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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. E antes de começarmos o episódio, quero deixar aqui uma nota que este episódio toca em alguns temas bastante sensíveis. Portanto, se estiverem a passar por, neste momento, algum tipo de distúrbio alimentar, algum tipo de doença mental e que sintam que não estão preparados para lidar com estes temas, fica aqui o aviso. Falamos aqui com a Catarina Aires, que neste momento é mãe de dois e tem uma postura muito leve, muito alegre nas redes sociais e que partilha um pouquinho da sua vida, mas vem aqui contar a história de entre os 15 aos 20 anos, em que esteve no conservatório de dança a passar por uma fase bastante exigente, em que lidou com todas estas questões de distúrbio alimentar, de distorção de imagem, de depressão. Foi um período muito negro numa pessoa que é extremamente alegre, extremamente leve, e veio nos aqui contar um pouquinho de como tudo isso aconteceu, como é que foi lidar numa altura tão jovem, tão nova, e ao mesmo tempo, como é que conseguiu sair disso e hoje em dia estar aqui sentada superfeliz e ter encontrado uma saída, porque ela acredita que exista cura 100% para isto. Portanto, eu espero muito que vocês gostem deste episódio.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
Mas estávamos a dizer, na primeira vez que nós nos conhecemos, que me contaste logo imensa coisa sobre ti e eu pensei logo, não sei se na altura sentiste essa vontade porque me estavas a conhecer e normalmente és assim com pessoas, mas eu senti logo que eu te tinha de trazer aqui ao podcast, porque senti uma ligação muito forte contigo em vários pontos, porque eu também fiz ginástica acrobática.
Ah, fizeste?
Também passei, não de forma tão intensa quanto tu, mas por muitas coisas que tu passaste e eu consegui me rever em várias conversas, mesmo do viver fora e tudo mais. Acabei por me identificar muito contigo e sentir ali, sabes o trauma bonding?
Sim.
Eu senti logo imenso isso e sinto que aquilo que estavas a dizer, ser vulnerável, acaba por nos unir. Parece que encontras ali pontos em comum. E que acaba por ser mais uma força do que propriamente uma fraqueza.
Completamente.
Tu sempre conseguiste te abrir dessa forma ou sentes que foi uma coisa que foste trabalhando e hoje em dia superconfiante e consegues falar sobre tudo?
Olha, eu acho que nós passamos pelas coisas. Na altura em que eu passei pela tamanha fragilidade que eu passei, eu acho que não conseguia abrir-me com tanta confiança. Não falava tanto sobre os nossos traumas da altura, mas porque me curei e porque fiz terapia e fiz o caminho certo para mim para me tratar. Hoje em dia consigo falar completamente abertamente e confiante sobre isso. Ou seja, acho que não me torna menos pessoa ou pior pessoa, eu ter passado pelo que passei, antes pelo contrário. Percebes?
Achas que é porque hoje em dia estás mais curada do que o que estavas antes, que sentes essa confiança?
Sim.
Porque curiosamente eu estava a preparar o episódio e quando preparo estes episódios, eu sempre essa coisa para trás e vou ali fazer o estoque de tudo aquilo que as pessoas tenham na net. E eu vi dois episódios teus, que é um no Observador, em 2021.
Sim, viste?
E um na Caravana, que foi em 2024.
Exatamente.
E eu senti uma diferença enorme em ti. Não sei se já voltaste a ouvir, mas o nível de detalhe e de confiança e de à vontade de tu a falares desses temas na Caravana, não tem nada a ver com a primeira conversa, que eu já fiquei: "Ok, fiquei a par da tua história, mas não num nível mais profundo."
E nessa altura, no primeiro que tu ouviste, eu ainda não era mãe.
E achas que tem a ver com isso?
Eu acho que pode ter alguma coisa a ver, porque quando tu te tornas mãe, há uma força nova que nasce contigo, enorme. Eu sinto-me muito mais forte. Sinto-me capaz de combater imensas frentes diferentes. Então sinto que também, por um lado, me conheço melhor e consigo observar a Catarina do passado muito melhor agora do que há quatro anos. Ou seja, a Caravana foi há um ano e a entrevista que tu ouviste foi há quatro.
Foi 2021, portanto, foi há quatro anos, quase cinco.
E eu acho que isso faz muita diferença também.
E vamos voltar um pouquinho para trás. Para também pôr a par que estamos aqui a falar de trauma e do que tu passaste. Tu aos 15 anos entraste no conservatório, portanto a tua vida sempre foi à volta da dança. E como é que foi isso de entrar para o conservatório, esse entrar no mundo da dança, um mundo tão exigente e que te consumia tanto logo desde cedo? Achas que te moldou? Achas que tu conseguias separar o que eram os teus valores, o que não eram?
Imagina. Vamos ver as coisas assim. Eu até aos 15 anos vivi sempre em casa dos meus pais, uma família muito equilibrada, muito estável, muito feliz, caótica, intensa, e sempre vivi com a casa cheia, uma casa cheia de barulho. Os meus amigos iam sempre todos para lá. No fundo, os meus pais sempre foram pessoas de porta aberta. "A nossa casa está aberta para vocês." E sempre gostaram de ter os nossos amigos perto e de nos acompanhar. Então, imagina, eu sempre tive esse acompanhamento dos meus pais, dos meus amigos perto, das minhas melhores amigas, dos meus melhores amigos. Sempre tudo muito à minha volta e uma vida muito feliz, desprendida, leve, pouco difícil. E eu sempre, desde que eu me conheço, que eu gosto de cantar e gosto de dançar. Eu sinto que é uma coisa que nasceu comigo e era uma coisa que eu fazia sempre desde pequenina. Os meus pais viam-me a brincar e eu estava sempre ou a pôr as bonecas a cantar, a dançar, a dançar no quarto. Lembro que as coisas que eu mais gostava de fazer era quando chegava a sexta-feira e à sexta-feira à tarde não havia aulas à tarde, eu ia pra casa, fechava-me no quarto e fingia que era a Britney Spears. Pronto, era isto.
Era a tua forma de te expressares.
Sim, muito simples. Ou seja, eu levava a dança e o canto como uma libertação, como uma brincadeira, o que eu mais gostava de fazer. Mas depois eu andava no balé, era o meu hobby, no Pirim e Trego. E acabava sempre por ter as personagens principais nos espetáculos e eu adorava. Eu tinha dificuldade na escola pra estudar, ou seja, pra mim estudar era mais difícil eu conseguir concentrar-me. Enquanto que dançar eu ficava numa envolvência máxima. Eu sempre soube aquilo que gostava de fazer e eu sempre soube qual a minha paixão e aquilo que eu tenho mais facilidade para: artes. E aos 15 anos, eu lembro-me desde pequenina de dizer sempre aos meus pais: "Pai e mãe, eu adoro-vos, mas um dia eu vou viver fora, em Londres, e vou ser atriz". Eu dizia muito isto aos meus pais. Engraçado a vida. Deus escreve por linhas tortas, tu achas que controlas as coisas, mas de repente a vida está a acontecer e tu estás a ser levada. Como é que eu chego ao Conservatório Nacional de Dança? Imagina, eu estava no Colégio Horizonte, só de raparigas, estive lá dois anos e um dia cheguei casa e disse à minha mãe que me sentia um pássaro dentro de uma gaiola, completamente preso, fechado, incompreendido.
Mas andavas no balé na altura?
Andava sempre no balé como hobby, mas estava a estudar, estava na escola a estudar.
Te sentias presa.
Sentia-me presa. E a minha mãe levou aquilo muito a sério e perguntou-me: "Mas por quê?" "Eu quero dançar, mãe, eu quero dançar, eu quero ser atriz, ou seja, eu não quero estar aqui, eu quero fazer o que eu gosto." E a minha mãe começou à procura de sítios pra eu ir estudar. Começou por procurar a ACE, a Academia Contemporânea de Espetáculo de Belém, vários sítios. O que nós combinamos? Combinamos: "Pronto, tu vais fazer estas audições. Se entrares em algum sítio, repensamos a tua vida, repensamos se vais por ali, se não vais." A primeira audição de todas foi no Conservatório Nacional de Dança em Lisboa. E eu ia entrar logo esse, superexigente. E nós sabíamos que era muito difícil entrar pra o décimo ano. É muito difícil entrar. E eu era uma bailarina, bailarina zeca, que estava no Pirim e Trego como hobby. Faltava-me imensa técnica. Lá chega o dia da audição, eu era o número 115 e a audição começa, eu toda contente, cheia de luz, toda feliz. As horas vão passando, as pessoas vão saindo, e eu vou ficando. E no fim, de todas estas audições, só entro eu e outra menina. A menina entrou pra o quarto ano, que era dois anos pra trás, e eu entrei pra o sexto ano, que corresponde ao décimo ano. Ou seja, isto é diferente, são uns anos de diferença. Pronto, e foi assim um bocado um choque, porque a minha mãe não estava nada à espera que eu entrasse. Então a minha mãe ficou do gênero ...
Ainda por cima, ir pra Lisboa com 15 anos, sozinha.
15 anos ainda és muito nova, tu não tens maturidade. E eu era muito criança, eu sempre fui muito ingênua, naïf.
