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Começa agora o novo América Dividida com o historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Olá, Bruno, boa noite aí, bem-vindo.

Olá, bom dia.

Olá, Bruno. Importa voltarmos à história da desinformação. Aparentemente, segundo o Washington Post, o vídeo falso que anda a circular sobre o democrata Tim Walz vem dos russos. E parece que estão preparados para promover a violência.

Sim, no fundo, tínhamos falado disso e eu até dei o exemplo da desinformação russa, mas não estava a associar, e portanto até quero deixar isso claro, não estava a insinuar que fosse realmente o caso, neste caso, mas realmente, por coincidência, logo no dia seguinte, de facto, o Washington Post fala com uma série de responsáveis dos serviços de informação americanos, em particular aqueles que estão encarregues de combater a desinformação, e que vieram dizer que esse vídeo, bem como outros, realmente são traçáveis para unidades russas que estão encarregues de promover a divisão, a polarização e até a violência política nos Estados Unidos. Ou seja, uma das grandes preocupações que eles sinalizaram. Diziam que o vídeo, inclusive, corresponde muito ao modus operandi russo, a utilização de vídeos com pessoas que reclamam uma determinada identidade. Entre várias coisas, já agora, esta curiosidade meio cômica. Um dos dramas que esta pessoa testemunhava era que, ainda por cima nesse período de abusos, os pais estavam a divorciar-se. Ele diz: "Bem, os meus pais ainda hoje, felizmente, são casados e felizes, portanto não houve nunca nenhum problema, nenhum divórcio". Mas eles inventam essas histórias com pessoas com nomes reais, que depois podem ser traçados e portanto dão essa credibilidade. Isso é uma das técnicas que é usada. Mas, além disso, eles estão particularmente preocupados porque encontraram indícios de que realmente eles estão a preparar-se para procurar promover contestação ao escrutínio, contestação aos resultados das eleições, sejam eles quais forem, e também promover a contestação violenta a esses resultados. Ora, nós sabemos que os Estados Unidos têm uma transição muito longa. Têm eleições no início de novembro e depois só em janeiro é que toma posse o novo presidente. Entretanto, há uma série de passos que têm que ser tomados nos vários estados e depois a nível federal para certificar as eleições e tudo isso poderá dar pretexto ou poderá facilitar estas ações da parte da Rússia, mas também de outros actores. Eram referidos o Irão e a China, embora a Rússia apareça sempre como destacada. Mas voltamos a um ponto que eu referi ontem, que é: isto também é eficaz porque infelizmente há quem, nos Estados Unidos, esteja tão radicalizado e tão polarizado à direita e à esquerda que está disposto a aceitar, por exemplo, a possibilidade do uso da violência como algo legítimo na política. E portanto, isso torna o contexto muito mais perigoso e muito mais fácil de incendiar por actores externos.

Olhemos agora para a Pensilvânia. Como é que estão as sondagens e a campanha, neste que é um dos estados decisivos e onde Trump tem procurado mobilizar o eleitorado, e não está sozinho. Ainda esta semana falávamos de Elon Musk. Bruno, mas por que importa tanto este estado?

A Pensilvânia é o quinto estado mais populoso dos Estados Unidos, tem uma população maior do que Portugal, só este estado, 13 milhões. Isto significa também que é o quinto em termos do peso no colégio eleitoral, ou seja, naquele órgão que realmente decide as eleições nos Estados Unidos, tem 19 grandes eleitores. Até já teve mais no passado, mas continua a ser, destes estados mais populosos e com mais peso, aquele que está mais dividido, está mais polarizado e portanto, por vezes vota republicano, por vezes vota democrata. Nas últimas três eleições, nas últimas eleições em 2016, 2020 e nestas em 2024, provavelmente será o estado decisivo. Foi o caso em 2016, foi o caso em 2020 e tudo indica que será o caso novamente este ano. E portanto, isto significa que os candidatos têm um enorme incentivo para realmente fazerem o máximo de esforço para conquistar votos na Pensilvânia. Por isso que vimos o Donald Trump, falámos daquele episódio do McDonald's e as batatas fritas, foi aqui na Pensilvânia. Falámos, por exemplo, daquela sessão também da Liz Cheney, uma dissidente republicana, e da Kamala Harris, também foi aqui nos arredores de Filadélfia. Portanto, realmente é um estado que os dois partidos consideram que será fundamental. Não é por acaso que o Elon Musk aparentemente se mudou para a Pensilvânia e está a fazer aqui também uma campanha muito ativa, porque realmente consideram, e nisso parece haver consenso, que realmente será o estado mais decisivo destes sete estados oscilantes, destes swing states, para o resultado agora.

Tu agora estás em Filadélfia, não é, Bruno?

Exatamente, sim, estou aqui. Não é a capital, mas é a principal cidade. É uma cidade que é esmagadoramente democrática, mas onde os democratas têm estado a perder em todas as eleições essa vantagem. Apesar de tudo, ainda estamos nos 81% em 2020. Mas realmente isso é um problema, porque muitas vezes a Pensilvânia é caracterizada como o somatório de Filadélfia e Pittsburgh, que são as duas grandes cidades, os dois grandes polos econômicos, que estão em dois extremos, Filadélfia junto ao Atlântico e depois Pittsburgh no interior, e para meio está o Kentucky, ou seja, um estado também muito rural, com muitos municípios rurais, com muita população, ou municípios desindustrializados, ou seja, que eram onde havia indústrias importantes, mas que entretanto fecharam, ligadas à siderurgia, etc. E onde também a questão do fracking agora deu um novo dinamismo a muitas dessas regiões, mas, por exemplo, é uma questão que cria uma certa hostilidade à Kamala Harris, porque ela no passado foi muito crítica do fracking, desta exploração do gás de xisto. E portanto, realmente é um estado que, à partida, os dois lados acham que podem ganhar, mas também sabem que podem perder e se perderem, provavelmente perdem a eleição.

