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Já trouxe aqui algumas vezes o tema de amor, de relacionamentos, todos estes temas amorosos. Mas sempre que eu trouxe, sinto que trouxe pessoas que pensam da mesma forma que eu. E hoje eu quis desafiar um bocadinho isso. Não sei se vocês conhecem o Doctor Love, mas eu sigo há imenso tempo no Instagram o Peter Castro e acho que ele é épico. Basicamente, ele tem um consultório amoroso no Instagram em que responde a dilemas amorosos, sexuais. Ele é aquela pessoa que diz tudo aquilo que lhe vem à cabeça sem filtros e é completamente honesto. E hoje eu quis também desafiá-lo a ele e desafiar-me a mim a tentarmos debater aqui estes temas do amor e perceber de que forma é que nós nos encontramos, que coisas é que temos em comum, o que é que pensamos de forma diferente, e sairmos aqui os dois um bocadinho da nossa zona de conforto. E ele acabou agora mesmo de lançar um livro que se chama mesmo "Consultório Amoroso Doctor Love", que também vamos falar um bocadinho aqui, em que ele responde mesmo a dilemas de pessoas, dilemas reais que lhe mandaram pelo Instagram e acaba por explorar isso aqui no livro. E eu vou mostrar também ao longo do episódio um ou outro exemplo pra perceberem o tipo de dilemas que ele acaba por receber. Mas espero muito que vocês gostem do tema, desta conversa e vamos lá passar ao episódio. "Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?" Mas sentes que é difícil trazer marcas, associar as marcas a ti? Por ter assim conteúdo um bocado...
A Durex foi bom porque faz sentido.
Encaixa.
Encaixa. Agora, claro que a Zara não vai querer. Há marcas que não vão se querer associar e bem. Se calhar nem eu a elas.
Claro, tem que fazer sentido.
Ya, tem que fazer sentido.
E tem que estar à vontade também pra tu poderes dizer o que te apetece e não haver filtro, porque muitas vezes marcas é briefings superspecíficos, que depois não vai fazer sentido.
Sim, já recebi muitas propostas que recusei, porque se não for uma coisa que faça sentido para o público, eu não faço.
Claro.
Porque quem sustenta tudo é a audiência. Então não vou estar ali a falar da varinha mágica da Samsung.
Sim, depois também sentem que não é real e também desconecta, não é?
É isso. Preservativos, eu já falo de brinquedos sexuais e preservativos, então até me dá jeito. E depois há coisas, imagina, vou falar de um específico. Vou propor à marca porque faz sentido. Por exemplo, eu recebo é perguntas sobre depilação. E eu queria falar sobre isso e queria falar do Veet creme, que é o que eu uso. Então estamos em conversações com a Veet. Porque faz sentido pra marca. Então é isso, porque eu não vou estar ali a inventar, eu vou realmente falar daquilo e vou falar sobre isso.
Sim, porque não é só Peter, é a tua imagem, o consultório, o Doctor Love tem uma imagem coerente.
Sim, exatamente. Não posso estar ali propriamente a falar de coisas descontextualizadas.
Olha, vamos falar então de amor, relacionamentos, todos estes temas que eu vou abordando muitas vezes por aqui. Este podcast é muito à volta dos 20, passamos aqui por esta fase, nos tentamos descobrir, desenvolvimento pessoal. Então eu trago muitas vezes o tema de amor, relacionamentos, mas normalmente é com amigas minhas, debater aqui temas e normalmente pensamos muito igual.
Boa.
E eu queria debater aqui, bater bolas contigo, pra perceber até que ponto é que nós somos parecidos, diferentes nestes temas, ok?
Ok.
E vou começar já por uma coisa que eu disse no episódio que eu publiquei há duas semanas, em que eu estava a falar sobre almas gêmeas.
Ok.
E que eu disse que não acreditava em almas gêmeas, porque eu sinto que sou uma pessoa um bocadinho racional.
Sei.
Na vida, em todas as áreas e na parte amorosa também.
És Capricórnio?
Não, não sou.
Qual é o teu signo?
Sou aquariana.
És aquariana? Makes sense.
Pronto, então sou um bocado racional e eu acredito que não existe só uma pessoa no mundo de quem tu vás gostar, porque temos tantas pessoas. Mas depois fiquei a sentir-me mal antes de publicar o episódio, porque fui a pensar: "Se calhar as pessoas vão achar que eu sou menos romântica". Fiquei a sentir com medo de publicar isso, porque eu achei que não seria o normal pra aquilo que nós estamos habituados. Tu achas que há menos romantismo nisto?
Não. Eu até disse num vídeo que postei que eu nunca acreditei na cena de alma gêmea. Acredito que podem existir várias pessoas que são próximo do que seria esse conceito de alma gêmea. Mas eu acredito que pode haver uma relação na tua vida que foi o mais profundo que tu chegaste a outra pessoa. Eu acho que isso, pra mim, é o que significa alma gêmea, porque eu acho que é muito difícil tu conheceres alguém. E mesmo as pessoas mais próximas a ti, tu conheces as pessoas até que ponto? Percebes os medos mais profundos delas, os anseios mais profundos, quem elas são de verdade ali dentro. Isso é muito difícil, é quase impossível tu conseguires conhecer alguém na tua vida toda mesmo. Mesmo pessoas que são casadas há anos, não se abrem completamente com os seus companheiros e parceiros. Eu acho que a pessoa com quem tu consegues estar mais vulnerável e ser 100% honesto e transparente, isso é o mais próximo que pode chegar da alma gêmea. E eu achava que isso era um conceito um bocado parolo.
Cheesy de filmes, não é?
Sim, mas hoje eu acho que já encontrei a minha alma gêmea, nesse sentido de a pessoa que eu consegui conhecer melhor e que me conheceu melhor, espiritualmente.
Mas achas que isso foi obra do universo de vos unir ou é um trabalho que vem a ser feito?
Não sei. Aconteceu. Acho que às vezes tem a ver com tu cruzares o caminho com uma pessoa que está a precisar de ti, exatamente o que tu estás a precisar dela, de maneiras diferentes. Ou seja, tu és a pessoa exatamente que ela precisa pra ela agora e vice-versa.
Então achas que isto tem um timeframe, porque depois deixas de precisar da pessoa ou ela de ti.
Tem um timeframe.
E depois vem outra pessoa que
Sim, acho que podes manter essa pessoa, só que eu acho que isso é um estado, porque as pessoas também se desenvolvem e mudam, o ser humano é instável, eu acho que tudo muda. Mas sim, eu não vou dizer que não acredite em alma gêmea, mas nesse sentido de ser a pessoa que tu consegues conhecer melhor ao longo da tua vida. E não tem que ser romântico. No meu caso, é uma amizade mais profunda, mas é uma amizade. E eu acho que isso é possível, pode ser com qualquer pessoa, há quem diga que a minha alma gêmea é o meu cão, e quem sou eu para dizer que não?
Sim, por acaso nunca pensei nessa ótica de ser uma amiga, um amigo que seja a tua alma gêmea, mas também faz sentido, porque também existem essas pessoas que tens uma ligação que não consegues explicar.
Exatamente.
E que perduram anos, não é?
Sim, eu acho que nós temos essa tendência do grande amor ter sempre um viés meio sexual. E eu falo muito sobre isso no "Dr. Love Etc.", porque não é assim que eu vivo as coisas e não sinto as coisas assim. Até porque o amor da minha vida, a pessoa que eu mais amei na vida e mais amo, nunca tive tesão por ela. E não deixa de ser o amor da minha vida. Então, às vezes, o amor da tua vida é a tua twin, a tua melhor amiga que está sempre contigo. Só que tu não estás a olhar pra isso porque não sentes tesão, mas imagina, é a pessoa que te reconforta, é a pessoa que se acontece alguma coisa, é a primeira pessoa que tu ligas, é a pessoa que tu falas todos os dias, que tu pensas todos os dias.
Sim, mas depois no contexto de sociedade e naquilo que estamos habituados, tu não vais criar uma família com essa pessoa. E se calhar, o quão mais vais ser vulnerável e mais vai mexer contigo, vai ser a criação de família e construção de uma vida em conjunto.
Claro, mas isso é um projeto que tem um life spawn. Até porque se tu fores ver a realidade dos fatos e dos números, a maior parte dos casamentos chega a um fim. Eu não gosto disso, de que falharam, não falharam, uma coisa resultou enquanto durou, então não falhou. Pode ter sido um momento onde aquilo fez sentido, deixou de fazer e as pessoas divorciam-se e separam-se. Viveram sua história, criaram sua família e depois as coisas mudam. Mas depois por trás de todos esses acontecimentos, há sempre uma pessoa que muitas vezes está sempre ali. Muitas vezes pode ser a tua irmã, se tiveres irmãos, pode ser o pai, a mãe, o filho. Normalmente é a família, porque são pessoas que estão lá há mais tempo, então é o normal, mas também pode ser uma pessoa amiga. Não sabes, isso pode acontecer.
Então tu explicas a diferença de amor e paixão dessa forma, ou seja, paixão é uma coisa mais sexual, é uma coisa mais ardente, e amor é isso que estamos a falar, que vai se construindo ao longo dos anos?
Eu acho que amor é uma coisa espiritual, pra mim. Que eu não sou uma pessoa super espiritual, mas agora sou mais. A paixão é uma coisa mais animal, digamos assim. A paixão é o encantamento físico e psicológico imediato. É mais um fogo de palha, uma coisa intensa. O amor, não. O amor requer paciência. Requer tu abdicares de ti pelo outro. Pra mim, isso é que é amor verdadeiro. É tu lidares com os problemas dos outros como se eles fossem teus ou mais que se eles fossem teus. Eu acho que nós conseguimos explicar e ver o que é o amor verdadeiro e mais puro e cristalino, olhando pras nossas mães, porque o amor mais puro é o que as mães sentem pelos filhos. E os pais.
Sem limites.
