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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje vamos ter aqui uma convidada que eu já acompanho há algum tempo no TikTok. É uma pessoa que partilha muito as suas opiniões, as suas reflexões e que me deixa, a mim, também a pensar e a refletir sobre todos os temas que ela acaba por partilhar. Ela define-se como ser multitemas, gosta de muita coisa, gosta de partilhar e falar sobre várias coisas diferentes. E eu acho que é tão bom nós termos esta postura na vida de não caber só numa caixa, de não termos de pertencer a uma caixa. E hoje vou ter comigo a Rita Mendes, que é professora de música, mas que para além de ser professora e de falarmos também muito deste mundo da educação e das crianças e de como é que tudo isto está a evoluir na nossa sociedade, eu quis me sentar aqui com ela para também debatermos como é que está a nossa geração, de que forma é que nós lidamos com a comparação, de que forma é que nós lidamos com as redes sociais, com a inteligência artificial, para onde é que nós vamos com tudo isto, com a forma rápida como vivemos o mundo, como consumimos conteúdo, como estamos constantemente ligados através do telemóvel. É uma conversa, um debate sobre como é que a nossa geração está e para onde é que estamos a ir. Eu gosto muito de falar sobre estes temas e tenho a certeza que vamos ter aqui uma conversa muito interessante. Portanto, eu espero muito que vocês gostem e que vos deixe a pensar também. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume? O digital começou-

Sim, que eu comecei no digital muito dessa forma, que é: eu tenho aqui coisas para dizer. Porque eu sinto que no meu trabalho não consigo explorar tudo aquilo que eu sou, como acho que na maioria dos trabalhos não dá. Uma pessoa tem aquela função, faz aquilo, vai para casa, pronto. E eu sempre achei que o meu trabalho não me representa. E já quando estava só ligada à música e à parte do clarinete, também sentia isso, que é: isto não é inteiramente o que eu sou. E eu às vezes sentia-me triste de não conseguir passar no meu trabalho tudo aquilo que eu quero passar, tudo aquilo que eu quero dizer. Então no digital começou um bocado assim, que é este canto aqui na internet é mesmo tudo o que eu sou. E não é que eu não possa ser assim no meu trabalho, eu sou eu no meu trabalho, tenho a sorte imensa de ter uma escola que acolhe isso e que celebra isso. Mas não conseguia explorar todos os meus interesses e todas as arestas da minha personalidade. Esta agora muito poética. Mas o digital começou um bocado por aí, e também de uma vontade já há muitos anos de querer começar.

De comunicar.

De comunicar e de querer começar. Começou assim de forma muito orgânica, mas ao mesmo tempo muito consciente. Ou seja, eu tinha noção dos objetivos, ainda continuo a ter noção dos objetivos que eu quero com o digital.

Sim, mesmo tendo o teu foco de tenho de publicar todos os dias, mesmo tendo 35 horas por semana de trabalho e de outras coisas. É mesmo preciso muito foco, disciplina nisso.

Sim. Às vezes eu sou um bocado militar nas coisas que têm a ver com o trabalho, que é para fazer, é para fazer, ponto. Não há: "mas eu hoje..." É raro eu entrar nessas narrativas interiores de: "mas hoje eu estou..." É muito raro. Se é uma coisa que eu quero, se eu quero realmente que a minha rotina daqui a uns anos seja diferente, se eu quero realmente não partilhar tanto o meu tempo com uma empresa, seja ela uma escola, seja ela uma empresa, como eu atualmente faço. Eu tenho que fazer alguma coisa hoje em dia para isso, não fico presa no cotidiano, de eu estou cansada, de ai, trabalhei tanto hoje, e daqui a uns anos não vou colher os frutos que eu quero. Então, é assim, é preciso foco.

Mas se calhar também seria fácil tu entrares numa narrativa de: isto aqui é o meu hobby, é para eu espairecer, então não tenho que pôr estas regras e esta pressão em mim, porque é uma coisa que eu faço porque eu gosto e porque me liberta este lado criativo.

Podia ser por aí, mas acho que na fase da vida em que eu estou e com a idade que eu tenho, acho que como o hobby seja pôr coisas na internet, sendo a internet hoje o sítio que é, para mim, seria um bocado contraproducente e às vezes irresponsável, que é: "não, tinhas outro hobby, querida, vais fazer crochê, vais para um clube de pintura, vais ler." Portanto, é muito consciente a questão da internet. Não é um hobby, é mesmo um meio para atingir um fim, de certa forma, e o fim muitas vezes é só mostrar mais da minha personalidade, ser mais eu, coisas que eu não posso estabelecer no meu trabalho, sendo que, volto a dizer, tenho muita abertura no meu trabalho para ser quem eu sou. Mas é muito consciente de o online dá dinheiro.

Queres mais. Queres mais liberdade.

Exato.

Queres construir o teu futuro, está tudo certo.

Que é um estilo de vida, ainda que eu não queira ter esse estilo de vida 100%, é um estilo de vida muito aliciante. E traz oportunidades muito boas, traz conhecimentos muito bons, conhecimentos de pessoas, conhecer pessoas. E tudo isso são coisas que eu quero.

E tu sempre foste assim na tua vida, de ser muito reflexiva, de partilhar a tua opinião sem papas na língua, que eu sinto que tu és muito assim na internet. Fás muito sem filtros e sinto que tens sempre... Tu estavas a fazer uma reflexão sobre, sentes que muitas vezes tens um bichinho a tentar te autosabotar, porque tu não sabes tudo sobre tudo, mas ao mesmo tempo tu sabes pensar sobre tudo. E eu acho que isto é uma capacidade que muitos de nós não temos, de tentar perceber, tentar questionar. Aquilo que quando és criança estás sempre a fazer perguntas sobre tudo. E sinto que a tua cabeça se calhar pensa assim um bocadinho.

Sim, eu acho que isso sempre foi uma coisa que eu tive. Não te sei explicar de onde é que começou. Sempre foi um traço meu, de questionar tudo, mas muitas vezes interiormente, porque muitas vezes estás em família ou estás com os meus amigos não, mas em família mais pequena, que é: "agora a mãe não tem tempo para isso." E tinhas que ficar dentro da tua cabeça a ruminar os teus pensamentos e as tuas reflexões. E eu acho que isso é ótimo, é super frutífero. E acho que vem um bocado daí De eu sempre ter sido assim e depois de querer um bocado transladar isso para a internet. Mas é giro tu dizeres que vês que eu não tenho filtro, porque aquilo que eu ponho ali, na maioria das vezes, é muito pensado.

A sério?

Porque é internet.

Claro.