E passar de ter família e casa sóia pra de repente estares sozinha numa cidade gigante.
É isso. Mudou tudo muito rápido. Eu lembro-me de ter entrado, ter sido uma alegria gigante e realmente eu perceber: "Pronto, eu tenho um talento aqui pra isto, eu tenho que levar a sério e agora é a minha oportunidade". Mas depois és muito nova e eu lembro-me perfeitamente de estar no meu quarto novo e dos meus pais estarem a ir embora de Lisboa e aí é que me caiu tudo, de me sentar na cama e começar a chorar, "Que realidade é esta? Onde é que eu estou?" Mas pronto, eu fiquei em casa da Maria Luísa Carlos e do António, que são como os meus segundos pais hoje em dia, porque eles adotaram-me. A minha mãe não sabia, "O que eu vou fazer? Ela vai pra Lisboa, vai ficar com quem?" E a minha mãe estava numa peregrinação em Fátima e conheceu lá a Maria. Abriu-se e a Maria: "Eu sou professora de balé no conservatório, pros mais novos. Ela pode ficar comigo." E eles têm uma casa, imagina, tem vários apartamentos e os deles são os do rés do chão e o segundo piso. E eu fiquei no rés do chão, mas jantava com eles, fazia coisas com eles.
Era meio que uma família de acolhimento.
Mas mudou tudo muito. E eu de repente fiquei num apartamento sozinha, a dormir e de repente comecei a ter muitos momentos muito sozinha. E tu és nova.
E quando estás sozinha também começas ali a entrar em pensamentos.
Muito mais pensamentos, entrava em loops. Eu não estava habituada.
Mas tu não conseguiste fazer amigos na altura, lá?
Fiz imensos amigos. Eu sempre fui boa a fazer amigos, sempre adorei fazer amigos.
E não sentiste que fosse a base de apoio que te ajudasse a não entrar num pensamento negativo?
Eu acho que foi tudo, acho que o conservatório é muito exigente, na altura não acompanha os bailarinos da melhor forma, ao meu ver, portanto, não havia um psicólogo, um nutricionista. A exigência era gigante, às vezes tratavam os bailarinos não da melhor forma, ao meu ver. Tudo muito exigente. De manhã à noite.
Mas exigente em quê? De muitas horas de treino?
Tu já viste o "Black Swan"?
Vi.
Eu acho que é muito difícil um bailarino mostrar o que vive. Tu não consegues entender a realidade de um bailarino sem a viveres, o que é um backstage e a pressão do corpo, do culto do corpo e as horas incontáveis de dança.
Mas controlavam aquilo que comias, davam-te dicas?
Não davam dicas, simplesmente diziam pra não engordares e pra emagreceres, percebes?
Faziam-te pesagens, coisas assim?
Não, no conservatório não, mas estavam sempre a observar o teu corpo. E depois, de repente, és tu que entras num, a tua cabeça entra numa, parece que vives longe da realidade. É só aquilo, são espetáculos.
E começa a criar distorção de imagem na tua cabeça? Ou seja, tu olhavas ao espelho e nem conseguias ver a realidade?
Sim, ou seja, eu estava magríssima, estava perfeita, estava com os músculos todos no sítio, mas nunca me sentia suficiente. Portanto, tu queres sempre melhor, queres sempre mais e depois és convidada a estar o dia todo em frente a um espelho. Estás sempre a ver a tua imagem, estás sempre a ver as tuas linhas.
E a procurar os defeitos, não é?
Sim, tudo. E depois há a pressão de criares, depois és melhor a ballet, se calhar, e pior a contemporâneo ou ao contrário, mas todos os dias tens que estar nessas aulas. Há um lado espetacular nisto. Eu adoro o mundo artístico, adoro o mundo da dança. Agora, tem que ser melhor acompanhado e quando tu és mais nova e não tens maturidade, porque eu acho que há aqui uma diferença. Quando tu tens maturidade para viver estas coisas todas, incrível. Maturidade para saberes que estás bem assim, que a imperfeição é boa.
Tem que ser abraçada.
Tem que ser abraçada. Tudo bem. Agora, quando és nova e não tens esta unidade emocional bem definida, pode correr muito mal. E no meu caso, houve alturas que correram, não vou dizer que foi tudo uma desgraça, obviamente que não, consegui coisas incríveis, fizemos espetáculos incríveis, conheci bailarinos que até hoje somos amigos e eu adoro-os e eles entendem-me. Simplesmente acho que podia ter sido acompanhada de outra forma e não foi fácil.
E achas que foste perdendo, ou seja, aquilo que estavas a dizer, que a dança sempre foi o teu escape, a tua forma de libertar. Achas que foste perdendo um bocadinho o amor que tinhas pela dança ao entrar no conservatório?
Sim, eu acho que eu dançava de forma muito natural. Danço um bocado enquanto terapia. Uma coisa boa, um escape. E tornou-se na minha inimiga naquela altura, porque de repente, sou eu a competir sempre com a Catarina. "Catarina bailarina não é boa, Catarina bailarina não faz bem, Catarina bailarina não fizeste isto bem, isto fizeste mal." Tudo era uma ansiedade. O espetáculo era uma ansiedade, eu ficava: "Eu não vou ser suficiente, eu vou chegar ao palco e vou falhar e vou cair." Então era tudo vivido, eu era pouco feliz, eu não estava feliz. Isto foram cinco anos sempre numa ansiedade. Depois os bailarinos à tua volta também não são muito felizes, que acho que essa foi a realidade que me marcou.
E toda essa energia consome-te no dia a dia.
Consome-te.
Muito tóxico.
Para mim, o que foi uma surpresa é que muitos bailarinos também não são confiantes. Imagina, é estranho, porque tu vês, somos pessoas que estamos ligadas à música o dia inteiro, com uma postura, com um corpo bem definido, músculos que trabalha. Como é que há tanta insegurança?
Porque é o nível de exigência.
Não, são as vozes dos professores. Querem mais e mais e melhor e mais e mais. Há poucos aplausos. "Estás bem assim, boa, good, bom trabalho, excelente." Quantas vezes é que nós ouvíamos isto? Muito poucas. Era sempre o contrário. Então tu entras ali sempre num: "Eu posso ser melhor."
Mas tu estiveste no conservatório e mesmo assim, mesmo tendo essa experiência, quiseste na mesma continuar e ir para a Holanda e ter a experiência no estrangeiro.
Imagina, os meus pais foram se apercebendo ao longo dos anos que alguma coisa em mim não estava bem. A minha mãe levava-me às vezes a uma psicóloga e eu aceitava ir, mas às vezes é muito difícil, principalmente na parte da adolescência, tu aceitares ajuda, porque se tu não quiseres ver, tu não te ajudas, tu não melhoras, por mais que os outros à tua volta te queiram ajudar. E eu sinto que estava muito numa negação, tipo não, eu estou aqui, está tudo bem, isto faz parte.
Estás parte, eu a seguir o meu sonho, as pessoas que estão de fora não percebem, eu estou no meu caminho.
E depois imagina, tu habituas-te a sentir uma certa tristeza, que lá está, é o lado deprimida a vir, porque imagina uma pessoa que fica anorética, bulímica, que tem comportamentos obsessivos, que era o meu caso. Porque de repente toda a gente à minha volta tinha. Estavam sempre a falar de eu estou gorda ou eu estou não sei o quê, toda a gente. E depois imagina, no mundo da dança é muito normal tu teres questões alimentares e não te sentires sempre bem no teu corpo. É uma coisa recorrente, faz parte. Pelo menos no conservatório era assim. E no conservatório o ambiente nesse sentido não era bom, não era positivo. E todas estavam sempre nessa competição pessoal, de eu não posso engordar mais ou eu não estou bem assim. E tu de repente cais, tu és o teu ambiente, portanto, de repente tu cais um bocado nesse ambiente. Eu de repente já tinha caído nesse ambiente. E de repente já tinha esses comportamentos obsessivos de não como durante uma semana, na outra como mais.
Quando tinhas espetáculos e se calhar era daqueles dias em que tu não comias antes para estar melhor.
Estava-se sempre na batalha da alimentação. E eu nunca fui de engordar, portanto, eu antes comia o que queria, nem passava nisso. É uma doença mental. E tu só te apercebes quando decides que te queres curar, porque até então achas que não tens nada e que é normal. Isto é normal. Chegar à sexta-feira e ter comportamentos bulímicos é natural.
E estes comportamentos começaram em Lisboa?
Começaram em Lisboa.
E depois continuaram na Holanda.
Depois, imagina o que acontece. Eu termino o Conservatório Nacional de Lisboa, lembro perfeitamente dos meus pais às vezes fazerem assim. Pronto, reuníamos e os meus pais perguntavam: "Catarina, tu estás feliz? Nós estamos preocupados contigo." E punham as coisas em cima da mesa. "Eu acho que devias ter um plano B. Tu adoras comunicar, já pensaste em tirar comunicação e fazes a dança mais como hobby." Os meus pais sentem as coisas.
Sempre vieram em cima.