É isso. Então tudo que se aproximar minimamente disso, entendes? Agora, isso tem um viés tóxico e perigoso, obviamente, porque o amor tem uma parte difícil, que é o ódio, que eu acho que eles andam ali misturados.
Muito mal dadas?
Não digo mal dadas, mas um atrás do outro. Talvez.
E dirias que o amor é uma escolha diária?
Uma escolha, não digo, mas um feeling diário, sim, porque é uma escolha motivada por alguma coisa. Tu não escolhes racionalmente isso, tu sentes e fazes porque sentes. Agora, a escolha diária é como tu vais gerir esse sentimento, porque isso é que tem que ser uma escolha diária. Porque nós precisamos de ser racionais. Eu aí estou contigo. Acho que essa conversa do temos que seguir nossas emoções, não, não temos. Senão andávamos aí a matar. Não podes seguir as suas emoções. Podes ser guiado por elas, mas manter a tua cabeça no lugar, porque eu acho que é muito fácil de perderes a lucidez, especialmente nos dias de hoje. Nunca foi tão fácil de ficares maluco. Eu acho que sim.
Mas por que achas isso? Por causa das redes sociais e da sociedade que vivemos?
Também, acho que é pela rapidez das coisas. Acho que é muito fugaz tudo.
Achas que na nossa geração, tipo 20 e tais, início dos 30, hoje em dia tu olhas pra esta geração, achas que temos menos capacidade de compromisso, de vivermos uma coisa assim mais intensa, também pela rapidez e pelas redes sociais, por estarmos sempre a comparar, se calhar, e a ver a vida de outras pessoas e viver isso?
Sim, eu acho que as gerações, não há gerações boas ou más. Cada uma é o reflexo dos seus tempos. E a nossa geração, a Gen Z, tem problemas graves e tem soluções também muito boas, como todas. Mas sim, eu acho que nós temos uma coisa que é: nós somos demasiado expostos a toda hora, a tudo, que é uma coisa que não existia. É demasiado. Eu sei demasiado. Eu não quero.
Demasiada informação que não consegues filtrar e depois dá em maluco.
É isso, é demasiado. Tu numa hora, se tiveres a ver TikToks, tu absorves mais informação que uma pessoa no século XVIII consumia na vida inteira.
Até vais ao TikTok e tens conselhos amorosos, de tudo e mais alguma coisa, que de repente um diz uma coisa, outro diz outra e tu já estás: "Já nem sei o que fazer da minha vida. De repente, se calhar, já tenho que sair deste relacionamento."
É muita coisa. E eu acho que o cérebro ainda não expandiu ao ponto de nós percebermos isto, porque nós somos o início da revolução digital. Se calhar, os nossos netos já vão ter outro cérebro, porque o ser humano adapta-se, o cérebro adapta-se, mas nós somos a adaptação. Então é problemático, é cansativo, é exaustivo. Então sim, talvez isso influencie nas relações no sentido de as pessoas se fecharem mais porque ficam exaustas emocionalmente e têm mais medos.
E não achas também que vivemos mais no online e depois temos dificuldade, se calhar, no contato social?
Completamente.
Ficarmos mais em casa, mais scroll.
Eu acho especialmente sexual Acho que isso é um problema grave e especialmente no Doctor Love eu vejo isso. Na génese sim, mas pior ainda nos adolescentes, na Gen Alpha, o pessoal de 16 anos, 15 anos, 17 anos.
Mas o que é que tu vês?
Não conseguem fazer sexo.
Têm mais dúvidas sobre isso?
Não, desmaiam, choram, têm ataques de pânico. É mesmo grave. As mulheres também, mas nos homens é muito grave. É por isso que há esta onda de incels e de red pill, porque é uma pressão inacreditável para os dois lados. Quando eu era adolescente, eu tinha informação na mesma, porque tinha redes sociais na mesma, mas não era com essa intensidade, não era o TikTok com essa intensidade. Então não havia esta pressão tão pesada. Eu acho que agora os teenagers já vão com demasiada informação, demasiado peso. "Eu devia fazer isto, eu devia fazer aquilo, eu devia dar-lhe o prazer desta maneira, eu devia durar desta maneira". E já vão muito pré-formatados para uma coisa que é quinquilharia, é mentira.
E se calhar não falam tanto entre si, não achas? Se calhar entre amigos.
Não, têm medo. Têm muito medo.
Falam menos. Nós na nossa altura, se calhar não tínhamos informação, onde é que ias buscar essa informação? Ias falar com os teus amigos sobre isso.
Tem coisas boas, porque eles têm acesso a mais informação. Têm acesso a mais informação sobre sexo seguro e sobre performance. Sabem algumas coisas mais cedo. Mas depois na questão física e praticável, porque obviamente a digitalização tornou as pessoas menos físicas, é mais difícil, porque é tanta coisa que tens que saber sobre sexo. E quando na verdade não tens que saber nada, porque o sexo é uma expressão corporal, não é mental. O sexo é tesão. Toda a gente faz, os periquitos, os pardais, as minhocas fazem.
Sim, mas toda a gente passou por essa fase de ter medo. Começar e ter medo. Mas tu achas que está a ter proporções-
Claro, eu tive medo, mas não ao ponto de desmaiar, de ter ataques de pânico, de não conseguir simplesmente fazer sexo ou ficar traumatizado. Eu tinha tesão, queria aquela pessoa e eu pensava nisso, não pensava o contrário. Eles fogem, eles ficam mesmo aterrorizados.
Isso também pode ter a ver com o pouco contacto social.
Sim.
E também crescerem na pandemia.
Exatamente. Mas é uma coisa mesmo grave. Por isso eu acho que é muito importante a educação sexual nas escolas, porque acho mesmo que os adolescentes fritaram nesse aspeto e vai ser um problema.
Mas tu achas que a ti chegam casos de exceção?
Não, são mesmo muitos. Para eu dizer isto é porque são mesmo muitos, porque eu normalmente relativizo um bocado, porque não podemos aceitar tudo como exceções à regra, mas neste caso é mesmo muita gente. Digamos que a maior parte das pessoas que me escreve mais jovem, e que põe lá nas perguntas que é mais jovem, nota-se sempre que é sempre esses problemas de intimidade, problemas sexuais.
Mais nos homens, então, dizes tu.
Sim, eu recebo mais nos homens.
Porque também os homens sempre tiveram muito mais dificuldade em falar uns com os outros. Se calhar também pode ser por aí.
Claro. São vítimas do machismo, como toda a gente.
E achas que as dating apps vieram ajudar ou piorar os relacionamentos e o termos demasiadas escolhas? Achas que ajuda? Achas que desajuda quem quer um relacionamento?
Olha, eu não sei. Eu conheço vários casos de sucesso e de insucesso. Então acho que é só mais um mecanismo. E acho que as pessoas tendem muito em matar o mensageiro e demonizar o meio. E às vezes não é o meio, porque nos anos 80 levavas um fora no café. A culpa não é do Tinder, não é do TikTok. As coisas são assim, o ser humano vai ser sempre o mesmo, independentemente de onde estiver. Eu conheço pessoas que se conheceram no Tinder e casaram e tiveram filhos, e o cão e a cerca branca e toda essa cena. E conheço pessoas que tiveram até relações saudáveis, casuais, e outras que tiveram problemas de ghosting e desses filmes. Então, acho que não é para toda a gente, é o que eu acho. Acho que as pessoas acham que se podem meter em tudo porque não se conhecem, e tu tens que saber quem és. Se queres uma determinada coisa, não podes procurar no lugar errado.
Mas também tens um bocadinho de tudo lá.
Claro, agora eu acho que tu deves ser explícito.
Naquilo que estás à procura.
Naquilo que estás à procura desde o início. Eu acho que as pessoas têm dificuldade de ser sinceras, porque têm medo de ser rejeitadas por isso. Então dizer: "Não, não vou dizer isto porque isto é demasiado pesado, vai ser cringe, não vai ser fixe". Mas não, deves dizer, porque se for cringe para a pessoa e a pessoa não gostar, então livrou, que é melhor do que estar sempre a andar.
Depois é aquele medo de já é cruzado.
Vai ser too much.
É isso, ser too much. Eu quero é alguém, eu quero é deixar de estar sozinha. E se vais para uma dating app, se calhar com esse intuito de resolver esse problema.
Sim, mas looking for a relationship. Ires do princípio com essa cena, em vez de tentares: "Vou conhecer alguém e depois vamos ver". Sim, vamos ver, mas se calhar a pessoa que vais conhecer a priori não está para aí virada e não vai estar, e não vais ser tu que vais mudar. Então vais te deludir.
Sim, nós mulheres muitas vezes acreditamos que conseguimos mudar os homens.
Não são só as mulheres, os homens também acreditam, mas podem é dizer menos.
Sim, acreditamos que conseguimos. Com o tempo. Ele diz que é uma cena casual, mas depois com o tempo ele vai perceber que não. Porque eu sou especial e eu vou mudar isso.
Exatamente. Não funciona assim, não é sobre nós.
Mas é assim, eu estava a falar mais das dating apps e das redes sociais, porque eu acho que se olharmos, por exemplo, para os tempos dos nossos pais, eles conheciam-se no círculo da vilinha ou do sítio onde estavam a morar. As opções eram menos, portanto, olhavam menos para o lado porque não havia assim tantas opções. Nesta ótica, não acreditas que tendo tanta coisa, tu estás constantemente a comparar e se fosse aquela era melhor e não sei o quê.
Sim, completamente. Imagina Eu acho que sou uma pessoa bastante progressista e moderno, às vezes demais até, mas nisso eu sou mais como os boomers. Porque eu tenho uma cena que eu não entendo, que é como é que tu podes confiar num desconhecido? Isso para mim não cabe na minha cabeça. Não entendo isso, não compreendo essa dinâmica. Eu não consigo olhar para uma foto e ter com aquela pessoa. Quem é aquela pessoa? Não consigo fazer isso. Para mim é impensável eu ir ter sozinho com uma pessoa que eu nunca vi na vida, seja a pessoa que for.