E eu sou muito consciente que é a internet, número um, e número dois, eu sou professora, eu tenho um trabalho e o professor tem sempre um status. E eu nunca quero deixar que o online danifique, de certa forma, a ideia que os meus alunos têm de mim, ou a ideia que a minha escola tem de mim, ou que os pais dos meus alunos têm de mim. Portanto, tudo isto, dentro de eu querer explorar a minha personalidade e ter opiniões e querer pô-las na internet, tudo isto tem que ser um todo, de alguma forma. E por isso é que eu digo que é pensado. São raros os vídeos em que eu me ponho a gravar com uma reflexão, sei lá, seja do mundo educativo ou da vida quotidiana em geral, ou de coisas que eu penso em relação à sociedade, que seja mesmo: "Estava a pensar nisto, um, dois, três, vou gravar." Não, eu já pensei no ponto de vista, no que aquela pessoa ia pensar, no que este grupo de pessoas ia pensar. Penso nisso porque a internet é internet e hoje em dia nós vemos, uma pessoa diz uma coisa e pronto, é cancelada ou é altamente criticada. E das críticas não tenho muito medo, do cancelamento também cada vez menos, porque os cancelamentos hoje duram três dias, dois dias.

E passa para o próximo.

Caso não seja uma coisa muito grave, obviamente. Portanto, disso não tenho medo, mas da questão de prejudicar-me a mim própria com algo que eu disse, que se calhar não era exatamente aquilo que eu queria dizer, porque não pensei no assunto, acho que isso é uma pena muito grande. Se eu tinha me sentado, pensado 10 minutos sobre aquilo, e eu acho que isso qualquer dia vai me acontecer.

Mas já tiveste algum conteúdo, alguma opinião que tenha gerado polêmica ou repercussão que tu não estavas à espera?

Não, ainda não, mas eu acho que isso vai acontecer. Mas já houve vídeos que eu pus na internet que eu pensei: "É este." E depois não foi. Mas já tive muitos vídeos que geraram discussão de pessoas que pensam coisas diferentes de mim, pessoas que não se identificavam com aquilo que eu dizia, seguidores meus, desde que eu comecei, há um ano e meio, que disseram: "Olha, hoje não concordei contigo." E eu acho que isso é ótimo.

A discussão é ótima, é para isso que também estamos na internet, para tentar criar estas discussões e falar sobre o tema.

A internet não é uma câmara de eco. É, maioritariamente uma câmara de eco, mas não tem que ser sempre. E se o meu conteúdo gerar ali algum debate, e muitas vezes não é um debate muito frutífero, eu também sei que a internet não é ótima a pensar, não é um sítio para exercer o pensamento. Mas pode ser também.

Ou pode te deixar a questionar qualquer tema.

Exatamente. E se os meus vídeos fizeram questionar alguém sobre a sua crença, sobre os seus valores, isso já é ótimo. Já é ótimo. Se ficares a pensar naquilo três minutos ou se durante a tua semana voltaste a pensar naquele vídeo, é isso. E se não pensares também está tudo bem. Mas é um bocado essa coisa da reflexão, acho que já vem de algum tempo, mas também me tenho deparado com uma coisa que é: hoje em dia a internet é tão rápida e os conteúdos são, na maioria das vezes, sobre coisas cotidianas e muito simples, digamos, de assuntos muito simples ou do lifestyle ou de maquiagem, nada contra isso, porque eu próprio também às vezes falo sobre isso. Quando aparece alguém que articula duas frases, sabe conjugar verbos e tem uma ou outra reflexão sobre o mundo que o rodeia, ai meu Deus, tu és incrível, e é do gênero. Não quero estar aqui com falsas modéstias, mas não é nada de mais. Eu sentei-me a pensar nisto.

Mas eu acho que não é só o articular, é teres a coragem de partilhar opiniões, porque no mundo em que vivemos é muito fácil tu teres medo de qualquer repercussão que isto vá gerar. Por isso é que também vês a maior parte das influencers que depois não partilham política, por exemplo, ou em momentos de crise também acabam por não fazer essas partilhas, porque optam por estar mais na sombra nesses temas que podem gerar discussão. Eu acho que tu não tens medo dessa discussão. E isso é que mostra o teu lado um bocadinho mais diferente daquilo que estamos habituados a consumir, percebes?

Ok, sim, percebo perfeitamente. Eu associo muito as pessoas não quererem partilhar, ou porque não pensaram sobre isso, ou porque não se interessam sobre isso, mas se calhar até se interessam, se calhar até querem partilhar, mas eu acho mesmo muito diferente. Para mim, outra vez, para mim, os outros, não sei. Mas para mim, eu ter uma grande distância entre o conteúdo que eu faço e quem sou eu, por exemplo, politicamente, ou que ideias é que eu tenho em relação à sociedade, ou o que eu penso em relação a este aspecto ou outro aspecto de justiça social ou coisa assim, eu acho que é muito difícil, para mim, eu dissociar as duas coisas, porque como é que eu vou falar de educação, se eu não falo de política? Como é que eu vou falar de sociedade, ou de arte, ou de cultura? Eu não falo de política abertamente, de eu voto aqui, e eu faço isto, e eu acho que isto está mal, eu acho que isto está bem. Tendo sempre que falar de uma forma, porque é mesmo assim que eu penso, de uma forma muito moderada, porque isso falta na internet. Mas tento fazê-lo porque as duas coisas vão de mão dada, para mim. É o que eu penso em relação a mim, é muito assim que eu me posiciono, tanto na internet como fora dela.

Não sei se tens noção, mas os números mostram que tu seres, obviamente, extremista, é o que gera discussão e é o que gera mais números. Ainda há pouco tempo, o Elon Musk partilhou a fórmula para o X, para viralizar.

Sim, é o rage bait. O rage bait gera...

Tanto para um lado como para o outro. E ele mostrou mesmo a fórmula, que é: os comentários têm uma proporção gigantesca, muito superior a likes, por exemplo, e quanto mais comentários gera. É uma fórmula esquisita de proporções que é absurdamente diferente de só interagires de forma casual a interagires mesmo, crias um diálogo de discussão nos comentários.

Entendo. E eu vejo o X, não sei, nunca tive Twitter.

Não, nem eu, mas eu acredito que a fórmula também funcione no Instagram da mesma forma, no TikTok da mesma forma.

