Diz-se no Douro: produzimos demasiado, consumimos menos e os stocks estão elevados. É  provavelmente parte da explicação para a crise que atravessa a viticultura duriense. Mas será toda a  explicação? Quem vive da vinha começa a fazer perguntas para as quais ainda não encontrou respostas  suficientemente convincentes.

Na verdade, há uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, teremos de fazer no Douro: se há vinho  suficiente para abastecer o mercado, porque deixou de haver mercado para todas as uvas? A resposta mais imediata parece simples. Produzimos demasiado, o consumo de vinho tem vindo a  diminuir, os stocks são elevados e, consequentemente, quem compra vinho precisa de comprar menos  uvas. É uma explicação que tem fundamento e seria absurdo ignorá-la.

Mas talvez não seja a explicação toda.

Quem trabalha diretamente com a vinha percebe que alguma coisa mudou de forma particularmente  profunda nos últimos anos. Durante muito tempo, vender as uvas produzidas numa vinha era, apesar  de tudo, uma parte relativamente previsível da atividade. Havia procura para as uvas destinadas ao  benefício do Vinho do Porto e havia também procura para as restantes uvas, destinadas à produção de  vinho do Douro ou a outros destinos. Os preços podiam variar, naturalmente, mas existia um mercado.

Hoje, em muitas situações, a dificuldade já não está apenas no preço. Está em encontrar quem compre. E esta diferença é importante.

O Douro não produz como as outras regiões 

A viticultura duriense tem uma particularidade que não pode ser esquecida quando se fala de  excedentes, preços e competitividade. Produzir uma tonelada de uvas no Douro não é o mesmo que a produzir numa região onde a mecanização é simples, as parcelas são grandes, o terreno é plano e os  rendimentos por hectare podem ser elevados.

No Douro há socalcos, muros, declives, pequenas parcelas, acessos difíceis, trabalho manual, mão de  obra que vai rareando, custos elevados de manutenção e uma mecanização que, em muitas vinhas, é  limitada ou simplesmente impossível. Por outras palavras, é uma viticultura cara. E é precisamente por isso que o Douro não pode competir numa lógica de simples mercadoria  indiferenciada. Uma região com estes custos só consegue sobreviver se conseguir transformar a  origem, a qualidade, a paisagem, a história e a reputação em valor económico. Ou seja: o Douro não pode ganhar pela quantidade. Tem de ganhar pelo valor. Mas quando esse valor não chega ao produtor, toda a equação começa a falhar. A vinha deixa de ser suficientemente remuneradora, a produção deixa de ter interesse económico, os  proprietários começam a questionar se vale a pena manter determinadas parcelas e, a prazo, aquilo que  desaparece não é apenas uma atividade agrícola. Desaparece também a paisagem que tornou o Douro  aquilo que é.

Há vinho barato. E há uma pergunta que merece ser feita 

Há ainda outra realidade que não pode ser ignorada.

Quem trabalha no sector recebe regularmente ofertas de vinho a granel proveniente de Espanha, em  grandes quantidades e a preços que, para a viticultura duriense, são difíceis de acompanhar: vinhos prontos, já com transporte incluído a partir de 0,30 Euros/litro, ou até menos. Não há nada de ilegítimo,  por si só, em comprar ou vender vinho num mercado europeu aberto, e não disponho de elementos que permitam afirmar que essas operações sejam portadoras de qualquer tipo de irregularidade. Mas a verdade é que o fenómeno económico existe. E existe há vários anos.

As ofertas comerciais que chegam ao sector incluem vinhos tintos, brancos e rosés, em volumes de  dezenas ou centenas de milhares de litros, a preços que se situam muito abaixo daqueles que seriam  necessários para remunerar uma viticultura de montanha como é particularmente a do Douro. A questão não é saber se o vinho espanhol ou de outro país é “mau” ou se o vinho duriense é “melhor”.  Não é sequer necessário presumir qualquer prática de concorrência desleal para perceber o problema.

