Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Numa recta final de eleições, é importante não falhar, mas o atual presidente dos Estados Unidos foi o autor de uma gafe que já obrigou a um esclarecimento da Casa Branca e a um distanciamento da própria Kamala Harris. Nuno Amaral Jerónimo é professor na Universidade da Beira Interior. Muito obrigada por estar conosco mais uma vez. Joe Biden reagiu à piada feita pelo comediante Tony Hickliffe, julgo que se diz assim, no comício de Donald Trump, dizendo que: "O único lixo que vejo a circular por aí são os seus apoiantes". Isto é o que se pode chamar um tiro no pé ou acaba por não ter grande efeito nos eleitores?

Olá, boa tarde. Obrigado pelo convite mais uma vez. Essa declaração do presidente, mas também a piada feita pelo humorista, acho que elas se podem assemelhar, embora sejam duas coisas diferentes, porque uma é feita por um humorista e a outra é um político que não é humorista. Mas se me deixa começar pelo segundo aspecto, a própria piada do humorista, podemos também discutir se isso não é um problema dos humoristas estarem ao serviço dos políticos. Essa declaração do presidente pode ter um efeito semelhante ao do cesto de deploráveis que a Hillary Clinton disse num comício também nas eleições de 2016, que é provocar uma reação de: "Estão a ver como eles realmente nos desprezam". Em algumas conversas que nós já tivemos antes, já fomos falando isso, ou seja, o sentimento e o ressentimento de uma parte da América com outra parte da América, ou uma visão que os eleitores do Trump têm de que por serem estatisticamente e sociologicamente mais pobres, menos educados e de cidades menos cosmopolitas, genericamente falando. Eu não sei se é um complexo de inferioridade, mas têm pelo menos essa sensação de que a outra América, a América que hoje parece ser representada pelo Joe Biden, olha para eles de cima para baixo, olha para eles como uns saloios. É claro que a palavra deploráveis da Hillary Clinton ou a palavra lixo do Joe Biden é mais agressiva. Portanto, reforça essa ideia. Nós já falamos isto na semana passada, que é: o que tem efeito eleitoral neste momento a tão poucos dias das eleições? Não é muito fácil saber, porque há pessoas que estavam convencidas que é importante votar em Kamala Harris, que vão deixar de votar por causa disso. Há pessoas que vão a correr votar no Trump por causa disso, ou só reforça o sentimento que há de um lado e do outro. Não conseguimos ter resposta, porque isso é há muito pouco tempo, mas ficam essas dúvidas. Que reforça o sentimento de vitimização, ou pelo menos dessa ideia de que as elites, os mais ricos, os mais educados, olham para os outros que não são nada disso, de uma forma sobranceira. Isso parece-me que sim, reforça.

O tal comediante, no comício de Madison Square Garden, disse que Porto Rico era uma ilha flutuante de lixo, o que gerou esta resposta de Biden de que falamos agora. Houve algumas estrelas latinas que imediatamente condenaram o ataque, apoiaram Kamala Harris, um cantor retirou mesmo o apoio a Trump. Quando é assim, a repercussão pode ser outra?

Há uma repercussão midiática evidente e voltamos à mesma ideia, que é saber exatamente quantos votos é que se perdem ou se ganham com uma declaração dessas. Se me permitir não responder diretamente à pergunta, mas ir um pouquinho ao lado. A minha questão é se precisamente a tarefa, se o trabalho de um humorista é estar ao serviço de um político. No fundo, o que me parece é que isso é uma gafe, porque é feita num comício. Se esse comediante não estivesse num comício, se estivesse num espetáculo de comédia, e onde eu acho que os humoristas têm toda a liberdade e podem ser ofensivos com quem quiserem, isso é uma relação entre comediante e o seu próprio público.

E este comediante é conhecido por fazer roasts, aparentemente.

Exatamente. E vejam que o roast é até um gênero de comédia muito apreciado nos Estados Unidos e que tem uma tradição. Portanto, ele poderia fazer essa piada num espetáculo, e aí seria uma relação entre um artista e o seu público. Poderia ter depois as repercussões que tivesse, mas era um caso de liberdade artística, chamemos assim. Na verdade, é isso que eu acho. Aqui, quer os políticos, quer o próprio comediante está a pagar um preço de estar a fazer a sua comédia ao serviço de um partido e de uma ideologia. Portanto, aí a piada Deixa de ter um elemento exclusivamente artístico e ganha um significado político.