No Instagram ainda não me aconteceu, porque comecei no Instagram há muito menos tempo. Em setembro eu abri o Instagram ao público e o TikTok já tenho há um ano e meio. E no TikTok eu noto isso. Se eu faço um vídeo em que aparece um comentário de alguém que discorda, atenção, não é hate, eu tenho pouquíssimos comentários de hate. Mas aparece um comentário de alguém que discorda e nessa discórdia tem uma ou duas palavras. O comentário seguinte vai ser de alguém que discorda a usar mais ou menos as mesmas palavras. E o algoritmo sabe isso e os algoritmos alimentam-se muito do rage bait. Isso é uma coisa que eu vejo no TikTok, porque às vezes tenho vídeos que viralizaram ou que tiveram muito bom desempenho, e esse muito bom desempenho aqui entre muitas aspas, porque muitas vezes são pessoas a discutir nos comentários, e a discutir nos comentários muitas vezes de coisas que já nem têm nada a ver com o vídeo. E elas estão pra ali, e depois aparecem mais pessoas a discutir sobre aquela coisa que já não tem nada a ver com o vídeo, e o vídeo já nem é meu. De repente, eu sinto muito isso, quando o vídeo viraliza, o conteúdo já não é meu, já foi, já está no mundo, já não é inteiramente da minha responsabilidade o que se está ali a passar, sendo que eu sou sempre muito vigilante em relação aos comentários. Se eu vir que há coisas que estão completamente fora do que eu acredito serem comportamentos saudáveis online, eu elimino o vídeo. Nunca aconteceu, mas já aconteceu muitas vezes eu eliminar comentários, porque não quero que essa narrativa se amplifique.

Sim, e no final do dia está na tua plataforma. Está associado a ti.

Exatamente. Acontece muitas vezes eu eliminar comentários, sim. Ou de gente muito pouco informada, ou de gente que diz mentiras nos meus comentários. E isso eu elimino porque lá está, fake news na minha rede social, não.

Uma reflexão que tu fizeste sobre seres multitemas, que eu gostei imenso, porque acho que faz muito sentido. Estamos constantemente a tentar nos pôr numa caixinha de: "Eu sou isto, eu sou professora e vou ser sempre professora. E esta é a minha personalidade e tudo à volta da minha vida vai andar sempre à volta disto." Como é a tua postura na vida e achas que foste pro digital também um pouco para poder explorar esses temas? Desculpa. Isto aqui vai ser complicado. Trouxe a tosse do Brasil. Mas dizes que usas as tuas redes sociais também muito para explorar várias camadas tuas. Tu achas que tem só coisas positivas associadas a isto de nós explorarmos várias facetas nossas ou também pode ser algo contraproducente e não te levar mais pra frente só a seguires só uma coisa e a te especializares e a seres a melhor naquilo que fazes?

Eu acho que do ponto de vista de criar comunidade, acho que se cria uma comunidade muito mais heterogênea e muito mais interessante, de atrair as pessoas para as minhas redes que eu realmente quero.

Sim, mas não numa ótica só de redes sociais, ou seja, numa ótica da vida.

Sim, eu estou a falar da vida.

Da vida. Tu seres várias coisas, achas que te vai trazer só coisas positivas?

Sim, completamente. Eu acho mesmo que é só uma coisa positiva. Nem consigo ver negativo aí, porque se calhar sempre foi um bocado o que eu sou. Eu quando estava na música, estudei música clássica em conservatórios e depois em escolas superiores durante 10 anos da minha vida, eu sempre tive alguma coisa além da música. Um trabalho.

Sim, mas se calhar o teu foco foi a música, por isso é que se calhar conseguiste ser boa na música.

Exato.

Se tu experimentasses vários instrumentos ou vários hobbies ou várias coisas, se calhar ias ser mediana em todos. Estás a perceber?

Uhum. Mas eu já achava um bocado isso da música, que eu não era assim tão boa, porque eu não me dedicava se calhar tanto como as minhas colegas, porque aquilo nunca foi uma obsessão, porque eu sempre achei que é do gênero. "Está bem, isto é um interesse meu e eu adoro isto, mas eu adoro muitas outras coisas." E sempre foi uma coisa que eu vi com bons olhos, se bem que muitas vezes também com muita dúvida de: "E se eu me dedicasse mais, eu se calhar seria ainda melhor." Mas ao mesmo tempo de: "Eu não quero dedicar-me mais." Não é eu não consigo, é eu estou bem assim e eu gosto da minha vida assim, gosto de explorar outras coisas e de ser outras coisas também, de ter outros amigos fora deste mundo, porque é muito comum, não sei, nos outros ramos, mas principalmente no mundo da música, de todos os amigos são da música, os namorados são da música, toda a nossa comunidade é da música, e cria-se ali uma bolha. E eu sempre tive essa bolha e outras bolhas também. E isso sempre, de certa forma, me salvou de não me deixar absorver por muitas coisas tóxicas que a música por vezes me deu. Sempre vi isso com bons olhos, e ainda hoje, mas muitas vezes vem com dúvida. Como eu disse, quando eu comecei a ser professora, eu queria muito ser professora, mas eu não me sentia nada professora, porque tinha outros interesses e tinha outra forma de estar que eu não via, principalmente quando comecei a escola pública, eu não via quase ninguém como eu. Sem ser na internet e professoras que não eram portuguesas. E se inspirava muito, que é: "Não, mas esta que estás a ver, esta professora espanhola, ela é um bocado como eu queria ser."

É dinâmica, faz coisas.

É dinâmica, faz coisas, veste-se desta forma, fala desta forma, interage com os alunos desta forma, tem esta e esta estratégia pedagógica na sala. Eu sempre me senti E muitas vezes vem com dúvida, mas eu acho que isso é uma coisa boa. Sempre vi isso com bons olhos.

Sim, eu pergunto isto porque eu acho que há muita gente da nossa idade, da nossa geração, que estuda uma coisa, se calhar depois já nem se identifica, mas como sempre estudou aquela coisa, vai seguir aquilo e continuar, porque não faz sentido e já não sabe ser outra coisa. Se calhar, nem teve espaço, nem se deu esse espaço para explorar outras coisas que goste. Acho que até vem um bocadinho de culpa de eu estar a perder tempo a fazer outras coisas, quando o meu foco devia ser aquele para eu ser melhor naquele caminho que eu escolhi há não sei quantos anos atrás, quando eu nem sequer tinha consciência do que eu queria para a minha vida.

Eu tive muito tempo assim. Eu tive muito tempo, pelo menos sete anos assim, quando eu estava em Amsterdão. Isto é o que eu escolhi, isto vai ser o meu trabalho, e é um privilégio enorme eu ter podido estudar aquilo que eu gosto e, portanto, isto é a minha sina, é o meu destino. E tive quase para que isso fosse a minha vida para sempre. Ai, não sei falar. Tive quase para deixar que isso acontecesse na minha vida.

Te resignares a isso, porque foi a tua escolha.

Sim, porque foi a minha escolha quando eu tinha 15 anos ou 14.

Pois, é isso.

E ainda bem que não o fiz. Mas lá está, ainda bem que não o fiz, porque também podia, porque tive o privilégio de poder pensar nisso, de ter uma família que me apoiou em todas as decisões que eu fizesse, sempre com muito questionamento, atenção, não é aquele apoiar cego de: "Ai, faz o que tu quiseres."