Eu estou sempre a fazer isso em amizades. "Vou tomar cafés com pessoas que eu não conheço lá de vida."
As pessoas que eu conheço e que eu me relaciono são sempre da maneira que tu disseste, são amigos de amigos dentro do meu círculo.
Mas isso é porque tens medo?
Também. Não é medo, é não confio em desconhecidos. Eu tenho que saber pelo menos o contexto daquela pessoa. Quando eu conheço pessoas que são amigas de amigos, ou conhecidas, ou conhecidas de amigos meus, eu movo-me sempre no mesmo contexto, então eu sei quem é aquela pessoa, o meu amigo sabe com quem aquela pessoa andou, sabe onde andou com ela na escola. Eu sei o contexto daquela pessoa, então eu preciso ter uma ideia.
Mas não achas que é bom nós sairmos do nosso círculo às vezes também?
Pode ser, para mim não.
Estás bem na tua conforto.
Eu não gosto de sair do meu círculo. "Ah, tens de ter a tua bolha." Não, não tenho.
Por acaso é uma coisa que eu gosto que tu falas no livro, de achares que faz sentido procurarmos na bolha a pessoa, porque de lifestyles parecidos.
Completamente.
Mindset parecido.
Completamente.
Mas não achas que também é bom desafiar, sair?
Sim, é exótico. É fixe para uma experiência. Tu andares com uma pessoa que não tem nada a ver contigo, mas não tem futuro, é um momento, é um summer fling. Eu acho que isso pode ser interessante, mas não vais construir nada aí. Sinceramente.
É, se calhar, uma atração inicial e depois com o tempo, as coisas estão tão desalinhadas que não vai encaixar na tua vida.
Ou tu vais hipotecar a tua vida e os teus valores e aquilo que tu queres fazer pela outra pessoa e moldar-se à pessoa, isso não vai dar certo, porque tu vais te anular pela pessoa. E depois quando baixar o tom da relação, tu vais dizer: "Eu não fiz nada da minha vida, eu sou uma relação." Isso não pode ser. Ou então tu encontras uma pessoa, que é o que dá mais certo, que partilhe o teu lifestyle, os teus valores e os teus planos. Não tem que ser igual, mas similar. Eu acho que as relações mais felizes que eu conheço são pessoas que se movem nos mesmos sítios, que gostam das mesmas coisas, que partilham os mesmos valores.
Achas que ter os mesmos gostos também é importante?
Não tem que ser os mesmos, mas similar. Acho que é importante para manter a relação, porque se formos completamente opostos, o que nós vamos fazer, além de sexo e falar? Temos que partilhar um dia a dia, um quotidiano, qualquer um que seja. Agora, não têm que ser pessoas exatamente iguais também, acho que isso também não tinha piada nenhuma. Mas acho que devemos manter as nossas bolhas para termos pessoas que nos compreendam, que compreendam o nosso path. Agora, os opostos se atraem. Sim, podem se atrair, mas isso, atração é fricção.
Por acaso eu estava a ler um artigo há uns tempos que também vai muito nesta linha, em que basicamente ela dizia que numa fase inicial tu te sentes sempre atraído por uma característica ou algo que tu não tens e que tu vês no outro e que ficas assim: "Ah, eu também gostava de ser assim". Por exemplo, eu sou uma pessoa muito type A, muito organizada, muito metódica, muito rotina, sempre na linha. E nesta ótica, eu iria atrair uma pessoa que é tipo yolo, estou me a cagar para planos, viver a vida desprendido. Mas que depois, numa fase seguinte, entrando numa relação e um bocadinho mais à frente, há depois o choque. E é nessa fase em que se tem de adaptar para perceber se faz sentido ou não, tendo em conta que eu sou uma pessoa muito rígida, vou ter de me adaptar a essa característica e a outra pessoa também, e só aí é que se consegue perceber se realmente tem futuro.
Sabes onde eu acho que isso funciona? Em amizades. Imagina, eu sou uma pessoa oposta a ti, mas eu preciso de pessoas como tu. E tenho amigos como tu, que eu adoro, prezo, que me irritam solenemente.
Dão na cabeça.
Dão, porque eu detesto regras e planos e essas coisas. Não tenho paciência, sou exatamente o oposto. Mas é preciso um complementar o outro.
Mas tu achas que numa relação é preciso também haver esse equilíbrio?
Sim.
Uma pessoa que vai partilhar tanto tempo da tua vida.
Sim, nesse aspeto, sim. Agora, tu podes ter isso, isso são características de personalidade. Tu podes ter isso e na mesma partilhar planos parecidos com a pessoa e ter gostos parecidos e ter só essa questão da personalidade diferente. E aí eu até acho que é complementar e até interessante. Agora, eu falo mais de coisas mais reais, lifestyle, valores, o que tu queres para a tua vida, o que tu queres para o teu futuro, e mesmo questões do tipo de ambições que tens é muito importante, porque eu acho que quando há numa relação uma pessoa mais medíocre e uma mais ambiciosa, isso cria ali um fosso que depois vai ser difícil. Ou uma baixa a guarda e diz: "Ok, eu vou estar aqui para te ajudar e para contribuir na tua carreira, porque para mim chega-me um trabalhito e um sofá, e para ti não, então eu vou estar aqui para ti e tu aceitas isso." Ou então não, porque há pessoas que precisam desse estímulo do outro lado. De pessoas que puxem por elas e vice-versa, e elas puxarem por elas e crescerem juntas. Outras que não, outras que precisam de alguém que as ajude. E há pessoas que estão disponíveis para isso, e está tudo bem, todas as relações têm um typo e todas são válidas, desde que não exista desrespeito, problema, violência e agressividade.
E estamos a falar que tu manténs-te no teu círculo, não conheces muitas pessoas para além de amigos de amigos. O que tu recomendas a pessoas da nossa idade que não queiram ir por dating apps porque acham que não é para elas, de que forma podem conhecer pessoas?
Primeiro, ter amigos ajuda, qualquer amigo que seja.
Mas já não tens amigos, nada é solteiro, não há opções.
Tens que fazer amigos novos. E aí entram as redes. E não é só dating apps, a maior dating app que existe é o Instagram Essa já é uma dating app. Porque o Instagram eu acho que é a melhor dating app, porque tu vês quem a pessoa é, tens fotos, tens vídeos, tens stories.
Tens pessoas em comum.
E tens conversa, podes falar. No Tinder também, mas é diferente, porque tu no Instagram estás a ver a vida da pessoa, as coisas que ela faz, consegues construir melhor ali qualquer coisa.
A personagem.
A personagem. Então acho que no Instagram é melhor. E eu acho que nós temos que arriscar. Eu, por exemplo, gosto muito de fazer amigos novos e faço muitos amigos novos. Agora, dentro da minha cena, mas sou uma pessoa aberta dentro do meu círculo e gosto de conhecer pessoas novas, que eu tenho alguma referência, e faço sempre amigos novos. Eu acho que isso é muito importante e é uma coisa que as pessoas têm receio, porque no início vai ser awkward, talvez.
Porque tu estás mais confortável no teu círculo, na tua zona de conforto.
Mas isso passa. Agora, nós também estamos a perder a paciência. Tens que ter paciência para deixar as coisas expandirem. E eu gosto sempre de conhecer pessoas novas, acho sempre que é importante, porque as pessoas novas abrem-te outras portas, outros horizontes, mostram-te coisas de ti que tu não conheces. É sempre muito importante. E depois, conhecendo uma pessoa nova, vais sair com essas pessoas e não tem que ser à noite, pode ser onde tu quiseres, onde tu fores sair. Depois essa pessoa conhece a outra, depois leva a irmã, que tem os amigos, a irmã, e depois tu vais conhecendo os círculos, entra noutros círculos e noutros círculos. E eu acho que isso é saudável. Isso era a maneira que se fazia nos anos 80. Então nisso, talvez eu seja um bocadinho mais conservador, porque eu acho que é a maneira certa de agir.
Hoje em dia, estão a surgir cada vez mais run clubs, esses grupos, que também vêm muito nesta ótica, das pessoas se quererem conhecer na vida real, fora do digital.
Claro, eu acho que em qualquer atividade, eu acho que não é só na noite. Falo da noite porque é o meu meio, é o meu espaço, que eu sou vampiro. Mas pode ser em qualquer contexto. Pode ser no ginásio, os crossfiters também se conhecem uns aos outros, mesmo em grupos religiosos, políticos. Normalmente têm a fama de se relacionarem muito fechados, são muito fechados.
Mas já têm aquele ponto em comum.
Exatamente, porque têm um ponto em encontro que já é o ponto em comum de todos. Mas acho que isso é engraçado e é importante conheceres as pessoas dentro da tua área de interesses, conheceres pessoas novas, porque depois essas pessoas novas vão te apresentar outras pessoas novas e vais fazer outros amigos, novos amigos. E é assim que a vida é boa de se viver, porque é assim que tu evoluis. Eu adoro conhecer pessoas porque acho que acrescentam-te sempre alguma coisa, nem que seja mau.
Mas tens de estar aberto a isso também.
Sim.
Muitas vezes eu acho que nós passamos a vida a reclamar por não ter alguém ou por não aparecer a pessoa certa, enquanto estamos sentados no sofá.
Tens medo. Sim, porque imagina, até podes conhecer uma pessoa que não conheces muito bem. Tens um colega de trabalho. Ele diz: "Vou a um bar, queres vir?" Normalmente vais dizer que não. "Tenho uma cena marcada." Não tens, mas vais dizer que não, porque vai ser cringe, nem o conheces muito bem. Vai. Eu sou desses. Eu posso conhecer uma pessoa há um mês e essa pessoa diz: "Estás aqui à beira da minha casa, queres ir ao shopping? Vamos." E vamos ao shopping. E eu falei com a pessoa duas vezes, mas está tudo bem. Passado um mês já somos amigos porque eu cultivei. E agora pode ser medo: "Não vou ter assunto, não vou ter o que falar." Se a pessoa com quem tu vais ter assunto é uma pessoa que tu não conheces, porque tens tudo para lhe contar. Então eu gosto muito de conhecer pessoas novas e começar novas amizades, porque eu acho que começa sempre do zero e tem sempre aquele entusiasmo, e depois mantém-se, as que se mantêm, as que não se mantêm, tchau. É isso, faz parte da vida.