Basta reconhecer uma coisa simples: quando dois produtos ocupam o mesmo espaço no mercado e um  deles chega ao consumidor a um preço significativamente inferior, existe pressão sobre o outro. A origem dessa vantagem pode estar na dimensão das explorações, na mecanização, nos rendimentos  por hectare, nos custos de mão-de-obra, na estrutura fundiária ou simplesmente na eficiência produtiva.  Não devemos confundir uma vantagem competitiva legítima com uma prática de dumping ou com  qualquer forma de irregularidade, sem provas.

Mas também não devemos fingir que a diferença de preço não existe.

E aqui aparece uma questão que raramente é colocada com suficiente clareza: o mercado consumidor  não é infinitamente elástico.

Um consumidor que compra uma garrafa de vinho mais barata não está necessariamente a comprar  uma garrafa de Douro a menos. Mas, no conjunto do mercado, a substituição existe. O orçamento  disponível é limitado, o espaço nas prateleiras é limitado, a rotação dos produtos é limitada e a  capacidade de um consumidor comprar vinho todos os dias também é limitada.

Quando um vinho de preço muito baixo conquista espaço no mercado, isso pode reduzir a rotação de  outros vinhos. Se a rotação diminui, os distribuidores compram menos. Se compram menos, as  empresas produzem menos. E se produzem menos, compram menos uvas.

É assim que uma pressão aparentemente distante da vinha pode acabar por chegar ao viticultor.

E o consumidor sabe sempre exatamente o que está a comprar? 

Há outra questão que merece ser discutida com serenidade.

No mercado português encontramos vinhos que, pela designação comercial, pela imagem ou pela  associação a determinada localidade, podem transmitir ao consumidor uma perceção de origem  regional, embora juridicamente a sua classificação seja outra.

Não estou a afirmar que exista aqui qualquer violação das regras de rotulagem. É precisamente para  isso que existem normas e entidades de certificação.

Mas talvez devêssemos perguntar se a distinção entre um vinho efetivamente produzido sob a  denominação de origem Douro e um vinho produzido fora dessa denominação é suficientemente  evidente para o consumidor comum, sobretudo quando os dois produtos podem aparecer lado a lado  numa prateleira e quando um deles utiliza no nome ou na apresentação referências geográficas  fortemente associadas ao Douro.

Em todo o caso, a questão não é apenas jurídica. É, também, económica.

Se queremos que a origem Douro tenha valor, o consumidor tem de perceber por que razão deve pagar  mais por ela.

O problema do benefício 

É neste ponto que surge uma outra questão, mais delicada, mas que também não deve ser ignorada. Durante décadas, o “sistema de benefício” desempenhou uma função essencial na economia duriense:  ligar uma determinada capacidade de produção de Vinho Generoso ou do Porto, o designado DOC  Porto, à vinha e à matéria-prima que a região produz.

Hoje, porém, muitos viticultores sentem uma realidade diferente. Há empresas que continuam  interessadas nas uvas correspondentes ao benefício, mas demonstram muito menor ou nenhum interesse pelas restantes uvas, para a produção de DOC-Douro, produzidas na mesma vinha. É compreensível que uma empresa que tenha stocks elevados procure limitar as suas compras. É uma  decisão empresarial legítima. Mas é também legítimo perguntar o que acontece, então, do ponto de  vista económico, às restantes uvas que aparentam não ter procura e não ser necessárias. Ora, é precisamente aqui que o sistema merece ser observado com particular atenção. Não estou a afirmar que exista qualquer utilização irregular do benefício ou a pôr em causa a proveniência das uvas para os vinhos do Porto e Douro, nem disponho de elementos que permitam  fazer uma acusação dessa natureza. Mas, num momento em que tantos produtores têm dificuldade em  escoar as suas uvas, importa garantir que existe uma fiscalização no terreno eficaz e uma fiscalização  administrativa que garanta uma correspondência suficientemente clara entre a parcela de vinha, a uva produzida, a uva efetivamente adquirida, o mosto, a beneficiação, a aguardente utilizada e os vinhos que finalmente chegam ao mercado.