E veem que é uma vida muito exigente, portanto, ficam ali mais em cima. E eu sempre escrevi o plano B, ou seja, tinha que escrever para os meus pais: "Este é o meu plano B quando eu não estiver bem, está aqui escrito. Bora lá." O que acontece? Termino o Conservatório Nacional de Dança. Eu começo a fazer audições. Para fora, ou para Nova Iorque, ou para a Holanda, ou para Londres, não sei, para onde o mundo me encaminhasse. Aqui a questão é que quando tu tens um problema, imagina, como é que tu encaras a vida da melhor maneira se estás doente? Se estás com um distúrbio gigante. Tu estás a vivê-lo em solidão, mas não estás bem.
Na altura tu não contaste a ninguém? Ou contavas a pessoas à tua volta, amigas?
Não, eu não.
Ninguém?
Eu sabia que tinha um problema, mas simplesmente eu não admitia. Essa é a diferença para tu te curares. Eu sabia que tinha um problema, mas eu vivia a vida, eu fazia tudo, eu ia sair, eu estava com os meus amigos, eu estava em Lisboa, vinha para o Porto, ia sair com os meus amigos de cá.
E os teus amigos de Lisboa não reparavam?
Não. Sabíamos todos que tínhamos alguma coisa, mas simplesmente, somos artistas, nós aguentamos.
Tens é de estar sempre magrinha e pronto.
Sim, e perfeita. E depois as pessoas põem imensa pressão em ti. "O teu corpo é tal, não sei o quê", então tu continuas. Pronto, e depois imagina, eu reparava que começava a chegar ao Porto aos fins de semana e começava a fechar. Socialmente comecei a ficar estranha. Não ia ter tanto com os meus amigos do Porto, comecei a me afastar dos meus amigos do Porto, eles não percebiam o porquê. Imagina, a bola começa.
Porque depois também ficas com medo que as pessoas comecem a reparar.
Sim, as pessoas às vezes reparavam: "Está muito magra a Catarina, ou de repente já não está tão magra".
E já evitas, que é para não teres os comentários, se calhar.
Sim, e começas a fechar. E não queres contar, tens vergonha, tens muita vergonha. Imagina, eu para conseguir ir a festas, eu sabia que ao ir a festas, eu ia ter recaídas bulímicas. Percebes? Portanto, eu só ia porque sabia que depois tinha um escape, porque depois socialmente tem uns comportamentos estranhos.
Como é que tu te lembraste?
Olha, eu lembro-me perfeitamente do momento, da primeira vez que eu tive o meu primeiro comportamento bulímico. Nós bailarinos tínhamos o hábito de ir todos depois de uma aula comprar imensas gomas. Compramos todas gomas e depois estávamos a dizer: "Mas nós estamos a comer estas gomas todas e depois?" Eu lembro-me de comer essas gomas todas e nesse dia em específico chegar a casa e experimentar. E depois pensar: "Consegui um escape". Adoro comer.
Agora esta é a solução.
Adoro comer, portanto, consegui, agora tenho isto. Eu lembro-me de ser superfácil. É péssimo. Depois entras naquilo. E depois o que é que acontece? Quando é que há aqui uma reviravolta e quando é que as coisas mudam? Eu passei em várias audições, eu queria muito ir para Nova Iorque fazer musicais, que é uma coisa que eu por acaso tenho pena.
Para juntar a dança com o canto.
Para juntar a dança com a voz. Mas ainda vou a tempo, pode ser que um dia ainda faça parte de um musical, não sei. Entrei em Nova Iorque, entrei na AMDA, que é espetacular, só que é muito caro, mesmo com bolsa de mérito que eu consegui, não conseguia ir porque era muito caro e depois não vinha quase cá, a minha família não me conseguia ver.
Pois, é uma distância que não é como a Holanda.
Absurda. Mas entrei na Codarts, em artes performativas, é espetacular, entrei com bolsa de mérito. E quando é que eu começo a perceber que tenho todos estes problemas? Foi na Universidade Codarts. Eles têm professores espetaculares, têm acompanhamento psicológico, nutrição. Fiz amigos incríveis lá. E eu comecei a aperceber-me dos meus comportamentos estranhos lá, quando tenho uma nova psicóloga lá, e de nutrição.
E aí já consegues contar, já consegues te abrir sobre essa-
Não, é que aí é que começo a perceber que tenho alguma coisa, e que tenho alguma coisa séria, e que não era normal, e que me afastava socialmente, me fazia fechar-me, sofrer muito, ter ataques de ansiedade. Os comportamentos bulímicos são péssimos. Tu podes morrer a vomitar, porque estás a fazer um esforço gigante no teu coração. Estás a comer sem parar. Não faz sentido nenhum. E há pessoas que têm isto a vida inteira, que não conseguem ver que têm um problema e que devem parar, e que conseguem curar-se. Tu achas que não consegues, porque de repente faz parte da tua vida, faz parte do teu ritmo.
Mas tu desde o primeiro comportamento que sabes que é errado. Só não sabes que é uma doença mental.
Sabes que é errado, mas a coisa habitua-se e já nem pensas muito nisso. É como se fosse uma purga, porque ao mesmo tempo depois sentes-te bem. É mesmo estranho. Eu acho que quem tem, percebe o que eu estou a dizer, mas acho que para quem não tem, é mesmo estranho. E eu achava que nunca ia recuperar disto, achava que era uma coisa que eu ia ter sempre, os meus escapes, os meus momentos. E na Holanda comecei a reparar nisso. A Holanda ao mesmo tempo foi incrível, eu ter entrado e estar neste curso eu tenho imensa pena de não ter acabado. Se eu pudesse hoje, se calhar, agora tenho dois filhos, estou em pós-parto, mas não ter terminado um curso que foi tão difícil entrar, era uma oportunidade única. Eu acho que a pena que eu tenho hoje em dia é de não ter tido a maturidade na altura para perceber o incrível das oportunidades que eu tive.
Sim, mas a Catarina estavas doente.
Pois, mas eu tenho pena. Tenho um bocadinho de pena, faz parte. Se eu voltasse atrás, e não voltamos, e gosto imenso da minha vida e do percurso que eu tive, era só mais maturidade ali, saberes que isto era uma oportunidade incrível, aproveitá-la bem, porque o tempo não volta atrás. E realmente eu estar na Codarts, com tantas pessoas que tentaram entrar, eu tenho pena de não estar bem de cabeça. Percebes? É muito importante estar bem de cabeça.
Mas em termos de ambiente não era do mesmo género? Ou seja, as pessoas não eram tão obcecadas com a imagem?
Não haviam. As pessoas reparavam que eu era. Os meus amigos iam tipo: "You're perfect. Estás perfeita assim, por que não vês?" Tinha sempre ali qualquer coisa. Claro que todos têm as suas coisas, o ambiente às vezes é muito pesado. A Holanda tem a parte má para mim, porque na componente de ser uma cidade muito escura, fria, há pouco sol.
Se calhar menos planos sociais ao final do dia e coisas assim, não?
Sim, e depois também lá está, é a questão da solidão. Vives sozinha, estás com os teus amigos. E ali muitos amigos meus também fumavam muita ganza, muita erva. Haviam ali também muitas coisas muito pesadas e as danças que nós tínhamos contemporâneas eram pesadonas, eram deep. E o que eu te posso dizer? Houve ali de um momento para o outro, já estava na Codarts há um ano e meio e fumava cigarros, tinha comportamento um bocado autodestrutivo. Faz parte da idade também. Mas houve ali um momento, como deves ter ouvido a entrevista, o meu avô Mário teve um acidente de carro muito repentino e morreu e foi a minha irmã, a minha Pipas, que me veio contar à Holanda. E eu não estava nada à espera, porque eu falei com a minha mãe, e ela disse: "Olha, a mana, a Pipas vai visitar-te na quarta-feira." E eu: "Ah, sim."
Estavas feliz.
Sim, eu estava feliz, nem pensei nada. E ela veio e olhou para mim e chegou, sentou-se, eu estava com os meus amigos e sentou-se no sofá e olhou para mim e começou a chorar e eu: "O que aconteceu?" E eu lembro-me na altura de pensar: "Oh meu Deus, Marina, o que aconteceu? Foi o pai? Foi a mãe?" E depois a minha irmã começou: "O avô Mário." E eu: "Avô Mário o quê?" "Está no hospital. Teve um acidente e morreu." Eu disse assim: "Pá", e aquilo caiu-me tudo. Eu atirei-me para o chão e comecei a chorar.
E por cima longe, não conseguias estar perto da tua família.
Não, eu acho que aquilo foi o primeiro contacto com a morte, foi assim muito direto. E desde então, esta questão da inevitabilidade da morte é uma coisa que me pesa um bocado. Ela pode acontecer a qualquer momento.
Será que vives a vida assim tão intensamente todos os dias?
Eu vivo a vida muito intensamente e para mim, vivermos e termos a oportunidade de estarmos aqui todos os dias é incrível.
Se ainda agora estava a ter uma questão mínima de trabalho e tu: "Estás viva!"
É isso.
Está feliz!