Mas acho que temos medo da rejeição, por isso é que ficamos tão na nossa bolha, muitas vezes.
Sim, eu acho que sim. E depois eu acho que quando conheces uma pessoa nova, tu tens que te explicar à pessoa, tens que lhe contar sobre ti.
Tens que fazer com que ela goste de ti.
Ou não, ou tens que lhe contar quem és tu.
Mas eu acho que nós vamos muitas vezes, no dating, vais muitas vezes naquela de: eu quero que aquela pessoa goste de mim, então vai ser toda uma pressão e vou mega nervosa para conhecer aquela pessoa da primeira vez. Não tem contexto nenhum e eu tenho que fazer com que ela goste de mim, porque vamos numa de termos de agradar o outro.
Sim, isso é o pior.
Temos de ter alguém. Eu acho que é muito isso.
É a autoconsciência. Eu acho que quanto mais tu tentas, menos consegues. Eu acho isso. Eu nunca tive isso, que eu tenho essa alma punk. Eu sempre tive uma relação com os outros assim, eu não quero muito saber.
Não procuras a validação.
Não procuro mesmo. Acho que isso é das coisas que eu mais gosto em mim. Nunca procurei validação. E mesmo quando sei que há pessoas que me detestam, isso nunca me tocou porque eu detesto-as provavelmente mais ainda.
Mas é teres muita confiança em ti.
Sim, talvez. Talvez também porque sou muito no meu mundo, estou sempre na minha cena, passa-me tudo ao lado. Sou uma pessoa muito pouco antenada. Quando estou com os meus amigos, podes perguntar, estou eu e os meus amigos. As pessoas à volta não dão render, são só lá, são NPCs e eu não olho para ninguém, eu estou sempre na minha cena. Então os outros, mesmo as pessoas que eu gosto, por muito que eu goste de alguém, eu vou fazer o que eu vou fazer. Quer tu aches que é bom ou não, eu vou fazer. E se eu errar, eu vou errar.
Isso é a melhor maneira de atraíres as pessoas que fazem sentido.
Claro, e as pessoas gostam disso porque nada é melhor do que uma pessoa que se garante, porque ninguém vai duvidar de ti se tu acreditares em ti. E eu sempre levei isso na cabeça, eu acredito muito no meu taco, no meu jogo. E se tu acreditares, tudo bem. Se não acreditares, tudo bem, eu não preciso disso. Eu preciso de eu acreditar. Na verdade, tu é que vais fazer contigo, não é mais ninguém.
Mas tu sempre foste assim ou foi uma coisa que foste trabalhando e construindo?
Sempre fui um bocado assim. Acho que é uma coisa que nasceu comigo.
Isso é ótimo. Acho que não é nada fácil chegar a esse ponto.
Mesmo com os meus pais, eu amo os meus pais, mas nunca procurei validação do papai e da mamãe, nunca me interessou isso para nada. Eu sempre cheguei aos meus pais e disse: "Eu vou fazer isso, isso e isso." E eles tinham a reação que queriam ter, eu respeitava.
As consequências também depois és tu que as lidas.
Sim, mas eu ia preparado para elas. E atenção, a minha mãe era muito rigorosa na minha educação Eu tinha de saber um desporto, um instrumento musical, uma língua estrangeira, tinha que ler um livro por mês. Ela era muito rígida na minha educação.
E tu cumprias isso?
E eu não queria fazer nada e lutava muito psicologicamente com ela. Ainda bem que ela venceu, porque senão eu não sabia fazer nada. Portanto, agradeço-lhe muito por esse rigor, porque eu também tive que ser educado assim, porque eu sou muito wild child e eu queria era fazer o que me apetecesse e estar a desenhar e a pintar e whatever.
Um criativo.
É, e eu não queria seguir regra nenhuma, não queria saber nada, quero lá saber.
Tu defines-te muitas vezes no livro como freak. Tu achas que isso te ajudou a chegares onde estás agora?
Imagina, eu gosto dessa palavra porque é uma coisa que as pessoas, não vou dizer velhotes que é mau. Os boomers, digamos, as pessoas mais velhas, a geração dos meus pais. Os meus pais não são assim tão velhos, antes dos meus pais, digamos, por aí.
Avós.
A minha avó tem 93 anos, então a minha avó ainda é de outra geração anterior, mas digamos dos boomers e gen X, especialmente os boomers, que são as pessoas que tinham 20 anos nos anos 80, que é uma geração muito interessante, porque foi uma década muito interessante de se viver e onde aconteceram muitas coisas más e boas, mas culturalmente foi muito rica. E os boomers têm uma maneira de ler a sociedade que não tem nada a ver com a nossa, porque eles são de uma altura onde a sociedade era sectarizada, que era uma altura da Guerra Fria, do Muro de Berlim, onde sociedade dos muros. E depois disso acabar, bem, a parte do bem, então vamos todos dar as mãos. E não resultou assim tão bem. Senão estávamos na situação precária que estamos hoje como sociedade. E os boomers têm essa cena do: tens os freaks, tens os normais e é isso. E há uma linha no chão que separa. Isso parece agressivo e cruel, mas nem sempre é, porque eu sempre fui freak, as in fora da norma. E eu sinto que a minha família e os boomers sempre tiveram aquela cena do: os freaks têm um universo só deles, então nunca cobraram nada de mim, nunca esperaram. Eles sempre me deram liberdade respeitável.
Mas João, o que tu te defines como freak na tua vida? O que tu achas que és freak? Na tua forma de pensar, na forma de seguir carreira?
Sim, eu acho que freak é no sentido onde tu olhas para as normas da sociedade e em vez de aceitares e te partires para caberes em sítios X ou Y, tu partes as coisas à tua volta para entrares onde quiseres. Isso é freak porque isso é fora do sistema, isso é fora da norma. Eu quando era no infantário, quando era bebê, tinha quatro anos ou cinco, quis ir vestido pra escola e fui. E é isso. Eu vesti um vestido e fui pra escola vestido. E a minha mãe disse: "Quer ir vestido pra escola, vai. E vai lidar com as consequências disso e é isso". Eu andei numa escola em Gaia, superduvidosa, e fui com uma mochila de rodinhas do Winnie the Pooh. E tinha colegas meus a ser presos.
Mas é fixe a tua mãe ter te deixado fazer o que tu querias fazer.
Sim, ela disse: "Não, quer a mochila, vai levar a mochila e é isso". E levei bisgas na mochila e biqueiros, mas eu fui. E no dia seguinte, levar bisgas e biqueiros na mochila, estava lá a mochila outra vez. Então é isso, eu sou destemido. E o freak é isso, é eu questionar as regras, é eu dizer: por que as minhas primas, porque são mulheres, não podem fazer isto e eu posso? Por que isso está a acontecer? Eu acho que isso vem um bocado do meu avô. Porque eu sempre senti isto em criança, em adolescente. Uma espécie de sentimento de não pertença, de olhar para os adultos e de testar os adultos, que eu pensar: eu não sou essas pessoas, eu não quero ser essas pessoas. Eu não gosto da vida deles, eu não gosto do que eles fazem, eu não gosto do que eles são, eu não gosto dos carros, das casas, dos trabalhos, do IRS e o imposto de selo. Eu não gosto disto, eu não quero isto. E olhar pra eles e pensar: eu não sou um deles, eu nunca vou ser isto, eu não quero ser isto. Então aí sentia-me freak, eu sentia: eu sou sozinho.
Mas não tinhas nada que tu olhasses a outras pessoas e que tu vias e que pensavas-
A única pessoa era o meu avô.
Ok.
O meu avô, que era um homem normal, mas era freak no sentido onde ele era a única pessoa ali que fazia perguntas. E que no aniversário eu dizia: "Então, avô, parabéns". E ele: "Parabéns, não, que eu estou a morrer, parabéns vais dar aos bebês do hospital que estão a nascer". Odiava fazer anos. Eu não festejo aniversários, por exemplo. Não quero saber da idade. E meu avô era assim, mas era a única pessoa que fazia essas perguntas, porque a minha família, que eu amo, mas são pessoas muito normais, do subúrbio, classe média, funcionários públicos, pessoas normais, que são essenciais, muito mais essenciais do que eu. Elas é que são as essenciais, eu posso ir. Se eu morrer amanhã, o mundo segue. Agora, se o lixeiro morrer, é menos um.
Mas também tu foste essencial pra questionar.
Sim, talvez, mas em termos práticos, não. Porque as pessoas às vezes acham que eu estou a desmerecer as pessoas normais, as pessoas convencionais. E não, pelo contrário, é muito mais importante a posição de um lixeiro na sociedade do que a minha. Porque se o lixeiro morrer amanhã, o lixo está na rua. E se eu morrer amanhã, é dia na mesma e a cidade continua. Então é isso, eu não estou a desmerecer, acho que as pessoas normais são importantes. Simplesmente, eu não sou uma delas, normais no sentido convencional. E o meu avô sempre foi esse beacon de alternatividade, porque ele era um homem normal, mas ele era assim: não queria o Natal, por que vou ao Natal? Jesus já nasceu há 2000 anos. Já foi, parabéns. Ele dizia essas coisas assim, ele era engraçado, tinha esses takes. Uma vez o melhor amigo dele morreu e eu fui à casa dele, ele estava em casa, eu disse: "Vô, não vai ao funeral do seu amigo?" Ele: "Não, também não vai ao meu." Percebes? Era assim superpunk, tinha a alma punk. E eu adorava aquilo, e ele era a única pessoa que fazia estas perguntas. E eu sempre senti no meu avô a gênero. Não estou sozinho, porque ele é velhote, ele viveu isto tudo, ele tem estes filhos todos. Não era um homem de grandes ciências, era um homem normal de Gaia, era um homem normal, mas tinha essa coisa. Eu pensei: "Ok, eu percebo o que ele está a dizer."