Já agora vamos falar de mais artistas, porque George Clooney deu voz a um anúncio de um grupo evangélico progressista, portanto, pró-Kamala, contra Trump, um grupo evangélico diferente daquele que apoia Donald Trump. A ideia do anúncio é que ninguém sabe em quem o eleitor vota, porque o eleitor está sozinho na cabine de voto. O anúncio vale a pena procurá-lo online, porque são trabalhadores de fábricas ou trabalhadores rurais, aquele clássico espécie cowboy de camisa de flanela. E há um que o incentiva a votar Trump e ele depois, dentro da cabine, olha para o ecrã do seu telemóvel e vê a mulher, a filha, e então pensa que deve votar a pensar nelas e, portanto, acaba por votar Kamala Harris. Esta mensagem tem impacto? Esta ideia de "estamos sozinhos na cabine de voto" pode ter impacto?

Ela tem impacto mesmo que não existisse enquanto publicidade, enquanto fenómeno do marketing, porque há sempre essa dúvida. Nós sabemos que a pressão social tem força sobre algumas das nossas decisões, alguma forma até como nós nos expressamos em público. A famosa teoria da espiral do silêncio faz com que as pessoas se sintam minoritárias e, portanto, numa comunidade desse gênero que o anúncio representa, realmente há uma ideia de que há uma certa pressão social para se estar de um lado, neste caso do lado do Donald Trump, e que as pessoas que possam ter dúvidas não têm coragem de as manifestar, porque há um profundo controle social. Mas atenção, porque seria exatamente o contrário se pensássemos, por exemplo, numa universidade de elite norte-americana, onde deve ser muito difícil alguém se assumir como apoiante do Donald Trump, tal é a hegemonia de professores e alunos progressistas do lado democrata. Há uma coisa interessante que eu acho que nesse anúncio, que eu acho particularmente como é que funcionará, porque a mensagem para um evangélico, estás sozinho na cabine de voto, ninguém vai ler. Eu pergunto se um evangélico não achará que Deus poderá estar a ver. É uma dúvida. Mas do ponto de vista social, sim, ela tem o seu significado e é verdade. É mais fácil não ceder. Aliás, é por isso mesmo que o voto é em urna e secreto, é precisamente para que a pessoa possa votar sem nenhuma pressão social.

Mas essa pressão social de que fala acaba por dizer que não é possível o diálogo entre as duas Américas que estão divididas.

É, já falámos sobre isso várias vezes e eu tenho visto mais coisas. Estava a ver um debate organizado pela The Free Press, pela Barry Weiss, em que chamam jovens dos dois lados e eles conversam, eles estão ali durante uma hora a conversar, a debater, percebe-se que têm ideias diferentes sobre a América, mas depois há uma pergunta do jornalista que lhes pergunta: vocês eram capazes de se casarem ou de namorarem com uma pessoa de um partido diferente do vosso? E os sete jovens adultos, porque têm todos menos de 25 anos, todos dizem que não.

É significativo.

Sim, a mim parece-me que se está a cavar, ou pelo menos a aprofundar um fosso que torna as Américas mais difíceis.

Só para terminar, porque um dos temas que tem sido abordado por diversas vezes é que Donald Trump não vai aceitar a derrota, sobretudo se ela for, como dizem as sondagens, à tangente, vai pedir recontagem, etc. O país está preparado agora para uma reedição de 2020? Tem outras armas para combater um momento como o de 2020?

Se me permite, deixe-me dizer 2016 e 2020, porque quando o Trump foi eleito em 2016, alguns setores democratas, apoiantes da Hillary Clinton, também não se portaram propriamente da forma mais urbana possível. Fizeram desacatos, não invadiram o Capitólio, mas também fizeram alguns desacatos de violência urbana. Portanto, na verdade, nas duas últimas eleições, houve mau perder dos dois lados. A gente pode dizer que o do Trump teve mais impacto porque teve uma pressão institucional mais forte, pressionou mais as instituições, mas no sentido de saber perder, nenhum deles soube perder. E durante quatro anos as pessoas diziam que o Trump não era o meu presidente. Isso é mau perder, porque um dos consensos das democracias é nós aceitamos quem ganha as eleições nos representar a todos, mesmo que a gente não goste deles. Isso representa mau perder. Respondendo à sua pergunta, eu não sei se algum dos lados está preparado para aceitar perder e o que cada um vai fazer, não sabemos, mas eu acho, por isso, que nenhum dos lados está preparado para saber perder com urbanidade.

Nuno Amaral Jerónimo, muito obrigada por ter estado connosco neste "América Dividida", o programa. Volta para a próxima segunda-feira, mesmo véspera da grande eleição de que todos estão à espera.