Eu acho que as pessoas tomam demasiado por garantido estarmos aqui. E acho que não podemos. Não podemos estar sempre a pensar que um dia isto vai acabar. Aliás, eu acredito em Deus e tenho uma relação muito próxima com Deus e com outras dimensões que eu não as consigo definir ou caracterizar, mas sinto-as em mim e sinto que isto não é só isto, sinto completamente em mim. Eu sinto que sou um veículo de alguma coisa maior do que eu. Mas nós não podemos levar a vida como garantida. E eu sinto muito que as pessoas vivem como se isto fosse garantido, estarmos aqui a respirar, a sorrir, a comer.
Mas tu sempre foste assim, tu sempre foste cheia de vontade de viver?
Sim.
Ou foi um dark period em que essa Catarina esteve um bocado apagada?
Eu sempre adorei viver e sempre lidei mal com a morte desde pequenina. A minha avó diz-me que eu do nada virava: "Vó, tu não podes morrer. Vó, isso não pode ser." E os meus pais, sempre foi uma questão. E é mesmo estranho para mim. Lá está, eu que hoje em dia a minha maior medo é perder o amor da minha vida, perder um dos meus filhos. Para mim, pensar que já houve uma altura em que eu queria desaparecer, é mesmo estranho. É uma lição de que todos temos fases, todos passamos por coisas diferentes, mas escolham sempre a vida. Vai passar. Todos sofremos. O sofrimento faz parte da vida e eu acredito que nós estamos aqui para aprender alguma coisa. Acho que não estamos aqui em vão, só porque sim. Se alguém neste momento está a passar por um sofrimento grande, ele vai passar. Depois o sofrimento volta pintado de outras formas. Ele faz parte da vida. Foi isso que eu aprendi muito em terapia. Eu lembro-me quando estava em desespero com a minha cabeça e de querer desaparecer e de não gostar de mim e de estar a criar isso para mim própria. Atenção, eu estava a alimentar o-
Este discurso interno de autodestruição.
Sim, os pensamentos intrusivos. Eu lembro-me de uma amiga minha que estava-me a ajudar na altura em que eu estava mal e voltei para Portugal, porque depois temos a parte do quando eu me apercebo que estava mesmo mal na Holanda, depois do funeral do meu avô, estávamos numa festa e estavam todos em minha casa, os meus amigos bailarinos, e eu só queria desaparecer. E foi aí que eu liguei ao meu pai e pensei: "Eu não vou conseguir curar disto sozinha, eu preciso de ajuda." Foi assim uma luz qualquer, que é se tu não saíres daqui agora e voltares para casa, eu estava com medo de, eu não gosto de dizer isto assim, mas de tirar a minha própria vida. Não sei, porque às vezes a tua mente entra em... Eu vivi o que é a nossa mente entrar em autodisparo. Eu nem sabia que isso era possível, mas eu vivi isso na pele. E é mesmo duro, é mesmo estranho. Tu de repente estás a querer matar-te. É estranho, é só estranho, não faz sentido. Percebes? A mente não está bem, tens que a curar e podes curá-la. E foi isso que eu liguei ao meu pai e ele atendeu e eu lembro-me perfeitamente: "Pai, estás aí? Pai, eu não estou bem, eu choro todos os dias, tenho faltado à faculdade, fumo durante a noite." Eu fumava cigarros, que é uma coisa que eu não me identifico nada e já não fumava há imenso tempo, não fazia parte de mim, fazia-me mal mesmo. Acordava com ansiedade, sabes o que é acordar durante a noite? Era sinistro. Acordava durante a noite, tipo 01:00 da manhã, ia para a sala fumar e estava a entrar num sítio mesmo escuro, mesmo dark. Se calhar não sabes. Eu acho sempre que as pessoas me vão perceber.
Não sei.
E eu lembro-me de dizer ao meu pai: "Pai, olha, choro todos os dias, sinto tristeza todos os dias, só vejo o mal em todo o lado."
É que tinhas vontade de te levantar de manhã?
Não, ficava logo com ansiedade. Saía à rua, olhava à minha volta. Eu tenho este dom de olhar e ver beleza. De ver luz. E não havia. A luz tinha desaparecido. É só tristeza. Tristeza e ansiedade. E é mesmo difícil viver-se assim. E as pessoas que têm ansiedade e que vivem em depressão sabem daquilo que eu estou a falar.
E nessa altura tu tinhas o acompanhamento psicológico na Holanda e mesmo assim não chegava.
Não chegava, esquece. E eu liguei ao meu pai e disse-lhe tudo e meu pai, no dia a seguir, marcou-me um voo de regresso a Portugal e eu não falava, eu do momento para o outro deixei de falar. Eu adoro falar.
Deve ter sido um choque também para a tua família receber-
Um choque enorme
...uma pessoa completamente diferente.
E a Catarina que havia desistido de tudo, da dança e os meus pais não sabiam o que fazer. E eu tinha 19, 20 anos, isto foi mesmo muito coitado. Quando penso nos meus pais e os meus pais são incríveis, porque eles não me largaram a mão e eu sei que eu só consegui voltar a mim e voltar à luz por causa de Deus, da minha fé, por causa da minha mãe, por causa do meu pai, por causa da minha irmã, por causa da minha família, por causa do meu irmão, nós estamos aqui, mas estamos mesmo aqui e tu estás com um problema e nós vamos te ajudar. Não vamos ajudar só ali na superfície a limpar o pó. Nós vamos pegar em ti e vamos te ajudar. E estás a imaginar a minha mãe na altura a viver o luto do pai, que morreu num acidente de carro. Mas isto é para mostrar também que a família quando se une com verdade, as coisas resolvem-se. E na altura foi muito engraçado, porque começámos todos a fazer terapia familiar.
Sério?
Fomos os cinco. Porque depois tu começas a entender várias questões, porque as questões da Catarina, tudo o que me veio ao de cima também, não são só questões do momento ou só questões do conservatório, são questões também de personalidade, são questões também de algumas coisas em casa, se calhar que os meus pais não estão a ver que estão a acontecer. São vários puzzles. A minha mãe, principalmente, andava comigo de manhã à noite, não me largava a mão, porque o bom da minha situação é que eu conseguia dizer tudo o que se estava a passar comigo.
Mas só na fase em que voltaste a Portugal?
Sim, quando voltei a Portugal e queria ajuda. Eu queria mesmo ser ajudada, só queria ficar bem.
Sim, só quando houve esse switch na tua cabeça de "estou pronta para ser ajudada", é que aí começaste a abrir e falar.
Exatamente.
E vamos fazer uma pausa no episódio de hoje para vos falar da About You, que é o patrocinador deste episódio, que já vos falei ao longo deste mês de dezembro. Falamos ao longo deste episódio muito de como lidamos com a nossa imagem e a moda reflete 100% a nossa confiança. A forma como nós nos sentimos transmite muito da nossa essência, daquilo que nós somos. E a About You é uma plataforma onde podemos encontrar tudo e mais alguma coisa, seja roupa de esporte para diferentes ocasiões, casamentos, festas agora para esta altura de passagem de ano. E uma das maiores vantagens é que podemos encomendar tudo, experimentar tudo em casa, acaba por ser muito mais confortável. E a About You tem devoluções gratuitas até 30 dias e também entregas gratuitas para encomendas acima dos 24,90 € que ajuda muito. E eu tenho um código de desconto para todo o site da About You que é FAZPARTE20, eu vou deixar aqui escrito tudo em caps lock e também vou deixar as informações deste código na descrição com o link para terem acesso tudo direito. Portanto, eu espero que ajude, espero que se estiverem agora à procura ainda de últimos looks para a passagem de ano e mesmo para começar o janeiro. Se quiserem comprar mais roupa desportiva, também têm imensas opções diferentes, portanto, fica aqui a minha sugestão. Mas como é que achas que encontraste esse switch? Imagina uma pessoa que neste momento está a passar por isso, onde é que se encontra essa luzinha, essa vontade de pedir ajuda?
Eu gostava de ter a resposta. Olha, o meu momento, a morte do meu avô foi um despertar. O meu avô provavelmente se não tivesse morrido, eu teria continuado na Holanda e a minha vida teria sido muito diferente. Aquele estalo de realidade da morte, eu acho que foi o que me acordou, porque eu tinha uma fotografia do meu avô lá da minha mesinha de cabeceira que eu trouxe depois do funeral. Era o meu avô supersorridente, uma fotografia linda que ele tem, que está sentado com uma árvore atrás. E eu nunca tinha reparado que ele tinha um copo de água na mão. Que eu acho que um copo de água na mão simboliza imenso saúde. E atrás dessa fotografia tem uma nota do meu avô a dizer: "Catarina, com muito trabalho e muita saúde, vais conseguir sempre tudo aquilo que tu queres. Com alegria. Assinado, avô Mário, amo-te muito." E eu olhei para aquilo, observei, até lembro perfeitamente, e depois os meus olhos ficaram ali a sublinhar o com saúde. Ou seja, eu dedicava-me imenso, trabalhava imenso, dava tudo o que eu tinha.
Mas sabias que não estavas saudável.