"Segue os teus sonhos, filha."

Sim, é um bocado segue os teus sonhos, mas atenção, tens contas para pagar.

Mas calculados, não é?

Exato, tens contas para pagar e tens uma vida para fazer. Mas eu entendo quem se deixa resignar e quem se deixa ficar, e também não quero estar aqui com discursos de inspiração de: "Mas às vezes vocês podem mudar," porque eu sei lá da vida das pessoas. Há pessoas que não têm este privilégio e esta sorte de poder parar e poder pensar. Mas se puderem planear para fazer isso, façam, porque não é por termos estudado uma coisa que escolhemos quando tínhamos 15 anos ou que escolhemos depois quando tínhamos 17 ou 18, que temos que fazer isso a vida toda. E eu penso muito na linha da vida, que é: a minha avó viveu até aos 93 anos. Se eu viver até aos 93 anos, ainda falta bué de anos.

E podes ser tanta coisa.

Eu ainda posso ser médica, se eu quiser. Não é que eu, se calhar, não vou por aí, mas eu ainda posso ir tirar outro curso superior, ainda dá para fazer isso. Teria que vir com muita planificação e muito sentar-me e pensar mesmo nisso, mas se eu quiser mesmo, eu ainda posso fazer isso.

Sim, eu também me inspiro muito em histórias de outras pessoas que tenham tido percursos diferentes. Ainda semana passada eu estive a entrevistar a tia Cátia, sabes, a cozinheira?

Sim, sei.

Mega engraçada, adorei conhecê-la, muito dinâmica, e ela estava a me contar a história, que eu não fazia ideia, que ela teve mil e um trabalhos até aos 39, em que decidiu aí mudar de carreira e seguir cozinha e inscreveu-se no "MasterChef". E hoje em dia é o que é, o fenómeno que é no mundo da televisão e da culinária. É uma história mesmo inspiradora. Foram cinco anos em que ela se dedicou a uma nova paixão e de repente tem toda uma profissão, uma exposição e uma carreira que ela nunca pensou e já está a trabalhar com a família lá, com os filhos. De repente criaram uma empresa e a vida mudou totalmente. Em cinco anos.

Havendo a possibilidade, nunca é tarde. Acho que isso não será a realidade de todas as pessoas, mas lá está, se for possível, se se vir essa fresta de oportunidade. Fresta, não, brecha de oportunidade. Pensar nisso, porque eu acho super possível. Eu também nunca esperava ser professora, pelo menos não gostar tanto desta profissão e não me apaixonar tanto por isto e look at me.

O futuro assusta-te? Pensas muito sobre isso?

O futuro, o meu futuro ou o futuro do mundo?

O teu futuro.

O meu futuro. Não, não me assusta nada.

Não?

Não.

Não teres bem definido na tua cabeça o que é que queres fazer, para ti é libertador, não ter as ideias bem definidas de por onde é que estás a ir?

Não sei se vejo as coisas assim. Não me assusta, porque já estive em situações tão mais delicadas financeiramente e profissionalmente daquela que estou agora, que eu penso: eu sou inteligente o suficiente para conseguir manter-me como eu estou. E se tudo der errado, eu já estive em situações muito mais difíceis, eu vou conseguir dar a volta. Portanto, eu tenho essa confiança em mim de quase que aconteça o que acontecer, eu consigo dar conta, porque eu já dei conta em situações difíceis, e então isso não me assusta. A única coisa que me assusta é ficar assim muito perdida um bocado na vidinha, daquela vidinha de ir para o trabalho, vir do trabalho. Sabes aquela vidinha muito ram, ram e rotineira e de nada acontecer e de ficar sem fluxo criativo e sem coisas giras a acontecer na minha vida. Isso é o que realmente me dá medo. Eu não quero que isso aconteça, mas eu também tenho noção que eu hoje em dia estou a fazer coisas para que isso não aconteça. Portanto, há uma probabilidade enorme disso não me acontecer, de eu não ficar perdida nesse ram, ram da vida. Há outras coisas no futuro que me assustam mais, como o estado do mundo, a sociedade e coisas assim, mas em relação à minha vida individual, não me assusta muito, eu acho que darei conta.

Tu comparas-te muito com as pessoas à tua volta, do percurso que estão a ter, fase de vida, ou nem por isso?

Olha, cada vez menos, mas acho que isso vem com a idade, de cada vez ter mais noção de Eu só me comparava tanto, agora cada vez menos, porque tens acesso a muita coisa. Tens acesso a uma miúda que vive em LA e tem um cão e tem a vida que se calhar tu quiseste, tem um percurso criativo incrível, mas eu estou-me a comparar com alguém de LA?

Mas também pode ser numa ótica positiva, de inspiração, de: "Olha, que caminho tão giro, se calhar também posso ir por ali. Há esta possibilidade."

Sim, mas eu associ sempre a comparação a algo muito negativo e nefasto. Mas claro que também pode ser uma coisa boa. E isso acontece muitas vezes, de comparar-me a outros criadores de conteúdo, de: "Que ideia tão gira que ela teve ou que percurso incrível." Há uma rapariga espanhola que eu gosto muito e ela agora abriu uma livraria em Madrid e eu penso: "Uau, que objetivo espetacular!" Claro, ela falava imenso sobre livros e estava muito ligada à cultura e também à parte da moda e agora abriu uma livraria e está a ter imenso sucesso. Comparo-me, às vezes, do ponto de vista disso que tu dizes, de inspiração, mas aquela comparação mais tóxica, mesmo em relação aos outros à minha volta, amigos ou família, ou o que seja, tento cada vez menos, porque para quê? Vai me levar a algum lado? Vou ter aqui um pensamento? Não vou, não vai levar a lado nenhum. Todos temos formas de estar no mundo e formas de ver a vida muito diferentes e todos somos uma soma do que nos aconteceu e do que nos trouxe até aqui. Para que estar a comparar isso? Acho que é uma perda de tempo, para mim.

Achas que estas comparações, estas ansiedades, sermos a geração ansiosa, achas que surge de termos muito tempo para pensar?

Não, surge de estarmos muito tempo ao telemóvel.

Tens uma relação saudável com o telemóvel?