Com efeito, uma cadeia de valor desta importância e desta envergadura não pode assentar  exclusivamente na fidúcia entre os seus intervenientes; exige um quadro institucional sólido,  transparente e previsível, capaz de sustentar a coordenação a vários níveis e de assegurar a confiança  no funcionamento do sistema.

Não se trata de suspeitar de alguns, nem de suspeitar de tudo e de todos. Trata-se de garantir que o  sistema é suficientemente credível para que ninguém tenha razões para suspeitar dele. E, num setor em crise, reforçar a rastreabilidade e o controlo não deveria ser visto como uma acusação  aos operadores. Deveria ser entendido como uma forma de proteger os operadores sérios e, sobretudo,  a reputação coletiva da região.

E se parte do excedente pudesse produzir a própria aguardente do Porto?

É aqui que aparece uma possibilidade que merece muito mais atenção do que aquela que até agora  recebeu.

Se a explicação para parte da crise é termos excedentes de uvas e de vinho, porque não utilizar uma  parte desses excedentes para produzir, na própria Região Demarcada do Douro (RDD), uma matéria prima que é indispensável à produção do Vinho do Porto?

A ideia não é tecnicamente absurda nem sequer inteiramente nova.

O próprio IVDP estudou a aptidão da RDD para produzir aguardente destinada aos seus vinhos  licorosos e concluiu que, para obter aproximadamente um litro de aguardente, é necessário destilar  cerca de sete litros de vinho. O estudo analisou precisamente a possibilidade de utilizar excedentes da  região para produzir aguardente destinada aos vinhos licorosos.

A conta ajuda a perceber a dimensão da oportunidade.

Consideremos, apenas como exercício, os cerca de 550 litros correspondentes a uma pipa de Vinho do  Porto: aproximadamente 435 litros de mosto apto à beneficiação e cerca de 115 litros de aguardente  vínica. A regulamentação atual estabelece que a aguardente utilizada na beneficiação seja de origem  vitícola e que a sua quantidade seja fixada anualmente, estando sujeita a controlo e certificação pelo  IVDP; a aguardente certificada para Porto tem, entre outras características, um título alcoométrico  bruto de 77,0 ± 0,5% vol., servindo depois para ser adicionada ao mosto em fermentação para  interromper a atividade das leveduras e da própria fermentação, preservando os açúcares naturais das  uvas e dando ao Vinho do Porto a sua doçura caraterística.

Se aceitarmos, para efeitos de cálculo, a relação de sete litros de vinho por cada litro de aguardente  estudada pelo próprio IVDP, aqueles 115 litros de aguardente correspondem a cerca de 805 litros de  vinho que tiveram de ser previamente produzidos para serem destilados e integrados na produção de  uma pipa de 550L de Porto.

Para percebermos a dimensão do problema, importa olhar para os números da região. Em 2024, a RDD produziu cerca de 274 mil pipas de vinho (150 milhões de litros), correspondendo desse montante aproximadamente 114 mil pipas a Vinho do Porto. Neste caso, importa distinguir as  cerca de 90 mil pipas de mosto generoso autorizado para benefício, antes da adição de aguardente para  a produção dessas 114 mil pipas de vinho do Porto resultantes da beneficiação. O restante da produção  repartiu-se por DOC-Douro, Moscatel do Douro, IGP Duriense e outras categorias. Em 2025, a  produção regional caiu acentuadamente, ficando abaixo das 180 mil pipas, enquanto o benefício foi  reduzido para 75 mil pipas, passando a 76 mil em 2026. Por sua vez, as vendas de DOC Douro  atingiram, em 2025, cerca de 86 mil pipas.