E eu também quero fazer perguntas.
Sim, eu consigo me entender que eu não estou sozinho, porque ele também é assim. Ele também vive sobre a sua espada, que é uma coisa muito importante e que só ele o fez. Quer dizer, eu vou fazer o que eu quero E vou ser eu a pôr o tom da minha vida. E eu gostava disso e cresci muito à imagem dele e disso.
E tu não achas que se calhar usas isso também como escudo pra teres a liberdade de poderes fazer aquilo que te apetece?
Completamente. E eu prego muito essa verdade.
Tu pões essa tua label pras pessoas nem terem a vontade sequer de dizer alguma coisa.
Sim, podem dizer, mas eu acho que tens de te garantir. Mas pra isso tens que saber quem és. E acho que nenhum de nós sabe 100%, mas há pessoas mais próximas e mais distantes. Há pessoas que não sabem nada sobre si próprias. Eu sinto que já sei alguma coisa. Sempre procurei saber, isso é que é o mais importante, porque quanto mais tu procuras saber sobre ti, mais vais encontrar e mais vais deixar por descobrir. É como história. Eu estudo história, mas quanto mais sei, mais burro estou, porque mais há pra saber. Então quanto mais sei de uma coisa, tenho que saber de outra. Então quanto mais sinto que sei, menos sei. Eu me sinto mais burro agora do que quando não sabia metade das coisas que sei.
Mas o que tu queres dizer com conhecer-se a ti? É fazeres terapia, é as pessoas que vais conhecendo, que se vão cruzando?
Pode ser. Eu acho que tu: quem é que tu és quando estás sozinha e quando não há nada? O que tu queres fazer? Eu tive uma professora no liceu que me disse: "Na cena vocacional, o que vocês fazem quando não têm nada pra fazer?" "Eu desenho." "Então é isso que tu tens que fazer, essa é a tua vocação." "Eu organizo." "Eu vou organizar." "Essa é a tua vocação. O que tu fazes quando não tens nada pra fazer? Qual é o teu go to?"
Tu lidas bem quando estás sozinho?
Muito. Sou filho único. Tenho uma família muito grande, muitas primas, mas eu gosto muito de estar sozinho, porque eu me entretenho muito. Eu gosto muito de pintar, desenhar, escrever. Agora, eu tenho um problema que é: eu não consigo não fazer nada. Desde criança, eu não consigo estar assim. Um filme eu ainda consigo, porque eu gosto de cinema, mas estou a ver televisão, estou no telemóvel, estou a editar.
Estás a pensar em editar, a fazer outra coisa e trabalho.
Não, já estou a fazê-la. Eu gosto de estar sempre a fazer alguma coisa. Se não há a fazer, pego num caderno e estou a desenhar, estou a pintar, estou a escrever.
Mas achas que também não pode ter a ver com estares a construir o teu negócio e ter sempre coisas pra fazer?
Sim, mas eu sempre fui assim desde criança. Eu estava a ver televisão e a desenhar. Eu preciso estar sempre a produzir coisas. O que quer que seja, entendes? Até pode ser fazer um boneco num guardanapo, mas eu tenho isso, preciso estar sempre a produzir alguma coisa. É uma obsessão, é o meu go to, é a minha maneira de estar sempre são. E de exprimir tudo, porque eu acho que o problema é que as pessoas reprimem tudo. E eu acho que só consegues te conhecer e ser saudável quando exprimires demasiado. E eu recebo muitas perguntas das pessoas a dizer: "Eu acho que sou too much, que digo demasiado, que mando mensagens muito grandes e tenho que começar a me contiver." Eu digo: "Não, é exatamente o contrário. Continua. Eu sei que pode ser exaustivo pros outros, mas é importante pra ti. E no fim, os outros vão, mas tu ficas. Então faz isso, manda a mensagem."
Sim, e a pessoa que vai fazer sentido pra ti vai estar, mete nessa energia.
Exatamente. As pessoas às vezes: "Ai, não vou mandar 15 áudios." Manda 15. Eu mando 15 áudios, na boa. Mando duas horas de áudios, se for preciso. Eu tenho que dizer aquilo que eu tenho que dizer. Se a pessoa do outro lado não quiser receber, isso não é um problema meu, eu já disse. Porque o importante às vezes não é que o outro ouça, é que tu digas pra ti próprio tirar isso que está aqui dentro. Acho que isso é muito importante. E as pessoas às vezes retêm-se, têm medo de ser cringe.
Porque querem encaixar, não é?
Exatamente. Lá está, partem-se pra caber nos sítios. E eu sempre tive o mindset contrário, eu não vou partir nunca pra caber em lado nenhum. Eu vou partir os sítios pra eu entrar. Se eu não entrar, vou embora. Estou na boa. Sempre tive essa cena.
Mesmo em relacionamentos, acho que as pessoas cada vez mais procuram isso de preencher um vazio.
Exatamente.
Porque também não se conhecem o suficiente.
Exatamente.
Preencher esse vazio, então procuram as pessoas e tentam se moldar àquilo que aquela pessoa está à procura. E não é a busca pelo amor, é por não se sentirem sozinhos, não é?
Claro, eu acho que o grande erro é tu procurares nos outros aquilo que não tens pra ti. Primeiro, o amor transborda, é o que eu acho. Então eu acho que tu pra amares alguém, tens que te amar ao ponto de teres amor pra dar aos outros. Quando tu não te amas, até vi um reels da Maya Angelou, que é uma poeta e uma escritora que eu gosto muito, em que ela diz: "Alguém que me diz I love you, but I hate myself, está a mentir, porque isso não existe." Tu não podes amar alguém se não tiveres amor próprio, isso não existe. É uma mentira, porque o amor transborda, é uma cena que transborda. Tal como o ódio também transborda. Há pessoas que odeiam os outros porque se odeiam tanto a si próprias, que esse ódio transborda.
Depois são maus pros outros, não é?
Sim, porque como elas se tratam a si próprias, tratam os outros.
Por que achas que se fala cada vez mais de relacionamentos tóxicos e situationships e parece que toda gente é tóxica? Somos nós os tóxicos que falamos de toxicidade? O que achas que acontece?
Eu acho que tem um bocado a ver com o que falamos há bocado. Acho que as pessoas são pouco claras naquilo que querem, porque também não sabem, muitas das vezes. E eu acho que é mais fácil nós às vezes nos escondermos atrás dessas ideias pré-concebidas e cenas pré-feitas da cena do tóxico, etc, que é real em muitos casos, mas que há outros casos que é um bom escudo pra tu não perceberes o problema que tu tens. Porque imagina, se tu tiveste 10 relações tóxicas com ex-relações e amigos, há um denominador comum que és tu. Os americanos dizem: "Everybody cannot be telling the same lie." E é verdade. Se há 11 pessoas que não gostam de ti, o problema não são as 11 pessoas, lamento. Isso é matemática, é estatística. Se tu tens oito ex-relações tóxicas, desculpa.
Mas depois existe também aquela de: "Eu acabo por cair sempre no mesmo padrão. A culpa é minha, porque estou a escolher mal."
Sim, mas até que ponto tu não és um dos denominadores comuns das relações tóxicas? Até que ponto é que a tua permissividade ou a tua ausência de não consegues pôr um travão porque não te conheces, tens medo, insegurança, isso tudo vem. Isso também provoca reações tóxicas, porque a insegurança, e nós temos esta cena das pessoas inseguras, coitadinhas. Não, as pessoas inseguras são levadas a fazer coisas que são verdadeiramente atrozes porque se sentem desesperadas, sozinhas, inseguras e depois fazem coisas por ciúmes, fazem coisas por inveja, que são coisas atrozes aos outros, porque é assim que elas se tratam a si próprias. E às vezes isso leva-te também a criar as dinâmicas tóxicas. Agora, acho que nós usamos muito facilmente qualquer palavra e hoje diz-se qualquer coisa. Eu acho que é muito fácil tu hoje dizeres qualquer coisa. Então eu acho que nós devemos resguardar certas coisas. Acho que nós muito facilmente vamos para qualquer chavão. Uma relação tóxica é uma coisa específica, é uma coisa onde há manipulação emocional, onde há violência verbal, física, onde há uma dinâmica de codependência emocional, isso é uma relação tóxica. Agora, uma relação que tu discutis por causa de um prato: "Ah, isto é tóxico." Não, não é tóxico, isso é uma relação. Porque nós agora temos esta era que eu detesto, que é a super tudo tem que ser sanitário, tudo tem que ser salubre. Isso irrita-me, porque: "Eu vou me preservar." Então se tu vais preservar, cala-te e não vais ter relação nenhuma. O self-preservation. Então se é self-preservation, filha, vais para um convento e ficas lá. Isso é self-preservation, és tu e Deus. Porque tu nunca te vais preservar, porque o ser humano é um bicho de falhas. Tu vais sempre ter discussões, tu vais sempre ter problemas, tu vais sempre ter dor de cabeça. As relações são isso, são aturar o outro. Isso é uma relação. Agora, não pode ser um ponto que seja tóxico e não pode ser um ponto que não seja saudável para os dois. Agora, vai haver discussões. Nós não podemos salubrizar as relações humanas, porque isso não existe. O ser humano não é um robô ainda. Quando for, tudo bem, mas enquanto não for, isto é quem nós somos.
Achas que quem diz: "Eu tenho uma relação ótima, eu não discuto nunca." Não está tudo errado?
Está. Acho que está. Imagina, eu acho que há pessoas para tudo. E há realmente pessoas que são tipo chill guy a um ponto isósceles, e que não se chateiam com nada e que são só numb e são apagadinhas da vida e uma é apagadinha, a outra também é apagadinha e vivem felizes assim. Eu adoro, acho ótimo. Agora, há outras que não discutem, mas também não falam. Então aí é fácil. E que vivem uma vida bege. Vamos à sushi, vamos ao paddle, vamos correr, vamos nadar.