Mas estava zero saudável. Comecei a ver: "Puxa, fumo os meus cigarros por dia, não como, tenho comportamentos bulímicos, tenho ansiedade e não estou a conseguir dar a volta a isto sozinha". Então para mim o clique foi esse. E para mim o primeiro clique foi o despir-me das minhas capas todas e ligar ao meu pai e dizer a verdade. Nós temos que dizer a verdade a quem amamos, porque se nós não dissermos a quem mais amamos e quem nos ama, que estamos mal e precisamos de ajuda, quem é que nos vai ajudar?
Acho que há tanta vergonha nestas conversas.
Tu tens que despir o orgulho de ti mesma. Não podes ser orgulhosa, tu tens que despir essa capa e pedir ajuda. Isso é o ato de coragem. Eu hoje em dia vejo que foi um ato enorme de coragem meu abandonar o curso de artes performativas, que era o que eu mais queria, era um sonho, abandonar os meus amigos, abandonar o meu namorado da altura, deixar todas as minhas roupas de dança, o meu apartamento, eram os meus melhores amigos, eu tinha amigos incríveis lá.
Era outra família lá, não é?
Era a minha família. Foi um ato de coragem enorme, porque é muito difícil nós mudarmos. Percebes o que eu estou a dizer? As pessoas mudarem a sua vida é muito difícil, as pessoas ficam confortáveis na sua vida
Sim, começas a pensar em todas as decisões que tens de tomar, em tanta coisa que tens de mudar, que deixa de estar.
Mudar custa. Curar-te dá muito trabalho.
E não te assustava voltares a largar esse sonho e agora o que vai ser o futuro? Tu já há próprias estrupurias de ansiedade.
Muito.
Como é que tomas essa decisão e agora o que é que eu vou fazer da minha vida?
Eu ficava tensa, como é que eu volto para o Porto? O Porto é tão pequenino, o Porto não tem nada de jeito. Não quero dizer isto assim, mas o Porto na altura para mim não era o que eu ambicionava como bailarina, eu queria mais. E já tinha conquistado tanto e tinha dado tanto de mim que era assustador voltar. E depois foi um choque, porque os meus amigos do Porto não faziam ideia e imensa gente também se separou de mim, porque sabes, quando as pessoas estão bem, quando tu és luz, as pessoas querem estar à tua volta. Quando tu és negativa e tens energia negativa, as pessoas fogem.
Mas as pessoas certas fogem também?
Não, as pessoas certas não. Mas muita gente foge. Tu também te escondes.
Pois, eu também acho que havia isso.
E os meus pais também me quiseram proteger, porque depois as pessoas falam muito, as pessoas inventam histórias. Eu lembro que de repente as pessoas inventavam histórias sobre mim. "A Catarina drogou-se na Holanda e por isso que está assim." Nada disso. Eu tinha um distúrbio alimentar e uma depressão, que é algo mental. E sofri um burnout. São várias coisas, as pessoas moldam-te com uma etiqueta e acham que tu és aquilo e há tão mais por trás daquela pessoa.
E há pessoas que depois voltaram mais para frente a falar contigo quando souberam do que é que se tinha passado?
Sim. Houve pessoas que me desiludiram, obviamente, mas eu também desiludi muitas pessoas, porque eu simplesmente desligava e as pessoas não percebiam porquê. E às vezes tentavam dar a mão, mas eu não estava nem aí, porque eu não estava bem. Quando tu não estás bem, não vale a pena. Agora aqui eu acho que o que é bom é o partilhar é olha para mim. As coisas resolvem-se.
Achas que é possível resolver a 100% um distúrbio alimentar?
Sim, sou a prova disso. Se calhar, 99%. Acho que pode haver um dia em que de repente me vêm uns pensamentos um bocado intrusivos e estranhos.
Mas alguma vez te voltou a vir alguma vontade de vomitar, por exemplo?
Nas gravidezes, acho que nunca partilhei isto antes, é um bocado vulnerável, não importa, nada, eu gosto de vulnerabilidade, ninguém é perfeito e todos temos as nossas coisas. Nas gravidezes, às vezes haviam alturas que de repente começas a ver o teu corpo a mudar imenso ou às vezes sentia que estava a comer demais e eu lembro-me várias vezes de olhar para o meu marido e eu falo muito com o Tomás, o Tomás é a pessoa que eu digo tudo. "Tomi, olha, estou a ter este pensamento, achas que estou a voltar?" E o Tomás ajudava-me a desconstruir e falava: "Não, acho que não." Ou, por exemplo, Tomás, sabes que eu vomitava muito nas gravidezes no início, porque passava mal, eu ficava muito enjoada e era horrível, porque de repente tu estás a vomitar, não porque estás a escolher, e está a ser horrível. E leva-te a sítios, é horrível. E eu fico: "Porra, como é que eu já fiz isto?" Que horror. Mas se calhar, nas gravidezes às vezes sentia-me assim um bocadinho mais vulnerável aqui e ali. Mas olha, posso dizer que 100%, 99%, tenho uma relação supersaudável com comida. Acho que é importante eu referir o que eu fiz para me curar. Na altura, eu não conseguia comer. Imagina, só para percebes o ponto da situação.
Mas não conseguias comer nada, ou seja, nem coisas saudáveis, nada?
Eu quando voltei para o Porto, eu estava numa tristeza gigante, porque imagina, era o burnout, mais o tema da inevitabilidade da morte na minha cabeça. Eu entrei num niilismo. Pensava: "Vamos todos morrer, para que eu estou aqui a dar tudo todos os dias, qual é o objetivo?" E a minha cabeça estava aqui. Tu assim não vives, não podes ir por aí. Ponto um, não podes ir por aí. É viver um dia de cada vez, sem pensar demais nisso. Onde é que eu estava?
Quando voltaste para o Porto, tinhas esses pensamentos.
Certo.
De como lidar com a morte, burnout.
Pronto, e para me curar, o que mais me ajudou na altura foi: então eu tenho esta questão. Agora neste momento não saio, não vou a nada social porque vai ter comida. A mente vai para sítios... Qual é que era o objetivo? Era eu não voltar a vomitar e não voltar a ter comportamentos bulímicos e recuperar da anorexia nervosa também que estava. E nisto tudo eu estava a ser acompanhada.
Mas imagina, tu sentavas-te à mesa com a tua família, eles faziam-te o jantar e tu não comias? Ou comias e eles já sabiam que tu ias vomitar?
Não, porque imagina, eu não sei como, mas eu meti na cabeça e prometi aos meus pais que agora vou me curar. Portanto, como é que a pessoa se faz para curar? Os meus pais meteram um calendário em que tu punhas um X, imagina, vomitaste naquele dia. Como é que vais fazer para não voltares a vomitar? Isto é uma cena, isto é para pessoas que sofrem isso, tu não tens aquele escape. Ou seja, temos que resolver aquela questão, porque se tu te mantiveres assim E ias controlando e dizendo: "Ok, eu estou a melhorar porque estou a pôr menos cruzes ao longo do tempo." E ia melhorando. E tinha sempre que dizer, eu disse isso aos meus pais: "Olha, pai, se eu estiver num evento com muita gente e houver comida, tens que estar atento a mim. Provavelmente eu posso ter uma recaída e posso de repente estar a comer imenso e de repente desaparecer. E se eu desaparecer não é bom, vai à minha procura." Ai, estou arrepiada. Se tu te queres curar, tu tens que dizer todas as tuas fragilidades. E eu adorei isso em mim. Adorei ter a humildade de: "Olhem, isto é horrível de admitir, mas eu tenho esta fragilidade. Eu faço isto, portanto ajudem-me. Como é que me podes ajudar?" É como um drogado, é igual. Um drogado, se não quer voltar a tomar droga, tem que dizer. Se tu queres ficar bem, mas vais te drogar e não diz a ninguém, como é que as pessoas te vão ajudar? Como é que as pessoas me vão ajudar se eu estou a fazer estes esquemazinhas todos e a alimentar a minha doença? Ninguém me vai conseguir ajudar. Perfeitamente houve um Houve um almoço em casa dos meus pais e eu estou a visualizar o meu pai a observar-me imenso e vir a correr atrás de mim à casa de banho. "Pai, estou bem, está tudo bem." E os meus pais foram incríveis, porque todos os dias o meu pai sentava-se comigo e dizia: "Catarina, imagina que tens um anjinho bom e um anjinho mau. Um anjinho mau, o Diabo, vai estar aqui a dizer: 'Catarina, faz isto'. Tu, neste momento, tens que ouvir o anjinho bom e tens que escolher". E todos os dias eles tinham um discurso que me entrene.
É tipo: "Ouve os teus valores, tu não és esta pessoa, tu não és este anjinho mau, este Diabo".
Lembro-me perfeitamente da minha mãe: "Estás sempre a comer imenso à minha frente, eu penso que comias mais". E isto era para dizer que uma coisa que me ajudou muito foi tirar um curso de cozinha. Basicamente, eu fui agarrar o touro pelos cornos. Ou seja, se tu estás com uma coisa que te fragiliza, tu não a vais ignorar, tens que a agarrar para curar. Portanto, eu tinha que voltar a pôr as mãos na comida, voltar a cozinhar, perder o medo de comer.
Ganhar gosto por comer.