Estes números justificam que se investigue a acumulação de existências e a dimensão dos eventuais  excedentes, mas não permitem, por si só, quantificá-los: para isso, é necessário conhecer e confrontar a produção efetiva de DOC Douro em 2025 com as vendas do mesmo período e a evolução dos stocks  transitados de anos anteriores. É precisamente sobre o vinho que, comprovadamente, permaneça sem  escoamento, depois de salvaguardadas as necessidades do mercado, que deveria incidir um mecanismo de destilação, transformando excedentes reais em aguardente vínica e criando uma alternativa de  valorização da produção dos viticultores.

Ou seja, é precisamente aqui que uma aparente dificuldade se pode transformar numa oportunidade. Em vez de olhar para o excedente apenas como um problema que temos de retirar do mercado,  poderíamos olhar para uma parte dele como matéria-prima para produzir um produto necessário à  própria cadeia de valor do vinho do Porto.

Não seria preciso defender que toda a aguardente utilizada neste vinho generoso, passasse  imediatamente a ser produzida no Douro. Isso levantaria questões técnicas, económicas e jurídicas que  têm de ser devidamente estudadas. E isso demora o seu tempo.

Mas poderíamos estudar outra coisa: um mecanismo específico, ativado quando os excedentes o  justificassem, para encaminhar uma determinada quantidade de uvas ou vinho da RDD para destilação,  criando uma oferta adicional de aguardente de origem regional. Com regras claras, preço previamente  definido, rastreabilidade integral e, se necessário, algum mecanismo de apoio ou cofinanciamento.

E esta ideia ganha ainda mais força porque já não estamos apenas no domínio da especulação. Na verdade, em 2025 foi criada uma medida conjuntural de apoio à entrega de uvas para produção de  vinho destinado a destilação, com uma dotação de 15 milhões de Euros, precisamente com o objetivo  de reduzir excedentes na RDD. Essa medida previa apoio ao viticultor (embora insuficiente – 0,50  euros/kg de uva e até ao limite de 1125 euros/hectare), limites individuais, acordos entre viticultor,  vinificador e destilador e controlo dos volumes pelo IVDP. Mas talvez de pouco ou nada tenha servido,  considerando que em 2025, a produção no Douro foi aquém das expetativas e as uvas existentes mal  chegaram para as necessidades de Porto e Douro desse ano. Na verdade, a medida de 2025 incidia  sobre uvas da campanha em curso, entregues para produção de vinho destinado à destilação; não  abrangia, nos termos publicados, a destilação direta de vinhos antigos armazenados; mas se queremos  uma verdadeira política de gestão de excedentes, importa avaliar não apenas o destino das uvas de  cada vindima, mas também o que fazer às existências acumuladas que o mercado deixou de absorver. Em julho de 2026, prevendo-se uma colheita mais abundante, a Assembleia da República voltou a  recomendar ao Governo uma medida denominada “Uva para Destilação 2026”, destinada à valorização  dos excedentes vitivinícolas da RDD através da sua transformação em aguardente vínica. Mas  assustado com os fantasmas dos “auxílios de Estado” de Bruxelas e manietado pelo medo político de  injetar dinheiro diretamente nos agentes económicos que compram a aguardente, o Governo optou pela  paz social mais fácil e destrutiva: subsidiar a não vindima. As Portarias n.º 431/2026/1 e n.º 436/2026/1 instituíram a capitulação oficial da recomendação da uva para destilar em 2026, através de uma dotação  de 12 milhões de euros e um subsídio de até 1125 euros por hectare. A condição? Deixar a uva na  vinha. Sim, na videira, por vindimar. Em vez de se valorizar o produto, financia-se a destruição da  matéria-prima sob o olhar atento dos inspetores do IVDP.

Apesar de tudo, em outubro, a Assembleia da República voltou a recomendar a criação de um  mecanismo extraordinário de apoio à vindima de 2026, desta vez propondo expressamente a absorção  e destilação de uvas excedentárias, a sua transformação em aguardente vínica de origem regional e a  mobilização de verbas não executadas em medidas anteriores. É uma recomendação ao Governo, não  a garantia de que o mecanismo venha a ser implementado. Mas demonstra que a alternativa da  destilação continua em cima da mesa.

