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A menos de duas semanas da ida às urnas, um trunfo de peso: Barack Obama juntou-se na última madrugada a Kamala Harris num comício na Geórgia, estado em que democratas e republicanos lutam pela vitória ombro a ombro. É a primeira vez que o ex-presidente dos Estados Unidos pisa o mesmo palco que a candidata do Partido Democrata nesta corrida eleitoral. Para o "América Dividida" de hoje, convidamos Diana Soller, investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais, doutorada em Relações Internacionais, precisamente pela Universidade de Miami. Bem-vinda e obrigado pela disponibilidade, Diana Soller. A Geórgia é um dos sete estados apontados como decisivos para o desfecho das eleições do próximo dia 5 de novembro. Foi este o local escolhido por Barack Obama para surgir ao lado de Kamala Harris pela primeira vez. Por que este estado e não outro? Há alguma razão especial?

Não sabendo exatamente o que a campanha está a pensar, eu diria que a escolha da Geórgia está relacionada com o simbolismo que este estado tem. Foi na Geórgia, e a Geórgia é um estado com muito peso na questão dos direitos civis, pelos quais Martin Luther King e toda a sua entourage lutou, e muito bem, nos anos 60. E portanto, a Geórgia é sempre um local simbólico, nomeadamente para apelar ao voto negro, que é aquilo que Barack Obama, de alguma maneira, tem feito. Às vezes até com uma linguagem um pouquinho surpreendente para quem não conhece bem o seu percurso, mas eu penso que a razão essencial é essa. O estado da Geórgia é um estado que historicamente é absolutamente fundamental para os direitos civis, e acho que Barack Obama e a campanha de Kamala Harris, principalmente, escolheu esse estado por esse mesmo motivo.

Diana Soller falava na linguagem. Ora, Barack Obama é considerado por muitos como um moderado. A verdade é que durante a intervenção que fez neste comício e na última madrugada, referiu-se a Donald Trump, por exemplo, desta forma: "Já repararam que o avô está a agir de forma estranha?" Gozou também com o facto da campanha de Trump vender Bíblias e relógios, sugerindo que Trump é como um parente mais velho a precisar de ajuda. Este é um sinal de alguma preocupação entre os democratas, o recurso a este tipo de argumentos?

Eu acho que deveria ser. Eu não considero, eu pessoalmente, e eu tenho estado a estudar essa fase da história dos Estados Unidos, precisamente com a intenção de tentar perceber o que se está a passar nestas eleições, e parece-me que Barack Obama não é propriamente um moderado. Barack Obama também foi eleito como um outsider do sistema, também tentou, à sua maneira, furar o sistema e criar um sistema que ele próprio acha que é mais justo, equitativo e diferente do sistema que tinha sido criado até o momento. E, portanto, eu tenho alguma dificuldade em considerar Barack Obama um moderado. No entanto, compreendo que ele seja visto como tal, até porque principalmente nas suas intervenções internacionais, ele foi de facto moderado. Não é igual o que se passou internamente. No entanto, esse tipo de linguagem, a forma como ele considera Donald Trump, é essencialmente um produto desta América profundamente dividida, desta América profundamente polarizada, em que o que cada candidato procura, o que cada candidatura procura, é transformar a outra candidatura numa candidatura infernal, numa candidatura na qual não se pode votar porque será o fim da América. Aliás, ambas as campanhas têm usado este tipo de linguagem, este tipo de afronta relativamente ao adversário, que não ajuda nada àquilo que Kamala Harris diz que quer, que é uma América, no fundo, una e coesa e tudo mais. No entanto, para lá chegar, ela e a sua campanha entendem que a única forma é dizer aos americanos que Trump não é um presidente viável. E daí a linguagem que Barack Obama utilizou. Aliás, eu acho que é mais chocante a linguagem que ele utilizou há alguns dias, dizendo que não há nenhum negro que deveria votar em Donald Trump, porque Donald Trump quer que a sua vida seja basicamente um inferno. Quer dizer, isso não só não é verdade, como mostra a forma de polarização a que estamos a chegar nos Estados Unidos.

