliança transatlântica.

Parece haver alguma vontade da parte de Donald Trump de fechar a torneira.

Sim, ele verbalizou isso. Disse que não é sustentável, que não podem os Estados Unidos, os Estados Unidos têm que concentrar os seus recursos naquele que é o verdadeiro adversário, que é a China, naquela que é a região prioritária, que é a Ásia e Pacífico, e portanto, não podem andar a desperdiçar diplomacia e sobretudo financeiramente com outros recursos, designadamente a Europa. Aliás, o mesmo sinal, apesar de nós sabermos bem como a administração Trump primeira acompanhou muito a agenda do primeiro-ministro Netanyahu, e vimos como Netanyahu apoiou Trump e ele reconheceu a vitória de uma forma tão entusiasmada, mas Trump já sinalizou que não quer uma guerra generalizada, aliás, que era o fim da guerra também o mais rapidamente possível no Oriente Médio, e isto pode inibir uma agenda mais ampla do primeiro-ministro israelita de aproveitar a circunstância de presumivelmente ter a carta branca de Donald Trump pra atacar diretamente o Irã e desmantelar o programa nuclear.

Mas acha que Donald Trump está disposto a dar esse cheque em branco ao primeiro-ministro israelita?

Eu creio que sim, e a razão pela qual Netanyahu ansiava pela vitória de Donald Trump, porque Trump não tem a empatia pelos palestinianos que a administração Biden tem, ainda está em vigor, e a administração Trump foi sempre muito crítica do programa nuclear do Irão e do acordo nuclear que tinha sido feito no tempo de Obama. Tanto que a administração Trump retirou os Estados Unidos do acordo, chamado Acordo do Irão Nuclear, e o objetivo proclamado Era através de sanções ou de outras formas impedir que o Irão avançasse nesse programa. Portanto, nesse momento nós sabemos que o governo israelita quer aproveitar a circunstância e o conflito atual para ir mais longe nos ataques ao Irão. E como nós todos sabemos, foi Biden que diplomaticamente trabalhou e conseguiu que a tal retaliação que fez Israel no dia 26 de outubro não visasse as infraestruturas nucleares, nem sequer energéticas. Portanto, desse ponto de vista, Netanyahu espera a carta branca de Trump. Porém, Trump já sinalizou, veremos depois na prática o que é que isso significa, que não quer também alastrar e prolongar a guerra no Médio Oriente. E sendo assim, se o objetivo prioritário é não intensificar nem expandir a guerra no Médio Oriente, não pode dar pensão e apoio a um ataque israelita contra infraestruturas nucleares e até energéticas do Irão. Portanto, vamos ver como é que, neste apoio claro republicano a Israel e nestas condicionantes, para onde cairá a decisão da administração Trump, depois de discutir com o governo de Israel. Mas para voltar ao ponto de partida, que é no tema dos conflitos, nós estimamos o posicionamento prioritário de Trump em fechar a guerra na Ucrânia a custo o que custar e se implicar capitulação de facto da Ucrânia e a desgosto dos europeus, que seja. E no caso do Médio Oriente, se calhar, para desgosto de Israel não ir atrás de, por via da força, destruir o programa nuclear do Irão. Isto é o que nós presumíamos à luz da retórica na campanha, do comportamento que conhecemos de Trump. Veremos se é mesmo assim ou não, porque é muito cedo agora para podermos estar a antecipar cenários decisivos. Estão vários em aberto.

Mas em relação a Pequim, podemos falar, antes de mais, em tarifas astronómicas com que Donald Trump ameaçou a China.