Ou seja, a questão já não é saber se os subsídios à destilação ou para as uvas ficarem na vinha por  colher podem ser ferramentas de gestão de excedentes, porque, de facto, já o mostraram que são. A  questão é saber se podemos ir mais longe.

Uma válvula de segurança para os anos de excesso 

Imaginemos um mecanismo que não funcionasse todos os anos, nem tivesse como objetivo aumentar  a produção de vinho. Funcionaria precisamente ao contrário.

Em anos de produção normal e procura equilibrada, não seria ativado. Já em anos em que os stocks  fossem demasiado elevados, em que a procura não acompanhasse a produção e em que milhares de viticultores corressem o risco de ficar com uvas sem comprador, poderia ser aberta uma capacidade  específica para destilação.

O produtor saberia antecipadamente que uma determinada quantidade poderia ser encaminhada para  esse destino e teria um preço mínimo conhecido.

A uva seria registada. O vinho seria identificado. O vinho destinado à destilação teria um preço e uma  conta-corrente própria. A destilação seria controlada. E a aguardente teria origem conhecida. Mais cara? Talvez, se não fosse devida, eficaz e legalmente subsidiada e regulada, mas pelo menos  quando bebêssemos um Porto, saberíamos que estávamos a beber um produto 100% feito com a  matéria prima do Douro. E procurar-se-ia, com isso, assegurar a “reprodução territorial” do Douro  vitivinícola, isto é, garantir a manutenção e a renovação das condições económicas, sociais,  institucionais e ecológicas que permitem a continuidade de uma organização produtiva e comunitária  ao longo do tempo. Note-se que este conceito não equivale a crescimento económico, aumento das  exportações ou valorização patrimonial: ele exige, sim, considerar a distribuição dos rendimentos, a  capacidade de renovação dos ativos produtivos, a justa remuneração do trabalho, a viabilidade e  continuidade das explorações agrícolas e a conservação dos recursos territoriais. Seria, no fundo, uma espécie de válvula de segurança do sistema.

E talvez seja precisamente esta flexibilidade que esteja a faltar à discussão, pois não precisamos de  escolher entre produzir tudo e/ou arrancar tudo.

Podemos criar mecanismos para gerir melhor os anos maus.

Em todo o caso, a destilação não pode servir para produzir mais vinho sem mercado. É também importante não cair no erro contrário.

Produzir aguardente para resolver excedentes só faz sentido se a operação for desenhada para retirar  efetivamente matéria-prima duriense do circuito normal, e não para criar uma nova justificação para  aumentar (ou substituir…) a produção.

O objetivo teria de ser o de estabilizar.

E teria de existir uma relação clara entre a dimensão do excedente, as existências, a procura, a  capacidade de venda e a quantidade autorizada para destilação.

É por isso que a proposta não deveria ser uma política permanente de subsidiação da produção, mas  antes um instrumento de gestão conjuntural e estrutural da oferta.

Uma espécie de seguro coletivo para uma região onde a produção não pode ser desligada da paisagem,  da população e da própria identidade territorial.

O Douro não pode viver apenas da paisagem que criou 

Há, finalmente, uma outra dimensão que muitas vezes fica esquecida nesta discussão. O Douro tornou-se uma das grandes paisagens vitivinícolas do mundo porque houve pessoas que,  durante séculos, plantaram e trabalharam vinha em encostas onde seria muito mais simples deixar  crescer mato.

Hoje, milhares de turistas chegam ao Douro precisamente para ver essa paisagem. Chegam de carro, de comboio, de barco… sobem ao Pinhão, à Régua, a São João da Pesqueira, a  Mesão Frio, ao Cima Corgo, ao Douro Superior. Fotografam os socalcos, as quintas, os muros, as  vinhas e provam os seus vinhos.