E procura-se com esta linha de argumentação chegar a algum grupo de eleitores em particular ou a todos os eleitores?

Não, não se procura chegar a todos os eleitores. Eu acho que ambas as campanhas fizeram uma escolha que era profundamente previsível, tendo em conta os últimos anos de campanha dos Estados Unidos, em que o que cada uma tenta fazer é mobilizar o seu próprio eleitorado. Ou seja, ambos os candidatos já perceberam que quem vai ganhar as eleições é aquele que conseguir que mais pessoas que votam em si vão às urnas. Os indecisos são muito poucos, contam pouco. E numa campanha polarizada como estas, não vão escolher ninguém. E, portanto, há uma opção clara da parte de ambos os candidatos de mobilizar o seu eleitorado E não de tentar convencer o eleitorado indeciso a votar neles.

Entrou um bocado na minha próxima pergunta, isto a propósito do dia de campanha de Donald Trump. A campanha dos republicanos ontem esteve no Arizona, comício muito centrado nas críticas à política de imigração da administração Biden-Harris. Trump disse que o país era um caixote do lixo, em que o lixo, depreende-se, não diz ipsis verbis, são os imigrantes. E a minha pergunta era precisamente aquela que entrou naquilo que a Diana há pouco estava a dizer: este discurso é eficaz de alguma forma para chegar aos indecisos ou mais para mobilizar o eleitorado republicano?

Como dizia, eu acho que nenhuma das campanhas já está interessada em chegar ao eleitorado indeciso. Aliás, é o próprio Karl Rove, que era o mastermind da campanha de George W. Bush, que em 2004 revela que há estudos que mostram que o eleitorado indeciso é tão pequeno que já não vale a pena lutar por ele. Vale a pena lutar pela mobilização do eleitorado de cada um dos partidos. E os eleitores que mais o votam, dizem todos os estudos, são os eleitores mais radicalizados. E, portanto, cada uma das campanhas está a falar precisamente para estes eleitores. O Arizona é um estado particular, porque durante muitos anos foi um estado republicano e deixou de o ser. É um estado que nós chamamos agora, na gíria, de um estado roxo, porque foi um estado que recebeu uma quantidade significativa de imigração interna que vota democrata. E, portanto, passou a ser um swing state, que foi ganho por Joe Biden nas eleições anteriores. Há outros estados nestas condições, mas nenhum deles parece estar na condição de swing state como o Arizona está. E, portanto, o que Donald Trump foi fazer ao Arizona foi precisamente lembrar que em estados com uma população menos intensa, como o Arizona, é um estado que é muito suscetível à imigração. E quando me pergunta se a ideia do lixo serem os imigrantes, não é bem isso que Trump diz nesta altura da campanha e nesta campanha. Ele diz que o lixo são os imigrantes ilegais. E há uma diferença significativa, porque os imigrantes legais estão cada vez mais a aproximar-se da campanha de Trump ou de votarem em Trump. Não são todos, evidentemente. Por exemplo, os negros continuam a votar em grande quantidade em Kamala Harris, mas 98% dos negros votaram em Joe Biden e aparentemente as sondagens dizem que o número de negros que vão votar em Kamala Harris reduziu-se para menos de 10%, que votarão aparentemente em Trump. Os latinos também são um eleitorado muito volátil, que olham para os próprios imigrantes latinos ilegais como um problema para si próprios, porque cria uma confusão entre a legalidade e a ilegalidade, entre a criminalidade e a não criminalidade. E, portanto, cada vez há mais latinos que estão, digamos assim, convencidos que votar em Donald Trump é mais produtivo para a sua própria vida nos Estados Unidos. E portanto, temos aqui pela primeira vez em muito tempo, um voto que já não é propriamente um voto racial ou um voto étnico, mas um voto de americanos de primeira, segunda, terceira geração, que querem integrar-se na cultura americana branca e que veem em Donald Trump essa saída para si. E portanto, nada disto é a ciência exata que era há uns anos atrás.