Mas aí não consegues depois entrar naquelas camadas que falamos no início, não é?
Não consegues e se calhar nem queres. E está tudo bem, porque nem toda a gente tem que o fazer. E é melhor que não faça muitas vezes, porque há pessoas que não vão sustentar isso. Porque há coisas, quando tu vais profundamente a uma pessoa, tu vais encontrar coisas muito dark. Muito difíceis de digerir, mesmo com a pessoa, porque a pessoa vai chorar, a pessoa vai estar mal, a pessoa vai descobrir coisas sobre ela que não quer descobrir. Tu vais mexer em coisas dentro da pessoa que a pessoa não quer que tu mexas, vai te ressentir, vai te odiar. Será que é um caminho que tu queres fazer? É interessante, é bom e é raro. Eu já fiz, mas não é para toda a gente. E olha que eu tenho um emocional duro, mas mesmo assim quase não sustentei. E doeu, foi duro. Então não é para todos, tens que sustentar. Não é para toda a gente.
Tu falaste ali no livro, vou ler aqui um exemplo de um dos dilemas que tu falaste que eu queria trazer. Força. Para trazer aqui um tema e vou dar este exemplo que tu falaste que é: casal amigo, ele está constantemente a meter-lhe os cornos, inclusive com amigas do grupo. Engravidaram e convidaram-me para o baby shower e quando revelaram o sexo da criança, uma das nossas amigas decidiu revelar a todos que também está grávida dele. O que achas deste tipo de comportamento tóxico dos homens no geral? O tema que eu quero falar aqui é da masculinidade tóxica, que depois também abordaste no livro. Uma amiga minha, há uns tempos estávamos a falar sobre traições, e ela disse-me assim: "Uma mulher só trai quando está infeliz. O homem trai quando está infeliz e quando está feliz na relação, porque todo homem trai." O que tu achas sobre isto?
Acho que não é verdade. Primeiro, eu não gosto das relações de gênero, porque eu não acredito em gênero, acho que o gênero é uma construção social. Então eu tenho problemas com os homens e as mulheres. Para mim, é o macho e a fêmea, que é o que há na biologia, e o resto são constructs. Agora, acredito que as mulheres são socialmente formatadas para ter certos comportamentos e os homens para ter outros. Isso eu acredito, então acho que as diferenças vêm daí, não é biológico.
E socialmente.
Ya, é uma coisa não é biológico.
Se olhares para trás, era assim.
Exatamente.
As mulheres ficam em casa, cuidam da família e os homens podem andar aí.
Exatamente.
Fazer o que lhes apetece.
É esse construct. Mas eu acho que, primeiro, não acho que todos os homens traem, nem acho que todas as mulheres são fiéis, de todo. Acho que há pessoas que traem, há pessoas que não traem. Agora, o que eu acho? Acho que há uma permissividade maior para os homens se comportarem como imbecis do que as mulheres. Isso aí eu acho. Por quê? As mulheres são mais responsabilizadas na sociedade que os homens. Os homens são desresponsabilizados pela sociedade porque são tratados como bebês pelos pais, pelas mulheres, pela sociedade, pelos amigos. Isso eu acho. Então acho que socialmente, há uma permissividade maior para os homens boys will be boys.
Para se justificar a pranteamento.
Deu um soco, traiu. Deixa-o estar.
Já se espera isso dele.
Coitado do rapaz. Ouviste os velhos dizerem isto quantas vezes? Matou não sei quanto. Coitado do rapaz, não estava bem, está desempregado. Matou a mulher. Coitado. Quantos velhos tu ouves a dizer isto? Percebes? Então o homem é desresponsabilizado, porque a sociedade é patriarcal e é machista. Então isso aí é ponto assente. Por isso eu acho que existe mais esta cena. E depois também há a masculinidade tóxica, que impede os homens de se abrirem e faz essa lavagem cerebral de que vulnerabilidade é fraqueza, e não é Porque eu sei ser vulnerável e eu sou forte, mas duro mesmo como cornos, aguento qualquer barra e sou vulnerável. Tenho que ser pra me conhecer. É um caminho básico, mas aos homens não é isso que tu dizes.
Mas eu acho que isso tem vindo a mudar.
Claro que sim.
As novas gerações já-
Exatamente. Eu acho que como isso tem vindo a mudar-
Os homens já falam abertamente de terapia, de sentimentos, acho que já estamos a mudar também isso.
Porque olharam para os seus pais e perceberam que o caminho ou era esse ou aos 60 anos estávamos todos malucos. E não queremos. Não que eles estejam, mas muitos deles estão. Sim, acho que existe essa permissividade, mas acho que o adultério vem dessa cena de pessoas que têm medo, sempre medo. As pessoas têm muito medo umas das outras. O que eu mais recebo muitas vezes é: "ai, eu traí e não contei porque tenho medo de magoar." Já magoaste, entendes? Eu acho que as pessoas não conseguem comunicar, não conseguem falar, têm medo de si próprias e dos outros, porque o medo que elas têm de si é igual ao que elas têm dos outros. Então eu tenho medo de chegar e dizer, e ser honesto. Imagina, eu não entendo. Se eu tenho uma relação contigo, se eu te amo, se eu te escolhi pra estares na minha vida, se eu te escolhi pra estares do meu lado e eu fiz asneira, fui sair à noite, dei um beijo na boca a alguém. Então eu não vou à pessoa que eu mais amo na vida dizer: "olha, eu fiz isto, foi o que eu fiz, não queria ter feito, nem sei quem era a pessoa."
Porque achas que depois já puseste em causa o relacionamento.
Claro, é isso. Mas imagina, tem que haver mais bravura, mais honra. E eu sempre dei o peito às balas. Eu nunca traí ninguém. Também não fui muito monogâmico durante muito tempo, mas enquanto fui, nunca fui, porque nunca compreendi esse conceito. Talvez eu sou muito bravo. Eu acho que se eu tiver numa relação monogâmica e eu tiver atração por outra pessoa, eu vou dizer. Eu vou dizer, porque isso é um problema da relação.
Mas tu achas que a traição vem de uma monogamia exigida?
Não, acho que a traição vem de falta de diálogo, de comunicação e de pessoas que cedem rapidamente aos seus desejos primários, porque a monogamia, como eu disse na rádio, levei um backlash e arrastaram-me na lama, mas vou dizer outra vez. Monogamia ultimately é uma escolha, porque atração tu tens, nem que seja pelo Chris Hemsworth. Nem que seja pela Megan Fox. Tu tens atrações, tu tens fantasias.
Tu cedes ou não.
Tu cedes ou não. E a tua vontade de ceder também é diferente de pessoa pra pessoa, porque há pessoas mais sexual do que outras. E há pessoas onde isso lhes fala mais do que outras. Há pessoas que para contrariarem um desejo, sofrem mais do que outras. Há pessoas mais racionais.
Mas achas que é sempre sexual?
Não, acho que é em tudo, mas no sexual também. Na questão do adultério, porque essa é a cena da fidelidade. Porque o adultério é isso. Agora, eu acho que trair, pra mim, é falta de caráter. Sinceramente, não há outra explicação. "Ah, foi uma fraqueza." Sim, se foi uma fraqueza, imagina, há vários tipos de traições. Pra mim, o adultério, como eu digo no "Dr. Love", é mentira, é manipulação, é o gaslight. Agora, foste sair, estavas bêbado, deste um beijo, não sei quem. No dia seguinte, acordas, vais imediatamente à tua namorada e dizes: "olha, isto aconteceu. Eu dei um beijo nessa pessoa." Até porque isso pra mim é uma prova de confiança. Ela vai saber que se tu fizeres asneiras, já ia dizer um palavrão, se fizeres asneiras, tu vais chegar e vais contar. Então eu posso confiar, porque sei que isto não volta a acontecer, se voltar, ele vai me dizer. Então é até uma prova de confiança, até vais melhorar a relação, porque vais mostrar à pessoa que assumes um erro, sabes que erraste, tens consciência disso, não queres voltar a errar e que lhe vais contar sempre. E as pessoas não fazem isso, fazem o contrário, escondem, andam a inventar.
Até que depois descobre.
E depois descobre-se e aí já é irreparável, porque aí tu já mostraste que não tens caráter, porque mentiste na cara de uma pessoa que juraste que amavas, que ias construir uma vida a dois e mentiste na cara dela. E depois como é que recuperas disso? A confiança é de cristal. Depois de se partir, muito dificilmente. Dar, dá, mas não é fácil.
Qual é que é a maior vulnerabilidade que tu tens nas relações? Não o Dr. Love, tu.
Eu tenho alguns traços que eu não gosto muito nas relações. Tenho um traço que não sei se é tóxico, mas é um bocado idiossincrático pra mim, contraditório. Que é, eu tenho um bocadinho de macho alfa, mas eu sou assim com os meus amigos, podes perguntar aos meus amigos, eu preciso de ser o pai grande.
Controlar?
Não é controlar, é cuidar. Tenho uma coisa paternal, maternal muito grande pelas pessoas que eu gosto. Então eu gosto de saber que as pessoas contam comigo pra estar lá pra elas a todos os momentos. Eu tenho essa necessidade. Então eu preciso que precisem de mim para providenciar o que quer que seja.
Então se não te pedem ajuda ou opinião, tu ficas ofendido por isso?
Não fico ofendido, mas gosto que as pessoas façam isto. Gosto de me sentir precisado e gosto de saber que conto. Gosto de ter a certeza que as pessoas que eu amo, têm a certeza que o que quer que dê errado, eu sou a pessoa que elas vão recorrer, porque eu vou resolver, nem que eu tenha de matar um leão à dentada, eu vou resolver. E eu quero que as pessoas saibam isso, e tenho essa necessidade, preciso muito disso. Acho que é o traço que eu menos gosto. Agora, vulnerabilidade. Não sei, tenho algumas. Acho que essa talvez seja a maior, ter um bocado complexo de papai e de mamãe. Freud explica, talvez, ou o psicólogo também pode explicar. E já explicou um bocadinho. E o resto não é uma vulnerabilidade, é uma exigência, mas isso se eu não sou monogâmico, acho que já não conta bem, que é eu sou muito ciente do meu espaço Eu nunca admiti ciúmes, mesmo quando era monogâmico. É uma coisa que pra mim não existe, não pode acontecer.