Presumidamente, sim, mas algumas das tarifas já tinham sido pré-anunciadas por esta administração Biden-Harris sobre certos produtos de certos setores. Trump várias vezes ameaçou aumentar essas tarifas e tarifas, em particular, em relação à China, mas não só, porque o aumento de tarifas que ele anunciou numa lógica protecionista visam também europeus e outros parceiros e aliados, designadamente da Ásia-Pacífico. Mas ele tem a experiência do resultado da primeira guerra de tarifas e foi um mau resultado para os Estados Unidos na primeira guerra de tarifas com a China. Baixou o déficit comercial em relação à China, mas aumentou muito o déficit comercial dos Estados Unidos. Tinha atingido, quando Trump saiu, o máximo desde 2008 e há vários estudos que dizem que há desempregos diretos resultantes só da guerra de tarifas com a China, e porque a China também retaliou, de 180 mil a 245 mil empregos diretos provocados por essa guerra de tarifas, além da perda de competitividade de muita da produção americana no mercado internacional, porque as tarifas fizeram com que uma série de componentes chineses entrassem mais caros e, portanto, o produto americano final ficou mais caro e logo menos competitivo no mercado internacional. À luz dessa experiência e de algumas críticas, até de grandes empresários, veremos se esta retórica anunciada e aquilo que presumimos que vai acontecer, se confirma. Agora eu acho que há aqui uma linha de continuidade óbvia que Trump vai manter, por comparação com a administração Biden-Harris, como esta já mantivera no passo da primeira administração Trump. A China é o grande adversário, a Ásia-Pacífico é a prioridade. Isso é consensual entre democratas e republicanos e portanto, digamos, entre Trump e Biden. E, por outro lado, é consensual que a Índia é um parceiro estratégico de longo prazo, independentemente de alguns desvios menos democráticos. Isso é consensual para esta região e para dois grandes atores. E há uma diferença substancial: é porque manifestamente Biden sempre procurou envolver mais na sua agenda de política externa parceiros aliados, quer da Ásia-Pacífico, quer europeus, e para Trump, os europeus só serão relevantes se estiverem em linha com a sua agenda. Isso para nós, Europa, é um prejuízo e do meu ponto de vista, há uma consequência que resulta desta eleição, sobretudo se se vier a confirmar que para além da vitória para a Casa Branca, para além da maioria no Congresso, do controle do Supremo Tribunal Federal, se também tiverem a maioria na Câmara dos Representantes, pois parece-me claro, dado o estilo de Donald Trump, a sua retórica, o seu comportamento, que os Estados Unidos se transformam definitivamente numa democracia iliberal e que vão ajudar a promover a ascensão de outras democracias iliberais. Algumas já existem na Europa, e não só, e que vão catapultar esta onda de nacionalismo e populismo que, de facto, Trump também representa.

Luís Tomé, muito obrigada por ter vindo a este "América Dividida". No fecho, como sempre, o Nelson Ferreira traz-nos música e hoje destaca a agenda do dia de Trump, que já está a trabalhar na transição de poder. É um trabalho com a sonoplastia de Pedro Oliveira.

Depois de um dia calmo em Mar-a-Lago, na Flórida, maioritariamente a receber felicitações de líderes estrangeiros, Donald Trump começa já hoje a trabalhar com a equipa que vai assegurar a transição de pastas para o início do seu segundo mandato. Segundo um responsável da campanha republicana, o agora eleito presidente dos Estados Unidos ainda vai dedicar parte do dia de hoje a responder a contactos de líderes estrangeiros, mas vai também ter a sua primeira reunião com a equipa de transição. Uma equipa liderada por Linda McMahon, esposa do ex-líder da empresa de wrestling WWE, e por Howard Lutnick, CEO da empresa de ativos financeiros Cantor Fitzgerald. Mas deste grupo também fazem parte os filhos Donald Trump Jr. e Eric Trump, bem como o agora eleito vice-presidente, J.D. Vance. Para hoje está também prevista a primeira aparição de Joe Biden desde que Donald Trump foi eleito e o tema da transição de pastas deve fazer parte dessa comunicação. O ainda presidente vai falar ao país a partir do Jardim das Rosas, no exterior da Sala Oval da Casa Branca. "Darkness Till Dawn", Carly Simon, 1976, Estados Unidos da América.