Estou a trabalhar nisso, acho que ninguém tem. São raras as pessoas. Estou a trabalhar nisso, porque falei disto há pouco tempo no outro podcast. Acho que passo demasiado tempo no telemóvel, como toda a gente. Para mim, um bom dia é quando eu tenho uma hora e meia de screen time. Para mim é um bom dia, sendo que eu vou quase sempre entre filmar conteúdo, editar conteúdo, responder a comentários, estar na internet, estou sempre ali nas duas horas. Sendo que trabalho oito horas por dia numa escola. E portanto, se eu estou oito horas por dia numa escola e me levanto super cedo, quer dizer que algum do meu tempo livre, eu estou nas redes sociais e eu tenho pouco tempo livre, porque eu trabalho. E portanto, queria tentar reduzir isso ainda mais, sendo que é uma equação difícil, porque eu também me quero dedicar às redes sociais. Mas cada vez tenho mais aquela postura de entrar, postar, responder a um ou outro comentário, sair. De entrar e sair da internet. Não é estar na internet sempre, a minha vida é na internet e eu agora estou na internet ad eternum. Não, tenho que sair daí, porque a internet não é um sítio criativo. A internet é um sítio de partilha, é um sítio de discussão, é um sítio muito visual também, tens muito input visual, mas não te faz ter grandes ideias, nem te faz pensar ou sentares-te em alguma coisa e pensar sobre aquilo. Não, pode realmente dar algum input de: "Que ideia tão gira, e se eu relacionasse com esta, e se eu relacionasse com esta." Sim, isso pode acontecer, mas entretanto já fizeste scroll e já foi outro vídeo e aquela ideia já-

Já viste outra camisola e já não sei o quê.

Já passou. Portanto, tento estar aí o menos possível.

E achas que a nossa geração, nem falo já dos mais novos, que depois vamos entrar um bocadinho por aí, mas achas que a nossa geração não sabe estar aborrecida? Não sabemos não estar no telemóvel? Achas que temos dificuldade?

Temos um grande problema em estar em silêncio conosco e em ouvir as vozes da nossa cabeça. Eu própria noto isso em mim, sempre foi uma coisa que eu acho que era bastante boa, em estar em silêncio, mesmo sem nada, sem ler um livro, sem a TV estar acesa. Ou estou a fazer qualquer coisa, estou a arrumar qualquer coisa em casa ou estou a cozinhar e não tenho input nenhum, estou só a fazer aquilo. Às vezes já noto que já não sou assim tão boa nessa arte. E acho que isso vem, claro, do input constante.

Mas tu forças te a não fazer isso? Por exemplo, eu quando vou arrumar a casa ou lavar a louça, para mim ativa o chip de vou ouvir um podcast.

Não, forço-me. Agora tenho que ter momentos em que isso não acontece, em que eu não posso estar a ouvir nada e eu tenho que estar sempre com as vozes da minha cabeça. Tenho alguma sorte que é, eu tenho 45 minutos por dia, não todos os dias, que há dias que uso o carro, mas há três vezes por semana em que eu vou de bicicleta para o trabalho e venho, e são 45 minutos entre ir e vir.

Mas aí não podes ter mesmos estímulos. Quer dizer, podes estar de fones.

Não, não posso estar de fones, porque senão acidento-me e morro. Portanto, estou mesmo com os meus pensamentos na minha cabeça e concentrada, porque estou a conduzir uma bicicleta, claro, mas também às vezes não exige muito. E portanto, eu sei que esses três, que na verdade são seis momentos durante a minha semana, em que eu posso varrer a minha cabeça e limpar as coisas que aqui estão, porque é mesmo isso que acontece. E depois tento ter momentos assim também durante a minha semana, fora desses da bicicleta, que eu já sei que vou ter e vou. São essenciais.

Mas tu o que é que fazes? É tipo, vou dar uma volta.

Vou dar uma volta e deixo estar a lavoura em casa, por exemplo.

A sério?

Sim.

Eu acho que isso nunca fiz na minha vida.

A sério?

Deixo a lavoura. Imagina se te acontece alguma coisa, não tens medo?

Ligo, peço a alguém para ligar. Nunca aconteceu. Essa coisa do acontecer alguma coisa é a mesma coisa, eu durmo sempre com o telefone em modo voo, sempre, desde sempre, desde que tenho telemóvel. "E se acontecer alguma coisa?" Então, eu tenho telefone há 20 anos, nunca aconteceu. Um dia vai acontecer, mas é do género, eu também penso, se acontecer alguma coisa à noite, com alguém que me é querido.

Para já que não tens filhos.

Sim, para já que não tenho filhos, exato. Mas se acontecer alguma coisa à noite, com alguém que me é querido À partida não vai ser para mim. Eu não sou médica, não vou lá resolver nada. Chamem o INEM, chamem alguém. Estás a ver?

Sim. Eu acho que já aconteceu eu ir correr duas vezes, quando estava a começar, sem telemóvel, porque eu achava que me ia incomodar estar ali com o telemóvel na mão. Mas depois se eu tenho um acidente, se alguém me persegue, não sei, começam a surgir muitos cenários na minha cabeça.

Eu acho que isso são coisas muito do mundo atual. E atenção, eu às vezes também penso nisso. Gerações de pessoas que nunca tiveram telemóvel. E eu agora estou aqui preocupada se me acontecer alguma coisa. Parece que não há mais ninguém no mundo, parece que vou correr numa cidade deserta. Não vou, estou em Lisboa, o que me pode acontecer?

Achas que a nossa geração é uma geração que é mais interessada? Sentes que estamos a tentar estar mais informados, mais educados, ter mais consciência do que se passa à nossa volta ou nem por isso?

Não, somos o oposto. Estou a falar no geral. Acho que somos uma geração cada vez mais que procura a alienação, não quer muito bem estar aqui, quer fugir daqui.

Achas que as redes sociais têm um papel nisso?

Sim, as redes sociais têm um papel nisso, porque ele é superdopaminérgico, não estás a pensar em nada, o teu cérebro está completamente em modo voo. E o que é que tu estás a fazer? Estás alienado com aquela máscara de: "Mas eu adoro o conteúdo dela." Mas tu absorves mesmo aquele conteúdo. Para já, porque a maioria dos conteúdos são rápidos, portanto, o teu cérebro não tem tempo para processar nada. E depois também mascarado com diversão. "Estou-me a divertir." Não te estás a divertir. Estou-me aqui a divertir mais eu contigo a ter uma conversa ou a jogar um jogo de tabuleiro com amigos.

Estás distraída só, não te estás a divertir.

Sim, estás completamente em modo voo. Portanto, acho que estamos a ir mais para o outro lado da alienação. Isto no geral, não é isso que me diz, por exemplo, a comunidade de pessoas que eu tenho nas minhas redes, também não é isso que me diz o meu grupo de amigos, mas no que eu vejo e no que eu sei, nas notícias que saem e nas headlines dos jornais, é isso que realmente está a acontecer. E as redes sociais aqui têm um papel fulcral nisto, completamente. Por isso é que eu estou sempre a dizer que adoro e adoro o que faço nas redes e, por um lado, gosto muito das redes, por outro lado, quero deixar tudo e ir embora.