As últimas horas de campanha serviram também para Donald Trump defender-se de duas acusações de que está a ser alvo. Ontem, de viva voz, uma antiga modelo da Sports Illustrated, Stacey Williams, revelou as circunstâncias em que foi tocada de forma imprópria por Trump na década de 90. Há depois outra alegação feita pelo ex-chefe de gabinete, já rejeitada por Donald Trump, de que o ex-presidente republicano gostava de ser tratado com a mesma deferência com que Hitler era tratado pelos seus generais mais próximos. Estes casos têm potencial para pesar na decisão dos eleitores?

Não me parece, pelas razões que já referi. Eu acho que apesar de tudo, as coisas já estão mais ou menos decididas, no sentido em que já se sabe quem é que vai votar em quem. O eleitorado de Trump não se deixa impressionar por este tipo de questões, que a nós nos impressionam porque de alguma maneira põem em questão a democracia, os direitos humanos, os direitos das mulheres. Mas o eleitorado de Trump não parece ser particularmente sensível a esse tipo de questões. Não o foi em 2016, não o foi em 2020, portanto, não me parece que vá ser em 2024. O eleitorado de Harris pode tentar explorar este tipo de situações, mas não me parece que quem esteja, de fato, já convencido a votar em Trump, vá recuar por causa disto.

Diana Soler, temos um minuto. Ainda gostava de abordar um outro tema, uma notícia do Washington Post, que dá conta que Elon Musk, um dos principais financiadores da campanha de Donald Trump, tem estado em contacto com Vladimir Putin desde 2022. E este tema em concreto e estas alegações podem ter algum peso e determinar o desfecho desta eleição?

Mais uma vez, acho que não. Acho que estamos num momento em que, de alguma maneira Vai haver muitas notícias deste tipo nos próximos dias, quer relacionadas com Trump, quer relacionadas com Harris. Eu acho que o público norte-americano está tão dividido e está tão polarizado que este tipo de notícias já são desprezadas pelos eleitores de cada um dos candidatos como notícias falsas, notícias que querem denegrir a imagem do outro candidato. E, portanto, eu não penso que vá haver uma grande diferença com este tipo de notícias, a não ser que, efetivamente, venha alguma coisa que seja absolutamente dramática e que mude a intenção de voto, mas eu não estou a ver o que é que pode fazer. Kamala Harris é uma candidata que é conotada com o mais à esquerda que a esquerda tem. Donald Trump é um candidato conotado com o mais à direita que a direita tem. E isso não tem feito uma grande diferença nos eleitorados de ambos os candidatos e, portanto, eu penso que seguirá assim, a menos que haja uma notícia absolutamente estrondosa, seguirá até à altura das eleições.

Com a expectativa que, de facto, nos próximos dias, até ao próximo dia 5 de novembro, proliferem este tipo de notícias. Diana Soler, muito obrigado pela sua presença na edição desta sexta-feira de "América Dividida".

Obrigada pelo convite.

Obrigado, Diana. No fecho do "América Dividida" de hoje, o Nelson Ferreira leva-nos até ao Texas. Dia de campanha concentrado precisamente neste estado. É um trabalho com sonoplastia do Pedro Oliveira. O estado do Texas é, durante as próximas horas, o palco da batalha eleitoral entre democratas e republicanos. Donald Trump, por exemplo, tem previsto um discurso na capital, Austin, e vai aproveitar a passagem pela cidade para gravar um episódio do famoso podcast de Joe Rogan, naquela que está a ser vista como uma tentativa de apelo ao voto masculino mais jovem. Kamala Harris também foi convidada para este programa, mas segundo um responsável da campanha, tal não vai ser possível para já por motivos de agenda. Kamala Harris, que também aposta hoje todas as fichas no Texas, vai estar na cidade de Houston, onde se espera que faça declarações sobre a liberdade reprodutiva. Depois das estrelas que a acompanharam ontem, hoje Kamala Harris vai contar no seu comício com uma atuação de Beyoncé, ela que é natural de Houston e que foi uma das primeiras estrelas da pop a manifestar apoio à candidata democrata. Outro texano famoso a marcar presença esta noite no comício de Kamala Harris é Willie Nelson. "Texas Sun", Craig Finn e Leon Bridges, 2020, Estados Unidos da América.