Mas fica ainda a pergunta fundamental que também deveria ser feita ao discutir o futuro do turismo  duriense: quem paga a manutenção da paisagem que o turismo vem consumir? Nesse sentido, não me parece absurdo discutir a criação de uma contribuição turística especificamente  destinada à preservação da paisagem duriense, seja através da hotelaria, seja através de outras formas  de atividade turística, incluindo o turismo fluvial, desde que o modelo fosse equilibrado e os recursos  permanecessem no território.

Não se trata de criar mais um imposto por criar.

Trata-se de reconhecer que a paisagem tem custos.

Um muro precisa de ser reconstruído. Uma vinha precisa de ser trabalhada. Um caminho rural precisa  de manutenção. Um talude de um socalco precisa de ser limpo. Uma encosta abandonada degrada-se.

E se deixarmos de ter viticultura porque ela deixou de ser economicamente viável, não teremos apenas  menos vinho. Teremos outra paisagem. E talvez, daqui a dez, vinte ou trinta anos, descubramos que  aquilo que os turistas vinham visitar já não existe.

O verdadeiro problema talvez seja o valor 

É por isso que não me convence inteiramente a ideia de que a crise do Douro se resume a produzir  demasiado.

Talvez produzamos demasiado em determinados segmentos.

Talvez consumamos pouco.

Talvez tenhamos stocks excessivos.

Talvez exista uma concorrência de preço que não conseguimos acompanhar.

Talvez haja demasiada capacidade instalada em relação à procura.

Talvez tenhamos de produzir menos em alguns lugares e produzir melhor noutros. Talvez seja necessário repensar parte do sistema de benefício.

Talvez seja necessário reforçar a rastreabilidade.

Talvez seja necessário encontrar novas formas de absorver excedentes, incluindo a destilação. E talvez, sobretudo, tenhamos de aprender a vender melhor aquilo que produzimos. Porque o problema fundamental do Douro não é apenas a quantidade de vinho. É o valor que conseguimos obter por ele.

Numa região de montanha, com custos de produção elevados e uma paisagem única, o Alto Douro  Vinhateiro, classificado que foi como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 2001,  na categoria de “Paisagem Cultura”, não pode competir indefinidamente pelo preço mais baixo. Tem  de conseguir convencer o consumidor de que uma garrafa de Porto ou de Douro não é apenas mais  uma garrafa de vinho.

É origem. É território. É história. É paisagem. É trabalho.

É um património que não pode ser reproduzido noutro lugar.

Nesse sentido, o papel das instituições do sector, das empresas e dos próprios produtores deveria ser  muito mais ambicioso na promoção nacional e internacional dos vinhos doPorto e do Douro, sobretudo  junto das novas gerações de consumidores.

Precisamos de vender mais, certamente. Mas precisamos sobretudo de vender melhor. E precisamos de garantir que uma parte suficientemente grande desse valor chega à vinha. Porque não  adianta proteger a marca Douro se deixarmos morrer a atividade económica que lhe dá origem. Não adianta ter o melhor destino turístico do mundo se, dentro de algumas décadas, a paisagem que  os turistas vêm procurar estiver coberta de silvas e de mato.

Não adianta falar permanentemente de sustentabilidade se a atividade agrícola que mantém o território  economicamente vivo há séculos, deixar de ser sustentável para quem a pratica. O Douro não precisa apenas de produzir vinho. Precisa de conseguir viver da produção de vinho. E talvez seja esta a pergunta que deveríamos colocar antes de todas as outras: estamos perante um  problema de excesso de vinho, ou perante um problema de falta de valor?

Se for apenas excesso, podemos reduzir ou reformular a produção.

Mas se for falta de valor, reduzir ou reformular a produção sem mudar o modelo será apenas adiar o  problema.

E, nesse caso, corremos o risco de conseguir uma coisa particularmente paradoxal: preservar o nome  Douro enquanto deixamos desaparecer o próprio Douro que criou esse nome.