Quero desaparecer.

Quero desaparecer, porque acho que o que eu faço nas redes ou o que muitos dos criadores de conteúdos que eu gosto nas redes, não é aquilo que passa para fora, não é aquilo que viraliza, não é aquilo que tem mais palco. E não é que tenha que ter, atenção, mas eu acho que seria muito mais frutífero se tivesse.

Sim. E como é que tu vês as gerações mais novas a evoluírem relativamente a este tema das redes sociais? Assusta-te?

Assusta-me imenso a falta de fiscalização e de controle que há em relação aos mais novos. Acho que se não se fizer nada de muito sério agora, vai mesmo ser um grande problema.

Mas achas que é privar de usarem nas escolas ou em casa que vai ter esses resultados? Porque muitas vezes o fruto proibido é o mais apetecido.

Sim, mas eu acho que começa por aí. Tenho alguns filhos de amigos meus que, por exemplo, nunca tiveram um telefone na mão. Têm quatro, cinco anos e não veem YouTube a comer, veem pouquíssimos desenhos animados e veem com os pais. Portanto, não têm acesso a isso e eu vejo os resultados que isso tem numa criança e também vejo o oposto. Portanto, acho que tem que começar com uma proibição desde bebês, desde pequenos, de não tem acesso a. Sabe que existe, mas não tem acesso. Eu não lhe ponho isso à frente para que ele consiga desempenhar uma tarefa ou para que ele esteja distraído. E eu sei o quão difícil isso pode ser. E atenção, também não julgo os pais que os fazem no sentido de pôr assim o dedo. Mas acho que os pais sabem, isso não é bom para as crianças.

Só que muitas vezes é também o caminho mais fácil para os distrair, para estarem caladinhos. Eu tenho dois primos mais novos, que para mim é assustador, porque, por exemplo, o meu primo é muito pequenino, ele está sempre a querer o telemóvel, em jantas de família, a pedir o telemóvel para ir jogar. Ainda agora numa festa que nós tivemos, o telemóvel estava proibido nessa festa, portanto ele esteve o tempo todo, desde que chegou até ir embora, a pedir para ir embora, porque não queria estar ali, não tinha nada para fazer. E parece que já nem sequer sabe criar joguinhos ou formas de se distrair porque está muito tempo todo aquilo.

O telemóvel não é como uma droga, o telefone é mesmo uma droga. Está mais que provado que aquilo faz coisas no nosso cérebro iguais a uma dependência de uma substância. Portanto, tem que ser tratado como tal. Tem que ser tratado como tal, ponto. E daríamos droga a uma criança? Não. Então, por que se vai dar o telemóvel? Para mim é tão simples como isto. E eu acho mesmo que o uso do telemóvel, espero que seja menos tempo do que 50 anos, mas vou apontar para os 50 anos, vai ser comparado como o uso do tabaco. Havia crianças a fumar quando a indústria tabaqueira se criou. Foi-se ver que não é bom nós fumarmos, as crianças não podem fumar. Pronto, vai ser a mesma coisa com os telemóveis. Mas se já se sabe isso, por que não se faz algo de muito mais sério e de muito mais prático? Porque o que se faz não é prático no dia a dia das crianças. Já se sabe que a proibição a menores de 16 anos nas redes sociais não está a funcionar, porque eles criam perfis falsos e vão à mesma. Crie-se outra coisa. Que coisa? Não sei, não estudei essa parte.

Mas não achas que é também porque nós adultos estamos tão viciados nisto, que é tipo: "Olha, tu não faças, mas eu estou aqui a toda hora e tu estás me a ver a toda hora."

Isso é fundamental hoje em dia.

Mostrar o exemplo. Isso não acontece em casa, muito provavelmente.

Pois.

Não posso dizer que não.

Mas isso então devia acontecer. Acho que isso é uma das coisas que tem que entrar na equação em relação a ter um filho, que é: qual a minha relação com o telemóvel, qual a relação que eu quero que o meu filho tenha com dispositivos móveis de qualquer tipo, com ecrãs. Isso tem que entrar um bocado na equação. Eu faço uma decisão ativa de, quando estou com a minha afilhada ou quando estou com crianças, não estou no telemóvel, porque isso é o exemplo. Por exemplo, fico muito triste quando às vezes chego à escola e tenho alunos que fizeram um telemóvel em cartão. Fizeram um telemóvel em cartão, um telemóvel de brincar. Eu penso: "Isso não é pra brincar. O telemóvel é pra trabalhar, o telemóvel não é pra brincar". Eu não lhes digo isso, isso é uma coisa que eu tenho.

Mas qual é que é o papel das escolas nisso?

Eu acho que o papel das escolas aqui é proibir, ponto. Nem sequer entra em discussões do porque sim, porque não. O papel das escolas é proibir. Eu trabalho numa escola em que os telefones não entram, e os telefones não entram mesmo, e os alunos não usam o telemóvel. E é tudo bom.

E é falta de controle, por isso é que depois acontecem essas coisas como aconteceu agora. Isto já é secundário, mas das listas de estudantes, dos influencers que andaram a circular pelas escolas, achas que isso também tem de partir das escolas haver um limite, um controle do que é consumido?

Não sei, isso dos influencers acho que é algo muito maior do que os telemóveis nas escolas. Os telemóveis nas escolas também tiveram a sua parte, mas acho que aí tem a ver o fato daquelas pessoas terem entrado no espaço escolar, tem a ver com uma decisão ou a falta de decisão daquele corpo docente ou daquele corpo diretivo, de dizer: "Esta pessoa não entra." Porque uma pessoa agora saber se os alunos estão a consumir aqueles conteúdos dentro do espaço escolar, fora do espaço escolar, mais uma razão pra tirarmos os telemóveis. Acho eu, que nenhum professor quer que um aluno seu esteja a consumir conteúdos de cariz mais explícito dentro do espaço escolar. Nem fora dele, muito menos dentro do espaço escolar, porque aí passa a ser da responsabilidade do corpo docente. Tudo o que os alunos fazem dentro da escola é, em todas as medidas, da nossa responsabilidade. E portanto, se eu não sei o que eles estão a fazer no telemóvel, e então? Fica da minha responsabilidade e eu fico aqui muito sem chão, sem argumentos, sem alternativas. Por isso é que eu acho que é proibir e pronto. O que os alunos fazem e o conteúdo que os alunos consomem fora do espaço escolar, não é que não esteja também conectado com o nosso trabalho enquanto professores, mas isso já é da responsabilidade dos pais. Ele não está na escola. Agora, se ele traz isso pra escola, aí já é um diálogo.