Ainda a polémica em torno das declarações do general Kelly, que foi chefe de gabinete de Trump e que terá dito que precisava era de uns generais como os que Hitler tinha.

Sim, é realmente extraordinário a quantidade de declarações de pessoas próximas de Trump, colaboradores próximos de Trump, que vêm criticá-lo, denunciá-lo em termos nunca vistos no passado. E portanto, mais uma vez, um antigo general, um veterano de guerra, alguém cujo filho, aliás, foi morto em combate, um general conservador, porque colaborou com uma administração republicana de Donald Trump, mas que, como resultado disso, chegou a esta conclusão que ele é completamente não só incapaz para ser presidente, mas sobretudo até perigoso, e portanto, com declarações desse tipo, que ele agora veio, no fundo, testemunhar. Isto parte de um esforço para dizer realmente, ele diz aliás isso: "Eu não percebo como é que as pessoas continuam a apoiar Donald Trump, conservadores continuam a apoiar Donald Trump com esta retórica de viagem e estas afirmadas."

Sim, os apoiantes parecem não querer saber.

Exatamente. E portanto, eu diria, isso é uma das razões que justifica alguma preocupação. Ou seja, se alguém dizer: "Eu acho que o Hitler até fez algumas coisas boas. E uma das coisas boas que tinha era ter generais que lhe obedeciam cegamente, e era isso que eu precisava." Se isso não suscita preocupação entre os apoiantes desse líder, basicamente são pessoas que estão disponíveis a aceitar tudo o que esse líder venha a dizer ou fazer. E portanto, isso claramente suscita preocupações mesmo em setores da direita norte-americana, mesmo em setores mais conservadores, mas não entre muitos norte-americanos, para quem ou essa questão não interessa, ou eventualmente essa ideia do homem forte tem algo apelativo. Isso também diz muito do desespero de muita gente e da extrema polarização e radicalização da política americana no contexto atual.

E Bruno, ontem não conseguimos falar sobre a viragem dos republicanos a favor do voto antecipado. Esta mudança é significativa, que impacto pode ter?

Eu acho que é muito significativa, pode ser decisiva, aliás, para a eleição. Há muitos analistas que consideram, e eu tendo a dar-lhes razão, que foi um dos fatores que explicou a derrota de Donald Trump em 2020, foi que ele era tão crítico dessa questão, dando a entender que a fraude seria inevitável, a manipulação dos votos seria inevitável, que levou a que muitos votantes, apoiantes dele, não recorressem a esse mecanismo e depois acabassem por não votar, por várias razões, no dia da eleição. E, portanto, agora claramente ele mudou completamente. Tem anúncios na televisão, no Twitter e nas redes sociais, tem anúncios até com as datas da votação antecipada em vários estados, nomeadamente estes estados oscilantes ou estados em que ele tem mais vantagem. Portanto, claramente houve aí uma mudança que é justificada com este slogan também, que me parece bastante eficaz politicamente, que é esta ideia "too big to steal", ou portanto, vamos votar em grandes quantidades e seja em que dia for, para tornar mais difícil uma nova fraude. E portanto, acho que isso realmente é politicamente inteligente e pode fazer a diferença nas eleições agora a 5 de novembro.

Vamos à nossa curiosidade. Foi uma surpresa a vitória de Trump em 2016. Voltamos a este estado, como é que a Pensilvânia tem votado ao longo da história nas eleições presidenciais, Bruno?

Realmente foi uma surpresa no contexto mais recente, porque embora por margens pequenas, a verdade é que a Pensilvânia tem votado de forma bastante consistente pelo Partido Democrático desde 1988. Realmente a exceção foi Donald Trump. Agora, no passado histórico, houve um período muito mais longo, aliás, domínio do Partido Republicano. A Pensilvânia, lá Filadélfia, era conhecida pelas suas tradições progressistas, liberais, igualitárias, antiesclavagistas, muito ligado também ao peso dos quakers, dessa tradição religiosa que defendia muitos desses princípios aqui na fundação da Pensilvânia, de Filadélfia. E portanto, desde 1860, desde a eleição de Lincoln, basicamente até à segunda eleição de Roosevelt, portanto até 1932, votaram sempre de forma consistente no Partido Republicano, com uma exceção, que foi o Theodore Roosevelt, que era um dissidente dos republicanos, mas depois realmente votaram de forma mais alternada entre republicanos e democratas, pelo Roosevelt algumas vezes, depois por Eisenhower, etc. E depois, realmente, a partir de 1988, tornou-se um estado que por margens relativamente pequenas, mas ainda assim mais democrático do que republicano, e portanto foi Donald Trump que conseguiu inverter isso muito apelando a estes eleitores de classe trabalhadora, menos qualificados, em zonas desindustrializadas e, portanto, com dificuldades econômicas, com salários baixos e situações precárias, como uma fonte de votos nova para o Partido Republicano, alguns destes estados como a Pensilvânia, e portanto isso foi decisivo em 2016. Não foi suficiente em 2020, porque Joe Biden também tem um histórico pessoal muito ligado a essa classe social. Aliás, ele nasceu na Pensilvânia, em Scranton, precisamente numa dessas cidades industriais, e vive no estado ao lado, Delaware, portanto tem aqui uma ligação grande, mas vamos ver se com a Kamala Harris essa tendência se volta a verificar. Essa vitória um pouco inesperada, mas que tem razões de fundo os republicanos.

Bruno Cardoso Reis a partir de Filadélfia, nos Estados Unidos. Muito obrigada pela tua análise, Bruno. Até amanhã. Bom descanso.

Obrigado.