Voltar a comer massa, voltar a comer arroz. Eu era tão controladora, eu era tipo: "Só posso comer salmão fumado com aquela salada e à noite esta salada". Ou seja, eu não comia hidratos, zero. E para mim, que sou magrinha, basta-me tirar os hidratos para ficar um espeto. E não dá, fazemos supermal.
Mas treinavas imenso também.
Treinava imenso e depois ia correr e depois fazíamos abdominais. Era horrível. É horrível viver-se assim. A liberdade de podermos comer e sermos saudáveis. Atenção, eu adoro comer e adoro cozinhar, mas gosto de comer saudável e quando me apetece comer porcaria, eu como porcaria, ou seja, eu sou livre. E eu como bastante, pergunta ao meu marido, ele diz que eu como mais do que ele.
Mas foram muitos anos, um processo até chegares aqui. Imagina, como é que foi quando tu começaste o curso e começaste a ver-te a engordar? De fazer confusão.
Sabes que isso é muito engraçado. Eu estava a pesar para aí uns 40 quilos, que é muito pouco para mim. Eu tenho 1,70 m, estava a entrar num abismo. Eu lembro-me perfeitamente de uma noite, o meu pai, era salada russa ao jantar. Imagina, salada russa faz bem. E nós estávamos a servir e eu: "Pai, não me ponhas batata". E o meu pai: "Catarina". Houve ali um momento que se passou e deu-me um estalo. E foi o meu acordar. Eu não sei, mas o meu pai deu-me um estalo de desespero, de "se ela não come".
Eu quero que ela acorde.
Os meus glóbulos brancos estavam muito em baixo. Depois aí é que começa a ser perigoso. Depois apanhas qualquer coisa, estás magríssima. É bom teres gordura, teres chicha. E aquilo foi uma espécie de um acordar para mim, porque fui à casa de banho chorar e a minha irmã veio atrás de mim, foi tudo assim intenso. E eu olhei para o espelho e tive um contacto com a realidade, só via ossos. Odiei o que vi, a minha cara, eu tenho bochecha, sempre tive. Odiei os meus braços, só queria ficar bem. Eu acho que aí foi mesmo o: "Ok, eu só queria ficar bem". Eu lembro-me do meu pai subir e abraçar-me, dizer: "Obrigada, eu preciso mesmo da vossa ajuda. Eu vou conseguir, eu vou chegar lá". Sabes que há pessoas que demoram um ano, dois anos, três anos, isto pode demorar. Eu lembro-me de chegar à minha primeira consulta de psicoterapia, sentar-me e já tipo: "Cura-me". Achava que era isso. Nunca tinha tido assim terapia forte. Que alguém te cura, dá-te uma coisa e cura-te. Não é. A cura vem de dentro.
E és tu própria que tens-
A cura vem de nós. Se nós não formos meigos conosco próprios, se nós não quisermos realmente mudar, ninguém te vai pôr um pózinho de pirlimpimpim e curar-te. Não existe isso. Desculpa. E quando tu te apercebes disso, eu lembro-me de perceber isso no psicólogo, foi tipo: "Ok, como é que isto parte de mim se eu estou doente? Como é que eu curo uma coisa que eu não sei como é que se faz?" Isso é um caminho. E eu lembro dele dizer: "Catarina, pode demorar um ano, dois, não sei. Vai depender de ti". E eu comecei a perceber isso, que as vozinhas vinham de mim. A voz vem muitas vezes daqui da nossa cabeça, percebes? Tu achas que às vezes são os outros que dizem que não é, mas é a tua voz, é a tua voz que está sempre a autodestruir-se.
És tu que estás a interpretar os comentários das outras pessoas. Não são os comentários que estão a ser maldosos.
Não, é a tua cabeça, muitas vezes. A nossa mente engana-nos. A nossa mente mente-nos. Não reparas que todos os dias às vezes tens um "strugglezinho" da mente com: "Não estás a fazer isto bem". Não, está sim.
Somos muito autocríticos, constantemente.
Somos muito autocríticos e precisamos de saber isso. E na altura eu entrei num curso de hotelaria e turismo em cozinha. Fiz o curso de cozinha.
Não levantava.
Nada a ver. Engordei 30 quilos. Fiquei com barriga, fiquei muito mais inchada.
Como é que estavas a lidar com isso?
Para mim foi a minha salvação. Foi o que me fez perceber que sermos gordos não tem mal. Ou seja, eu ter um bocado de chicha ou ficar mais gordinha, não estar tão perfeita, estava com o cabelo curto. Estava mais feia, estava diferente.
Sim, mas estavas com tanta confiança em ti.
Eu precisei de passar de um extremo para outro extremo, para estar há oito anos no mesmo peso. Eu estou com o mesmo peso, a comer o que eu quero, há oito anos. E é palmas para mim, porque eu não sabia que era possível. Sem ter recaídas, sem ter distúrbios alimentares.
E continuas a fazer terapia hoje em dia, não?
Não. Depois tive a alta, há uma altura que tens a alta. Continuo a fazer sessões de terapia, porque acho que é superimportante nós conhecermo-nos melhor e porque a ansiedade é uma coisa que faz parte da vida. Não ficas sem ansiedade.
Sim, para mais com as gravidezes e tudo deve também mexer em muita coisa que também precisas de ajuda para lidar com essas emoções, não é?
Sim, eu acho que temos todos que ter ajuda para lidar com as nossas emoções e com o peso da vida que às vezes sentimos nas nossas costas, acho que é fundamental. Graças a Deus, eu consegui curar o meu distúrbio e conheço-me muito bem. Ou seja, eu hoje em dia sei, eu conheço-me. E acho que isso faz muita diferença. O que me pode levar a ter uma recaída ou o que eu não devo fazer para não ficar overwhelmed, ou já não estou com quem não me apetece estar, com quem me faz mal. Já sei muito bem escolher as minhas batalhas. Já não me ponho em situações que me drenam completamente a energia. Tenho uma forma de estar muito diferente. Acho que isso vem com a maturidade.
E em termos de sonhos que foram alterando, ou seja, tu não terminaste o curso, vieste para Portugal, seguiste o curso de culinária, depois não era aquilo que tu querias.
O curso de culinária era para me curar. Aquilo foi um ano e meio de pausa, que nunca é pausa, porque imagina, as pessoas não se podem comparar. Se eu parasse a minha vida, se eu olhasse para mim aos 19, 20 anos, olhasse para a minha volta e visse os meus amigos todos ótimos, aparentemente ótimos, porque todas as vezes têm as suas batalhas, na faculdade a tirar aquele curso, que parece que está tudo super encaminhado, e eu, que parecia que era aquela que tinha tudo encaminhado e que sempre soube o que queria fazer e as paixões, estava em standby. Não estava! Estava a cuidar de mim, estava a curar-me. Só que na altura, quando tu vês, eu estou a tirar um curso de cozinha, que não é aquilo que eu vou fazer, mas via como uma mais-valia para a minha vida. Quando for mãe, vou saber cozinhar super bem. Eu adoro cozinhar.
Sim, mas aquilo que vai-te sempre ajudar em alguma coisa.
Não queria aquilo, aquilo não era para mim. Mas fiz o curso todo, conheci pessoas novas, que foi muito importante, com circunstâncias de vida muito peculiares, que também estavam a fazer o curso de cozinha porque estavam em advocacia e o sonho da vida deles era serem cozinheiros e terem um restaurante. E fiz imensos novos amigos aí, tive um namorado. Não sei, foi uma altura da minha vida completamente diferente, mas que eu sabia que não era por ali. Mas depois estagiei com o chef Nuno Ribeiro em comida saudável, íamos a escolas implementar menus de comidas saudáveis. Ou seja, foi toda uma transformação que me ajudou realmente a desconstruir o meu distúrbio alimentar e me ajudou mesmo a ter uma nova relação com a comida saudável e boa.
E a estar focada noutra coisa, porque se calhar se continuasses a dançar enquanto estavas a tentar resolver isso.
Eu tive que parar dançar. Eu tive que curar ali, tive que parar dançar, que me custou imenso também na altura. E depois aos poucos fui, imagina, acabei o curso de cozinha e passado mesmo pouco tempo, conheço o amor da minha vida. E eu acho que isso muda tudo também. A luz que veio quando eu conheci o Tomás, aí eu posso te dizer que voltei a recuperar a 100% ou 200% a luz que eu tinha perdido, ou seja, voltei à Catarina antiga, transformada numa Catarina que já tinha vivido um monte, que já tinha saído, que já tinha sofrido. E eu acho que, por exemplo, o Tomás tem mais oito anos do que eu, e eu tenho uma maturidade ou sempre tive uma maturidade para estarmos juntos, para namorarmos, exatamente por já ter vivido tanto.
E tão cedo e tão nova.
Exatamente. O fato de eu ter saído com 15 anos de casa, ter voltado com 20, ter passado por tudo que eu passei, saber o que é uma depressão, sofrer, é importante.
Tens conseguido dar a volta também sozinha, por ti.