Como é que achas que isso acontece? Não há mesmo controle das pessoas que entram, das atividades que eles organizam? Eu não me lembro como é que era na minha altura.

Eu acho que não houve escrutínio suficiente pra saber quem eram essas pessoas. Acho que se confiou cegamente.

É que é uma escola, não são duas.

São 79. Como é que existem 79 direções de escolas que não escrutinaram quem é que entra no espaço escolar? Parece-me muito estranho, mas aconteceu. O que eu li sobre o assunto foi aquilo que se sabe e vi as declarações da diretora da escola. Fiquei muito chocada com a responsabilização dos alunos. Agora, responsabilizamos alunos, eu sei que são quase maiores de idade. Mas acho que está errado, correu mal e têm que ser apuradas, de certa forma, responsabilidades ou perceber o que é que correu mal pra que não volte a acontecer.

Os teus alunos são de que idades?

Vai dependendo um bocado dos anos, porque o professor de música faz um bocadinho de tudo. Eu este ano tenho 3 e 4 anos e depois tenho dos 9 até aos 14, 15.

Então consegues também perceber mais ou menos como é que as novas gerações estão se a comportar nesses temas. O que tu sentes? Porque imagina, muitas vezes aquilo que é discutido é o tu viveres constantemente nas redes sociais, na internet, tens primeiro menos contacto, menos capacidades sociais. Tu sentes isso? Menos capacidade de raciocínio, de pensamento crítico.

Sim, vejo isso. E eu estou numa escola internacional com um perfil muito específico. Então é uma escola sem telemóveis, é uma escola que não foi criada há muito tempo e é uma escola que nunca teve telemóveis desde o início. Então muitas das famílias que procuram esta escola já sabem disso. Ou seja, já procuram aquela escola porque ou os filhos também não têm telefones em casa. Estás a perceber? Aquilo vai um bocado assim por osmose. E a nossa comunidade educativa acaba por ser, em certa medida, muito homogênea. Não é inteiramente homogênea, nunca dá pra ser, mas neste aspecto da tecnologia, eu acho que até é. Sendo que acabas por ver também quem dentro desta comunidade, quem dos alunos da comunidade de alunos tem acesso, por exemplo, a redes sociais, quem não tem, dá pra perceber no comportamento, isso que tu dizias, na inquietude, na incapacidade, às vezes, em estar aborrecido, ou quando a aula é menos didática ou menos gamificada, já não gostam tanto. Dá pra perceber quem está mais tempo online do que quem não está. Mas quando eu trabalhava em escola pública, e sempre trabalhei em escolas públicas em que o telemóvel era permitido.

Sentias uma diferença muito grande.

É uma diferença enorme. Eu sentia mesmo que Por os professores, não é sempre, mas eu sentia que muitas vezes estava a competir com o telemóvel. E eu não consigo. Eu sou uma pessoa, tenho um raciocínio, demoro tempo a construir o raciocínio, mesmo que eu faça as apresentações, os slides ou dê a aula da forma mais dinâmica e mais interessante, eu não consigo competir com o telemóvel. E quando o aluno passa 20 minutos do intervalo assim e depois entra na minha aula, eu sou a coisa mais aborrecida do mundo. Ainda que eu tenha, e acho que até sou uma professora-

É o choque de estilos mesmo

...uma professora que se tenta modernizar e fazer coisas giras com eles. Mas é impossível. E mais uma razão para se proibir. Eles também não falam uns com os outros.

Pois, é isso.

Ou estão a falar com base naquilo que estão a ver no telemóvel. "Olha aqui, este vídeo que eu vi." E muitas outras problemáticas que vêm com o telemóvel, o gravar coisas no espaço escolar, que depois se difundem. É péssimo. Vi coisas de comportamentos de alunos com o uso do telemóvel nas escolas, que eram facilmente abolidos com a abolição do telemóvel, de partilhar vídeos, de partilhar fotos de alunos na escola, muitas das vezes em situações de bullying, muito desconfortáveis, que era só não ter telemóvel e já está.

Achas que o sistema de ensino vai evoluir para mudar nessa ótica de tentar ser mais rápido e acompanhar esta velocidade?

Eu espero que não. Nessa coisa do ser rápido e ser isto e aquilo, eu espero que isso não aconteça, de se modernizar.

Entretanto.

E de resolver muitas coisas que estão em falta no sistema educativo, sim. Mas fazer com que o sistema de ensino seja assim, tipo TikTok, que é sempre uma coisa nova, eu espero que não. E muitos dos países nórdicos que costumam ser referências em sistemas educativos estão a voltar à caneta e ao papel. Eles tinham sido os primeiros a terem coisas digitais, tablets e manuais digitais, e agora disseram: "Olha, isso realmente não funcionou, nós vamos voltar atrás." A maioria das nossas escolas, principalmente as públicas, nunca chegaram a ter uma modernização tão grande. Sim, tivemos computadores, mas não tínhamos tanta modernização, portanto, nunca chegamos a esse extremo. E espero que não se vá por aí, porque esse não é o caminho.

Claro. E qual achas que é o impacto da inteligência artificial nisto? Porque muitos miúdos hoje em dia acabam por ter essa ferramenta e usar, e se calhar os professores nem têm noção que isso está a acontecer. Eu estive há uns tempos numa feira com a Comissão Europeia, que foram três dias em que estavam sempre a circular também muitos estudantes e muitas crianças e que diziam abertamente: "Sim, eu uso o ChatGPT para fazer o meu trabalho. Eu sei que é mau, mas eu uso." Ou seja, isto acaba por não estimular o pensamento crítico, o raciocínio e tudo mais. Se for como ferramenta bem usada, ótimo, que eu também uso no meu trabalho, e bem. Mas será que uma criança tem capacidade para perceber isso, para distinguir, para limitar?

Sim, eu acho que as escolas aqui têm que fazer um grande esforço de dotar corpo docente e alunos para saber usar estas plataformas, porque eles vão usar. Eu adorava que não usassem, adorava que não tivéssemos que fazer este trabalho de dotar alunos. Eu adorava. Mas é impossível. Eles já estão a usar, e eles estão a usar muitas vezes mal. O que me assusta do usar mal é usarem muito novos, alunos do quinto ano a usar inteligência artificial para fazer trabalhos de casa, isso também assusta. Assusta-me tanto como um aluno do secundário, mas conseguimos perceber que é diferente um aluno do quinto ano do que um aluno do secundário.

Sim, mas o do secundário já tem as bases, já cresceu para agora poder usar de outra forma.

É ligeiramente diferente. Portanto, tem que ser feita alguma coisa no sistema de ensino, porque às vezes penso nisto e não consigo sequer imaginar o que isso pode fazer a longo prazo a um sistema de ensino e ao sistema educativo. Não consigo.