Mas tu sentias e não dizias?
Não, eu não sentia, porque eu aí já sou mais racional e não consigo. Como eu se calhar não sinto tanto isso emocionalmente, racionalmente pra mim é inexplicável, porque eu sempre me garanti. Eu acho que tens de garantir.
Mas tu também não tens esse sentimento de posse, de querer possuir o outro, não é?
Exatamente, não tenho.
Se calhar tem a ver com isso que tu dizes. Não diz "a minha namorada".
Não gosto disso. Eu acho que como não tenho essa cena de posse, custa-me muito que as pessoas o façam comigo. Pra mim é: estás chatativo, tchau. Eu já tive uma relação onde não houve uma cena de ciúmes, que eu nunca tive grandes problemas em relações, sempre foi tudo muito normal, green flag. Nunca tive uma relação tóxica, quer dizer, mais ou menos, mas não a um ponto isósceles. Mas tive um problema de ciúmes, etc. E eu disse à pessoa: "Imagina, a próxima vez que tu me puseres em causa, eu não só acabo contigo, como eu nunca mais te falo, porque tu estás a pôr em causa a minha palavra. Se eu estou a namorar contigo monogamicamente, e se eu te disse que somos exclusivamente fiéis, sexualmente um ao outro, isto é a minha palavra. E se eu te dou a minha palavra e tu duvidas dela, tu estás a implicar que eu sou mentiroso. Então eu não vou ser amigo, nem andar com uma pessoa que duvida de mim e que está a implicar a minha palavra." Eu aí sou um bocado japonês. Eu tenho a minha honra e não mexam com isso. Se eu te dou a minha palavra, eu sou um homem de palavra. Se eu te dou uma palavra de uma coisa, eu vou até o fim. Não interessa o que acontecer.
Mas o ser humano tem erros e falhas.
Claro, mas imagina, eu estou te a garantir isso, tu gostas de mim e tu tens que acreditar e confiar em mim. Se tu não confias, se tu estás a me pôr em causa, não me amas, foda-se. Sorry, tinha que dizer um palavrão, pelo menos. Tinha que ser.
I will allow it.
Ok, boa. Mas é isso, pra mim não dá. Agora, há ciúme refletido, mas é só que lida com ele, vais contar, compras um gato, falas pro gato, escreves no diário, I don't care. Não tragas isso pra relação, não quero saber. Lida.
Algum dia te vês a ser monogâmico outra vez?
Olha, o Saramago diz uma coisa que é: há duas palavras que nunca se dizem, sempre e nunca. E eu não gosto. Então eu nunca vou dizer nunca, nem nunca vou dizer sempre, porque não há sempre e nunca. Nem nós estamos pra sempre, o que fará o que nós achamos. Nós vamos morrer, tudo isso vai desaparecer. Então não vou dizer que não. Talvez, quem sabe? Não fecho portas. É uma coisa que pra mim não faz sentido agora. Agora, as pessoas acham sempre que eu acho que a monogamia é errada. Não é errada, não há sistemas errados. Há sistemas adequados pro que tu és e o que tu queres fazer na tua vida. E pra mim, o adequado, agora, não é a monogamia. E pros meus valores de agora, que podem mudar, quem sabe? Se calhar até bato mal e vou pra uma seita qualquer. Junto naquelas seitas.
Ou se calhar encontras alguém que achas que faz sentido.
Talvez, mas tinha que mudar os meus valores todos, porque eu acho que é mais que eu não precise disso. E a monogamia é uma coisa que prende certas partes de mim que eu não quero. Então é uma coisa que tem a ver comigo e não com os outros. Eu não ser monogâmico é sobre mim, não é sobre os outros, de todo, porque as pessoas acham que eu não sou monogâmico porque quero andar com várias pessoas ao mesmo tempo. E é mentira, porque eu sou, provavelmente, menos promíscuo que tu conheces. Eu sou zero promíscuo, sou muito pouco sexual, sou muito fechado, confio em muito poucas pessoas. Pra eu dormir com alguém ou fazer sexo com alguém é muito difícil. Podes perguntar aos meus amigos, eu sou muito difícil, tenho essa fama na cidade e tenho proveito, porque é muito difícil alguém me sacar. Então é isso, eu não sou monogâmico porque imagina que nós temos uma relação e eu tenho períodos da minha vida onde eu não tenho líbido, eu não penso em sexo, eu não quero fazer sexo. E eu não tenho o direito de prender uma pessoa a mim, porque numa relação monogâmica, a tua liberdade sexual é diretamente ligada à minha. Então tu só fazes sexo se eu quiser. Se eu não quiser, tu não fazes. Fazes sozinha. Percebes? Então eu não me sinto no direito de privar uma pessoa de se explorar sexualmente, de ter tesão por quem quer que seja. Porque eu não quero? Por que as tuas vontades, os teus sentimentos hão de privar o outro? Eu não percebo isso. Então eu quero dizer às pessoas com quem eu ando: "Olha, eu não quero pensar em sexo nos próximos tempos, vamos sair, estamos na boa, vamos ao zoo, vamos ao cinema, falamos, podemos dar beijos, mas eu não quero fazer sexo. Queres fazer sexo? Tens aí o mundo inteiro pra explorar." E eu quero saber isso. Quero saber que as pessoas que eu amo, que eu gosto e que eu me envolvo, estão felizes, livres e capacitadas a fazer o que quiserem. E que se quiserem me contar: "Olha, vou fazer sexo, aconteceu isto, correu assim". Isso já aconteceu comigo e eu adoro, acho superinteressante. Nunca tive essa cena a sério, porque eu garanto-me, eu sei quem eu sou, eu sei o que eu trago e sei que os outros são os outros, eu sou eu, cada um traz o que traz e nunca ninguém vai ser melhor ou pior do que eu, cada um é um.
Mas então estás sempre a associar a monogamia à parte só sexual. E se entrarmos aqui no tópico de construir família, tens esse objetivo? Como é que tu vês isso?
Imagina, eu trago só o sexual, porque eu acho que o problema mais popular da monogamia é a fidelidade. Porque é a coisa que a distingue dos outros sistemas. É a fidelidade sexual, a tua liberdade sexual é o outro, é a vida a dois no seu apogeu. E eu não acredito na vida a dois, no seu apogeu. Eu acho que o ser humano não é a dois. Pra mim, isso não existe. Isso é uma coisa que a Igreja inventou, que a sociedade das trevas inventou. O dois. Nós nunca fomos dois. As tribos não são dois. Aliás, as crianças são criadas até aos dias de hoje, mesmo na nossa sociedade, muitas vezes nas sociedades latinas ou latino-europeias, são criadas pelas famílias. Eu fui criado pelos meus pais, mas também pelos meus tios, pelas minhas primas, pelo meu avô, pela minha avó Então tu és sempre criado em comunidade. Qual a diferença disso e uma tribo que cria as crianças em tribo? É parecido. Eu estava com as minhas primas em casa da minha avó, com as minhas tias. Eu fui criado por todas aquelas pessoas.
Mas a nível estrutural é muito mais fácil duas pessoas se organizarem para cuidarem de um ser. Como é que vais dividir tarefas com várias pessoas a criar uma pessoa só? Ou seja, a nível estrutural é só facilitar.
Claro, mas se tu fores ver a coisa na prática e na verdade, eu sou filho dos meus pais, que eram casados superconvencionalmente, pessoas completamente convencionais, mas eu fui criado pela minha família, porque a minha mãe trabalhava das 9 às 18 e meu pai trabalhava das 9 às 18, e eu tinha uma vida. Então a minha tia saía às 16, ia me buscar à escola, a minha avó levava-me até ir para o cabeleireiro às 18, depois a minha outra tia ia me buscar, porque a minha mãe só saía à noite. Então os meus pais criaram-me os dois, mas na verdade eu passava tanto tempo com eles como com a minha família. Eu fui criado em comunidade. E eu estou a dizer isso porque eu sei que a maior parte das pessoas a ouvirem isto foram criadas em famílias também grandes e numerosas, e foram criadas assim: na casa das avós, na casa da tia, com a prima, com não sei quem, a prima vai buscar à escola. Porque eu sei que essas famílias são muito comuns em sociedades portuguesa, italiana, são coisas muito latinas, de famílias muito numerosas, muito grandes. E eu acho que isso é uma coisa normal. Agora, essa coisa de a vida a dois é o pilar da família, não. O pilar da família é a família, quer seja a família que seja.
Sim, mas não deixa de ser um produto genético de duas pessoas só.
Claro, exatamente.
Portanto, o amor e o cuidado, se calhar, vêm mais dessas pessoas. Ou a exigência, a responsabilidade.
Claro, legalmente, sim. Mas se fosse só por aí, não havia pais que são um lixo. E eu andei numa escola de pessoas muito marginalizadas e com pais problemáticos, e digo-te que 50% delas viviam com os avós e com os tios, porque os pais eram toxicodependentes ou tinham problemas e rejeitaram os filhos. E a maior parte desses amigos que eu tinha na escola viviam com os avós, foram criados pelos avós, não pelos pais. E os pais foram os que lhes deram a vida, mas depois não a quiseram. Porque os nossos pais não nos emprestaram a vida, deram-nos. E agora é isso. Há pais que são bons. Eu tive esse privilégio de ter pais que viveram para ser pais e que foram os melhores pais que existiram, mas é um privilégio. Nem toda a gente tem, até porque ser bom pai não é uma linha reta. Tu és bom pai num ano, depois no outro ano podes ser pior, depois se calhar és melhor pai de um bebê do que de um adolescente, se calhar és melhor pai de um adolescente do que de uma criança. O ser humano é de várias falências.