Sim, ou seja, dá-te uma empatia com as pessoas e com a condição humana gigantes do que de uma pessoa que nunca sofreu ou que nunca se deixou sofrer, ou que nunca saiu da sua zona de conforto. Eu já ter passado por várias coisas, saber o que é um backstage de um espetáculo, saber o que é seres um bailarino, saberes o que é estar por trás de uma cozinha, já teres servido às mesas. Não sei, uma data de coisas. Eu gosto disso, porque dá-me imensa sensibilidade para com o outro. Consigo entender bem o outro lado. Eu gosto disso em mim, eu gosto de ter essa leitura.
Sentes que ele também fez parte desse processo de cura?
O Tomás? Completamente. Aliás, eu só voltei a dançar, eu só voltei a pisar um estúdio com ele, a dar-lhe a mão, porque eu tinha muito medo. Eu depois tive que desconstruir esse medo, ou seja, voltar, encarar, olhar para um espelho no estúdio. Eu estava com medo de voltar àquela Catarina de antes, mas não. Voltei de uma forma muito mais saudável, muito mais terapêutica, de usar a dança como das melhores coisas que nós temos, porque mover o corpo é fundamental. E tu moveres o corpo ao som de música é incrível, dá anos de vida. Não é para te destruir, pelo amor de Deus, a dança não foi feita para te destruir, ao contrário, foi feita para te elevar, elevar a ti e aos outros. Portanto, eu adoro dar aulas, aliás, agora estou em pós-parto e mal possa, vou voltar a dar as minhas aulas.
Mas hoje em dia já olhas para a dança nessa forma como olhavas antes de entrar para o conservatório?
Sim. Acho que sim, há toda uma diferença.
É diferente, claro.
É diferente. Mas olho com uma leveza, com só um mais na minha vida. Quando eu tenho tempo para dançar e quando eu danço, são os melhores dias. É só bom. Acho que eu aprendi mesmo a ser leve comigo. Não sou dura comigo. Aprendi a abraçar as minhas imperfeições. Claro que há dias que são mais duros. "Ah, isto não está bem, o que é isto assim?" Mas mesmo no pós-parto, que o pós-parto é superduro, o teu corpo transforma-se completamente.
Ia-te perguntar por aí também. Não tiveste medo de engravidar ou passar estes comportamentos para os teus filhos, ou medo de no pós-parto não gostares de te ver e voltares a recair? Nunca te surgiram estes medos?
Em relação à comida, não. Aliás, não, não estou a ser sincera. No pós-parto da Maria, imagina, eu tenho medo de depressão Acho que as coisas que eu tenho mais medo, porque como eu já tive, é tão horrível que eu tenho medo que ela volte. E como eu já percebi que posso ter uma predisposição para, porque eu acho que as pessoas que sentem muito e que tanto sentem muito a alegria e são tão intensas como eu e conseguem ter tanto amor para dar e abrem o coração ao mundo, também é muito fácil a queda. Portanto, o que eu tenho mais receio é de poder voltar a deprimir. Isto é difícil.
Da morte.
Da morte. Imensas vezes eu olho para os meus pais e imaginar que um dia eles não vão estar aqui, eu paraliso. E começo a dizer: "Eu não sou os meus pensamentos. Eu amo-os tanto." Imagina, pensar que alguma coisa pode acontecer à minha irmã. Só que a morte faz parte da nossa vida e nós precisamos de falar sobre ela. Eu acho que não se fala. Tu não achas?
É assustador.
É, mas se calhar temos isso.
Não temos essa insegurança.
Temos.
Esse medo.
E para mim, é o que eu trabalho em terapia. A questão da morte, neste momento, muito, que é para aprender a lidar com ela e porque perceber que nós não controlamos tudo, ponto. Mas aquilo que podemos controlar, que seja mais leve. Então é assim que eu tento viver a vida hoje em dia, todos os dias. E nos dias pesados, é o que o Tommy diz. Eu imaginar um dia da semana que eu sei que é o dia em que eu vou sofrer. Ele vem, simplesmente apareceu. É o dia em que, de repente, não sei, fui. Estás a ver? Estou sem energia, dei tudo num algum lado ou na maternidade, ou aos filhos, ou às pessoas.
Ou estás mais cansada, dormiste menos.
Estás mais cansada, e vem e estou aqui, de repente, a minha mente está assim mesmo negativa, mas eu já sei que esse dia existe, então tenho as minhas ferramentas.
Como é que lidas com esse dia?
Nunca fico na cama, levanto-me, lavo a cara, tento sorrir para o espelho, contrariar. Puxar a luz. Aceito que estou nesse dia mais ansioso, portanto socialmente tenho que tipo, calma. Aviso o Tomás. "Estou apertada, estou naqueles dias em que eu não sei porquê, mas está-me a pesar." Porque é isso, eu sinto muito as dores dos outros. Eu não posso ver muitas notícias, porque parece que vou para aquela família, para aquela pessoa em específico e fico a rezar. Mas fui criando ferramentas para lidar comigo própria. E sobre o pós-parto, olha, na Maria tive um bocadinho de receio, porque não passei isto no pós-parto do Pedrinho, porque a Maria nasceu com um fungo e quando nós tivemos alta da maternidade, piorou imenso da noite para o dia. E aquilo era no rabinho, nós tínhamos que a acordar de hora em hora. Se tu já dormes pouco quando um bebê nasce, quando há um bebê com um fungo, dormes ainda menos, porque é de hora em hora. Eu estava de direitos constantes, superpreocupada, a ver se aquilo evoluía ou não. Então foram três meses do bebê, que a Maria era muito diferente do Pedrinho, chorava o dia todo. E eu juro, eu comecei a entrar em início e estava super-
A tua cabeça já não consegue pensar também direito.
Eu já disse: "Ai, não, estou preocupada, eu não quero entrar em depressão." Comecei a ficar assim um bocado com receio. Ia falando com o Tomás, porque imagina, era estranho, eu sentia que eu podia estar cheia de pessoas à minha volta, eu sentia-me completamente sozinha. E com a Maria nos meus braços, que é a minha menina, que eu sempre sonhei ter, linda, maravilhosa, estava apaixonadíssima por ela, mas estava completamente perdida de mim, o meu corpo estava desequilibrada, comecei a comer imenso açúcar. Foi aí. As pessoas traziam-me croissants, pipocas, chocolates e de repente eu estava, depois é compensação, não dormes, açúcar. O teu nível sobe e desce porque comes açúcar. Sentir que não estava a conseguir ter o tempo que eu queria com o meu filho. Estava a sentir que estava a falhar imenso ao Pedrinho. Comecei mesmo a entrar numa espiral. E aí estava com receio e depois comecei a dizer à minha mãe: "Mãe, oito e 80, mãe, estou a entrar na espiral da Catarina", que é aquele oito e 80, "mas não diga às pessoas, pois quando tu estás mal". E eu lembro-me, a minha irmã ajudou-me imenso nessa altura e eu lembro-me de dizer à minha irmã: "Olha, isto é super estranho, eu nunca fui de sentir agressividade, mas a Maria, com este choro inconsolável." Não sei se queria admitir isto aqui, porque hoje em dia as pessoas levam tudo, meu Deus.
Sim, tudo o que é maternidade é...
God.
É difícil.
Mas isto é normal sentir, que é quando tens um bebê, estás em privação de sono e o teu bebê está a chorar continuamente, sentires agressividade. Eu lembro-me de uma vez de tirar a Maria e ter uma sensação horrível. Apetecia-me calá-la. Não estava a aguentar. E lembro-me, foi incrível, porque a minha irmã disse-me: "Quando tu tiveres a precisar de ajuda, pede." E eu lembro-me na altura da mesma coisa, eu estava a entrar, e lembro perfeitamente de pousar a Maria, ligar à minha irmã. "Maria, eu preciso sair já de casa." Então a minha irmã foi logo buscar-me, levar-me. Era isso que eu precisava, era de sair, é apoio.
Novamente, é pedir ajuda.
Pedir ajuda, peçam ajuda, estão no pós-parto, estão com dificuldade. Liguem uma amiga, desabafem, peçam ajuda. Muda tudo.
Queremos sempre fazer tudo sozinhas e chegar a todo lado.
E não conseguimos, não tem mal. Peçam ajuda. Agora estou numa altura boa, a Maria tem oito meses, estamos sempre juntinhas. Ela é superpresa a mim, que é normal. Os bebês precisam das mães, precisam do cheiro das mães, precisam de estar perto das mães. É o que eu acredito. Ela tem muitos despertares, que mais ou menos vou dizer que é normal, porque acho que as pessoas querem que seja tudo para ontem. Os bebês nascem, que durmam logo, que sejam independentes. Não é assim, demora o seu tempo.
Mas tu sempre olhaste para a gravidez de forma leve, numa de: "Ok, vou deixar a Catarina aqui um bocadinho mais apagada nesta fase para dar 100% da atenção aos meus filhos e está tudo bem, e depois mais para frente vivo os meus sonhos"?
Quando eu te digo que estou a aprender a viver um dia de cada vez, estou mesmo. Eu não faço muitos planos de futuro Se há coisa que eu tenho aprendido na maternidade, a maternidade é um estalo tão grande, tu mudas tanto. Tu não és mãe, portanto eu não consigo explicar.