O que me assusta mais é que isto foi tão rápido, está a ser tão rápido, que não dá para imaginar o que vai acontecer.

Eu não consigo saber. Às vezes começo a confabular de: "Então, se calhar a escola vai acabar. Ou se calhar já ninguém vai à escola e depois eles fazem tudo na inteligência artificial e mandam o trabalho feito por inteligência artificial e há uma inteligência artificial que corrige." Percebes? É tipo, vamos estar a avaliar se eles sabem utilizar a inteligência artificial no futuro, em vez de estar a avaliar conhecimento, porque vai ficar cada vez mais difícil avaliar conhecimento. Então o que é o conhecimento? Começo por aí afora e tenho algumas respostas, mas a resposta de o que é que vai acontecer, não consigo saber. Mas se as coisas continuarem assim, acho que o caminho não vai ser bom.

Eu acho que a velocidade da inteligência artificial é tão mais rápida que qualquer evolução, seja no sistema de ensino, seja na nossa sociedade, que somos humanos e não conseguimos evoluir dessa forma.

Sim, mas acho que o problema é mesmo a rapidez. Por que queremos as coisas tão rápidas? Por que tem que ser tudo agora, já?

Mas isso não está no nosso controle, isso está no controle de quem está mexendo na inteligência artificial e a criar estas plataformas. Vai sair agora no final de março um documentário que foi feito por um pai que vai ter agora bebê e começou a questionar sobre essas coisas todas e sobre o futuro e a ter medo e a questionar-se: será que é inteligente eu estar a ter um filho agora?

Será que o quê, desculpa?

Será que é inteligente eu estar a ter um filho agora? E começou a ter medo disto. E criou este documentário e conseguiu ter toda a malta de topo, o CEO do OpenAI e tudo, vão falar neste documentário. Estou ansiosa por ver, mas puseram no trailer, logo em letras grandes e superchamativas, que Conseguiram ter acesso a uma equipa de risco e tudo à volta destas plataformas, que disseram que tinham medo que os próprios filhos não chegassem ao secundário.

Ou seja, porque desistiriam da escola antes?

Que não existiria escola até o tempo, até eles chegarem ao secundário.

Interessante.

Isto foi só um trailer.

Sim, também.

Mas estou ansiosa por ver.

Também me interessa, porque também é um tema que eu penso muito, de ter filhos agora, sim, não.

Era isso que eu te queria perguntar.

Nunca fui sonhar com um projeto de família, nunca foi o meu sonho. Mas quando pensava nessa ideia, é algo que acho executável e que gostava, porque gosto muito da minha família. E acho muito gira essa questão do legado e da questão da educação e da questão do núcleo familiar, é uma ideia que eu gosto. Atualmente, na situação em que estamos socialmente, quer AI, quer outras coisas, começo a duvidar se fará sentido essa decisão. E agora a minha resposta é: não faço ideia. Não sei se algum dia vou querer e acho que é algo que eu tenho que querer mesmo com muita força e tenho que estar muito ciente daquilo que estou a fazer, porque acho que não é uma decisão de todo fácil. Portanto, não sei, é algo que me assusta bastante. E depois também trabalho com crianças.

Pois é, isso também tens acesso ao outro lado que nós se calhar não temos. Eu tenho com base nos primos que eu vou tendo e é pouco.

Pois. Trabalho com crianças, portanto penso, se o meu dia a dia continuar assim, de trabalhar com crianças, eu chegar a casa e depois ter as minhas crianças para cuidar. Eu acho que é muito difícil, mesmo. Não sei como é que os meus colegas que têm filhos conseguem, porque eu não sei se vou ter capacidade. E depois também ver o estado em que estão as coisas, ver a grande diferença entre escola pública e escola privada, ver a situação em que está o mundo. Tudo isso é um bocado distópico às vezes, portanto, não sei, ainda não tenho uma opinião formulada, ou uma opinião, não. Opiniões tenho, não tenho uma decisão muito fundamentada em relação ao tema.

Sim, mas acho que é muito normal da nossa geração de agora ter uma coisa que se calhar era super.

Tu gostavas, tu tens sempre.

Tenho exatamente a mesma postura que tu em relação a não ser o meu sonho de vida. Gostava muito e quero ter filhos. Não é para já, mas também me assusta. Assusta-me o peso que eu tenho em educar uma criança e assusta-me colocar a criança neste mundo sem eu conseguir controlar a forma como ela também está a ser educada por tudo que está à volta dela.

Percebo o papel da sociedade na educação da criança.

Mas olha, estamos aqui a falar de muita coisa negativa e vamos acabar aqui o episódio em uma coisa mais positiva. Há alguma coisa hoje em dia que te deixa assim com esperança e que te deixa contente no mundo, na sociedade, na nossa geração, que nos leva pra frente?

É exatamente conectado com o que estávamos a falar, as crianças. Claro que sim. E conviver com crianças é uma coisa, é um privilégio enorme de tu acompanhares o crescimento de um ser humano e de tu perceberes que o ser humano é intrinsecamente bom. Eu acho que o ser humano nasce bom e depois é que nós ficamos com estas coisas e a sociedade vai nos moldando, ou os nossos pais, ou a nossa família, e vamos ficando diferentes. Bons ou maus, não interessa, mas diferentes. Mas o nosso fundo é um fundo solidário, é um fundo de amor. Nós entendemos a linguagem, não falo da linguagem falada, mas as linguagens do afeto e do amor, estão mesmo dentro de nós e isso é uma coisa que me deixa mesmo contente e mesmo esperançosa. Quando vou dar as aulas dos três e quatro anos, que são os grupos que eu mais gosto.

Deve ser amoroso.

É muito giro perceber a curiosidade que eles têm em relação, por exemplo, à minha disciplina, mas também em relação ao mundo, do olhar curioso, do olhar muito atento. São assim pequenas cápsulas de humanidade às quais eu tenho acesso de, por exemplo, estar 15 minutos a ler uma história para 20 minutos e eles estão vidrados no que tu estás a dizer. E é só um livro com imagens e tu estás a dizer a história porque eles não sabem ler e tu tens ali aquele momento e eu saio mesmo ali a pensar: é possível. O ser humano é bom, a vida é boa.

A esperança está ali.

O ser humano é bom, a vida é boa, o mundo é um lugar incrível. Ainda tenho esses momentos.

Boa, olha, adorei ter-te aqui.

Muito obrigada, Mariana.

Foi muito giro. E acabamos aqui nesta nota positiva de as crianças vão salvar o mundo.

Sim, eu acho mesmo que sim. É um clichê, é um lugar comum, mas eu acho que é verdade.

Não, acho que faz todo sentido. Obrigada.

Muito obrigada, Mariana.

Não é fácil, eu sei. Mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?