É, é uma construção sempre.
Exatamente, somos uma construção sempre. Então eu acho que essa coisa do casamento e a vida a dois ser a base da família, isso não é bem assim, até porque eu acho que o casamento dos meus pais nunca me interessou. Não me interessa se eles são casados. Eu não quero saber da relação dos meus pais. Se o meu pai e a minha mãe fossem irmão e irmã, para mim era igual. Eu nunca vi os meus pais darem um beijo ou não darem um beijo, isso para mim não existe. Eu sou uma criança que preciso do meu pai e da minha mãe, não preciso da relação deles, o casamento deles não me diz nada.
Mas a forma como tu vês os teus pais interagirem um com o outro em casa, isso vai influenciar imenso a forma como tu te vais relacionar de forma amorosa com pessoas.
Sim. E eu acho que a maior parte de nós, que tem pais boomers, eu não, porque os meus pais eram muito tranquilos, apesar de serem divorciados, mas sempre foram pessoas chill. Mas quantos de nós em criança presenciamos coisas que as crianças não devem presenciar, que é problemas de adultos, de casamentos, discussões, discussões de madrugada, palhaçada de casamentos, de foste ali, não vieste a esta hora à frente das crianças. Isso é mato. Isso é danoso para uma criança. Ter uma criança não é ter um gato, não é uma palhaçada. Tu estás a criar uma pessoa que vai crescer traumatizada com tudo que tu fizeres. Então tens que tentar ao máximo resguardar a criança dos problemas dos adultos. E eu fui criado assim. Os meus pais sempre disseram: "Nós não somos teus amigos, somos teus pais. O que é dos adultos é nosso, o que não é dos adultos é teu. Então sai." E eu acho que essa é a minha educação. Eu acho que é assim que as crianças devem ser educadas. As crianças devem ser educadas a serem crianças e não podem saber nenhum problema da vida dos adultos. Quando chegarem à idade para ser, vão ser. Eu fui educado assim e olha, não correu assim tão mal, porque eu estou aqui vivo, estou bem de cabeça, estou bem de saúde.
Não te sentes traumatizado, não precisaste de muita terapia.
Toda a gente tem traumas.
É o que eu estou a ouvir.
Mas estou, porque eu tive tempo a ser criança, porque os meus pais sempre disseram: "Não te interessa, não vais saber." E eu também nunca quis saber, que é um traço que também já é meu, porque eu nunca gostei dos adultos, ainda não gosto, e nunca procurei saber. Eu fechava-me no meu quarto, se estivesse lá oito horas fechado e ninguém me chateasse, era ourço azul.
Qual achas que é a tua opinião mais freak?
Eu acho que essa é uma delas. A cena da monogamia deve ser a mais polêmica.
O que as pessoas mais falam é sobre essa questão?
É isso. Isso para as pessoas é muito polêmico. Eu uma vez disse que a pessoa que eu mais amei, não tive tesão por ela. Eu disse: "O amor da minha vida foi e é uma pessoa pela qual eu não sinto tesão." E é verdade. E é a minha verdade. Imagina, nunca disse que isto é a norma. Mas eu não estou à procura da norma, isto é o que eu sinto. E também não é uma coisa do género, o amor da minha vida, vou passar a minha vida. Não, eu sei que ela é o amor da minha vida, mas se calhar ela não está na minha vida. Mas eu sei o que eu senti com aquela pessoa e sei que aquilo é uma cena que muito dificilmente se vai repetir na minha vida. Então eu sei que aquela é a minha pessoa. Agora, isso não quer dizer nada. Isso não quer dizer que aquela pessoa esteja na minha vida, porque às vezes não funciona. Porque tu podes amar uma pessoa além fronteiras e ela nunca ver na tua vida e a relação não funcionar. Isso é o que mais existe. Agora, eu interiorizei isso e eu sei isso. E depois outra opinião, a cena da monogamia e dos ciúmes, as pessoas ficam muito chocadas com eu ser tão aberto com isso. Imagina, se eu andar com uma pessoa intimamente e ela andar com outra e me contar, normalmente eu não conto, porque eu tenho essa regra de "don't ask, don't tell". Eu acho que é falta de gosto, porque acho que dentro da não monogamia, do poliamor, também há regras. Por exemplo, eu sou poliamoroso, mas eu nunca na vida vou beijar uma pessoa à frente de outra que eu tenha algum tipo de interação. Não faço isso.
Sim, mas as pessoas que se envolvem contigo sabem que não é monogâmico.
Sabem, mas à frente delas eu não vou fazer. Não é por nada de moral, é só porque é mau gosto. É quando tu vais sair com uma amiga, encontras outra e vais dançar com essa amiga e deixas a outra amiga que foste sair sozinha. Não se faz. Uma relação é igual, não vou fazer isso. Agora, as pessoas estão todas cientes, eu também estou ciente. Já aconteceu de pessoas que eu ando. Eu trabalho na noite. Beberam, estavam a beijar não sei quem. E eu não só não tenho ciúmes, como acho fascinante, acho sexy, acho bom, acho giro. E as pessoas ficam chocadas, acham que eu sou tarado e pervertido. Não, qual é o mal de eu achar sexy uma pessoa que eu gosto, que eu sinto tesão, dar um beijo a outra? Eu estou a ver um beijo que podia ser eu a dar, mas não posso, porque não estou lá. Mas estou a vê-la a dar.
Se calhar muita gente tem fantasias e não fala sobre elas, e tu és a pessoa que tem coragem para estar na net a falar sobre elas todos os dias.
Não, eu acho que não tem mal nenhum, é só sexo. Eu acho que o facto de eu não ser muito sexual, não dar muito valor a isso, me permite ver a coisa de maneira mais relaxada. Não dou muito valor a essas coisas.
Mas se calhar as pessoas não ficam com essa ideia quando veem o teu conteúdo.
Não, de todo. As pessoas acham que eu sou a bicicleta do bairro, completamente. Mas eu estou bem com isso.
Olha, e tens aqui um novo livro.
É verdade.
É um bocadinho a extensão daquilo que fazes no Instagram, não é?
Sim, imagina, é um mix, porque eu escrevi em 2022, que é o "Sui Generis", e depois nós acrescentamos os dilemas do "Dr. Love" e fizemos um compêndio. Então são as duas coisas.
E tu foste recolhendo dilemas das pessoas?
Sim, recolhemos dilemas não só online, mas ao vivo também. Muitos deles são do "Dr. Love" ao vivo.
Eu estava te a perguntar no início. Tem coisas tão rebuscadas, quer dizer, mas as pessoas inventaram?
Não, mas há aí um que até é dos mais rebuscados, que nem sequer foi online, foi ao vivo, a pessoa estava lá a perguntar.
Qual era que era? Lembras-te?
Não me lembro, mas há um aí que foi ao vivo.
Sim, tem coisas mesmo elaboradas com tatuagens e coisas assim.
Tem um da senhora idosa, que é o que as pessoas gostam, que é uma pessoa que descobriu que a avó tem um relacionamento com-
Com o vizinho.
Com o vizinho, que tem 20 e tal anos e é um escândalo. É este escândalo, tudo é um escândalo. E é tão feio isso, porque escândalo é roubar, é matar, é fazeres mal a alguém. Por que uma pessoa amar outra ou sentir atração por outra te magoa, te fere tanto? Seja a pessoa que for. Eu sou um bocado hippie nisso. Então, seja a pessoa que for, o que me interessa a minha avó estar a dar para um homem de 20? O que isso me interessa? Eu não sou ela. Esta coisa de tu quereres capturar as pessoas que tu gostas, não são teus cães.
Mas também tens que cuidar, é a náutica de proteção.
Sim, pode ser proteção, mas às vezes é muito náutica moralista de julgamento, entendes? Tipo, tu não podes fazer isto.
Sim, há uma linha muito tênue no meio.
Tu és velha, tu não podes fazer isto. Como tu não podes? A pessoa paga os seus impostos.
Sim, já é maior de idade.
Velha não é um lixo, é um eleitor, é uma pessoa independente, pode fazer o que quiser. Eu acho que até pode mais que os outros, porque está quase a deixar de poder. Então as pessoas que devem fazer são as pessoas mais velhas, porque daqui a bocado não vão poder fazer mais. Então elas mais do que as outras, façam, por favor. Se eu recebo muitas mensagens de pessoas mais velhas que me seguem, porque eu comecei com estes cursos e as pessoas mais velhas gostaram, então muitas seguem-me: "Eu tenho uma crush pelo PT no ginásio, ele até fala comigo, mas tenho medo do que os meus filhos vão achar". É tão feio isso. Tu deste a tua vida para ser mãe, criaste crianças, pagaste os teus impostos, trabalhaste como um burro e uma mula para fazer um país e chegas ao fim da tua vida, fim da tua vida não, mas à meia-idade, reformas-te e não podes ter um fling com uma pessoa que tu achas atraente. É feio isso. Nem depois da tua vida toda tu podes ter liberdade? É tão feio isso.
Mas eu acho que não é só nessa idade que nós sentimos que não podemos ter liberdade para fazer o que nos apetece.
Claro, mas nessa idade é mais porque os filhos, o que as pessoas vão achar, o que a sociedade vai achar.
Sim, tem mais o julgamento e todas essas expectativas daquilo que as pessoas já esperam de ti.
A pressão social é muito pesada.
Obrigada por teres vindo.
Obrigado eu.
Gostei muito de te ter aqui.
E eu falo muito e não me calo, portanto tens que saber.
Não, nós tínhamos aqui pano para mais uma hora de conversa. Obrigada. Gostei mesmo muito e temos aqui um novo livro.
Espero que gostes.
Eu já li e adorei. Olha, eu li tudo em dois dias, juro-te.
Eu demoro muito a ler, sou péssimo.
Não, mas este livro lê-se superfácil, depois estás ali e queres saber a próxima história. Amei.
É dinâmico.
Obrigada.
Muito obrigado pelo convite.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo ao hora do costume?