Estavas a dizer para aqui e a dizer: "Tu não sabes aquilo que eu não consegues perceber."
Quando tu tiveres a tua experiência, a tua gravidez, o teu parto, o teu bebê, que todos os bebês são diferentes, todas as mães se tornam mães diferentes. Eu sou uma mãe, a minha irmã é a mãe que ela é. Agora, acho que há dores e alegrias que todas as mães passam igual. O sentimento de teres um filho a olhar para ti é uma cena que não se explica. Teres um bebê, teres o teu filho a dormir aqui no teu colo e sentires que és o mundo dele e que todo o resto do mundo pode esperar, mas aquele ser, que foste tu que fizeste, precisa de ti. Tu tens que estar ali naquele momento. O resto do mundo pode esperar. Aquele momento, não. Ele precisa de ti. Eu, para não me frustrar na maternidade, porque há dias completamente frustrantes e difíceis. Eles existem, não vamos mentir, não vamos romantizar, eles existem. Há meses que eu preciso mesmo fugir, em que estão os dois aos berros. Já tive um dia todo em que, de repente, o teu dia baseia-se em: "O que é que tu vais fazer hoje? A que horas é que são as sestas dos meus filhos? Como é que vai ser o meu dia? Quando é que este vai dormir? O que é que ele está a precisar? E esta birra?" A quantidade de coisas que tu tens que fazer são surreais. Quando as pessoas me dizem que não têm tempo e não têm filhos, eu fico tipo: "Não, tu tens tempo, acredita que tu tens tempo."
Eu vi isso no outro dia.
Tu tens tempo.
Será que é mesmo assim?
Não, tu tens tempo. Eu às vezes pergunto-me quando é que eu achava que não tinha tempo. Eu tinha tanto tempo. Eu tinha muito tempo. E com filhos realmente é diferente. Vives o tempo de forma diferente. Não te vou dizer que ficas sem tempo. Agora, eu acredito que uma mãe que tem ajuda.
As prioridades mudam, não é?
Sim, e uma mãe que tem rede de apoio é muito diferente de uma mãe que não tem rede de apoio. Eu acredito que a maternidade vivida com rede de apoio é muito diferente de uma maternidade vivida sem rede de apoio.
E como é que estás hoje em dia?
Hoje em dia, olha, estou bem.
Estás com vontade de começar a explorar outras coisas?
Estou. Já sabes o que eu estava a te dizer no carro, eu tenho muita música para pôr cá fora. É o que às vezes me frustra um bocadinho é: "Eu queria dizer esta música para lançar para ontem, amanhã. Quero dar espetáculos, quero cantar para as pessoas, parece que eu não consigo arranjar forma de chegar aí, esse sítio." Mas era como eu estava a dizer, como eu não quero viver frustrada, eu agora vivo entregue ao que a maternidade me está a pedir, que é eu agora preciso de estar aqui neste tempo. Eu preciso de estar para os meus filhos a minha vida toda, enquanto eu cá estiver. Mas eu tenho que aceitar que sou uma mãe galinha, sou uma mãe. Foi esta a Catarina, é assim a mãe que eu estou a conhecer em mim. Eu gosto muito de estar presente, eu preciso estar presente. Eu não sabia que ia dar tanto tempo de mamar. Eu sinto que precisava de mamar pelo menos um ano, um ano e meio. Eu achava que antes de dar de mamar ia dar muito menos. Portanto, é uma coisa que tu te transformas, que se não estás à espera, não podes criar muitas expectativas, é a vida a conduzir-te. E estou a perceber que, por eu ser assim, tenho que aceitar que este é o meu tempo.
É quando for.
Portanto, o Instagram, para mim, tem sido uma novidade, porque a comunidade que está a crescer comigo é bonita. As pessoas, parece que aquilo que eu lhes quero dar, elas estão a receber. Eu gosto muito de trazer informação.
É uma forma de expor a tua arte, não é?
Sim, e eu quero cantar mais, mas às vezes não sei como ou em que formato, ou se as pessoas querem ouvir ou não. Estou a gostar muito das pessoas que estou a conhecer neste meio. Também tento equilibrar muito o tempo de ecrã em casa. Acho que o Instagram, eu não quero ser uma mãe que está assim. Que está a olhar para o telefone. Quando eu estou com os meus filhos, eu tenho que estar com os meus filhos. Portanto, não vou fazer conteúdo a mais quando sinto que não estou a conseguir gerir.
Sim, mas deve ser difícil porque vocês os dois trabalham com as redes sociais, não é?
Sim, o Tomás tem o Despolariza, está muito em entrevistas e ele tem já pessoas que trabalham com ele, que editam os reels, já não é ele que edita os reels, ele consegue estar muito fora. Mas eu sinto mesmo, como a humanidade está a caminhar para um caminho, ou seja, isto foi tudo muito repentino, nós precisamos de aulas de como estar menos ao telefone. Eu acredito nisto e acho que isso vai ser para ontem.
Tens medo como é que os teus filhos vão lidar com o telemóvel?
Tenho.
Inteligência artificial.
Aliás, smartphone ou internet só a partir dos 18. Eu não vou entregar uma rede social ao meu filho quando às vezes nem eu própria sei geri-la bem, porque é completamente viciante. Eu não lhe vou entregar essa arma mental. Aí é que nós como seres humanos iremos para a depressão.
Se com o cérebro formado não conseguimos pôr limites em nós mesmos, quanto mais crianças.
Pelo amor de Deus. Não, nem quero pensar nisso. Eu quero que isso seja muito longínquo ainda, mas já aconteceu, o meu filho virar-se: "Mãe, larga o telefone." E eu tipo: "Ai, meu Deus, tens razão." Tu de repente estás ali. E depois imagina, como a maternidade às vezes é frustrante, tu tens dias que só te apetece fugir dali. E o telefone é um escape mesmo rápido. De repente estás ali, partilhas as tuas dores.
Não estás a pensar em ti, estás a pensar em todas as outras pessoas que te aparecem no Instagram.
Estás a fugir por fora. Nós precisamos muito de estar atentos e de ser militares uns com os outros. Eu e o Tomás somos um com o outro, ajudamo-nos. "Tomás, olha, deixa o telefone ali no quarto. Cátia, deixa o telefone ali, não há telefones à mesa." Quando é o tempo dos filhos que estão todos em casa, ou seja, o padrinho veio da escola, temos esta janela curta. O Tomás vem sempre buscá-lo às 16h30 e vai brincar com ele. Chega por volta das 17h30, imagina. 17h30, 18h00. Estamos lá Inteiros para eles. Não há telefones. Depois de os deitar, telefones. Às vezes isto não acontece assim, não vou mentir. Às vezes pegamos, estamos saturados, estamos cansados. Erros.
Sim, mas estar mais consciente disso e dos limites.
Estamos muito conscientes disso, sim.
Isso é o mais importante.
Acho que é muito importante, é muito necessário.
Estamos a chegar aqui ao fim da nossa conversa.
Eu sinto que falei imenso.
E bem.
Tive essas coisas.
Mas queria te só fazer uma última pergunta: se tu hoje pudesses falar com a Catarina com 15 anos, o que tu lhe dirias?
Primeiro acho que sorria imenso para ela e ia lhe dizer que isto é emocionante, estou emocionada. E a dizer: "Conseguiste." Estou a emocionar-me. "Conseguiste encontrar o amor da tua vida, tens filhos." Acho que o mundo é duro. Acho que os sonhos muitas vezes não são aquilo que tu imaginaste. Não é se calhar a Catarina achava: "Pronto, vou para o mundo da dança e vai ser incrível." Não é, desculpa. Vais cair, para não criar tantas expectativas sobre as coisas e sobre as pessoas. Acho que era: "Põe as expectativas mais embaixo, Catarina, e nunca deixes de ter a esperança que tens, a fé que tens, e para escolheres sempre amar acima de tudo, e a não me esquecer que estarmos vivos é uma maravilha. É uma oportunidade que tem que ser agarrada e para não levar as coisas como garantido, e que vai correr tudo bem. E que sim, vais encontrar o amor da tua vida." Eu acho que isso é o mais importante, porque acho que teres a sorte de encontrares a tua pessoa, encontrares a pessoa que tu vais dividir o resto dos teus passos, é fundamental para a tua felicidade, a pessoa que tu escolhes casar e que escolhes ter os filhos.
É a decisão mais importante.
É mesmo a decisão mais importante, porque depois a partir daí é tudo a melhorar. E lhe dizer: "Vais sentir muitas coisas estranhas, porque a adolescência faz parte, mas depois vai ser sempre a melhorar e para ter sempre amor-próprio."
E acreditar que vai dar certo.
Sim.
E pedir ajuda.
Pedir ajuda e que tudo passa.
É uma fase.
O bom e o mau.
E isto disseste para a Catarina de 15 anos e para quem também possa estar a passar por algo menos positivo agora.
Tudo passa e tudo vai ficar bem.
Catarina, adorei. Obrigada por teres aceito.
Estou quase a chorar com esta conversa.
Eu também, eu antes até lamechas.
Desculpa.
Estou muito emocionada. Foi tão bom. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?